Três em Um: Como a Trindade Transforma Nossa Vida Diária

Cristianismo do dia-a-dia  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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Robert Letham (2004): destaca que a Trindade não é uma abstração teológica posterior, mas o próprio modo como Deus se revela desde o início da Escritura. Fred Sanders (2017): enfatiza que a Trindade é o evangelho em sua forma mais profunda, revelando a comunhão eterna de amor entre o Pai, o Filho e o Espírito. Matthew Barrett (2021): propõe uma recuperação da simplicidade divina e da coigualdade e coeternidade das três pessoas, combatendo caricaturas funcionais ou subordinacionistas. Michael Reeves (2012): sublinha o caráter relacional e belo do Deus trino, cuja vida em comunhão é a fonte de toda alegria e salvação.

Notes
Transcript

Introdução

Mateus 3.13–17 “Por esse tempo, Jesus foi da Galileia para o rio Jordão, a fim de que João o batizasse. João, porém, quis convencê-lo a mudar de ideia, dizendo: — Eu é que preciso ser batizado por você, e é você que vem a mim? Mas Jesus respondeu: — Deixe por enquanto, porque assim nos convém cumprir toda a justiça. Então ele concordou. Depois de batizado, Jesus logo saiu da água. E eis que os céus se abriram e ele viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele. E eis que uma voz dos céus dizia: — Este é o meu Filho amado, em quem me agrado.”
Continuamos em nossa série de pregações Cristianismo do dia-a-dia. O propósito da série é tratar de assuntos básicos da fé cristã e de como esses assuntos afetam nossa vida diária. Hoje, vamos tratar de um dos maiores mistérios ensinados pelas Escrituras que fala sobre a própria identidade de Deus: a Trindade.
Bom, como somos uma igreja evangélica, isso significa que somente seguimos os ensinos da Bíblia para nossa fé. Por essa razão, algumas pessoas do passado e do presente passaram a dizer que a doutrina da Trindade é uma invenção de homens, uma vez que esta palavra “Trindade” nem está na Bíblia.
Isto é parcialmente verdadeiro. De fato, a palavra Trindade (do latim, Trinitas) não se encontra em lugar algum da Bíblia, pois ela foi criada pelo teólogo Tertuliano, por volta do ano 200. Mas o conceito ou ideia de Trindade não foi inventado por Tertuliano, sendo extraído diretamente das Escrituras. O que o teólogo fez foi criar uma palavra para expressar ou resumir um ensino bíblico muito robusto: de que existe um único Deus, mas que subsiste em três pessoas distintas - o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
E o texto bíblico que lemos hoje é um dos mais claros a ensinar isso.
Mas, antes de prosseguirmos, é importante que nós tenhamos em mente que toda doutrina bíblica existe para nosso bem, então, saber que Deus é um em três pessoas distintas não é mero exercício mental, mas algo que melhora nossa relação com Ele, com o próximo e com a vida.
Vamos ver isso mais de perto, então.

Exposição

v.13 - “Por esse tempo, Jesus foi da Galileia para o rio Jordão, a fim de que João o batizasse.

Nos capítulos 1 e 2, Mateus se concentra nos eventos que antecederam o nascimento de Jesus, sua origem na família do Rei Davi e uns poucos eventos da infância de Jesus, sempre mostrando como as profecias do Antigo Testamento se cumpriam na pessoa dele, confirmando que ele era o Cristo.
Mas ao chegar no capítulo 3 do Evangelho, Mateus dá um grande salto no tempo na vida de Jesus. Ele é-nos mostrado já com cerca de trinta anos de idade (Lc 3.23), buscando ser batizado por seu primo João, evento este que marca o início de seu ministério público.
O que Jesus fez ao longo desses 30 anos? Sabemos que ele trabalhou como carpinteiro (Mc 6.3), profissão que aprendeu com o pai terreno dele (Mt 13.55). Sabemos também que ele cresceu na cidade de Nazaré, da Galiléia (Mt 2.23), onde era bem visto pelos vizinhos (Lc 2.52), que seus pais o levavam para Jerusalém periodicamente, para as festas judaicas (Lc 2.41) e, em uma dessas ocasiões, o menino Jesus foi encontrado no Templo, entre os doutores, causando admiração de todos os que o ouviam (Lc 2.47). Afora isso, a Bíblia faz um profundo silêncio.
Apesar do silêncio bíblico sobre a infância e início da vida adulta de Jesus, ao longo dos séculos muita gente vêm especulando sobre esse assunto.
Ainda na antiguidade dois escritores anônimos escreveram, cada, um “Evangelho da Infância de Jesus”. Ambos os documentos foram escritos por volta do ano 150, ou seja, muito depois da morte dos apóstolos e nunca foram tratados como inspirados por Deus, pois são documentos cheios de especulações.
Um outro tipo de especulação, mais recente, diz que Jesus foi influenciado quando criança pelos ensinos das religiões do Extremo Oriente. Conheci um homem que dizia que Jesus viajou para a Índia ou China quando criança, onde conviveu com monges.
Bom, como a Bíblia não fala nada sobre isso, muitos se sentem à vontade para dizer qualquer coisa que sua imaginação diz. Já nós, cristãos, como diz o reverendo Hernandes Dias Lopes, devemos tomar o cuidado de não sermos
"semeadores que semeiam doutrinas de homens, e não a Palavra de Deus. Semeiam o que os homens querem ouvir, e não o que os homens precisam ouvir. Semeiam o que agrada aos ouvidos, e não o que salva a alma” (Hernandes Dias Lopes)
O Senhor não deseja que confiemos nas incertezas das ideias humanas, mas na firmeza de Sua Palavra, a Bíblia.

