Fazer discípulos: o imperativo missional
Entre todos os povos • Sermon • Submitted • Presented
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· 14 viewsNa grande comissão, o imperativo missional é fazer discípulos. Essa é a principal tarefa de cada crente. Tantos os cristãos de maneira individual, quanto as igrejas locais devem se empenhar por realizá-la globalmente.
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Transcript
Introdução
Introdução
Na semana passada iniciamos nossa reflexão no texto de Mateus 28. 18-20, no qual Jesus apresentou sua autoridade de abrangência cósmica e sua presença constante com os crentes, até o fim da presente era, como os aspectos primordiais da missão a ser realizada pela igreja. Vimos também que a missão desempenhada pelas comunidades cristãs, no nosso tempo, não é dissociada da missão redentora do Deus Trino, antes é um desdobramento comissionado dessa mesma missão. Hoje, olharemos novamente para as palavras de Jesus antes de ser assunto aos céus, conforme relatadas pelo evangelista Mateus, para que possamos compreender qual é especificamente a missão da igreja e qual é o campo onde essa missão deve ser desenvolvida.
Transição
Transição
A partir desse breve panorama, quero convidar você para que caminhemos juntos nesta noite refletindo sobre o tema: Fazer discípulos: o imperativo missional. E, assim como fizemos na semana passada, nos deteremos em dois pontos principais que nos conduzem a compreensão e ao desenvolvimento fiel do discipulado que nos foi ordenado por Cristo.
1. Fazer discípulos é a missão especifica da igreja – v.19
Imagine um grupo de exploradores em meio à floresta. Eles têm à sua disposição todos os equipamentos necessários: mochilas, barracas, cordas, estacas, combustível e mantimentos. Mas há problema: A única bússola do grupo está quebrada. Eles caminham, trabalham, se cansam, esgotam seus mantimentos — mas não sabem para onde vão.
A princípio você pode julgar que essa ilustração não se relaciona de nenhuma com a situação da igreja. O fato é que ao contrário do que pode parecer muitas igrejas locais se encontram exatamente como esses exploradores: elas estão ocupadas, cheias de atividades, os programas se acumulam, mas ironicamente elas se tornaram comunidades ensimesmadas. Todo o seu repertório de programações, todo o seu planejamento, toda a energia das pessoas que se dispõem a trabalhar e todos os projetos desenvolvidos por elas visam nada mais que o entretenimento de seus membros e assim, apesar de parecer trilharem um rumo certo, embora aparentem ser muito produtivas, na verdade elas se tornaram comunidades estéreis e que caminham sem uma direção clara. Jesus, no texto que lemos, deu à sua igreja uma bússola precisa, que indica o caminho exato por onde a igreja deve seguir, a principal e mais importante tarefa a ser realizada: “Fazei discípulos”, ordenou o Senhor. Este é o norte missionário da igreja. Sem observar esse mandamento, perdemos o rumo.
Para que fique bem claro para nós qual a intenção de Jesus ao comissionar a igreja, quero pedir que você considere o seguinte: no mundo antigo, antes mesmo de Jesus, aqueles que eram considerados grandes mestres, como é o caso de Sócrates, Platão e Aristóteles possuiam discípulos. O discípulo era um tipo de aluno, que aprendia e seguia os passos de um mestre específico. Em geral os discípulos procuravam um mestre e passavam a seguí-lo, para então aprender com ele. A igreja foi comissionada a fazer discípulos de Jesus e o discipulado de Cristo é essencialmente diferente. Os discípulos não chegam até Jesus por uma inclinação pessoal, pelo contrário, eles são chamados pelo próprio Senhor. No passado, Cristo chamou alguns desses discípulos pessoalmente, como foi o caso do próprio Mateus. Hoje Ele ainda chama pessoas para serem discípulos, mas o faz mediante a pregação do Evangelho realizada por outros discípulos, já congregados à sua igreja.
No mundo antigo o discipulado “filosófico”, por assim dizer, se estabelecia no compromisso do aluno para com o seu mestre, tendo em vista a sabedoria. Jesus, no entanto, definiu o discipulado de forma muito mais específica. Desmond Alexander, professor de teologia e comentarista bíblico muito conhecido, expõem a questão sobre o verdadeiro discípulo de Cristo dizendo que os:
Matthew Exegesis
“ Discípulos de Cristo: são aqueles que professam ousadamente sua fé, mesmo quando muitos o negam para salvar suas vidas. Discípulos são aqueles que amam Jesus (...) e estão dispostos a carregar o patíbulo de suas próprias cruzes e carregá-las até o seu próprio local de execução, onde morrerão como mártires por sua devoção a Ele. Os discípulos são aqueles que não apenas aprendem com os ensinamentos de Jesus, mas também vivem para ele diariamente”.
