O Poder que não se compra

Cristiano Gaspar
Igreja em Movimento  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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Introdução

Você já percebeu como o “espetáculo da fé” atrai multidões? Não falo aqui da fé genuína, mas daquela produzida e embalada para consumo: luzes, palco, música de arrepiar, supostos milagres transmitidos em tempo real e, no final, promessas sedutoras — riqueza, cura garantida, sucesso profissional, influência, status. Para muitos, isso é “buscar a Deus”.
Mas repare: nesse tipo de ambiente, as pessoas não estão necessariamente sedentas de Deus. Estão sedentas das coisas que acreditam que Deus pode lhes dar. E aqui está o detalhe mais perigoso: isso não acontece só nos palcos da televisão ou nas lives de redes sociais. Pode acontecer no nosso próprio coração.
Essa mentalidade trata Deus como um “meio” — um meio para alcançar o que já amamos. Se meus afetos mundanos permanecem intactos e minha busca é por coisas e não pelo Senhor, eu não sou “pobre de espírito” (Mt 5.3). Sou “classe média espiritual”: alguém que até reconhece que precisa de Deus, mas apenas como complemento para conquistar seus planos. E isso abre espaço para uma fé manipulada, interesseira, cheia de aparência… mas vazia de conversão.
Esse era o cenário em Samaria. Um homem chamado Simão dominava a atenção do povo com um “espetáculo de fé”. Ele realizava sinais e maravilhas que não vinham de Deus, e o povo acreditava que ele era “o Grande Poder de Deus”. Um líder que, em vez de apontar para o Senhor, construía um pedestal para si.
E então, chega Felipe. Sem show, sem promessas de riqueza ou status. Apenas pregando “o Reino de Deus e o nome de Jesus Cristo”. O que acontece quando o poder que manipula encontra o poder que transforma? É isso que vamos ver.
Hoje vamos descobrir três verdades:
O evangelho confronta a ilusão do poder humano.
O evangelho não pode ser manipulado.
O evangelho avança apesar das resistências.
Agora, vamos ler o primeiro trecho, Atos 8.9–13, e ver como o evangelho desliga os holofotes voltados para o homem e acende a luz sobre Cristo.
Atos dos Apóstolos 8.9–13 NAA
9 Havia naquela cidade um homem chamado Simão, que praticava artes mágicas e deixava o povo de Samaria admirado. Dizia ser alguém muito importante, 10 e todos lhe davam ouvidos, do menor ao maior, dizendo: — Este homem é o poder de Deus, chamado “o Grande Poder”. 11 Davam atenção a ele porque durante muito tempo os havia impressionado com as suas artes mágicas. 12 Quando, porém, deram crédito a Filipe, que os evangelizava a respeito do Reino de Deus e do nome de Jesus Cristo, iam sendo batizados, tanto homens como mulheres. 13 O próprio Simão abraçou a fé e, tendo sido batizado, acompanhava Filipe de perto, observando extasiado os sinais e grandes milagres praticados.

1. O evangelho confronta a ilusão do poder humano (vv. 9–13)

Felipe chega a uma cidade marcada por um “senhor” no imaginário espiritual do povo. Não era um campo neutro para o evangelho, era território já ocupado. Simão, o mágico, dominava a cena. Ele “se dizia grande” e, para o povo, era “O Grande Poder de Deus”. Essa expressão é mais do que elogio, é idolatria personalizada: não apenas admiravam o que ele fazia, mas reverenciavam quem ele dizia ser.

Contexto histórico-cultural

Naquela época, práticas de magia e feitiçaria eram comuns em todo o mundo greco-romano e no Oriente Próximo. Essas práticas misturavam misticismo, manipulação psicológica e, em alguns casos, atividade demoníaca real. Em regiões como a Samaria, já marcada por sincretismo religioso desde os tempos do Antigo Testamento, a mistura entre fé e superstição era ainda mais intensa. Para aquele povo, o poder espiritual não era apenas algo religioso; era também um símbolo de status social. Quem “controlava” o espiritual, controlava o respeito, a influência e até o medo das pessoas.
É nesse ambiente que Simão se estabelece. Ele não é apenas um artista de rua, é um líder espiritual que conquistou uma cidade inteira com demonstrações de poder. O problema é que esse poder não vinha de Deus. Ele usava sua influência para apontar para si mesmo, e não para o Senhor. É o retrato perfeito do falso profeta: alguém que busca glória própria em vez de conduzir as pessoas ao Deus vivo.

