Apocalipse 1.1-3

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O autor prefacia o Livro de Apocalipse demonstrando a natureza do seu conteúdo, conclamando o(s) leitor(es) à guarda das palavras do texto e entendimento quanto ao plano escatológico-redentor de Deus em Cristo.

Notes
Transcript

Apocalipse 1.1-3: Prólogo - Prefácio exortativo e atestado revelatório.

Revelação de Jesus Cristoaos seus servos” (Ap 1.1).
Pr. Paulo U. Rodrigues
Introdução
- O autor é identificado apenas como “João” (cf. 1.1,9b), tendo em vista a amplitude de seu reconhecimento entre as igrejas para as quais enviará o texto. A designação do autor, posteriormente, será feita de modo a estabelecer uma correlação de equiparidade, isto é, aquele que escreve o texto está também submetido às experiências pelas quais a igreja estava passando e enfrentaria no futuro próximo, segundo mencionado por ele mesmo, de acordo com a revelação que recebera (cf. 1.1a,3b).
Ele escreve da ilha de Patmos, onde estava encarcerado “por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus” (1.9), sendo, como dito, testemunha viva da tensão antagônica ao Reino de Deus que se abate sobre a igreja, orquestrada pelo sistema anticristão mundial, representado, principalmente, pelo império romano, figurado de diversas formas no texto como o inimigo do povo de Deus.
João escreve o texto de Apocalipse, provavelmente, entre os anos de 81-96 d.C. (data mais aceita), período em que Domiciano estava à frente do império romano. Embora não seja este um período de perseguição tão violenta contra a igreja, como ocorrera (ou ocorrerá, de acordo com a revelação em vista), por exemplo, após o ano 64, quando Nero, tendo ateado fogo em Roma, culpou os cristãos (sendo este, inclusive, o tempo no qual o apóstolo Paulo foi morto por decapitação) foi um momento significativo, pois se acirraram as tentativas de Domiciano de estabelecer o culto ao imperador, algo que violava frontalmente o credo cristão de que somente Jesus Cristo é o Senhor, pondo então a igreja à prova quanto a sua fidelidade a Cristo, e expondo-a à tribulações.
- O propósito do livro é exatamente fornecer a igreja a contemplação de todo o plano divino para a publicação do Reino de Deus , por meio do triunfo de Cristo sobre todo os reinos deste mundo, os quais vence paulatinamente, por seu turno, através da fidelidade da igreja em seu “martírio” (i.e. testemunho do evangelho), a despeito do cenário contrário que o povo de Deus observa desenvolver-se no mundo (seu sistema político, social e cultural), organizado por forças anticristãs.
O consolo que o crente deve receber ao ler o Livro da Revelação, é de que “o reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos” [e que] chegou, porém, a tua ira, e o tempo determinado para serem julgados os mortos, para se dar o galardão aos teus servos, os profetas, aos santos e aos que temem o teu nome, e para destruíres os que destroem a terra” (cf. Ap 11.15,18).
- O livro de Apocalipse desvela/expõe/descobre o eschaton, isto é, o processo através do qual esse triunfo é estabelecido.
Elucidação
- (v.1) “Revelação… para mostrar”. O propósito do livro é mencionado em sua abertura. Apesar de toda a linguagem codificada em imagens, figuras de linguagem e referências veterotestamentárias, o foco intencional do Livro de Apocalipse é trazer compreensão, ciência, mediante exposição.
- (v.1) “…de Jesus Cristo, que Deus lhe deu”. A correlação entre Pai e Filho no que tange ao conteúdo da revelação é de primordial importância. A procedência da revelação da parte de Deus por meio da pessoa de Cristo, enfatiza o caráter redentor de todo o processo escatológico narrado. É por proceder da parte de Deus, o Pai, mediante a pessoa do Filho, que os leitores podem compreender que todo o conteúdo do texto reflete a obra salvadora fiada naquele que resgatou a igreja de seus pecados, livrando-a do juízo que é inclusive referido no livro. Além disso, a centralização da pessoa de Cristo como meio revelacional, coaduna-se às promessas de conclusão da história redentora, como por exemplo, mencionada pelos anjos aos discípulos por ocasião da ascensão de Jesus (cf. Atos 1.9-11).
