Apocalipse 1.4-8
Série expositiva no Livro de Apocalipse • Sermon • Submitted • Presented
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· 12 viewsO autor divino/humano saúda a igreja através da apresentação do Remetente Divino, conclamando a igreja a observar a inexorável e irrevogável execução trinitária do plano escatológico-redentor que culmina com a salvação do povo de Deus e julgamento dos opositores do Reino.
Notes
Transcript
Apocalipse 1.4-8: Saudação autoral e apresentação do remetente: O Deus Triúno.
Apocalipse 1.4-8: Saudação autoral e apresentação do remetente: O Deus Triúno.
“Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer…” (Ap 1.1).
Pr. Paulo U. Rodrigues
Recapitulação
Estrutura argumentativa anterior:
Estrutura argumentativa anterior:
v.1a: Exposição da natureza e procedência (esta sendo desenvolvida a partir do versículo 4) da revelação, culminando no objetivo: “mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer”.
vv. 1b-2: Atestado de veracidade da revelação (cf. “notificou a João, o qual atestou a palavra…”).
v.3: Exortação ao recebimento e guarda da revelação como efeito pretendido pela revelação (cf. 22.6-8a).
Objetivo: Enfatizar a natureza exortativa/consoladora da revelação escatológica do programa redentor, conclamando os leitores à fidelidade e perseverança.
Elucidação
Estrutura argumentativa:
1. vv.4-5a: Saudação apostólica e apresentação do Remetente.
1.1 Saudação profético-epistolar: cf. v. 4a “João, às sete igrejas que se encontram na Ásia, graça e paz…”.
Tendo sido já exposta a natureza da revelação apocalíptica, João inicia a introdução do texto, emparelhando o conteúdo revelacional, àquela comunicação apostólica comum encontrada no Novo Testamento, encaminhando o entendimento do leitor quanto ao direcionamento do texto. Tanto quanto seus (e dos outros apóstolos e escritores neotestamentários) escritos, o presente material está sendo direcionado à igreja de Cristo; toda ela, isso referido pelo uso do número 7, que simboliza completude, inteireza, e pela abrangência de seus destinatários: as sete igrejas da Ásia. Todo o povo de Deus está, então, sendo representado pela presente correspondência profético-epistolar remetida por João.
A igreja de Deus está sendo direcionado as bençãos necessárias para sua existência, segundo o propósito redentor do SENHOR; graça e paz. Como comenta Hendriksen:
“Graça é o favor de Deus dado àqueles que não o merecem, perdoando seus pecados e conferindo-lhes a vida eterna. Paz, o reflexo do sorriso de Deus no coração do crente reconciliado com Deus por meio de Jesus Cristo, é o resultado dessa graça” (Hendriksen, William. Mais que vencedores (Kindle Edition) (p. 59).
1.2 Abertura de inclusio referencial (cf. v.4b “da parte daquele que era, que é e que há de vir”).
O primeiro ente referenciado da parte de quem são despedidas as bençãos de graça e paz, é descrito a partir do estabelecimento de um inclusio que é desenvolvido no versículo 8. O propósito do inclusio, neste ponto, é estabelecer o quadro através do qual o conteúdo central deve ser compreendido. Seguindo a leitura das titulações dos versículos 4b-5, cada uma das pessoas da Trindade é mencionada, o que indica sua participação tanto na execução do plano escatológico-redentor revelado a João, quanto na emissão das bençãos já mencionadas. Entretanto, a repetição da titulação referente à primeira pessoa (claramente uma alusão à Êxodo 3.14) funciona, na presente passagem, como uma “assinatura”, uma garantia da inexorabilidade das palavras proféticas comunicadas. Segundo Beale,
Essas expressões são usadas para descrever Deus não simplesmente como presente no início, no meio e no fim da história, mas como o incomparável e soberano Senhor da história, que por essa razão é capaz de levar a profecia ao cumprimento e libertar o seu povo a despeito dos obstáculos esmagadores, seja do Egito (como no contexto em que primeiro se revelou de forma similar/equivalente), da Babilônia ou de outras nações (BEALE, 2017, p.37. Acréscimo nosso).
O próprio Pai assina/atesta o cumprimento do que, pelo Filho, está sendo revelado como o desfecho do plano trinitário redentor. Essa relação filial, reforçada pela tripla titulação citada na sequência, é evocada adiante quando o próprio Cristo reclama para si um título equivalente ao que foi atribuído ao Pai: cf. v.17 “eu sou o primeiro e o último” ( = “eu sou o alfa e o ômega”)). A interpretação é a de que, no Filho, todas as palavras do Pai são cumpridas, como ele mesmo assegurara pela menção de seu título eterno “o que é, que era e que há de vir”, isto é, no retorno glorioso de Jesus Cristo, o Pai estará representado, como afirmara.
