Nossa total dependência de Deus

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Por JONATHAN EDWARDS
Pregado em 8 de julho de 1731.
…a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus. Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção, para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.
—1 Coríntios 1:29–31
Os cristãos a quem o apóstolo dirigiu essa epístola habitavam em uma parte do mundo na qual a sabedoria humana tinha grande reputação; como o apóstolo observa no versículo 22 desse capítulo, “os gregos buscam a sabedoria”. Corinto não ficava longe de Atenas, que havia sido, durante muito tempo, a mais famosa sede de filosofia e aprendizagem no mundo. Por isso, o apóstolo lhes mostra como, pelo evangelho, Deus destruiu e reduziu a nada a sabedoria deles. A despeito de toda a sua sabedoria os gregos eruditos e seus grandes filósofos não conheciam a Deus, não conseguiam desvendar a verdade acerca de coisas divinas. Porém, após haverem feito o seu máximo sem resultado algum, agradou a Deus finalmente se revelar a eles pelo evangelho, o que consideravam uma tolice. Ele “escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são” (1 Coríntios 1:27,28). E, no texto, o apóstolo lhes informa por que o Senhor fez assim: a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus etc.— em cujas palavras se pode observar:
1. O que Deus objetiva com a disposição das coisas no caso da redenção, a saber, que o homem não se glorie em si mesmo, mas somente em Deus: Que nenhuma carne se glorie em Sua presença, para que, conforme está escrito, Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor
(1 Coríntios 1:29–30).
2. Como esse fim é alcançado na obra da redenção, a saber, pela dependência absoluta e imediata que os homens têm de Deus nessa obra, para todo o bem deles. Na medida em que:
Primeiro: Todo o bem que eles possuem é em Cristo e por meio de Cristo, o qual se nos tornou […] sabedoria, justiça, e santificação, e redenção (1 Coríntios 1:30). Todo o bem da criatura caída e redimida está envolvido nessas quatro coisas e não pode ser mais bem distribuído do que nelas, mas Cristo é cada uma delas para nós, e nós não temos nenhuma delas senão nele. Deus o tornou para nós sabedoria: nele está toda a exata bondade e verdadeira excelência do entendimento. A sabedoria era algo que os gregos admiravam, mas Cristo é a verdadeira Luz do mundo; somente por meio dele a verdadeira sabedoria é transmitida à mente. É em Cristo e por Cristo que temos justiça: é por estarmos nele que somos justificados, que nossos pecados são perdoados e que somos recebidos como justos no favor de Deus. É por Cristo que temos santificação: temos nele verdadeira excelência de coração e também de compreensão; e Ele para nós se torna justiça inerente e imputada. É por Cristo que temos redenção, ou real libertação de toda a miséria, e a concessão de toda felicidade e glória. Assim, temos todo o nosso bem por Cristo, que é Deus.
Segundo: Outro exemplo em que a nossa dependência de Deus para todo o nosso bem aparece é no fato de ter sido Deus que nos deu Cristo, para que pudéssemos ter esses benefícios por meio dele; Deus o tornou para nós sabedoria, justiçaetc.
Terceiro: Deus nos fez estar em Cristo Jesus, e passamos a ter interesse nele, e assim recebemos as bênçãos que Ele nos concedeu. É Deus quem nos concede a fé pela qual nos aproximamos de Cristo.
De modo que, nesse versículo, é mostrada a nossa dependência de cada pessoa da Trindade para todo o nosso bem. Nós somos dependentes de Cristo, o Filho de Deus, por Ele ser a nossa sabedoria, justiça, santificação e redenção. Somos dependentes do Pai, que nos deu Cristo e o tornou essas coisas para nós. Somos dependentes do Espírito Santo, pois Ele nos fez estar em Cristo Jesus; é o Espírito de Deus que concede fé nele, pela qual nós o recebemos e nos aproximamos dele.
DOUTRINA
“Por isso, Deus é glorificado na obra da redenção, pelo fato de nela haver a tão absoluta e universal dependência dele por parte dos redimidos.”
1. Os redimidos têm uma dependência absoluta e universal em Deus. A natureza e o plano da nossa redenção são tais que os redimidos são, em tudo, direta, imediata e inteiramente dependentes de Deus: eles dependem dele para tudo e dependem dele de todas as maneiras.