O contraste com Felipe

E então chega Felipe. Nenhum espetáculo. Nenhum slogan chamativo. Nenhuma promessa de status ou riqueza. Apenas a mensagem simples e poderosa: “o Reino de Deus e o nome de Jesus Cristo” (v. 12). E algo extraordinário acontece: o povo começa a trocar Simão por Jesus. Trocam o falso brilho pela verdadeira luz. Trocam a magia pela mensagem. Esse é o poder do evangelho: ele expõe a ilusão e apresenta a realidade.

O trono do “eu”

Aqui está a primeira verdade dura: o evangelho sempre confronta o trono que construímos para nós mesmos. Simão construiu seu pedestal com base no encantamento e na admiração pública. E nós? Quantas vezes nosso “pedestal” é construído com elogios por nossas habilidades, reconhecimento por nossos serviços, ou até mesmo por ministérios bem-sucedidos? O problema não é ser reconhecido. O problema é quando esse reconhecimento se torna combustível para o ego, e não louvor a Deus.
Jesus nos mostra o caminho oposto. Filipenses 2 nos lembra que Ele, sendo Deus, “esvaziou-se a si mesmo” e assumiu a forma de servo. O verdadeiro poder se manifesta não em autopromoção, mas em autodoação.

Aplicações:

O que nos impressiona mais: carisma ou caráter?
Ficamos mais motivados quando nosso serviço é visto… ou quando ele é fiel, mesmo que ninguém perceba?
Estamos mais preocupados com o impacto real para o Reino… ou com a imagem que construímos diante das pessoas?
Se não tomarmos cuidado, podemos ser “Simões” modernos, líderes, servos ou membros que, em vez de desaparecer para que Cristo apareça, lutam para garantir que seus nomes sejam lembrados.

Ilustração

Simão é como um farol falso: brilha à distância e parece seguro, mas leva navios à destruição. O evangelho é como um sol constante: não depende de efeitos especiais, mas sustenta a vida e guia com luz verdadeira. Ou, para outra imagem: Simão é como um fogo de artifício, impressiona por segundos e desaparece. O evangelho é a mensgem do sol da justiça, como um fogo no coração, aquece, ilumina e permanece.

Conclusão do ponto

O evangelho destrona o “eu” e liberta do peso de ter que parecer grande. Quando Cristo é o centro, não precisamos disputar holofotes. Podemos viver como servos, sabendo que toda glória pertence a Ele.
Atos dos Apóstolos 8.14–24 NAA
14 Quando os apóstolos, que estavam em Jerusalém, ouviram que o povo de Samaria tinha recebido a palavra de Deus, enviaram-lhes Pedro e João. 15 Chegando ali, oraram por eles para que recebessem o Espírito Santo, 16 pois o Espírito ainda não havia descido sobre nenhum deles. Tinham apenas sido batizados em nome do Senhor Jesus. 17 Então lhes impuseram as mãos, e eles receberam o Espírito Santo. 18 Quando Simão viu que, pelo fato de os apóstolos imporem as mãos, era concedido o Espírito Santo, ofereceu-lhes dinheiro, 19 dizendo: — Deem também a mim este poder, para que a pessoa sobre a qual eu impuser as mãos receba o Espírito Santo. 20 Mas Pedro respondeu: — Que o seu dinheiro seja destruído junto com você, pois você pensou que com ele poderia adquirir o dom de Deus! 21 Não existe porção nem parte para você neste ministério, porque o seu coração não é reto diante de Deus. 22 Portanto, arrependa-se desse mal e ore ao Senhor. Talvez ele o perdoe por esse intento do seu coração. 23 Pois vejo que você está cheio de inveja e preso em sua maldade. 24 Simão disse aos apóstolos: — Peço que vocês orem ao Senhor por mim, para que não me sobrevenha nada do que vocês disseram.

2. O evangelho não pode ser manipulado (vv. 14–24)

A notícia de que os samaritanos haviam recebido a Palavra de Deus chega a Jerusalém. Pedro e João são enviados para confirmar esse avanço histórico. Quando eles impõem as mãos sobre os novos crentes, o Espírito Santo é derramado sobre eles. Esse é um marco na história da igreja: judeus e samaritanos, antes inimigos, agora recebem o mesmo Espírito. É a prova viva de que o evangelho rompe muros antigos.
Mas, no meio dessa obra de Deus, reaparece Simão. Ele vê o derramamento do Espírito e pensa: “Eu preciso desse poder.” Não para servir. Não para glorificar a Cristo. Mas para aumentar sua própria influência. E então ele faz a proposta: oferece dinheiro aos apóstolos para ter a capacidade de conceder o Espírito Santo a quem quisesse (v. 19).