Completando o quadro relacional, o Espírito Santo é mencionado como “os sete espíritos que se acham diante do seu trono”, uma alusão/eco das profecias de Isaías 11.2 e Zacarias 4.2-6, usando esta última a figura das sete lâmpadas como um símbolo do Espírito Santo. Assim, o quadro geral da apresentação trinitária garante a compreensão da revelação por meio do seguinte esquema: O Pai atesta e garante que, por meio do Filho, virá e cumprirá suas palavras e seu plano escatológico-redentor. O Espírito (que posteriormente é visto como as sete tochas diante do trono de Deus (cf. 4.5-6)), ilumina a igreja, que recebe seu poder para continuar sua trilha até o momento final.
1.3 Titulação cristológica: Atestado, Promessa, Reclamação.
A titulação atribuída a Jesus Cristo, está enlevada do significado da atuação dele no desenvolvimento/execução do plano escatológico-redentor estabelecido pelo Pai. Cada titulação aponta para um aspecto da obra realizada por Cristo:
a) A Fiel Testemunha: A terminologia usada por João (gr. “μάρτυς ὁ πιστός”) ecoa muito daquilo que será o papel da igreja no transcurso do programa redentor. O testemunho fiel nesse caso, aponta tanto para o papel de assegurador da veracidade da revelação, quanto declara o selo sacrificial que garante sua autenticidade. Cristo, com seu próprio sangue, garantiu a execução do evangelho (algo que será referido novamente adiante (cf. v.6a)) e, consequentemente, a veracidade da revelação que anuncia seu triunfo na redenção/libertação do povo de Deus.
b) O Primogênito do Mortos: Desenvolvendo do título anterior, a segurança cristã de triunfo, está alicerçada na realização da ressurreição de Cristo, como prova da justificação dos servos de Deus, mas também como indicativo de que o que lhe aconteceu, também ocorrerá com aqueles que foram salvos. Primogênito, nesse caso, significaria “modelo”, o primeiro dentre tantos que, à sua semelhança, ressuscitarão.
c) O Soberano dos reis da terra: O último título anuncia a posição de Cristo a ser contemplada por sua igreja. Em diversos momentos, os reis da terra aparecem, na narrativa apocaliptica, não como reis vassalos (como é o caso da igreja, descrita a seguir), mas como em rebelião contra o reino de Deus, opondo-se fortemente contra Cristo e os santos. Mas, Jesus é apresentado como sendo o Rei dos reis e o Senhor dos senhores (cf. 19.16), isto é, como aquele que sobrepuja e desbaratará finalmente toda insurreição pecaminosa do sistema anticristão mundial triunfando sobre seus (e da igreja) inimigos.
A titularidade tripla do Senhor Jesus comunica à igreja a visão que deve nutrir a fé, sob a graça e a paz vindas do Deus Triuno, consolando seus corações acerca da certeza da vitória final e preparando-os para, enfrentar os acontecimentos vindouros.
2. vv. 6-7: Exposição das implicações da obra redentora: v.6 — Doxologia redentora; v.7 — Paroussia julgadora.
2. vv. 6-7: Exposição das implicações da obra redentora: v.6 — Doxologia redentora; v.7 — Paroussia julgadora.
João complementa sua saudação, a apresentação do Remetente Trinitário e a titularidade tripla de Cristo, com uma referência à obra redentora do Senhor Jesus que resulta em duas palavras direcionadas a dois públicos distintos:
a) Uma doxologia redentora à Igreja.
Essa referência é estabelecida de modo a remeter a atenção dos leitores às palavras de Êxodo 19.5-6, com o diferencial de que tais palavras são agora tomadas como cumpridas pela obra expiatória de Cristo que, com seu sangue “nos libertou dos nossos pecados e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai. João então irrompe numa doxologia, que conclama a igreja à mesma postura e reação diante da contemplação de tal realidade já inaugurada, embora ainda aguarde consumação/publicação (cf. v.6b “a ele a glória e domínio pelos séculos dos séculos. Amém!”).
b) Uma paroussia julgadora aos inimigos.