- (v.1) “… aos seu servosao seu servo João”. Tanto o destinatário quanto o instrumento por meio do qual a revelação é publicada, são identificados como servos. Essa correlação será estabelecida, posteriormente, de modo mais intenso (cf. v. 9), mas é já adiantada no prefácio, a fim de conectar o escritor e o público, elevando a importância de ambos, como alvos de todo o conteúdo transmitido. Cristo se comunicará com seus servos por meio de seu servo; sua igreja está recebendo dele palavras de elucidação e consolo, e essa designação atesta a correlação poderosa entre o Senhor e sua igreja.
Anexo a isso, a designação que Cristo usa por meio do anjo a João para referir-se à sua igreja, denota a condição de Jesus como Senhor, ou seja, a igreja que sofre com a antagonia mundana por parte de forças demoníacas e os reis desse mundo, deve olhar para Cristo como o senhor que é, em nada inferior àqueles que arrogam para si poder, oprimindo seu povo.
- (v.1b, 3b) “… as coisas que em breve devem acontecer… pois o tempo está próximo”. A iminência dos acontecimentos anunciados pela presente revelação, não possuem um caráter restritamente futurista, como que elevando a atenção dos leitores para um momento num futuro distante. O conteúdo da revelação trata de exortar, consolar e animar a igreja imediatamente. Assim, aquilo que é transmitido a João tem impacto presente sobre a vida da igreja.
À luz do Novo Testamento, as expressões sinônimas que ocorrem dentro de um contexto escatológico-cronológico enfatizam ou um imediatismo ou uma proximidade temporal muito curta em relação a realidade referida (cf. Mt 3.2, 4.17, 12.28; Mc 1.15 (cf. “o tempo está cumprido”). “O verbo grego para “proximidade” tem o sentido de “preste a chegar” ou “começando a chegar”. Isso não vai acontecer no futuro distante: está começando a acontecer agora, e muito mais está logo à frente” (BEALE, 2017, p.28).
Além disso, a fraseologia usada por João, remete àquela estrutura frasal usada por Daniel 2.28, profecia que comunica o plano escatológico de Deus por meio de seu Messias, na consumação de todas as coisas. Segundo Beale, “não há dúvida de que João via a ressurreição de Cristo como o cumprimento da profecia de Daniel concernente à inauguração do Reino de Deus” (BEALE, 2017, p. 34), o que, por sua vez, demarca o período que João viveu e escreveu a revelação do Apocalipse, como sendo o início da cronologia escatológica, e assim, a brevidade das coisas que acontecerão, toca o presente vivido por João e a igreja de seu tempo.
- (v.1c) “… que ele, enviando por intermédio do seu anjo, notificou…”. Ao lado de “Ἀποκάλυψις” e “δεῖξαι”, usando como reforço, a transmissão da mensagem reveladora por meio de um agente celeste (i.e. um anjo), o termo traduzido por “notificou” (gr. ἐσήμανεν) encaixa-se na cadeia verbal responsável por enfatizar a noção elucidativa do conteúdo das revelações e, consequentemente, do registro textual direcionado à igreja. A preocupação do autor divino/humano com a compreensão da igreja a respeito do texto ocupa o foco central no trecho. A igreja deve apropriar-se da revelação escatológica-redentora de Cristo e sua ação consumatória de modo claro, a fim de que o efeito do texto seja fruído e a revelação cumpra seu propósito.
- (v.2-3) “… o qual atestou a palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo, quanto a tudo o que viu. Bem aventurados aqueles que leem e aqueles que ouvem as palavras da profecia e guardam as coisas nela escritas…”. Ao comparar-se o versículo 2 ao texto de 22.6-8, é perceptível uma semelhança estrutural entre as sentenças, performando um inclusio no texto. O objetivo desse recurso é o de atestar a veracidade de todo o conteúdo entre esta e aquela referência. Os pontos de equivalência são:
a) O envio da revelação a partir do SENHOR (cf. 1.1b - 22.6a).
b) A mediação de um anjo como canal da mensagem. (cf. 1.1c - 22.6b)
c) A iminência dos acontecimentos referidos no texto (cf. 1.1b - 22.6c).
d) Uma palavra de bem-aventurança direcionada aos leitores/ouvintes do texto (cf. 1.3a - 22.7).
