Perseverança na oração

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Nunca desista, tenha perseverança!

Pai nosso Mateus 6.9–13

Pai nosso, que estás nos céus,

santificado seja o teu nome;

10  venha o teu reino;

faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu;

11  o pão nosso de cada dia dá-nos hoje;

12  e perdoa-nos as nossas dívidas,

assim como nós temos perdoado aos nossos devedores;

13  e não nos deixes cair em tentação;

mas livra-nos do mal

[pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém]!

A parábola do juiz iníquo Lucas 18.1–8

A parábola do juiz iníquo

18 1 Disse-lhes Jesus uma parábola sobre o dever de orar sempre e nunca esmorecer: 2 Havia em certa cidade um juiz que não temia a Deus, nem respeitava homem algum. 3 Havia também, naquela mesma cidade, uma viúva que vinha ter com ele, dizendo: Julga a minha causa contra o meu adversário. 4 Ele, por algum tempo, não a quis atender; mas, depois, disse consigo: Bem que eu não temo a Deus, nem respeito a homem algum; 5 todavia, como esta viúva me importuna, julgarei a sua causa, para não suceder que, por fim, venha a molestar-me. 6 Então, disse o Senhor: Considerai no que diz este juiz iníquo. 7 Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los? 8 Digo-vos que, depressa, lhes fará justiça. Contudo, quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na terra?

A Oração Como Dever Bíblico: Uma Chamada à Persistência na Fé

Jesus, de forma singular e direta, introduz esta parábola revelando seu propósito explícito aos seus discípulos: incentivá-los a orar sempre e nunca desanimar (Lucas 18.1). Esta é uma das raras ocasiões em que Jesus mesmo oferece a chave interpretativa de uma parábola antes mesmo de contá-la, conferindo-lhe uma gravidade e uma clareza inconfundíveis para seus ouvintes. Ao usar a expressão "uma parábola sobre o dever de orar sempre e nunca esmorecer", Jesus eleva a oração à categoria de um mandamento divino, uma obrigação inegociável para seus seguidores.
Para alguns, a ideia de "oração como dever" pode soar estranha, talvez até gerar uma "reação negativa", pois muitos preferem conceber a oração apenas como uma expressão de relacionamento íntimo e satisfátorio com Deus, desprovida de qualquer senso de obrigação. É verdade que as Escrituras abundantemente testificam da alegria e do prazer encontrados na comunhão com Deus (Salmos 16.11; 37.4; Filipenses 4.4; 1 João 1.3-4).
O prazer em Deus e a busca por Sua presença são elementos vitais da vida cristã, caracterizados por uma profunda intimidade e deleite em Sua comunhão.
Contudo, a parábola do Juiz Iníquo não se foca primariamente no deleite ou no prazer da oração, mas sim na oração como uma luta espiritual por justiça. É neste contexto que Jesus enfatiza o "dever de orar sempre e nunca esmorecer". A oração, aqui, é retratada como uma persistência incansável, um clamor contínuo por uma intervenção divina em face da injustiça e da demora.
Isso se alinha com o ensino de outras passagens que descrevem a oração como uma batalha, uma disciplina e um exercício de perseverança na fé (Romanos 12.12; Efésios 6.18; Colossenses 4.2; 1Tessalonicenses 5.17 ).

A Oração Contracultural: Lutando pelo Reino de Deus em Um Mundo Hostil

O apelo de Jesus nesta parábola é profundamente contracultural, desafiando as inclinações naturais do coração humano e as tendências de um mundo que busca a todo custo evitar a disciplina o dever e a confrontação. As Escrituras nos revelam que o mundo jaz no maligno (1João 5.19) e que o povo de Deus está em uma batalha constante contra as forças espirituais do mal (Efésios 6.12). Neste cenário, a oração não é apenas um momento de recolhimento passivo, mas uma arma ativa na mão dos crentes, um ato de engajamento na batalha espiritual.