Por outro lado, a mesma ação redentora que beneficia a igreja, é a causa da publicação de uma ameaça àqueles que se opuseram a realização da obra redentora de Cristo, que fez parte do programa redentor de Deus o Pai (como exposto).
A negatividade da palavra aos inimigos baseia-se no fato de que “todo olho o verá, até quantos o transpassaram” uma clara referência à Daniel 7.13 e Zacarias 12.10, tendo tais profecia sido cumpridas na crucificação de Cristo que ocorreu, segundo Pedro, “por mãos de iníquos” (cf. Atos 2. 23), e em sua respectiva ressurreição/ascensão à mão direita de Deus Pai, correspondendo a glória do Filho do Homem contemplada por Daniel.
Esse fato é retomado para exemplificar o tipo de rebelião que o sistema mundial anticristão propõe contra o Senhor Jesus e sua igreja. Nesse caso, uma promessa de julgamento mediante a volta de Cristo é feita: “todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele”. Outrora, Cristo foi crucificado por aqueles que se colocaram contra sua obra messiânica/redentora, e no presente (no contexto em que João escreve, e que é experienciado por todo povo de Deus que vive entre os adventos), os homens mantém tal rebelião. Em face disso, tendo Cristo sido entronizado à destra do SENHOR, executará vingança contra os que se enfileiraram contra o Reino de seu Pai, e perseguiram seu povo. A ênfase dada ao final, assegura a inevitabilidade da ameaça: “ναί, ἀμήν.” = “certamente, seguramente. Amém!”.
3. v.8 Conclusão explicativa: Fechamento e desenvolvimento do inclusio referencial (cf. v.4b).
3. v.8 Conclusão explicativa: Fechamento e desenvolvimento do inclusio referencial (cf. v.4b).
A conclusão é realizada de modo simétrico àquela referida no versículo 4, estabelecendo o final do inclusio e, consequentemente, completando o quadro assegurador das palavras do Pai quanto a validade de suas promessas que agora estão sendo reveladas às igrejas.
Síntese principiológica
A saudação direcionada por João à igreja de Cristo, embora resguarde certa semelhança com o gênero epistolar majoritário do Novo Testamento, destaca-se pela apresentação do Remetente da revelação do programa escatológico-redentor, o Deus Triuno, distinguindo-a como mais do que uma saudação. Os versículos 4-8 do capítulo 1 de Apocalipse, focam a visão do leitor na realidade e iminência do plano redentor a partir de uma compreensão clara da identidade e do envolvimento de cada uma das pessoas da Trindade, na operação e realização da publicação e consumação da obra salvadora.
O Pai, como Todo-poderoso, que é, que era e que há de vir, o Senhor da história, atesta que suas palavras, como no passado, por ocasião do êxodo de Israel do Egito, não haverão de passar, pois ele, o “Eu sou” é o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, que em seu Filho, virá e publicará seu reino.
O Espírito, como lâmpada da igreja e fonte de seu poder, conduz a igreja ao entendimento da revelação, irrompendo compreensão em seus corações, para que o povo de Deus persevere e resista ao dia mal, aguardando com grande expectativa o momento de seu triunfo em Cristo. O mesmo Espírito que direcionou Cristo em seu martírio, haverá de conduzir a igreja ao momento de sua glorificação.
O Filho, como o Agente da revelação, carrega em si a titulação gloriosa e o poder para levar à cabo a obra que iniciou ao ter libertado a igreja de Deus de seus pecados, sendo A Testemunha Fiel que selou a obra evangélica com seu sangue; O Primogênito dos Mortos, sendo a garantia da recepção da vida eterna por parte da igreja, e por fim, o Soberano dos reis da terra, aquele que haverá de desbaratar a pífia rebelião do sistema anticristão mundial que, embora hoje persiga e aflija a igreja, haverá de lamentar.
Tal compreensão nos direciona à algumas considerações:
Aplicações
1. A revelação do programa escatológico-redentor deve ser entendida à luz da contemplação da gloriosa identidade divina. É contemplando o Deus Triuno, em suas perfeições e ações, mediante sua própria auto-revelação, que entendemos a progressão dos acontecimentos que rumam para publicação de seu reino neste mundo.
Como percebido à luz da seção anterior, não raro a igreja de Cristo depara-se com tentativas mundanas de criar uma narrativa escatológica para o curso da história. Além das falsas buscas por compreender o desfecho do enredo cosmológico, as fábulas inventadas por falsos mestres ou profetas possuem como ponto de partida uma visão de mundo que se afasta de um entendimento preciso quanto ao ser de Deus: sua identidade, atributos, formas de auto-revelação etc.
