O culto que Deus reconhece
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Texto bíblico
Texto bíblico
Miquéias 6.6–8
6. “Com que me apresentarei ao Senhor e me inclinarei ante o Deus excelso? Virei perante ele com holocaustos, com bezerros de um ano?
7. Agradar-se-á o Senhor de milhares de carneiros, de dez mil ribeiros de azeite? Darei o meu primogênito pela minha transgressão, o fruto do meu corpo, pelo pecado da minha alma?
8.Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o Senhor pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus.”
INTRODUÇÃO
INTRODUÇÃO
Os últimos eventos do ministério de Jesus na Galileia, na visão do evangelista Lucas no capítulo 9, estão repletos de ensinamentos em relação a vaidade humana e como Jesus rejeita isso.
Primeiro, dos versos 43 a 45, Jesus novamente prediz a sua morte dizendo que "O Filho do Homem seria entregue nas mãos dos homens" e a resposta dos discípulos foi um silêncio sobre o fato e o medo de perguntar alguma coisa sobre ele. Em seguida, nos versos 46 a 48, os discípulos começam a discutir entre eles quem seria o maior ou o melhor e, por fim, nos versos 49 e 50, os discípulos impedem um homem, por ciúmes, de expulsar demônios em nome de Jesus, simplesmente pelo fato dele não ser um dos doze discípulos.
Sabe porque os discípulos faziam isso? Porque nós, os seres humanos, somos pecadores, e o pecado faz isso conosco, nos impede de ter um relacionamento verdadeiro com Jesus, faz com que enxerguemos que somos melhores do que na realidade somos.
O ser humano é assim, vive achando que é imprescindível, que é o melhor. Vive se autopromovendo, se autojustificando. Quem nunca ouviu frases como essas? Se não fosse eu nessa família, nada aconteceria!
Essa é clássica das mães: - Vocês vão ver o que vai acontecer quando eu morrer! Ou então:
- Se não fosse eu essa igreja já teria fechado.
- Se não fosse eu essa empresa já teria aberto falência, e por aí vai.
Havia um homem na igreja, que era líder de um ministério social de distribuição de cestas básicas. Ele organizava tudo: as listas, as compras, a entrega. Sempre falava, com um ar meio sério e meio orgulhoso: “Se não fosse eu, esse ministério já teria acabado há muito tempo.”
Um dia, o sujeito precisou viajar de emergência por causa de um problema de saúde na família. Mas ficou aflito porque achava que tudo ia parar na igreja porque ele não estaria presente. Então, antes de ir, deixou recados, números e listas, quase com pena de entregar as responsabilidades. No fundo, ele pensava: “agora eles vão dar valor em mim, agora eu quero ver como eles vão se virar sem mim.”
Dois meses depois, ele voltou. Ao chegar no culto, viu uma pilha de cestas básicas ainda maior do que antes, pessoas testemunhando como tinham sido ajudadas, e o pastor agradecendo a todos os irmãos que, juntos, haviam se mobilizado para cobrir a ausência dele. Foi então que o homem descobriu que um grupo silencioso de irmãos, que sempre estava por trás de tudo, sem aparecer, vinha contribuindo com recursos e força de trabalho.
Naquele dia, esse homem sentiu um aperto no peito: percebeu que não era ele que sustentava aquele ministério, mas Deus, usando muita gente que não fazia questão de aparecer. E, no meio do seu orgulho ferido, ele orou baixinho: “Senhor, perdoa o meu coração soberbo.”
E é justamente aí que Miquéias 6.6–8 entra com força no nosso coração. O povo, assim como o sujeito da nossa história e como os discípulos em Lucas 9, pensava que Deus estava mais interessado no tamanho da oferta ou no destaque das ações deles do que na essência do coração.
Eles acreditavam que, com mais sacrifícios, mais azeite, mais carneiros — ou, traduzindo para hoje, com mais horas de serviço, mais atividades, mais visibilidade — poderiam conquistar o favor de Deus. Mas o Senhor quebra essa lógica dizendo: “Eu não quero a sua performance, quero a sua vida. Não é sobre o quanto você faz, mas sobre como você vive diante de mim.”