A Fé Ativa: A Conexão Indissolúvel entre Oração e Confiança em Deus

A parábola culmina com uma pergunta crucial de Jesus: "...Contudo, quando vier o Filho do homem, achará, porventura, fé na terra?" (Lucas 18.8). Esta indagação final conecta a oração persistente com a condição da fé no fim do tempo. Na parábola, Jesus aborda dois temas centrais da experiência cristã:
1- A oração como luta espiritual
2- A fé que deve acompanhá-la.
Eles não são separados, mas intimamente relacionados. A prática da oração incessante é um indicativo tangível da fé viva (Tiago 5.16-18), e o exercício da fé encontra na oração sua mais profunda e essencial linguagem (Hebreus 11.6). Se esmorecemos na oração, a fé, igualmente, corre o risco de se esvaziar de seu propósito e vigor.
A oração à qual Jesus se refere na introdução da parábola transcende as orações rotineiras, embora legítimas, de agradecimento pelo dia, pela refeição, ou os pedidos de proteção e provisão para as famílias (Filipenses 4.6). Embora estas façam parte de nossas "rotinas espirituais", o foco aqui é um clamor que vai além do comum, uma súplica que denota uma profunda dependência e busca por algo maior.
Da mesma forma, a fé que Jesus espera encontrar em Sua volta não é meramente uma fé confessional, ou uma crença intelectual nas doutrinas bíblicas (Tiago 2.19). Antes, é a fé que se manifesta em ação, é a fé que crê que Deus é "galardoador dos que o buscam" (Hebreus 11.6) e que Sua promessa de justiça será cumprida.

Oração e Fé: Redescobrindo o Ensino de Jesus na Prática Cristã

É comum, na experiência cristã, uma certa confusão ou mesmo um sentimento de culpa associado à vida de oração. Talvez pela familiaridade, não notamos o quão distantes podemos estar do que Jesus realmente ensinou. A sensação de inadequação na oração é uma realidade para muitos. Dada a natureza da oração como um dever – não apenas um deleite ou uma opção –, é natural que, em sua ausência ou superficialidade, possamos nos sentir "endividados" ou "culpados", tanto individualmente quanto em igreja.
No entanto, o ensino de Jesus em Mateus 6.33 é uma prioridade inegociável para a oração: "buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas". Mais importante do que as preocupações básicas com o que comer, beber ou vestir – as necessidades mais elementares do ser humano (Mateus 6.25-32) – somos chamados a buscar "em primeiro lugar seu reino e sua justiça". Uma fé viva e verdadeira busca incessantemente a realização do Reino de Deus, pedindo que Sua vontade seja feita (Mateus 6.10 “venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu;” ).
Na parábola sobre oração em Lucas, a do amigo importuno (Lucas 11.5–8), Jesus demonstra que a primeira petição do Pai Nosso ("Santificado seja o teu nome" - Lucas 11.2) define a resposta do suplicante. Deus é santo e honra Seu próprio nome. Ele não "passa vergonha" (Lucas 11.8); Ele abre a porta não por nossa insistência apenas, mas, fundamentalmente, por Sua própria natureza fiel e em honra de Seu nome. Ele nos dá aquilo de que necessitamos, e mais, Ele nos dá a Si mesmo na pessoa do Espírito Santo (Lucas 11.13).
Nesta parábola, a do Juiz Iníquo, as duas súplicas seguintes da oração de Jesus entram em cena:
"Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu": Essa é a súplica fundamental da viúva: ela ora por justiça, ou seja, para que a vontade de Deus seja feita aqui na terra como é feita perfeitamente no céu.
Essa parábola nos ensina que o dever de orar sempre e nunca desistir diz respeito diretamente ao avanço do Reino de Deus e à manifestação de Sua justiça no mundo. Oramos para que Deus faça aquilo que somente Deus pode fazer (Jeremias 32.17; Salmos 115.3).