O problema por trás da proposta

Para Simão, o Espírito é um recurso que pode ser adquirido, controlado e usado para fins pessoais. Ele não vê o Espírito como Senhor, mas como ferramenta. Pedro responde com firmeza quase chocante: “Que o seu dinheiro seja destruído com você!” (v. 20). Ele declara que Simão “não tem parte nem sorte” na salvação, porque seu coração não é reto diante de Deus. A solução? “Arrependa-se e ore ao Senhor” (v. 22).
Aqui aprendemos algo vital: é possível estar próximo da obra de Deus, ver milagres, até participar ativamente, e ainda assim permanecer espiritualmente morto. O problema de Simão não era falta de informação, era falta de transformação.

A “classe média espiritual”

Essa é a hora de falar de algo que atinge não só Simão, mas muitos de nós: a postura de “classe média espiritual”. O pobre de espírito, como Jesus descreve em Mateus 5.3, reconhece sua total falência diante de Deus. Ele sabe que nada tem para oferecer e depende inteiramente da graça. Mas o “classe média espiritual” é diferente. Ele admite que precisa de Deus… mas só como complemento. Na prática, pensa: “Eu já tenho sonhos, desejos, metas — Deus é meu parceiro para realizá-los.” E aqui está o perigo: Deus deixa de ser o tesouro e vira um meio para se chegar a outros tesouros.
Essa era a postura de Simão: ele não queria o Espírito para se render, mas para potencializar seus planos.

Aplicações

Será que buscamos a Deus pelo que Ele é… ou pelo que Ele pode nos dar?
Nosso maior anseio é estar com Ele… ou usar o nome dEle para conquistar outras coisas?
Quando oramos, o que ocupa mais nossas palavras: pedidos para conhecer melhor a Deus ou pedidos para Ele facilitar nossos caminhos?
Essa reflexão é desconfortável, mas necessária. Porque enquanto não nos virmos como pobres de espírito, vamos tratar Deus como sócio e não como Senhor. E o sócio serve para me ajudar nos meus planos; o Senhor muda os meus planos. Deus é aquele que me ajuda a conquistar coisas materiais, mas desde que Ele não seja Senhor sobre as coisas que eu possuo.
Simão oferece prata para receber o Espírito. Mas o Espírito foi derramado porque Jesus ofereceu o Seu sangue. O que Simão tentou comprar já estava sendo oferecido gratuitamente. E, como acontece com muitos hoje, ele não percebeu que estava tentando pagar por algo que nunca poderia ser comprado, e que, na verdade, só pode ser recebido de joelhos.

Ilustração

Tentar comprar o Espírito é como tentar pagar por um pôr do sol. Ou enviar um Pix para comprar amizade (infelizmente de alguma forma isso se tornou comum). Ou, ainda, como achar que pode se tornar membro de uma família simplesmente comprando um álbum de fotos dela. O evangelho não se adquire por transação; ele é recebido por adoção.

Conclusão do ponto

O evangelho não é uma ferramenta para realizar os nossos sonhos, ele é a boa notícia de que fomos chamados a participar do sonho de Deus. E, quando essa graça nos alcança, não tentamos mais controlar o Senhor, nos rendemos a Ele.
Atos dos Apóstolos 8.25 NAA
25 Eles, porém, tendo dado o seu testemunho e pregado a palavra do Senhor, voltaram para Jerusalém e evangelizavam muitas aldeias dos samaritanos.

3. O evangelho avança apesar das resistências (v. 25)

Depois de todo o episódio com Simão, confronto direto, exposição do seu coração, chamado ao arrependimento, Pedro e João iniciam a viagem de volta para Jerusalém. Era o momento perfeito para “respirar” e descansar… ou até para lamentar as dificuldades enfrentadas. Mas o que Lucas registra é surpreendente: “Eles voltaram para Jerusalém, pregando o evangelho em muitas aldeias samaritanas.”
Esse versículo é curto, mas carrega uma verdade profunda. Ele não é apenas uma nota geográfica sobre o caminho de volta. É uma declaração sobre o caráter da missão: o evangelho não para diante das resistências. Pedro e João tinham acabado de enfrentar oposição espiritual, lidar com uma falsa conversão e confrontar um homem influente. Nada disso os fez recuar. Pelo contrário, o caminho de volta se tornou uma rota missionária.
Lembre-se: samaritanos e judeus tinham séculos de rivalidade e desprezo mútuo. No passado, os próprios discípulos de Jesus haviam sugerido que descesse fogo do céu sobre uma aldeia samaritana que não quis recebê-los (Lc 9.54). E agora, esses mesmos homens estão pregando de aldeia em aldeia, levando o evangelho aos que antes tratavam como inimigos. O poder do evangelho não apenas avança, ele transforma o coração de quem anuncia.