Em primeiro lugar: Os redimidos recebem todo o seu bem de Deus. Deus é o grande autor desse bem. Ele é a primeira causa do bem; e não apenas isso, mas Ele é a única causa adequada. É de Deus que temos o nosso Redentor. Foi Deus quem providenciou um Salvador para nós. Jesus Cristo não é somente de Deus em Sua pessoa, como também é o Filho unigênito de Deus, mas vem de Deus, por estarmos envolvidos nele e em Seu ofício de Mediador. Ele é a dádiva de Deus para nós: Deus o escolheu e o ungiu, designou-o para a Sua obra e o enviou ao mundo.
É de Deus Cristo se tornar nosso, sermos levados a Ele e sermos unidos a Ele. É de Deus recebermos a fé para nos aproximarmos dele, para podermos nos interessar por Ele. “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus” (Efésios 2:8). É favor de Deus realmente o fato de recebermos todos os benefícios que Cristo comprou. É Deus quem perdoa e justifica, libertando-nos de irmos para o inferno; e pelo Seu favor os remidos são recebidos quando são justificados. Assim, é Deus quem nos liberta do domínio do pecado, purifica-nos da nossa imundícia e nos transforma a partir da nossa deformidade. É de Deus que os remidos recebem toda a sua verdadeira excelência, sabedoria e santidade.
É de Deus termos as Sagradas Escrituras; elas são a Sua palavra. É de Deus termos ordenanças e sua eficácia depender da influência imediata do Seu Espírito. Os ministros do evangelho são enviados por Deus e toda a sua suficiência provém dele: “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós” (2 Coríntios 4:7).
O sucesso deles depende inteira e absolutamente da imediata bênção e influência de Deus.
A) Os remidos recebem tudo da graça de Deus.
Foi por da graça que Deus nos deu o Seu Filho unigênito. A graça é grandiosa na proporção da excelência do que é dado. O presente foi infinitamente precioso, porque veio de uma pessoa infinitamente digna, uma pessoa de glória infinita.
A graça é grandiosa na proporção do benefício que temos nos permitido em Deus. O benefício é duplamente infinito, porque em Deus recebemos livramento da miséria interminável, e ao mesmo tempo recebemos alegria e glória eternas. A graça em conceder essa dádiva é grandiosa na proporção da nossa indignidade, a quem é concedida; em vez de merecermos tal presente, merecíamos um mal infinito das mãos de Deus. A graça é grandiosa pela maneira que é concedida, ou proporcional à humilhação e à custa do método e dos meios pelos quais é possível recebermos a dádiva. Deus deu Jesus para habitar entre nós; Ele o deu a nós encarnado, ou em nossa natureza; e também semelhante, embora com fraquezas, sem pecado. Ele o deu a nós num estado humilde e afligido, e não somente assim, mas como morto, para que pudesse ser um banquete para a nossa alma.
A graça de Deus em conceder essa dádiva é a mais desprendida. Ela era o que Deus não tinha obrigação de conceder. Ele poderia ter rejeitado o homem caído, como fez com os anjos caídos. Ela era o que nós nunca fizemos coisa alguma para merecer; foi dada enquanto ainda éramos inimigos e antes de termos sequer nos arrependido. Ela veio do amor de Deus, que não viu em nós excelência para atraí-la.
Os que são chamados e santificados devem atribuir isso unicamente ao bel-prazer da bondade de Deus, pela qual são distinguidos. Ele é soberano e tem misericórdia de quem lhe apraz ter misericórdia.
Agora, o homem depende mais da graça de Deus do que antes da queda. Ele depende da bondade gratuita de Deus para muito mais do que dependia então. Naquele tempo, ele dependia da bondade de Deus para conferir a recompensa pela perfeita obediência, porque Deus não era obrigado a prometer e conceder aquela recompensa. Agora, porém, nós dependemos da graça de Deus para muito mais; nós precisamos dessa graça, não apenas para nos conceder glória, mas para nos livrar do inferno e da ira eterna. Sob a primeira aliança, dependíamos da bondade de Deus para nos dar a recompensa da justiça; agora, continuamos dependendo, mas precisamos que a graça livre e soberana de Deus nos dê essa justiça, perdoe o nosso pecado e nos liberte da culpa e do infinito demérito do pecado.