Os Personagens da Parábola: A Viúva, O Juiz Iníquo e o Caráter de Deus

Jesus escolhe os personagens de Suas parábolas com precisão para transmitir verdades profundas. Nesta narrativa, temos a viúva e o juiz iníquo.
A viúva, no contexto da antiguidade, era a pessoa mais vulnerável da sociedade, ao lado do órfão (Êxodo 22.22; Deuteronômio 24.17-21; Isaías 1.17). A mulher vivia sob a tutela de um homem: o pai, o marido, ou, na ausência destes, um irmão ou filho mais velho.
A viúva da parábola parece não ter nenhum desses protetores, pois ela se apresenta sozinha diante do juiz, o que sublinha sua extrema fragilidade e a audácia de sua persistência. O que ela busca nesse juiz? Justiça (Lucas 18.3). Ela não busca vingança ou vantagem indevida sobre seu adversário, mas sim a aplicação correta da lei, o que é devido (Provérbios 28.5; Amós 5.24).
Do outro lado, temos o juiz. Jesus o descreve claramente como alguém que "não temia a Deus, nem respeitava homem algum" (Lucas 18.2). O próprio juiz, em seu pensamento, confirma essa descrição: "Bem que eu não temo a Deus, nem respeito a homem algum" (Lucas 18.4).
O temor a Deus era uma condição essencial e um requisito divino para um juiz em Israel (Deuteronômio 1.16-17; 16.18-20). Quando o rei Josafá nomeou juízes, ele deu a seguinte recomendação: (2Crônicas 19.6–7 “Disse aos juízes: Vede o que fazeis, porque não julgais da parte do homem, e sim da parte do Senhor, e, no julgardes, ele está convosco. Agora, pois, seja o temor do Senhor convosco; tomai cuidado e fazei-o, porque não há no Senhor, nosso Deus, injustiça, nem parcialidade, nem aceita ele suborno.” ).
Esperava-se que o juiz atuasse como um representante de Deus, trazendo justiça a todos, particularmente aos mais vulneráveis (Salmos 82.3-4). No entanto, este juiz não se preocupava com a reputação pública ou com a vergonha de agir com parcialidade.
Finalmente, ele atende ao pedido da viúva, não porque mudou seu caráter ou passou a temer a Deus, mas por causa da coragem, da persistência e da importunação incansável da viúva.
Ele diz para si mesmo Lucas 18.5 “todavia, como esta viúva me importuna, julgarei a sua causa, para não suceder que, por fim, venha a molestar-me.” A palavra para "molestar-me" pode significar espancar, bater tanto a ponto de provocar contusões...”.
Ele temia que a persistência dela pudesse levá-lo à exaustão, à fadiga constante, ou até mesmo causar-lhe algum tipo de constrangimento público devido à sua insistência contínua. É claro que a viúva não seria violenta; mas sua insistência implacável e o receio do juiz de ser incessantemente perturbado o levaram a ceder e a julgar sua causa. A lição é clara: a persistência supera até mesmo a iniquidade.