v.14 - João, porém, quis convencê-lo a mudar de ideia, dizendo: — Eu é que preciso ser batizado por você, e é você que vem a mim?

Apesar do batismo de Jesus ser mencionado nos outros evangelhos, somente Mateus registra esta hesitação de João.
O primo de Jesus estava bastante consciente de seu papel como aquele que iria preparar o caminho para o Cristo (Jo 1.23) e seu trabalho consistia em pregar um batismo para arrependimento (Lc 3.3). Desta forma, João ficava próximo ao Rio Jordão, onde as pessoas iam até ele para serem batizadas.
Mas este texto mostra que João estava consciente também de quem era seu primo Jesus e, por isso ficou muito confuso. Ele deve ter pensado: “Se Jesus é o Cristo, como eu, que sou pecador, vou batizá-lo? Ele é maior que eu! Além disso, o batismo que faço é de arrependimento, então por que Jesus precisa de batismo? Ele não tem pecado, então não tem do que se arrepender!”
Qualquer um de nós poderíamos ficar confusos nesta situação, se tivéssemos consciência de nossos próprios pecados e de quem Jesus é.
Mas o texto prossegue com a resposta de Jesus:

v.15 - Mas Jesus respondeu: — Deixe por enquanto, porque assim nos convém cumprir toda a justiça. Então ele concordou.

Aqui, Jesus de fato começa a mostrar para que veio. Jesus respondeu a João que precisava ser batizado para “cumprir toda justiça” (πληρῶσαι πᾶσαν δικαιοσύνην), mas o que isto quer dizer?
Para entender, precisamos saber o significado de duas palavras: “cumprir” e “justiça”. A primeira, significa mais do que “realizar uma tarefa”. Na verdade, a palavra “cumprir” (πληρῶσαι) está mais ligada a “cumprir um propósito” ou “trazer à realidade”, ou seja, fazer aquilo que lhe foi predeterminado. Jesus está dizendo que Ele estava fazendo algo que o Pai havia dito para ele fazer. Jesus estava se submetendo ao Pai, obedecendo ao Pai, fazendo a vontade do Pai, pois fazer a vontade do Pai muito lhe alegrava (Jo 4.34; 5.30).
A segunda, vai além de apenas fazer o que é certo. “Justiça” (δικαιοσύνην), na Bíblia, nunca é somente algum tipo de bondade pessoal , mas é uma relação com Deus que nos leva ao que é bom. Então, uma pessoa nunca é justa sem Deus, mas é justa porque está com Deus.
A resposta de Jesus para João significava que ele estava cumprindo a vontade do Pai e estava se colocando em nosso lugar. Se o batismo era para a limpeza de homens pecadores, Jesus, mesmo sem pecado, iria fazer tudo o que um pecador precisa para ser salvo.
Ali, naquele momento, ele começou a deixar claro que era o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Ele estava assumindo nosso lugar.
Neste caso, só restou para João concordar em batizar Jesus.

v.16-17 - Depois de batizado, Jesus logo saiu da água. E eis que os céus se abriram e ele viu o Espírito de Deus descendo como pomba, vindo sobre ele.E eis que uma voz dos céus dizia: — Este é o meu Filho amado, em quem me agrado.