Seguindo essa lógica, ambas as referências destacam a importância de a igreja voltar-se ao conteúdo da revelação trazida por Cristo por meio de João, a fim de serem consolados e exortados quanto aos tempos que marcam o fim, pois as presentes palavras são verdadeiras, atestadas pelo próprio Senhor, a quem a igreja deve fielmente ouvir.
Ler, ouvir e guardar são as posturas esperadas por aqueles que tomarão posse dessa revelação, tornando-se bem-aventurados, o que, segundo a linguagem do texto de Apocalipse, indica que serão guardados do juízo reservado aos antagonistas do Reino de Deus em Cristo, e galardoados com a apoteótica glorificação na publicação do Reino, ao final do eschaton, como revelado.
Síntese principiológica
O prefácio do Livro de Apocalipse, cuida de estabelecer a natureza do seu conteúdo, fornecendo à igreja compreensão suficiente para entender o que lhes está sendo transmitido, principalmente quando observa-se o fato de que o texto que seria direcionado ao povo de Deus naquele período é uma REVELAÇÃO; isto é, o Senhor Jesus, além de todas as palavras contidas no Novo Testamento, agora direciona um texto que contém a declaração de todo o programa escatológico que desenvolverá para publicação do Reino de Deus. Além daquelas palavras que dantes anunciara a seus discípulos (cf. Mt 24, Mc 13 (além dos demais textos do NT) etc.) que deveriam fazer com que ficassem atentos aos sinais que antecedem sua volta, eles agora contariam com uma revelação que lhes explicaria de modo vívido a natureza das experiências vindouras relacionadas à vitória de Cristo sobre os reinos falidos deste mundo, que eclipsará, por sua vez, na própria vitória dos santos.
Ler e ouvir “às palavras da profecia e guardar as coisas nela escritas” demonstra a confiança na veracidade da revelação, e provoca no coração a certeza necessária para tomar posse das palavras do texto, de modo a entender que, embora o cenário mundial exiba trevas sobre a igreja, em breve a luz do Sol da Justiça haverá de raiar sobre o povo de Deus, inaugurando novos céus e nova terra.
Aplicações
1. A revelação bíblica e, mais especificamente, a revelação escatológica-redentora do Apocalipse, transmite esclarecimento, entendimento, compreensão, ao contrário do que é crido popularmente em meios apegados a princípios equivocados quanto ao que ela representa.
O Livro de Apocalipse desperta um misto de curiosidade, preocupação e até especulação em muitas pessoas, pela natureza da sua linguagem, figuras e demais formas comunicativas que aparecem no texto. Entretanto, boa parte de todo esse sentimento, é alimentado por uma tentativa superficial de descrever de modo caótico o fim dos tempos, mistificando a mensagem do Apocalipse, transmitindo mais confusão, e até medo, do que aquilo que realmente foi tencionado pelo autor divino/humano como o objetivo do livro. Apocalipse não foi escrito para que o tratemos como um livro misterioso que somente os iluminados conseguem interpretar, apontando significados mirabolantes, como a afirmação de que determinada figura pública é o falso profeta, ou que o terremoto acontecido em determinado país/cidade foi aquele mencionado em determinado capítulo do livro. Apocalipse foi escrito para instruir, revelar, tanto quanto uma carta do apóstolo Paulo, ou as profecias de Isaías, ou os salmos ou as narrativas veterotestamentárias e os evangelhos. E essa revelação tem como propósito o consolo da igreja sobre a vitória do SENHOR sobre os reinos deste mundo tenebroso, e exortação do povo de Deus a manterem-se fiéis ao único e verdadeiro Senhor, que tem verdadeiro e ilimitado domínio sobre tudo e todos: Cristo Jesus, o Rei de Deus. Voltando os nossos olhos ao texto de Apocalipse, receberemos da parte do SENHOR o entendimento necessário para compreender o maravilho plano que Cristo já tem colocado em prática, para consumação de sua obra de publicação do Reino de Deus, sem sermos confundidos como aqueles que, alheios a tal revelação, vivem temerariamente, não fazendo ideia do perigo que correm. O que nos leva ao nosso segundo ponto.