A Demora da Justiça e a Fidelidade de Deus: A Luta da Oração e da Fé

O contexto imediato da parábola (Lucas 17.20-37) trata da vinda do Reino de Deus e da pergunta dos fariseus sobre quando isso aconteceria. O problema subjacente é a aparente demora na manifestação do Reino e, consequentemente, da justiça divina em um mundo marcado pela injustiça. A demora tem sido, desde sempre, um dos maiores obstáculos ao exercício da oração persistente e da fé (Provérbios 13.12). Como manter a chama da fé e o clamor fervoroso quando a resposta parece distante?
Se oramos como Jesus nos ensinou – "Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu" (Mateus 6.10) – aguardamos com grande expectativa a resposta a essa súplica. No entanto, a demora pode levar ao desânimo, à apatia e ao abandono do clamor pelo Reino de Deus e Sua justiça.
É aqui que Jesus faz a aplicação principal da parábola a seus discípulos: "Considerai no que diz este juiz iníquo" (Lucas 18.6). E o que ele disse? "Julgarei a sua causa" (Lucas 18.5).
A resposta divina é um grande sim! Deus fará justiça! Se um juiz injusto, que não teme a Deus nem respeita homem algum, cedeu à insistência de uma viúva, Lucas 18.7–8 “Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los? Digo-vos que, depressa, lhes fará justiça. Contudo, quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na terra?”.
Portanto, a exortação é clara: não esmoreçam, nem desanimem, porque Deus manifestará a justiça a Seus escolhidos, que a Ele clamam dia e noite. Ele é fiel e cumprirá o que prometeu (1Tessalonicenses 5.24; Hebreus 10.23).
O dever de orar sempre e nunca desistir é motivado precisamente pela aparente demora da manifestação da justiça de Deus. Esta é uma das maiores lutas que a oração e a fé enfrentam: a persistência diante do tempo.
Diante da demora, somos tentados a esmorecer. Pior, a oração pode se reduzir a uma experiência privada e egoísta, onde apresentamos a Deus apenas nossas necessidades pessoais, sem nenhuma consciência ou clamor pelo que Deus está fazendo na história. Não ansiamos pela justiça, não buscamos o Reino de Deus, não desejamos ver a vontade de Deus sendo feita na terra, em nossa família, igreja e cidade, como ela é feita no céu. Desistimos da luta na oração e damos a batalha por perdida.
Contudo, Jesus garante que Deus fará justiça aos escolhidos, e a fará depressa, mesmo que pareça demorado. A justiça virá mais cedo do que imaginamos.
A narrativa de Lucas, logo após essa parábola (Lucas 19.28 em diante), mostra Jesus entrando em Jerusalém, onde Ele enfrentará, a morte e ressurreição. O Reino de Deus e Sua justiça seriam revelados em breve de forma decisiva. A cruz e a ressurreição de Jesus Cristo são o ponto culminante da revelação do Reino, demonstrando o triunfo de Jesus sobre os poderes deste mundo (Colossenses 2.15; João 12.31).
Em Sua ascensão, Jesus assume Seu lugar no trono de onde governa o universo e intercede por nós (Atos 2.33; Hebreus 7.25; Efésios 1.20-23). O clamor do povo de Deus, que por tanto tempo suplicou: "Venha o teu reino", foi ouvido e respondido em Jesus Cristo. Embora possa ter parecido "demorado" aos olhos humanos, Deus agiu em Seu tempo perfeito.
Um testemunho bíblico que ilustra essa espera e cumprimento é o de Ana, a profetisa (Lucas 2.36–38). Descrita como uma viúva de oitenta e quatro anos que "não deixava o templo, mas adorava noite e dia em jejuns e orações", Ana personifica a oração persistente pela manifestação do Reino. Ela esperava o cumprimento da promessa de Deus (Lucas 2.25-32). Quando ela viu o menino Jesus, "dava graças a Deus e falava a respeito do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém". Ana, por sua fé e oração contínua, presenciou a "esperada redenção do povo de Deus" na chegada do Messias, pois perseverou nesta busca e estava por conta desta perseverança no lugar correto e no momento correto. E cada um de nós?

