O Rei e o Vislumbre de Sua Glória (Marcos 9.2-13)
O Rei que se tornou servo: sermões no Evangelho de Marcos • Sermon • Submitted • Presented
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O Rei e o Vislumbre de Sua Glória (Marcos 9.2-13)
Introdução
Introdução
Temos visto em nossas exposições que Jesus iniciou um novo momento em relação aos Seus ensinos, agora revelando abertamente que Sua missão redentora envolvia ser rejeitado pelos líderes religiosos, ser morto e depois de três dias ressuscitar. Ele começa a amadurecer o entendimento sobre a obra do Filho do Homem. Jesus também passa a apresentar de forma mais radical a natureza do discipulado, conectando a realidade da paixão do Messias com o fato de que aqueles que quiserem ser Seus discípulos também deverão estar dispostos a morrer para si e para o mundo.
Nessa perspectiva desafiadora, chegamos ao nosso texto de hoje: a Transfiguração. Não pode nos escapar da mente que este foi um ato milagrosamente extraordinário. Tomás de Aquino considerava a transfiguração o maior dos milagres. É o tipo de acontecimento que os próprios autores bíblicos relembram com reverência, como Pedro em 2Pedro 1.17, como um divisor na revelação de Cristo como o Messias.
É nesse momento que Cristo, diante das dúvidas e incompreensões dos discípulos, é revelado como Aquele que cumpre a Lei e os Profetas. É aqui que Ele planta a semente da esperança naqueles corações, antecipando a glória de quem enfrentaria a morte. Ele mostra que Aquele que morrerá também ressuscitará e, sim, em glória para a nossa salvação.
Diante da majestade do Redentor manifesta na Transfiguração, somos levados a perguntar:
O que a manifestação da glória de Cristo significa para a nossa fé hoje?
Como nossa visão da Lei e dos Profetas é transformada quando olhamos para Cristo?
Qual é a resposta adequada diante da glória do Rei?
Exposição
Exposição
Marcos 9.2-13 nos transporta para um evento que é, ao mesmo tempo, uma culminação da revelação e uma antecipação profética, redefinindo a compreensão do Messias e do Reino.
1. A Transfiguração: A Glória Velada se Revela (Marcos 9.2-3)
1. A Transfiguração: A Glória Velada se Revela (Marcos 9.2-3)
1.1. O Cenário (v. 2): O texto conecta o episódio da Transfiguração a um acontecimento anterior, o que nos indica que estamos diante do cumprimento da promessa registrada em Marcos 9.1, em que alguns ali veriam o Reino de Deus chegar com poder. Estes foram Pedro, Tiago e João – o círculo íntimo de Jesus, escolhidos para testemunhar essa glória. Jesus os levou a um alto monte, um local frequentemente associado na Bíblia a encontros divinos (como o Sinai). Lucas nos indica que o propósito de Jesus em subir o monte foi para orar (Lucas 9.28) – não é à toa que coisas gloriosas acontecem em momentos de profunda comunhão com Deus.
1.2. A Manifestação da Glória de Cristo (v. 3): O texto é bem objetivo: "Jesus foi transfigurado diante deles."A palavra "transfigurado" (do grego metamorphoō) significa uma transformação completa da aparência. Marcos descreve vividamente como isso se deu: "Suas vestes se tornaram resplandescentes, de um branco muito intenso, como nenhum lavandeiro na terra conseguiria alvejar." Mateus (17.2) acrescenta que "o seu rosto resplandecia como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz." Provavelmente, o leitor da época, principalmente o público judeu ou familiarizado com a tradição judaica, ao ouvir e ler sobre essa cena, lembraria de Êxodo 32-34, quando Moisés subiu ao monte Sinai e Deus ali revelou Sua glória, fazendo o rosto de Moisés refletir essa glória ao descer. No entanto, Moisés refletia a glória de Deus; aqui, o Deus-Homem, o Verbo que se fez carne, revela Sua própria glória, a glória do Unigênito do Pai. A glória de Deus se manifesta não de costas, mas em toda a face do Salvador.