Jesus ordenou, antes de ser assunto aos céus, que a incipiente igreja instruída por ele, comunidade entre a qual se destacavam os doze que foram particularmente instruídos durante cerca de três anos e se tornaram discípulos, para que fizessem novos discípulos, contemplando os mesmos termos de aprendizado, comprometimento, renúncia, obediência e amor. Em outras palavras, Jesus ordenou o engajamento da igreja - tanto no passado, quanto no presente - na atividade de levar outras pessoas ao conhecimento dEle, para que iluminadas pelo Evangelho da verdade essas pessoas estejam comprometidas com Ele de maneira definitiva e acima de todas as coisas. Os termos desse discipulado são claros:
Mateus 10.37–39 “37 Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim; 38 e quem não toma a sua cruz e vem após mim não é digno de mim. 39 Quem acha a sua vida perdê-la-á; quem, todavia, perde a vida por minha causa achá-la-á.”
O que precisamos entender acima de todas as coisas, no que tange à responsabilidade que recebemos de Jesus, é que a tarefa principal da igreja é fazer discípulos de Cristo. E perceba, o discipulado à Cristo tem um aspecto singular: o compromisso do homem com a pessoa de Jesus, inclusive em prejuízo de si mesmo. É somente por meio desse comprometimento com o Cristo, que o homem pode - por graça mediante a fé - ser restaurado aquele relacionamento perfeito com Deus, para o qual Ele foi criado.
Aplicação: Recorde a ilustração inicial. Uma igreja que gasta suas forças em outras atividades, mas que se esquece do discipulado, é como aquele grupo de exploradores perdido no meio da floresta, caminhando sem rumo. Você precisa entender que os crentes, individualmente, e a igreja, coletivamente, são os mais importantes agentes missionários. O discipulado à Cristo, o interesse e o trabalho que visa levar outras pessoas à Jesus, o acompanhamento dessas pessoas em seu amadurecimento, congregando-as e integrando-as à comunidade cristã para que sejam preparadas e possam, enfim, contribuir com o progresso do Reino deve ocupar um lugar central em nossas vidas, seja como indivíduos, seja como comunidade. A não ser que façamos isso, falharemos no ponto mais básico de nossa tarefa.
2. Fazer discípulos é a missão global da igreja – v.19
O primeiro ponto dessa mensagem foi iniciado com uma ilustração. Gostaria de seguir o mesmo padrão aqui. Imagine que um homem muito rico e bastante conhecido em sua cidade preparou uma grande e luxuosa festa. No horário marcado havia em sua casa uma grande mesa de banquete preparada com fartura e beleza. Quando tudo estava pronto o dono da casa disse aos empregados: “Saiam pelas ruas, avenidas e vielas, convidem todos as pessoas que vocês encontrarem para que venham festejar e se alegrar. Não deixem ninguém de fora: tragam velhos e jovens, pobres e ricos, residentes e estrangeiros. Encham essa casa com gente de todos os tipos e de todos os lugares”. Essa cena ilustra muito bem a perspectiva global da missão da igreja.
Jesus ordenou que os discípulos propagassem a fé, fazendo novos discípulos de todas as nações. Esse caráter global, ou, universal é um dos principais aspectos da missão outorgada por Cristo à igreja. O chamado para o discípulado à Cristo não é como o convite para um banquete realizado para poucos escolhidos por afinidade, méritos, beleza, aptidões ou status social. Pelo contrário, a convocação para que os homens se tornem discípulos de Cristo, é dirigido a todos os tipos de pessoas, inclusive aqueles que aos olhos do mundo são considerados inferiores e sem valor.
A ordem de Jesus quanto à missão da igreja não foi finalizada com a indicação da atividade a ser desempenhada, ou seja, fazer díscipulos. Jesus também indicou em que lugar a igreja deve trabalhar na formação desses novos discípulos. E perceba que o campo de trabalho é vasto. Citando as palavras exatas de Jesus, devemos trabalhar para fazer discípulos de Cristo de todas as nações.