O Reino de Deus: Já Presente e Futuramente Consumado

O Reino de Deus já veio em Jesus Cristo (Lucas 17.21; Marcos 1.15; João 18.36), manifestado em Sua encarnação, vida, ministério, morte, ressurreição e ascensão. Ele inaugurou uma nova era, onde Deus reina através de Cristo. No entanto, ainda aguardamos a sua consumação plena, que acontecerá quando Ele voltar em glória (Apocalipse 11.15; 22.12; 1Coríntios 15.24).
Vivemos, portanto, no tempo do "já e ainda não" do Reino de Deus – já presente em poder, mas ainda não plenamente consumado. Esta realidade nos impulsiona a continuar orando sempre, sem esmorecer, pelo avanço e pela manifestação plena do Reino. Oramos pela antecipação daquilo que um dia será plenamente realizado.
As Escrituras são claras: não somos nós que trazemos o Reino de Deus; somente Jesus pode trazer e revelar o Reino em sua plenitude (Daniel 7.13-14; Filipenses 2.9-11). Não somos nós que realizamos perfeitamente a vontade de Deus; somente Jesus a realizou perfeitamente e a consumará (João 4.34; Hebreus 10.7).
Oramos para que o Reino de Deus, já revelado em Jesus, se torne conhecido de todos e que todos venham a se submeter ao governo justo de Deus. Oramos para que o povo de Deus se submeta à Sua vontade e que Seus propósitos se realizem na terra como são realizados no céu (Mateus 6.10).
A pergunta final de Jesus – "Contudo, quando vier o Filho do homem, achará, porventura, fé na terra?" (Lucas 18.8) – permanece profundamente relevante para a Igreja hoje. Encontrará Ele uma fé viva que permanece diante de Deus, clamando dia e noite pelo Seu Reino? Encontrará uma fé perseverante como a da viúva?
Encontrará um povo clamando: "Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu"? Essa viúva, com sua insistência, conseguiu que a justiça fosse feita, mesmo apelando para um juiz iníquo e injusto. Quanto mais o Deus justo e soberano fará justiça aos Seus escolhidos que a Ele clamam dia e noite (Romanos 8.28; 2Tessalonicenses 1.6-7)!
O Reino de Deus já veio em Jesus Cristo e se manifestou em Sua morte e ressurreição na cruz, onde os poderes deste mundo foram vencidos (João 12.31; Colossenses 2.15). No entanto, o Reino de Deus, embora já presente em poder entre nós, ainda não foi plenamente consumado. A tarefa da Igreja de Cristo, neste tempo do "já e ainda não", é pregar o evangelho do Reino a toda criatura (Mateus 24.14; Marcos 16.15), manifestando os sinais da presença do Reino e do governo de Jesus Cristo no mundo através de uma vida santa, obras de misericórdia e busca pela justiça (Mateus 5.16; Tiago 2.14-17).
Por essa razão, seguimos clamando: "Venha o teu reino", e devemos fazê-lo com fervor e persistência, dia e noite, enquanto a injustiça, a maldade, a violência, a corrupção e toda forma de rejeição ao governo justo e santo de nosso Senhor existirem. A pergunta de Jesus nos confronta: quando Ele voltar, encontrará Sua Igreja clamando assim, com fé e perseverança?

Fé e Ação Divina: A Necessidade Bíblica da Fé na Manifestação do Reino

Deus age por Sua própria vontade e em Seus próprios propósitos, e Sua capacidade não está restrita à fé humana. No entanto, as Escrituras revelam repetidamente que a fé é o canal ou a condição divinamente estabelecida para a manifestação de muitos dos atos de Deus no mundo, especialmente os que dizem respeito à salvação e aos sinais do Reino (Hebreus 11.6; Marcos 9.23; Mateus 13.58 “E não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles.” ). A fé não causa Deus a agir, mas é a resposta humana necessária à Sua iniciativa e à Sua promessa, através da qual Ele escolhe operar.
Jesus demonstrou isso em Nazaré, Sua cidade natal. Ele (Marcos 6.5 “Não pôde fazer ali nenhum milagre, senão curar uns poucos enfermos, impondo-lhes as mãos.” ). Por quê? Aparemente porque Ele "admirou-se da incredulidade deles" (Marcos 6.6).
A incredulidade do povo de Nazaré não impediu a soberania de Deus, mas privou-os de testemunhar a plenitude dos sinais do Reino de Deus em seu meio. Essa verdade nos leva a uma profunda autoavaliação: Será que o mesmo não acontece conosco hoje? Será que nossas comunidades e cidades não estão sendo privadas da plenitude da graça de Deus e dos sinais do Seu Reino por causa da oração apática e da falta de fé do povo de Deus (Tiago 4.2)?
Se for uma realidade que grande parte do que Deus faz e irá fazer no mundo está intrinsecamente ligada à fé de Seu povo (Mateus 17.20; Atos 3.16), qual tem sido nossa participação ativa na obra de Deus? Se oramos: "Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu", qual é o nosso lugar na maneira como Deus realiza Seu Reino entre nós? É um mistério que a soberania de Deus e a responsabilidade humana se unam de forma tão profunda (Filipenses 2.12-13).
Sabemos que o sofrimento é parte da nossa humanidade caída e também da nossa vocação como cristãos (João 16.33; Romanos 8.17). Sabemos que muitos sofrem e que nem toda oração será respondida da maneira exata como gostaríamos, pois os caminhos de Deus são mais altos que os nossos (Isaías 55.8-9). Isso permanece um mistério da providência divina. No entanto, a fé é um elemento fundamental e divinamente estabelecido para a manifestação do Reino de Deus, e somente Deus pode realizar Sua vontade aqui na terra como ela é feita no céu.
Não se trata apenas de sinais e prodígios espetaculares de Deus, mas da forma como respondemos ao Reino de Deus já revelado em Jesus e buscamos realizar a vontade de Deus aqui como ela é feita no céu em todos os aspectos de nossa vida. Isso diz respeito à forma como lidamos com nossos relacionamentos, no trabalho e etc (Efésios 5.22-6.9).
Envolve a forma como vemos e reagimos ao cenário político, econômico e social, buscando a justiça e a retidão de Deus (Amós 5.24; Miqueias 6.8). Abrange a forma como exercemos o ministério de intercessão pela oração, para cura dos enfermos e pela conversão dos incrédulos (Atos 4.29-30; Tiago 5.14-16). E, sim, também envolve as situações improváveis e inimagináveis que só Deus, com Seu poder soberano, pode realizar (Mateus 19.26). É indispensavel que a Igreja preserve a dimensão transcendente da fé em uma cultura que, por vezes, busca limitar a realidade ao que é tecnológico e cientificamente observável.