E, por sermos mais dependentes da bondade de Deus do que sob a primeira aliança, agora dependemos dessa bondade muito maior. Somos, agora, mais dependentes da vontade soberana de Deus. Em nosso primeiro estado, dependíamos de Deus para a santidade. Tínhamos recebido dele a nossa justiça original, mas a santidade não nos foi concedida de maneira tão soberana quanto agora. O homem foi criado santo, pois pareceu bem a Deus criar santas todas as suas criaturas.
Teria sido depreciativo à santidade da natureza divina fazer uma criatura inteligente e ímpia. Agora, porém, quando o homem caído é santificado, isso é feito graça.
Se Deus assim quiser, Ele pode negar eternamente a santidade à criatura caída sem qualquer depreciação a qualquer das Suas perfeições.
E nós não somos apenas mais dependentes da graça de Deus, mas nossa dependência é muito mais evidente, porque nossa própria insuficiência e desamparo em nós mesmos estão explícitos em nosso estado decaído e desfeito do que era antes de sermos pecadores ou miseráveis. Somos mais dependentes de Deus para a santidade, porque somos primeiro pecadores e totalmente poluídos e, depois, em Cristo, feitos santos. Assim, a produção do efeito é perceptível e sua derivação de Deus é mais óbvia.
Assim, somos mais aparentemente dependentes da livre graça para o favor de Deus, pois somos os primeiros objetos de Seu desagrado, e depois somos recebidos em favor. Somos mais aparentemente dependentes de Deus para a felicidade, sendo primeiro miseráveis e depois felizes. É mais aparentemente gratuito e sem mérito em nós, porque na verdade não temos qualquer tipo de excelência para merecer.
E nós não somos apenas sem uma verdadeira excelência, mas estamos cheios e totalmente contaminados com aquilo que é infinitamente odioso. Todo o nosso bem vem exclusivamente de Deus, porque primeiro estamos nus e totalmente sem qualquer bem e, depois, enriquecidos com todo o bem.
B) Nós recebemos tudo do poder de Deus. Frequentemente, a redenção do homem é mencionada como uma obra de maravilhoso poder, bem como de graça. O grande poder de Deus aparece em levar um pecador de seu estado inferior, das profundezas do pecado e da miséria, para um estado tão exaltado de santidade e felicidade. Efésios 1:19 — “e qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder”.
Nós dependemos do poder de Deus ao longo de cada passo da nossa redenção. Dependemos do Seu poder para sermos convertidos, para nos conceder a fé em Jesus Cristo.
Isso é uma obra da criação: “se alguém está em Cristo, é nova criatura” (2 Coríntios 5:17). “Somos […] criados em Cristo Jesus” (Efésios 2:10). A criatura caída não pode alcançar a verdadeira santidade se não for recriada. Efésios 4:24 — “e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade”. Isso é uma ressurreição dos mortos. Colossenses 2:12 — “…fostes ressuscitados mediante a fé no poder de Deus que o ressuscitou dentre os mortos”. Sim, essa é uma obra de poder mais gloriosa do que a mera criação ou ressurreição de um corpo morto, na medida em que o efeito obtido é maior e mais excelente. O ser santo e feliz e a vida espiritual produzidos na obra da conversão são um efeito muito maior e mais glorioso do que ser um mero ser e existir. E o estado a partir do qual a transformação acontece — morte em pecado, total corrupção da natureza e profundidade de miséria — é muito mais distante do estado atingido do que a mera morte ou nulidade.
É também pelo poder de Deus que somos preservados em estado de graça. 1 Pedro 1:5 — “sois guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para a salvação”. Por ser, em primeiro lugar, proveniente de Deus, a graça é continuamente vinda dele e mantida por Ele, assim como a luz presente na atmosfera provém do Sol durante o dia todo, tanto quanto no início da aurora ou nascer do Sol. Os homens dependem do poder de Deus para toda atuação da graça e para levar adiante essa obra no coração, para subjugar o pecado e a corrupção, para fazer crescer os princípios sagrados e para permitir a produção de frutos em boas obras.
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