2. O Significado da Transfiguração: Jesus é o Cumprimento (Marcos 9.4-8)
2. O Significado da Transfiguração: Jesus é o Cumprimento (Marcos 9.4-8)
A presença de figuras do Antigo Testamento e a voz do Pai reforçam a centralidade e a supremacia de Jesus.
2.1. A Lei e os Profetas Apontam para Cristo (v. 4): No topo da montanha da Transfiguração, Jesus está na companhia de Moisés e Elias, figuras monumentais que representam a Lei e os Profetas do Antigo Testamento. Esse encontro, mais do que uma simples aparição, é uma poderosa confirmação de que Jesus é a finalidade e o cumprimento de toda a revelação veterotestamentária. Como Jesus mesmo esclareceu em Lucas 24.25-27, "começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras". A Lei e os Profetas apontavam para o futuro, para a necessidade e a vinda de um Salvador, e aqui eles veem diante de si o próprio cumprimento de suas esperanças e profecias: Aquele para quem tanto aguardavam. O teor da conversa entre eles, segundo Lucas 9.31, era sobre a "partida" (éxodon) de Jesus, uma referência profunda à Sua morte sacrificial em Jerusalém, que iniciaria a verdadeira libertação do cativeiro não mais do Egito, mas dos seus pecados. Seu "êxodo" era Sua morte, o evento central para a salvação.
Portanto, nessa cena sublime, Moisés e Elias não são meramente espectadores, mas testemunhas do momento em que a Lei e os Profetas encontram sua consumação. Jesus, o Verbo encarnado, o Deus-homem, estava cumprindo toda a revelação divina no tempo e no espaço, afirmando a salvação para um mundo caído. Onde a Lei apontou o pecado, ali estava a justificação e o perdão. Onde os Profetas apontaram para a vinda do Messias resgatador, ali estava o Salvador dos homens, especialmente dos que creem, do Seu povo escolhido. A morte de Jesus é central, conferindo significado salvífico a eventos como Sua encarnação e glorificação. Sem a Sua morte, a encarnação seria apenas um fato incrível, mas não redentor; com ela, a encarnação é garantia de verdadeira substituição, e a glorificação, garantia do triunfo, satisfação e poder do nosso Salvador. Por isso, a conversa entre os três líderes não poderia ser sobre outro tema senão o próprio cerne do Evangelho: a morte sacrificial do Cordeiro de Deus.
2.2. Sem Reencarnação e a Glorificação da Alma: Essa cena também oferece clareza vital sobre o estado pós-morte e a ressurreição. A presença de Moisés e Elias ali é uma refutação explícita da ideia de reencarnação. Moisés, que morreu, continua sendo Moisés, e Elias, que nunca morreu (foi trasladado), continua sendo Elias. Ambos estavam com Jesus sem terem ainda recebido seus corpos ressurretos glorificados (que ocorrerá na ressurreição final), mas estavam em glória (Lucas 9.31), demonstrando que não há "morte da alma". Eles mantêm sua identidade e consciência.
2.3. O Erro de Pedro e a Supremacia de Cristo (vs. 5-6): Diante de todo aquele acontecimento, temos o registro das palavras de Pedro: "Mestre, bom é que nós estejamos aqui; e façamos três tendas, uma para ti, uma para Moisés, e outra para Elias." É interessante que Pedro se apresenta numa posição de liderança, uma demonstração provável do pensamento geral dos discípulos. Ele ressalta o quão "conveniente" era estarem ali – “É bom estarmos aqui!” O que isso significa da ótica deles? Jesus acertou no convite? Eles estão em testemunhando um evento único? Eles são mão de obra para a proposta que ele fará em seguida: fazer três tendas, para Jesus, Moisés e Elias? O que diríamos? Mas a sugestão de fazer três tendas, equiparando Jesus a Moisés e Elias, revela a incompreensão de Pedro. O texto já sugere o erro: diz o verso seis que ele "não sabia o que dizer, pois estavam aterrados" (Lucas 9.32 diz que estavam "oprimidos de sono" e "despertaram com um susto"). Pedro não percebeu que, por mais maravilhoso que fosse ver dois grandes homens de Deus ali, a primazia e centralidade são exclusivas de Cristo. Eles eram apenas pequenas estrelas; Jesus era o Sol. Entenda: não é que a Lei e os Profetas concorram com as palavras de Jesus, pois elas também são palavras d'Ele e eles são Seus fiéis servos. A questão é que Ele é para onde a Lei e os Profetas apontavam. Tudo é para Ele.