A palavra traduzida como nações é o substantivo grego ἔθνος (etnos) que dá origem à palavra etnia. Quando Jesus fala sobre nações a idéia em tela não é a de Estado-Nação como conhecemos hoje. A expressão todas as nações é usada no NT para indicar os povos que não são de Israel. A ideia transmitida por nações é a de grupos de pessoas que possuem laços culturais, físicos ou geográficos em comum. A inclusão dessas nações, ou povos, geralmente descritas como gentios em outras partes da Escritura, evidencia que a partir da descida do Espírito Santo que capacitaria a igreja para o cumprimento da missão, os discípulos deveriam propagar a fé para fora dos limites de Israel, nação que fora escolhida como o povo de Deus, mas havia rejeitado o Messias. A ordem de fazer discípulos entre os gentios não implica em que Deus tenha abandonado Israel, pelo contrário, aponta para a universalização do chamado da graça, a partir de Israel, em um desdobramento da promessa feita à Abrãao, quando Deus disse que nele seriam benditas todas as famílias da terra, em uma referência ao ministério Redentor de seu descendente, Jesus. O discipulado entre todas as nações é a maneira que os cristãos, em obediência à ordem do Senhor, demonstram que a alegria de conhecer e pertencer a Deus não é um privilégio privado, tribal ou nacional. Antes é um chamado para todos os tipos de homens, vindos de todos os lugares e pertencentes a todos os povos, com uma finalidade muito clara em vista:
Salmo 22.27 “27 Lembrar-se-ão do Senhor e a ele se converterão os confins da terra; perante ele se prostrarão todas as famílias das nações.”
Quando Cristo ordena à igreja a fazer discípulos de todas as nações, Ele demonstra que por intermédio dEle as portas da salvação foram abertas a todo tipo de pessoa. Não importam quem elas sejam, não importam os pecados que tenham cometido, não importa sua nacionalidade, seu status social. A ordem de Jesus não deixa espaço para que façamos uma escolha pessoal sobre a quem o Evangelho deve ser anunciado (esse tem jeito, esse não tem, esse merece, esse não merece). Definitivamente não. O Evangelho deve ser pregado a todos indistintamente. E há uma razão clara para isso: serão salvos, e feitos discípulos, aqueles que Deus escolheu, não por seus próprios méritos, mas por graça mediante a fé:
João 1.12 “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome;”
Aplicação: Não podemos negar que a ordem para fazer discípulos de todas as nações, estabelece uma perspectiva transcultural para a grande comissão. É preciso que fique claro, no entanto, que a missão em si é dotada de primazia em relação ao campo no qual ela será desenvolvida. Se comparada à totalidade da igreja, há uma parcela muito pequena dos crentes dotada com um chamado especial para deixar sua cidade, talvez o seu país e se dedicar integralmente à pregação e ao discipulado de outras pessoas em outras nações. Isso não quer dizer que você, caso não tenha esse chamado, está desobrigado da ordem de fazer discípulos. Hoje vivemos em um mundo globalizado no qual não são apenas os missionários que se movimentam até os confins da Terra, mas os confins da terra vêem até os locais onde a igreja do Senhor se encontra estabelecida. E eu explico. Hoje há diversos povos dentro do nosso país, até mesmo dentro do nosso estado. Se lembre que a ideia de “nações” remete a pessoas que possuem algum tipo de vinculo, seja ele cultural, físico ou geográfico. Segundo o último recenseamento do IBGE há em São Paulo, nosso estado, mais de 50 mil indígenas nos centros urbanos. Essas são pessoas que precisam ser levadas a Cristo e discipuladas. Há, mais uma vez, em nosso estado, cerca de 750 mil imigrantes vindos de diversos lugares do mundo como Japão, China, Haiti, Bolivia, Peru, Angola, Moçambique, Alemanha. Essas são pessoas que devido a fatores diversos, tais como, a cultura e a língua encontram dificuldades em muitos aspectos, inclusive no que tange a religião. É gente que precisa ser levada a Cristo e discipulada. Em um contexto mais amplo, pensando nacionalmente, há no nosso país cerca de 1 milhão de ciganos, dos quais apenas 10 mil são cristãos. Considere também, que há no Brasil cerca de 10 milhões de pessoas com deficiência auditiva e quase 600 mil pessoas cegas, e que talvez encontrem dificuldades na integração a uma comunidade cristã. São pessoas que que precisam ser apresentadas a Cristo e discipuladas. Pense ainda no nosso próprio povo, que logicamente se encontra contemplado na perspectiva de “todas as nações”. As pessoas que devem ser evangelizadas e discipuladas estão perto de nós, moram na casa ao lado, frequentam os mesmos supermercados, tem filhos que estudam nas escolas em que nossos filhos estudam, às vezes trabalham nas empresas que trabalhamos. É nossa responsabilidade anunciar o Evangelho a elas e discipulá-las.
Conclusão
Cristo abriu as portas do Reino de Deus a todos os povos. Conhecer e pertencer a Deus não é um privilégio particular, tribal ou nacional. Deus possui os seus eleitos entre todos os povos, tribos, linguas e nações. Saiba que nações estão entre nós. Os confins da terra se achegaram ao nosso país, e até mesmo à nossa cidade. É nossa responsabilidade anunciar o Evangelho a todos quanto for possível, empenhando os maiores e melhores esforços para que eles conheçam e adorem ao único e verdadeiro Deus, e se tornem verdadeiros discipulos de Cristo.