O culto que Deus reconhece não é medido pela grandiosidade do que apresentamos, mas pela autenticidade do nosso relacionamento com Ele. Justiça, misericórdia e humildade são muito mais do que virtudes; são expressões visíveis de um coração que entendeu quem é Deus e quem somos nós. Não é nada sobre nós, é tudo sobre Ele.
Aliás, foi para isso que fomos criados: “O fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”. O próprio Jesus disse em Jo 15: “Sem mim nada podeis fazer”.
Isso significa que não há obra, serviço, música, culto ou atividade que seja verdadeiramente aceitável diante de Deus se não fluir da comunhão viva com Cristo. Prestarmos um culto genuíno ao Senhor tem muito mais a ver com Ele do que conosco, muito mais com buscar Sua presença em oração e adorá-lo com sinceridade do que com seguir nossas preferências ou estilos pessoais.
Quando entendemos isso, nosso foco muda. Não nos preocupamos mais com quem está vendo ou aplaudindo, mas com Quem está recebendo a glória. O culto deixa de ser uma vitrine para o ego e se torna uma resposta humilde e sincera à graça de Deus. E é esse culto — centrado Nele, dependente dEle e moldado pela Sua Palavra — que o Senhor reconhece e se agrada.
Quando nos agarramos à ideia de que somos indispensáveis, não só roubamos a glória que pertence a Deus, como nos afastamos da simplicidade de andar com Ele.
Por isso, diante desse texto, precisamos nos perguntar: será que o que oferecemos a Deus tem sido um reflexo do nosso amor e obediência, ou apenas uma vitrine para o nosso ego? Talvez hoje seja o dia de deixarmos de lado a autopromoção religiosa e abraçarmos a vida de justiça, misericórdia e humildade que o Senhor tanto deseja ver em nós. Porque no final, o culto que Deus reconhece não é aquele que impressiona as pessoas, mas o que agrada ao Seu coração.
Essa é a ideia central da pregação de hoje: “Deus não se agrada de rituais vazios ou ofertas grandiosas, mas de um coração que vive em justiça, misericórdia e humildade diante d’Ele".
Então vamos mergulhar no texto de Miquéias, primeiro vendo o peso inútil das ofertas vazias, nos versículos 6 e 7. Vamos ler novamente.
1. O peso inútil das ofertas vazias (6-7)
1. O peso inútil das ofertas vazias (6-7)
Miquéias 6.6–7 “Com que me apresentarei ao Senhor e me inclinarei ante o Deus excelso? Virei perante ele com holocaustos, com bezerros de um ano? Agradar-se-á o Senhor de milhares de carneiros, de dez mil ribeiros de azeite? Darei o meu primogênito pela minha transgressão, o fruto do meu corpo, pelo pecado da minha alma?”
O contexto dessa passagem é bem interessante. Tem haver com o povo de Israel e o que eles pensavam ser o correto para adorar a Deus.
O capítulo 6 de Miquéias começa com uma cena judicial simbólica: Deus convoca os montes e colinas como testemunhas de um julgamento contra o seu povo (vv. 1–2). O Senhor recorda Seus atos redentores na história de Israel (vv. 3–5), enfatizando que não há falha em Seu amor ou fidelidade.
Volte um pouquinho aí no texto e vamos ler rapidamente os versos Miquéias 6.1–5 :
“Escutem agora o que diz o SENHOR: “Levante-se, defenda a sua causa diante dos montes, e que as colinas ouçam a sua voz. Ó montes, escutem a controvérsia do SENHOR, e vocês, duráveis fundamentos da terra, prestem atenção, porque o SENHOR tem uma controvérsia com o seu povo e entrará em juízo com Israel. Meu povo, o que foi que eu lhe fiz? E como foi que eu o levei a ficar cansado? Responda! Pois eu o tirei da terra do Egito e o resgatei da casa da servidão, e enviei adiante de você Moisés, Arão e Miriã. Meu povo, lembre-se do que Balaque, rei de Moabe, havia planejado e do que Balaão, filho de Beor, lhe respondeu. Lembre-se também do que aconteceu desde Sitim até Gilgal, para que você conheça os atos de justiça do SENHOR.”