2.4. A Voz do Pai: "A Ele Ouvi!" (vs. 7-8): A seguir, a cena remete novamente a Êxodo: uma nuvem os envolve (símbolo da presença divina). Da nuvem, vem uma voz: "Este é o meu Filho amado; a ele ouvi." A glória de Deus, ali revelada na glória do Filho, é então manifesta também nessa afirmação. A Moisés e Elias, e aos discípulos, é a Cristo que seus ouvidos devem estar inclinados. Existe uma transição aqui, uma continuidade e uma descontinuidade, uma convergência para algo novo e supremo em Cristo. A Ele ouvi. É a segunda vez que Marcos registra o próprio Deus Pai declarando que Jesus é o Seu Filho Amado. A primeira foi no batismo (Mc 1.11), apresentando-o como Aquele que inicia uma nova criação, o Rei que vem com o Seu Reino. Lá, Deus reforça a identidade de Jesus que o próprio Satanás tentará colocar em xeque. Aqui, quando as coisas começam a caminhar para momentos críticos do ministério de Jesus (Sua paixão), o Pai declara: a Lei e os Profetas se cumprem em Cristo. Essa afirmação era suficiente. Após ela, tudo se desfez e ninguém mais viram, senão Jesus. O foco total se volta para Ele.
3. O Retorno à Realidade e a Incompreensão Contínua (Marcos 9.9-13)
3. O Retorno à Realidade e a Incompreensão Contínua (Marcos 9.9-13)
A glória temporária na montanha dá lugar à realidade do caminho para Jerusalém e à persistente dificuldade dos discípulos em compreender.
3.1. A Ordem de Silêncio e a Perplexidade (vs. 9-10): Ao descerem, Jesus ordena que a ninguém dissessem o que acontecera "até que o Filho do Homem ressuscitasse dentre os mortos." Eles obedeceram, mas não entendiam o que significava "ressuscitar dos mortos". Esse termo era tão óbvio para eles em sua incompreensão que não perguntaram sobre ele ao Mestre; teimavam em não entender a natureza da glória que viria através da morte. Eles retinham a palavra, mas a compreensão ainda lhes escapava.
3.2. A Pergunta sobre Elias e a Resposta de Jesus (vs. 11-13): Em vez de perguntar sobre a ressurreição, eles perguntaram o que significava Elias vir primeiro. Eles conheciam a profecia de Malaquias 4.5 sobre Elias precedendo o Dia do Senhor. Jesus, então, demonstra que o ministério de Elias já havia sido cumprido em João Batista (conforme Mateus 11.14), que veio antes do Messias. Jesus afirma a validade da expectativa de Elias, mas a conecta ao ministério de João Batista, que também sofreu e foi rejeitado. Isso reitera o tema do sofrimento que precede a glória, tanto para o precursor quanto para o próprio Messias, mas que essa expectativa era anterior ao tempo da restauração.