2. As palavras do Livro de Apocalipse são autenticadas por aquele que é a própria verdade, e esse caráter fidedigno é referido como advertência e fator abençoador para a igreja: “…por intermédio do seu anjo, notificou ao seu servo João, o qual atestou a palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo, quanto a tudo o que viu” (cf. vv. 1b,2). Noutras palavras, estas (o que inclui toda a Bíblia) são as palavras que a igreja deve ouvir quanto aos tempos do fim.
Diversos falsos apocalipses são publicados à todo instante no mundo. Desde aqueles que veem na primeira ocorrência trágica de que ouvem falar, o fim do mundo — um fim pobre e vazio, diga-se de passagem — até aqueles que propõem a esperança para a humanidade nesta ou naquela pessoa, neste ou naquele movimento, nesta ou naquela ideologia/filosofia.
Nada obstante, a igreja recebe, como palavra autêntica e exortativa, o Cânon Bíblico, e o Livro de Apocalipse registra boa parte de todas as informações que a igreja deve apreender quanto a como entender os acontecimentos do mundo à luz do plano escatológico-redentivo de Deus em Cristo Jesus.
Se queremos saber como Deus haverá de guiar a história do mundo até o seu apogeu, é para às Escrituras que devemos voltar os olhos, deixando de lado especulações irresponsáveis e sensacionalistas, ou mundanas e triunfalistas/materialistas. A igreja do Senhor já tem recebido as palavras da profecia que lhe permitem ter confiança no curso sábio e glorioso do tempo, que Cristo reservou para seu povo.
3. A confiança, certeza e segurança no andamento soberano que o Senhor dá ao curso da história, vem sobre o coração daqueles que leem, ouvem e guardam as palavras da profecia bíblica.
Enquanto o mundo se desespera por contemplar um cenário cada vez mais caótico, sem poder discernir para onde a história está indo, a igreja recebe do SENHOR as palavras que dão significado aos tempos e seus acontecimentos.
Quando a igreja lê, ouve e guarda a revelação bíblica, pode apropriar-se da paz que execede todo o entendimento, certa de que nenhum aspecto da história está sendo em vão; mesmo as tribulações que nos assolam, estão contribuindo para que Cristo demonstre o poder de Deus na sua vitória sobre as forças anticristãs desse mundo.
Somente ao povo de Deus é dado o privilégio de entender os tempos, e por essa razão, a escritura nos exorta a guardar, isto é, à viver de modo condizente com a gloriosa revelação de nossa futura glorificação. Compreender o Livro de Apocalipse, é como receber um convite para uma enorme festa, e enquanto não é chegada a hora, nos preparamos para essa maravilhosa celebração.
Obediência, santidade, purificação, fidelidade, são algumas das palavras que o Livro de Apocalipse usa para conclamar a igreja à postura requerida daqueles que lavaram suas vestiduras no sangue do Cordeiro, mesmo tendo vivido sob o fogo da tribulação (Ap 7.14), sob a promessa de que são abençoados, pois a redenção se aproxima.
Conclusão
Como afirma Hendriksen, o Livro de Apocalipse
É uma revelação ou desvendamento do plano de Deus para a História do mundo, especialmente da Igreja. […] Foi Deus, que tão altamente exaltou o Mediador e lhe entregou o governo do mundo no interesse da Igreja (1Co 15.24-28; Fp 2.9). Deus deu, também, ao Mediador o plano para a História do mundo e da Igreja (Ap 5.1,7) (Hendriksen, William. Mais que vencedores (Kindle Edition) (p. 58).
O prefácio da revelação escatológico-redentora de Cristo em Apocalipse, dá ao povo de Deus a certeza de que cada acontecimento no mundo está sendo regido para que da glória divina a ser publicada em Cristo, naquele dia, a igreja seja a eterna participante.
O povo de Deus conhece o início da história, entende seu curso, e pode ter plena certeza de seu final.
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