A Fé que Espera e Clama: A Persistência da Esperança Escatológica

O autor de Hebreus define a fé como (Hebreus 11.1 “Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem.” ). Essa fé viva e verdadeira nos impele a clamar pelas coisas que esperamos e por aquelas que ainda não vemos, mas que cremos que Deus realizará em Seu tempo e modo (Romanos 8.24-25).
A fé nos ajuda a orar sempre, preservando a expectativa da fiel intervenção de Deus. É essa expectativa ativa que nos ajuda a não esmorecer diante da aparente demora (Lamentações de Jeremias 3.25–26 “Bom é o Senhor para os que esperam por ele, para a alma que o busca. Bom é aguardar a salvação do Senhor, e isso, em silêncio.” ).
Os discípulos de Jesus do primeiro século viviam com uma expectativa dos fim do tempos vívida (1Pedro 4.7). Eles compreendiam que estavam vivendo nos "últimos dias", o princípio do fim da história como a conheciam (Atos 2.17; Hebreus 1.2).
Ao meditar na viúva da parábola, a verdade central que Jesus nos ensina é que uma fé real e viva se expressa na oração contínua e apaixonada pelo Reino de Deus.
Quanto mais meditamos nos ensinos de Jesus, mais somos levados a um profundo exame de consciência sobre a qualidade de nossas próprias orações e de nossa fé. A autoavaliação é um processo bíblico necessário (2Coríntios 13.5).
A pergunta de Jesus ecoa: "Quando vier o Filho do homem, porventura encontrará fé na terra?" Que nossa oração, como Igreja, seja um clamor incessante por Seu Reino e Sua justiça, manifestando uma fé que não esmorece, mas persevera até o fim (Mateus 24.13; Hebreus 10.36). Que oremos crendo nas coisas que se esperam, com a convicção viva dos fatos que ainda não vemos (Hebreus 11.1).
Que vivamos como Ana, a profetisa de 84 anos, também viúva, que orava dia e noite no templo, jejuando e adorando a Deus (Lucas 2.36-37). Por causa de sua fé e de sua oração contínua pelo Reino de Deus, ela estava no templo quando José e Maria levaram seu filho, Jesus, para o ritual da circuncisão, e, como Simeão (Lucas 2.25-35), ela reconheceu que a promessa de Deus havia se cumprido (Lucas 2.38).
Muitos haviam perdido a esperança e já não oravam mais; parecia que Deus havia se esquecido deles, mas Deus jamais Se esquece de Suas promessas (Isaías 49.15-16). No tempo determinado, Ele cumpriu o que prometera, porque Ele sempre cumpre o que promete (Números 23.19; 2Pedro 3.9).
A pergunta final de Jesus permanece como um desafio para cada crente e para toda a Igreja: "Contudo, quando vier o Filho do homem, achará, porventura, fé na terra?"
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