Então, vos vv. 6–7, o profeta expõe, por meio de perguntas retóricas, a postura equivocada do povo, que pensava agradar a Deus com sacrifícios cada vez mais exagerados. E o v. 8 conclui com a resposta clara e definitiva de Deus: Ele requer um viver justo, amor leal e comunhão humilde com Ele.
Miquéias profetizou no século VIII a.C., nos dias de reis como Jotão, Acaz e Ezequias, em meio a um período de corrupção política, exploração econômica e culto formalista. Israel e Judá haviam transformado a adoração em mera formalidade ritual, desconectada da vida prática. O culto era oferecido, mas a justiça, o amor e a fidelidade à aliança eram negligenciados — algo especialmente grave em uma sociedade onde a Lei já estabelecia que o amor a Deus e ao próximo estava acima de ritos vazios (cf. Dt 10.12–13; Os 6.6).
Nada diferente do que vemos hoje, em que muitos ainda confundem culto com espetáculo, piedade com agenda cheia e espiritualidade com aparência de santidade.
Continuamos caindo na tentação de medir nossa devoção pelo tamanho das nossas atividades, pelo quanto fazemos ou investimos, quando o Senhor está olhando para o coração e para a vida que levamos fora do templo.
É possível encher o calendário de eventos, aumentar o volume da música, multiplicar as ofertas e ainda assim estar longe de Deus.
O problema não é a oferta em si, mas quando ela se torna substituto da obediência. Quando o culto é reduzido a formalidade e perde sua ligação com a justiça, a misericórdia e a humildade, ele se torna pesado e inútil — pesado porque tenta sustentar uma imagem que Deus nunca pediu, inútil porque não alcança o propósito para o qual fomos criados: glorificar a Deus e gozá-lo para sempre.
E é justamente contra isso que Miquéias levanta sua voz, chamando o povo de volta ao que realmente importa.
É como o pai ausente que tabalha muito e chega cansado em casa e não quer se envolver com a família. Enão, na tentativa de compensar a falta de presença, enche os filhos de presentes caros — como se carinho pudesse ser comprado. Ou como o crente que nunca se envolve, não serve, não se importa com as necessidades do próximo, participa dos cultos na igreja quando dá, quando não tem nada mais importante pra fazer, mas pensa que uma oferta mensal no envelope “resolve” sua relação com Deus.
Esses gestos até podem ter algum valor material, mas não substituem o que realmente é requerido: relacionamento vivo, compromisso prático e um coração alinhado com a vontade do Senhor. É isso que Miquéias está denunciando: a falsa ideia de que dá para “comprar” a aprovação de Deus com atos pontuais, enquanto a vida permanece desconectada d’Ele.
Jesus denuncia esse tipo de culto ao confrontar os fariseus em Mateus 15.8–9, citando as palavras do profeta em Isaías 29.13: “Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim; e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens”. O culto que Deus reconhece não nasce da compensação, mas da comunhão; não é movido por culpa ou vaidade, mas por amor e obediência.
Podemos dizer que o discurso da “autojustificação” denunciado por Deus em Miquéias 6.6–7 é um retrato do coração humano tentando negociar com Ele.
O profeta Miquéias “se coloca no papel de um israelita adorador” que busca, por meio de ofertas, reconciliar-se com o Senhor. O problema é que, mesmo na forma mais nobre — “bezerros de um ano”, que era o sacrifício de melhor qualidade descrito em Lv 9.2–3, mesmo assim esse ato não atinge o alvo.
É dedicação aparente sem entrega real. No Antigo Testamento, holocaustos eram símbolo de entrega total (o animal representava o ofertante), mas se a vida por trás da oferta não refletia obediência e temor, o sacrifício se tornava apenas uma encenação. Isso ecoa o que o próprio Deus, que já havia declarado por meio de Samuel: “Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, melhor do que a gordura de carneiros” (1Sm 15.22).