Aplicações práticas

Quantas vezes deixamos de servir, evangelizar ou discipular porque encontramos resistência?
Quantas vezes um conflito ou decepção nos leva a “tirar o pé” da obra?
Se Pedro e João tivessem esperado um “campo perfeito” para pregar, essas aldeias nunca teriam ouvido a mensagem.
O chamado de Deus não depende de circunstâncias ideais, mas da fidelidade de quem obedece. E a fidelidade é testada justamente quando o caminho é mais difícil.

Ilustração

O evangelho é como um rio caudaloso: pode encontrar pedras, curvas e até quedas d’água, mas não para. Ele contorna, transborda ou quebra barreiras, mas continua fluindo até alcançar seu destino. É como a luz do amanhecer: nada pode impedir que avance, nem nuvens nem montanhas, ela sempre encontra um jeito de romper a escuridão.

Aplicação para a igreja

Muitas vezes, esperamos que a oposição seja sinal de que “talvez não seja a hora”. Mas, biblicamente, oposição quase sempre é sinal de que estamos no caminho certo. A obra de Deus não avança por ausência de obstáculos, mas por presença de poder. E esse poder não está em nós, mas na mensagem que carregamos.

Conclusão do ponto

Não é a oposição que define o ritmo da missão, mas a fidelidade de Deus. Por isso, continue. Pregue, ensine, sirva, mesmo quando houver resistência. Porque o avanço do evangelho não depende do cenário, mas da promessa: “Eu estarei com vocês todos os dias, até o fim dos tempos” (Mt 28.20).

Conclusão

Simão queria comprar o que só se recebe de joelhos. Ele viu o poder do Espírito e pensou: “Isso pode servir aos meus planos.” Mas Deus, por meio de Pedro, deixou claro: Sua graça não está à venda, e nem a falsa fé, nem a manipulação, nem a oposição podem impedir o avanço do Seu Reino.
Na cruz, Jesus conquistou para nós tudo o que Simão tentou obter com dinheiro: a presença de Deus, o perdão dos pecados, o dom do Espírito Santo. E Ele fez isso não com prata ou ouro, mas com Seu próprio sangue (1Pe 1.18–19). O que Simão tentou comprar já estava sendo oferecido de graça, porque o preço já havia sido pago.
E aqui está o paradoxo da graça:
Para o orgulhoso, ela é humilhante, porque não pode ser comprada nem merecida.
Para o sedento, ela é libertadora, porque é recebida como presente.
O evangelho diz a Simão: “Você não pode controlar Deus.” E diz a Pedro e João: “Continuem, porque a Minha Palavra não volta vazia.”

Aplicação à igreja

Esse texto nos chama a três decisões:
Rejeitar a ilusão de grandeza — não construir pedestais para nós mesmos, mas exaltar somente a Cristo.
Abandonar a manipulação de Deus — não tratá-lo como sócio nos nossos projetos, mas como Senhor que nos chama a participar dos projetos dEle.
Perseverar na missão apesar das resistências — continuar pregando e servindo mesmo quando o terreno parece difícil.

Convite ao coração

Talvez você esteja aqui e, como Simão, ache que Deus é um meio para chegar a outra coisa: sucesso, estabilidade, cura, reconhecimento. Mas a única “moeda” aceita no Reino é a fé em Jesus. Tudo o que é necessário já foi conquistado na cruz. Tudo o que é impossível para você já foi pago por Ele.
Hoje, Deus não te convida a negociar. Ele te convida a receber. Não a usar o Espírito, mas a se render ao Espírito. Não a buscar aquilo que Deus pode te dar… mas a buscar o próprio Deus.
Porque tudo o que Simão queria comprar, Jesus comprou por você — e Ele oferece de graça, para que você O receba, e depois, como Pedro e João, vá adiante proclamando esse evangelho até que todos ouçam.
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