Para João, o que começou com um batismo que ele não se sentia digno de fazer, agora termina com uma cena que ele não poderia imaginar nem em seus melhores sonhos. Ele batiza Jesus, mas quando Jesus sai das águas do Jordão o céu se abre e as três pessoas da Trindade se manifestam de maneira física: o Filho encarnado, o Espírito como pomba e o Pai em uma voz audível.
Que momento magnífico deve ter sido esse! Jesus começa sua missão de assumir o lugar dos pecadores e a primeira reação é o céu se abrindo!
O céu que fora fechado pelo pecado de Adão, agora está escancarado novamente.
Após o céu se abrir, Jesus recebe sobre si a pessoa do Espírito. Perceba o que se diz sobre o Espírito aqui. A Bíblia não diz que o Pai fez o Espírito descer, mas que o próprio Espírito desceu e foi até Jesus. O Espírito é uma pessoa, não uma força ou energia como alguns dizem. Ele vai até Jesus por conta própria. O Espírito, inclusive, tem sua própria responsabilidade no batismo.
O Antigo Testamento associa o Espírito à unção, ou seja, à separação para uma tarefa especial. Somente reis, sacerdotes e profetas (além de alguns poucos objetos) eram ungidos.
O Espírito vindo sobre Jesus anuncia que Ele é o Cristo, o Messias esperado. O Profeta (Dt 18.15-19), Rei (Is 11.1-10) e Sacerdote (Sl 110.4) que haveria de vir. O Espírito, ao repousar sobre Jesus, anuncia que as antigas promessas de libertação do povo de Deus se cumprem nele.
E, para completar, o Pai, não com um corpo, mas com uma voz física, faz alusão a Isaías 42.1, dá um poderoso testemunho de quem é Jesus:
“o meu filho” - Se alguém não acreditou no relato da moça Maria e seu marido José de que Jesus foi concebido pelo poder do Espírito, agora o próprio Deus Pai diz que Jesus é Seu Filho. Em outras palavras, Jesus é mesmo divino. (cf. Sl 2.7)
“o amado” - Jesus é o filho único de Deus (cf. Isaías 42.1)
“em quem me agrado” - a satisfação de Deus Pai com a perfeita obediência de seu Filho. Mais tarde, o Pai vai falar sobre seu Filho novamente, no monte da transfiguração (Mt 17.5). Mas lá, ao invés de dizer “em quem me agrado”, Ele dirá “ouçam-ele”. O Cristo não somente faz a vontade do Pai; Ele tem toda autoridade.
Se todos os textos do Antigo Testamento que mostram as pessoas da Trindade agindo juntas não forem o suficiente para alguém crer nesta doutrina, este aqui deveria resolver o assunto.
Mas, perceba: Jesus veio para sofrer em nosso lugar, mas o Pai e o Espírito participaram de tudo isso. A nossa salvação é obra de Deus e, portanto, tanto o Pai quanto o Filho e o Espírito têm interesse em salvar.

E o que aprendemos com tudo isso?