O versículo 7 utiliza uma linguagem hiperbólica, exagerada — “milhares de carneiros” e “dez mil ribeiros de azeite” — para mostrar que, mesmo que alguém fosse capaz de apresentar sacrifícios absurdamente grandiosos, “eles não seriam suficientes”.
O ponto é claro: não se trata de quantidade, mas de qualidade espiritual; não da pompa do altar, mas da postura do coração. Esse princípio atravessa toda a Escritura. Oséias 6.6 resume: “Pois misericórdia quero, e não sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos.”
Jesus repete essa declaração (Mt 9.13; 12.7) para lembrar que a verdadeira adoração não pode ser separada da prática da justiça e da compaixão.
Por isso que o sacrifício perfeito é Jesus Cristo. Por isso que a salvação é pela graça, mediante a fé, e não pelo acúmulo de rituais ou méritos humanos.
Tudo o que era exigido pela Lei — cada cordeiro, cada oferta, cada gota de sangue derramado — apontava para Ele, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1.29).
Nele, justiça e misericórdia se encontram e a exigência divina é plenamente satisfeita (Sl 85.10). É por isso que Isaías denunciou um povo que multiplicava ofertas, mas mantinha mãos cheias de sangue e corações distantes de Deus.
Na cruz, Cristo ofereceu não apenas um ritual, mas a si mesmo, de forma perfeita e completa, abrindo um caminho de reconciliação que não depende de nossa performance, mas da sua obra consumada.
Isso confronta a mentalidade comum de que o “muito fazer” ou o “muito dar” compra a aprovação divina. Hoje, não apresentamos carneiros ou ribeiros de azeite, mas podemos cair no mesmo erro com cultos suntuosos, doações generosas, horas de serviço e envolvimento em ministérios, obra social de respeito, projetos sociais que envolvam as pessoas carentes da cidade inteira — tudo isso é bom mas não é o essencial. Pois sem uma vida rendida de fato ao Senhor nada disso tem valor diante de Deus, serão como obras de palha denunciadas em 1 Coríntios 3.12–15, onde Paulo alerta que, no Dia de Cristo, “o fogo provará qual seja a obra de cada um” e que tudo o que não for edificado sobre o fundamento que é Jesus será consumido. O culto que Deus reconhece não é medido pelo brilho externo, mas pela obediência sincera e pela fé viva que se expressa em amor, justiça e humildade. Sem isso, até as maiores realizações religiosas se tornam apenas fachada, incapazes de permanecer diante do olhar santo do Senhor.
Podemos nos sobrecarregar com atividades religiosas enquanto negligenciamos a oração, a vida devocional e o amor ao próximo. É o perigo de substituir comunhão por performance, entrega real por teatralidade espiritual.
O culto que Deus reconhece é o que nasce de um coração quebrantado. O Salmo 51.16–17 diz: “Pois não te comprazes em sacrifícios; do contrário, eu tos daria; e não te agradas de holocaustos. Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus.” Por isso que encontra na cruz de Cristo não apenas perdão, mas também o padrão de humildade e obediência. Isso é a ideia central da carta de Paulo aos Filipenses 2.5–8: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.”
Diante de tudo isso, reforçamos o ponto crucial: Deus não quer rituais vazios nem sacrifícios exagerados, mas um coração rendido.
2. O caminho simples da verdadeira adoração (8)
2. O caminho simples da verdadeira adoração (8)
É aqui que o versículo 8 entra como a resposta definitiva à religiosidade superficial. Depois de expor a vaidade e a falha das ofertas humanas, o profeta revela o caminho simples da verdadeira adoração, olhe para o texto — Miquéias mostra claramente o que agrada a Deus de fato: viver em justiça, amar a misericórdia e andar humildemente com Deus.
O versículo 8 de Miquéias 6 é a resposta definitiva de Deus à religiosidade vazia exposta nos versos anteriores: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e o que o Senhor pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus.”