Seguindo o Apocalipse de João, toda a ótica das coisas que em breve devem acontecer, está alicerçada numa perspectiva clara de quem e do que Deus é. A apresentação do remetente das revelações escatológicas-redentoras é o molde através do qual o povo de Deus lê, entende e assimila a realidade e o curso da história, entendendo que, baseado no que o SENHOR, o Deus Triuno é, a história se move para frente, obedecendo ao enredo escrito pelo Pai, Espírito Santo e Filho.
Cada expressão identitária relacionada a uma das pessoas da Trindade, encarrega-se de contribuir para o todo da revelação divina que interpreta as revelações posteriores. O Pai, o Eu sou, o Alfa e o Ômega de toda a história; o Espírito, o Iluminador e Sustentador da Igreja; o Filho, o Senhor glorificado e o Poderoso Redentor da igreja, são expostos aos leitores para que, nessa visão, entendam que sua salvação é uma obra executava pela plenitude o Ser de Deus. Esse é o SENHOR que haverá de conduzir sua noiva ao encontro final e derradeiro com Cristo, o Cordeiro vitorioso.
2. A certeza de nossa redenção está fundamentada no caráter veraz do Deus Eterno, do Senhor da história que, em seu Filho, cumprirá suas palavras, tal como fez no passado. Por sua palavra, a promessa de redimir seu povo mantendo-se fiel à sua aliança, será cumprida.
O título usado por João para se referir a Deus em sua saudação e na apresentação divina que confere a benção de graça e da paz sobre a igreja, como dito, serve de atestado e assinatura que garante o cumprimento das promessas feitas anteriormente, e agora reforçadas pela presente revelação. Como Grant Osborne salienta:
Apocalipse - Comentário Expositivo do Novo Testamento Grant Osborne Presente, Passado e Futuro (1.4a)
A Deus é dado um título único, “aquele que é, que era e que há de vir”. Esta é uma paráfrase do nome divino “Yahweh”, definido em
O Alfa e o Ômega garante ao povo de Deus que todas as suas palavras haverão de ser cumpridas, e o futuro glorioso que prometeu ao seu povo haverá de ser estabelecido; por sua honra, o SENHOR salvará seu povo.
3. A comunicação do iminente retorno de Cristo, assegurada pela palavra do Pai, resulta na contemplação da majestade do Senhor Jesus e, nessa glória, a ação escatológica culmina com a salvação da igreja e triunfo sobre os inimigos do Reino; tema que será desenvolvido ao longo de todo o Livro de Apocalipse.
A apresentação de Cristo como A Fiel Testemunha, O Primogênito dos Mortos, e O Soberano dos reis da terra, introduz o tema do evento ambíguo do segundo advento a partir da ótica da salvação e juízo concomitantes.
Os que foram libertados de seus pecados exultam pela glória de Cristo, aguardando com grande ânsia pelo momento em que o reino sacerdotal de Deus, o Pai, será evidenciado; tempo em que o SENHOR tomará para si o povo de propriedade particular que adquiriu (cf. Êx. 19.5). De contra partida, todos “quantos o transpassaram”, rebelando-se contra seu Reino, haverão de lamentar profundamente, pois se opuseram ao Soberano Senhor de toda terra, aquele que triunfará sobre eles.
Essa dupla mensagem de salvação e juízo é o corolário do texto de Apocalipse. O Cristo glorificado, agente da revelação divina, confere aos seus servos a honra de aguardarem seu reino em alegria, paz e consolo. Já os que se avessam ao seu Reino, oprimindo seu povo (algo que também pode estar incluído na expressão referente ao ferimento de Cristo, isto é, uma aglutinação imagética que identifica o sofrimento de Cristo com aquele experimentado por sua igreja), embora agora não se apercebam do perigo que correm, o verão descer por entre as nuvens, “e todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele”.
Conclusão
João saúda as igrejas, com a mensagem consoladora de que a graça e a paz de que a igreja precisa para manter-se firme em sua trajetória escatológica, vem da parte do Deus Triuno:
- O Pai, Eterno, Alfa e Ômega, Senhor da história;
- O Espírito Santo, Iluminador e Consolador da Igreja;
- O Filho, Jesus Cristo, O assegurador da salvação; O Garantidor da Ressurreição; o Rei dos Reis e Senhor dos senhores.
Eis o consolo da igreja: o senhor da história haverá de conclui-la em glória.