Aplicações
Aplicações
A Glória de Cristo Confirma o Evangelho. Temos uma disposição de acontecimentos no texto que nos aponta para uma lógica divina. Jesus sobe ao monte para orar, é transfigurado, o Pai O confirma diante de Moisés e Elias, e então Jesus desce do monte com os discípulos. Há uma clara conexão entre oração e poder, oração e confirmação, oração e ação. Após um evento tão maravilhoso, poderíamos nos perguntar: “Ele, então, foi para o seio do Pai?“ ou “Ah, depois da Transfiguração, Jesus foi instituído rei e começou Seu reinado na Terra, não?”. Não! Jesus desce do monte e continua Seu ministério (Marcos 9.9-50; Lucas 4:17-19). Ele desce com a afirmação categórica: “Este é o Meu Filho Amado, a Ele ouvi.” Cristo tem a certeza da vitória e, por isso, marcha até Jerusalém para concretizá-la. Depois da Transfiguração, Jesus voltou Sua face para o Calvário. Isso nos ensina que a glória de Cristo é a garantia da Sua vitória, a garantia de sua mensagem e a garantia de nossa salvação.
A Transfiguração: Uma Antecipação da Glorificação de Jesus e dos Crentes. Os discípulos ainda não entendiam o que significava Jesus ressuscitar dos mortos. Pedro nem cogitava a morte de Jesus como parte do plano messiânico. Mas Jesus já nutria a esperança da salvação neles. A Transfiguração era uma antecipação: nesse momento, Cristo expressa a inequívoca vitória que o Filho terá sobre a morte. Jesus ora, e Deus Lhe mostra que Sua vitória é certa, e que Ele será exaltado acima de tudo e de todos (Filipenses 2.9) A Transfiguração foi também uma antecipação da transição de condição humana, tal como é em nós agora, para a que será no Dia da Ressurreição (Filipenses 3.20-21). Em Sua condição humana, Aquele que é também humano como nós, aparece como um dia nós haveremos de ser. Assim, nossa própria esperança de glória está firmemente ancorada na glória revelada de Cristo.
Jesus é o Tema Central da Igreja. Queridos, já tentaram ler a Lei? Primeiro que muitos cansam. Começamos Gênesis com entusiasmo, mas Êxodo começa a ter complicações, Levítico não entendemos nada, Números é pulado, e Deuteronômio nos ajuda a relembrar o que ainda não compreendemos. E os Profetas? Muitos se perdem nos tempos, nos acontecimentos, nas figuras. Mas, irmãos, não percamos algo de vista que aqui está muito claro: no monte da Transfiguração, Jesus, Moisés e Elias conversavam sobre o cerne do Evangelho: a morte do Cordeiro de Deus. Moisés e Elias tinham um tema central em sua própria mensagem: o Evangelho. Desta forma, como podemos ter outro tema? A igreja tem um tema central: o Evangelho de Jesus Cristo. J. C. Ryle nos lembra com profunda verdade: "Se os crentes na glória veem na morte de Cristo tanta beleza, que sentem necessidade de conversar sobre ela, quanto mais deveriam fazê-lo os pecadores na terra?"
Levante a Cabeça para Ver Somente Cristo: Sua Primazia e Glória. Cristo é o primeiro em tudo, inclusive em Glória. O Filho não foi glorificado junto à nossa glorificação no final dos tempos, mas foi glorificado em meio ao mundo caído, aqui e agora, para que ficasse clara Sua primazia e superioridade sobre tudo. Nada se compara a Ele. Pedro afirma que nesse momento o Pai Lhe atribuiu Glória e honra especiais (2Pedro 1.17). Irineu de Lyon entendeu a particularidade da glória da Transfiguração do Deus-Homem, onde “a glória de Deus é um ser humano vivo e uma vida humana real é a visão de Deus”. Ali ficou claro que Jesus é “o resplendor da glória de Deus” (Hebreus 1.3). Temos uma cena importantíssima: “Então, eles, levantando os olhos, a ninguém viram, senão Jesus.” Francis Schaeffer nos lembra que esse trecho nos dá uma grande lição: a melhor perspectiva que o discípulo pode ter é quando, como os discípulos, “nada viram, senão a Jesus”. A glorificação do Filho é a certeza de que Deus triunfará irrevogavelmente. E, se eu tiver medo da glória de Jesus ao invés de temor reverente, como os discípulos tiveram aqui conforme Mateus, que o Filho me toque e diga: “erga-se e não tema” (Mateus 17.7) e que eu não veja nada além d'Ele.
SDG