Aqui, o profeta sintetiza toda a lei em três exigências que não podem ser separadas: Viver em justiça; amar a misericórdia; e andar humildemente com Deus.
O Senhor busca amor e obediência de coração, e não rituais ou performances externas. Essas três instruções formam um tripé inseparável:
>sem justiça, a misericórdia se torna sentimentalismo;
>sem misericórdia, a justiça se torna legalismo;
>sem humildade diante de Deus, ambos se perdem em arrogância espiritual.
Praticar a justiça significa fazer o que é certo no dia a dia: ser honesto, cumprir suas responsabilidades, tratar as pessoas com respeito e defender aqueles que são injustiçados ou vulneráveis. Não é apenas seguir regras, mas agir de forma correta em todas as situações da vida.
A justiça não se limita ao cumprimento da lei; ela se manifesta em honestidade, equidade e defesa dos fracos e oprimidos, a não se calar diante do mal e da injustiça.
Amar a misericórdia vai além do simples cumprimento da justiça: envolve bondade, lealdade e generosidade ativa. É a disposição de agir com compaixão mesmo quando não há obrigação, refletindo o caráter de Deus. Jesus amplia a lei nesse sentido, ensinando que não basta cumprir o mínimo exigido: “Se alguém te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas” (Mt 5.41) e ainda nos chama a amar os inimigos e orar pelos que nos perseguem (Mt 5.44).
Ele também exemplifica a misericórdia prática na parábola do bom samaritano (Lc 10.30–37) e ao ensinar que o maior mandamento é amar a Deus e ao próximo como a si mesmo (Mt 22.37–40).
A misericórdia, portanto, é ação que vai além do legalismo, é generosidade e compaixão ativas, refletindo o coração de Deus. A misericórdia deve ser amada, internalizada, não apenas praticada mecanicamente.
Andar humildemente com Deus expressa a necessidade de reconhecer nossa dependência total do Senhor. Esta palavra, única no Antigo Testamento, indica cuidado, modéstia e reverência ao caminhar diante de Deus. Ninguém é capaz de praticar justiça e misericórdia sem antes aproximar-se de Deus como pecador arrependido, confiando na graça e direção divina.
A humildade não é apenas uma virtude isolada, mas a base sobre a qual a justiça e a misericórdia se tornam possíveis.
Este triplo mandamento mostra que a verdadeira adoração envolve simultaneamente relacionamento com Deus e com o próximo. A obediência a Deus se manifesta na vida prática: defender o fraco, ser fiel nas responsabilidades cotidianas, mostrar amor e generosidade.
No Novo Testamento, Jesus confirma esse princípio, unindo a justiça e a misericórdia ao amor e à humildade. Vamos ver alguns exemplos disso: Acompanhe a leitura desses dois textos da Palavra de Deus:
Mateus 23.23 “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas!”
Lucas 10.25–37 “eis que certo homem, intérprete da Lei, se levantou com o objetivo de pôr Jesus à prova e lhe perguntou: — Mestre, que farei para herdar a vida eterna? Então Jesus lhe perguntou: — O que está escrito na Lei? Como você a entende? A isto ele respondeu: — “Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, com todas as suas forças e todo o seu entendimento.” E: “Ame o seu próximo como você ama a si mesmo.” Então Jesus lhe disse: — Você respondeu corretamente. Faça isto e você viverá. Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: — Quem é o meu próximo? Jesus prosseguiu, dizendo: — Um homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos de alguns ladrões. Estes, depois de lhe tirar a roupa e lhe causar muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o semimorto. Por casualidade, um sacerdote estava descendo por aquele mesmo caminho e, vendo aquele homem, passou de largo. De igual modo, um levita descia por aquele lugar e, vendo-o, passou de largo. Certo samaritano, que seguia o seu caminho, passou perto do homem e, vendo-o, compadeceu-se dele. E, aproximando-se, fez curativos nos ferimentos dele, aplicando-lhes óleo e vinho. Depois, colocou aquele homem sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte, separou dois denários e os entregou ao hospedeiro, dizendo: “Cuide deste homem. E, se você gastar algo a mais, farei o reembolso quando eu voltar.” Então Jesus perguntou: — Qual destes três lhe parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos ladrões? O intérprete da Lei respondeu: — O que usou de misericórdia para com ele. Então Jesus lhe disse: — Vá e faça o mesmo.