Primeira Aplicação: A Trindade nos Chama a um Relacionamento de Amor antes da Obediência
No batismo de Jesus, vemos a perfeita comunhão entre o Pai, o Filho e o Espírito, onde a obediência de Jesus reflete Sua relação íntima com o Pai. A Trindade nos ensina que obedecer a Deus não é uma tentativa de conquistar Sua aprovação, mas o fruto natural de um relacionamento de amor e confiança. No dia a dia, isso significa buscar conhecer e amar a Deus primeiro, deixando que nossas ações fluam desse vínculo, em vez de tentar impressioná-Lo com esforços vazios.
Pense em uma criança que faz um desenho para os pais. Quando o amor é genuíno, o desenho é um presente espontâneo, cheio de carinho. A criança dá o desenho porque já está num relacionamento de afeto com os pais, não para "comprar" afeto. A Trindade é como uma família divina que nos convida a esse amor.
Suas ações de obediência (como ir à igreja ou ajudar alguém) são motivadas por amor a Deus ou por um desejo de "ganhar" Sua aprovação?
Há alguma área da sua vida onde você está tentando "impressionar" Deus com esforços externos, sem buscar um coração rendido a Ele?
Segunda Aplicação: A Trindade nos Ensina a Agir no Poder de Deus pela Obediência.
O batismo de Jesus mostra que, mesmo sendo Deus, Ele esperou o momento designado pelo Pai e a unção do Espírito para iniciar Seu ministério. A Trindade nos ensina que agir no poder de Deus exige submissão à Sua vontade e tempo, em vez de seguirmos nossos próprios planos. Na vida diária, isso significa alinhar nossos desejos e ações com a direção de Deus, confiando que Ele nos capacitará quando obedecermos.
Pense em um cozinheiro amador (como eu, tentando fazer um bolo sem receita!). Ele quer impressionar os amigos com um bolo incrível, mas, em vez de seguir a receita do chef, decide improvisar: joga os ingredientes de qualquer jeito, sem esperar o forno aquecer. O resultado? Um bolo solado que ninguém quer comer.
Um exemplo real disso é a paciência de alguém como o missionário William Carey, que, no século XVIII, esperou anos para ver frutos em seu trabalho na Índia, confiando no tempo de Deus, o que resultou em um impacto duradouro. Seguir o tempo e o jeito de Deus é o segredo para um “bolo” bem-sucedido!
Há algum plano ou projeto na sua vida que você está tentando realizar no seu próprio tempo, sem buscar a direção de Deus?
Em quais momentos você já experimentou o poder de Deus ao obedecer à Sua direção, mesmo quando foi difícil esperar?
Terceira Aplicação: A Trindade nos Chama a Servir como Imitadores de Cristo.
Jesus cumpriu toda a justiça, vivendo plenamente o que nós deveríamos viver, tornando-Se o exemplo perfeito para seguirmos e imitarmos. Por isso, a vida cristã deve ser marcada pela humildade. Jesus veio para servir a nós, que precisávamos de salvação, e, da mesma forma, devemos servir aos outros, especialmente aos mais necessitados. Se focarmos apenas nas nossas próprias necessidades, como encontraremos espaço para ajudar alguém? Se priorizarmos nossos desejos, que tempo, energia ou recursos sobrariam para socorrer quem está ao nosso redor?
Imagine um garçom super habilidoso em um restaurante lotado: ele equilibra bandejas, anota pedidos com um sorriso e garante que cada cliente tenha o que precisa, especialmente aquele canto do salão onde estão os mais famintos. Ele não para para comer durante o turno, mas sabe que, no momento certo, após servir a todos, terá sua refeição. Esse é o nosso chamado como imitadores de Cristo: sermos "garçons" que servem com amor, priorizando as necessidades dos outros, confiando que Deus, o "chefe da cozinha", providenciará nosso “prato” no tempo devido.
Quem na sua vizinhança ou círculo próximo precisa de ajuda que você poderia oferecer?
Como você tem equilibrado suas próprias necessidades com o chamado para servir aos outros?
Quarta Aplicação: A Trindade nos Ensina a Viver em Comunidade.
O batismo de Jesus revela a perfeita unidade e cooperação entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, mostrando que Deus é relacional por natureza. A Trindade nos chama a viver em comunidade, colaborando com outros cristãos em amor e unidade, refletindo a harmonia divina em nossas relações. Isso significa valorizar a diversidade de dons e papéis na igreja, trabalhando juntos para cumprir o propósito de Deus, sem rivalidades ou egoísmo.
Pense em uma orquestra, onde cada músico toca um instrumento diferente — violinos, trompetes, tambores — mas todos seguem a mesma partitura, sob a regência do maestro. Se cada um tocasse o que quisesse, o resultado seria um caos sonoro.
Que dons ou talentos você pode oferecer para fortalecer a unidade da sua comunidade cristã?
Há alguma rivalidade ou falta de perdão que está atrapalhando sua participação na “orquestra” de Deus?
Que passo você pode dar esta semana para se conectar mais profundamente com sua igreja ou grupo cristão?
Quinta Aplicação: A Trindade nos Chama a uma Vida de Adoração.
O batismo de Jesus foi um momento de glória, com o céu se abrindo, o Espírito descendo e o Pai falando. Isso nos lembra que a Trindade é digna de nossa adoração, e nossa vida diária deve ser uma resposta de louvor a Deus. Seja no culto congregacional, no trabalho ou em casa, podemos adorar a Deus vivendo para Sua glória, reconhecendo a majestade do Pai, do Filho e do Espírito.
Imagine um fã em um show da sua banda favorita, cantando cada letra com entusiasmo, porque a música toca seu coração. Nossa vida deve ser como um “show” contínuo de adoração à Trindade, em tudo o que fazemos.
Há momentos em que suas ações ou prioridades refletem mais amor próprio do que louvor à Trindade? Como você pode mudar isso?
Que práticas específicas (como oração, cânticos ou gratidão) você pode incorporar esta semana para tornar sua vida um “show” contínuo de adoração?
Conclusão
A Trindade não é só um mistério para entender, mas um modelo para viver: ame como o Pai, obedeça como o Filho, sirva com o Espírito!
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