Irmãos, a verdadeira adoração começa no coração rendido à graça de Deus em Cristo. Não somos salvos pelos nossos esforços, pelas nossas ofertas ou pelas nossas obras, mas pela fé no sacrifício perfeito de Jesus.
Quando entendemos que Ele pagou o preço por nossos pecados, nossas vidas passam a refletir obediência, justiça e misericórdia não por obrigação, mas por gratidão.
Cada ato de amor ao próximo, cada gesto de compaixão e cada escolha de humildade diante de Deus se tornam, então, expressão de culto genuíno.
Portanto, o desafio é diário: viver de forma coerente com a fé que professamos. Não se trata de medir esforço ou desempenho, mas de permitir que a graça de Cristo transforme nossas atitudes.
Pergunte a si mesmo: minhas ações refletem justiça, misericórdia e humildade? Estou vivendo minha fé de modo que agrada a Deus, ou apenas cumprindo tradições e responsabilidades externas?
O culto que Deus reconhece é este: vida rendida, coração quebrantado, amor prático e dependência constante d’Ele.
CONCLUSÃO
CONCLUSÃO
Irmãos, vamos encerrar a exposição de hoje pensando em algumas questões práticas.
A grande ideia da passagem é: “Deus não se agrada de rituais vazios ou ofertas grandiosas, mas de um coração que vive em justiça, misericórdia e humildade diante d’Ele.”
Um dos grandes problemas é a autojustificação, o desejo de parecer melhor do que realmente somos. Isso é um grande obstáculo para a verdadeira adoração. Mas a Palavra de Deus nos alerta em Romanos 12.3, dizendo: “Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um.”
Não podemos agradar a Deus tentando nos justificar por obras ou rituais; a justificação verdadeira vem somente pela graça de Cristo, recebida pela fé.
Então para nós, que já fomos encontrados por Jesus, a aplicação é direta: examine sua vida e pergunte-se se sua devoção é marcada por justiça, misericórdia e humildade, ou se se limita a práticas religiosas externas. Lembre-se que servir a Deus vai além de ritos e ofertas: é permitir que Seu caráter seja refletido em cada ação diária. Busque andar humildemente, reconhecendo que é a graça de Deus que sustenta sua comunhão com Ele e capacita sua vida transformada.
Para quem ainda não está caminhando com Cristo, tenha por certo que Deus não se conquista com barganhas religiosas ou boas obras exageradas. Não adianta fazer sacrifícios, pagar promessas, fazer penitências. O que Deus requer de nós é um coração sincero e rendido. Somente em Cristo encontramos o exemplo perfeito de justiça, misericórdia e humildade, e Nele é possível iniciar uma vida nova, reconciliada com Deus.
A verdadeira adoração começa na fé e não em tentativas humanas de “comprar” o favor divino.
O desafio final para todos nós é claro: seguir o exemplo de Jesus, vivendo cada dia com justiça prática, amor misericordioso e humildade genuína diante de Deus.
Um grande servo de Deus do passado, Agostinho de Hipona, em suas confissões declarou, de forma poética, algo que me inspira muito a buscar de Deus essa mudança que precisamos para a nossa vida e eu quero terminar a pregação com a leitura desse texto:
“Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas das tuas criaturas. Estavas comigo, mas eu não estava contigo. Retinham-me longe de ti as tuas criaturas, que não existiriam se em ti não existissem. Tu me chamaste, e teu grito rompeu a minha surdez. Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira. Espargiste tua fragrância e, respirando-a, suspirei por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz.
Agostinho, Santo. Patrística - Confissões - Vol. 10 (Portuguese Edition) (p. 210). Paulus Editora. Edição do Kindle.
Que nossa vida se torne o culto que Deus realmente deseja, um reflexo do Seu caráter e da Sua graça em nós.
Amém!
