Ser Igreja é viver a perfeição no imperfeito

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Texto base:
Colossians 3:12–17 NVI
Portanto, como povo escolhido de Deus, santo e amado, revistam-se de profunda compaixão, bondade, humildade, mansidão e paciência. Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros. Perdoem como o Senhor lhes perdoou. Acima de tudo, porém, revistam-se do amor, que é o elo perfeito. Que a paz de Cristo seja o juiz em seu coração, visto que vocês foram chamados para viver em paz, como membros de um só corpo. E sejam agradecidos. Habite ricamente em vocês a palavra de Cristo; ensinem e aconselhem-se uns aos outros com toda a sabedoria, e cantem salmos, hinos e cânticos espirituais com gratidão a Deus em seu coração. Tudo o que fizerem, seja em palavra ou em ação, façam-no em nome do Senhor Jesus, dando por meio dele graças a Deus Pai.

Uma breve definição

O que nos faz ser igreja? Será que é o fato que nos encontramos uma vez por semana? Será que é estarmos juntos em um mesmo lugar? Ou fazer parte de algum ministério ou exercer algum trabalho em nome de algo ou alguém? Ou até mesmo, vestir roupas específicas e usar uma linguagem própria? A verdade é que tudo isso que eu falei pode muito bem, definir uma igreja em nossos dias, como também um clube.
Ser igreja não é uma simples reunião como alguns pensam, mas sim, a reunião daqueles que foram alcançados por aquilo que Deus fez – e que agora são chamados a fazer algo em resposta. E é exatamente sobre essa verdade que vamos meditar e aprender em nosso texto.

Foi Deus que começou…

Em primeiro lugar, o que nos torna uma igreja, não é a vontade humana e nem o esforço de alguém. Não foi o desejo de um pastor em iniciar um trabalho e muito menos um projeto rentável que um ser humano efetuou. O que nos torna igreja em primeiro lugar é aquilo que Deus fez em nós.
Agora, o que Deus fez em nós? Paulo lista quatro coisas:
1. Ele nos escolheu (v.12a) — Eu tenho uma teoria! Para mim, 98% dos casais são formados por dois tipos de pessoas: Os que sabem exatamente o que querem, que decidem rapidamente e com firmeza, e os que são indecisos por natureza. Por exemplo, em casa, enquanto eu não tenho tanta dificuldade em escolher algo, minha esposa é do tipo que passa um bom tempo olhando o cardápio. Durante esse tempo, ela continua indecisa e, no final, quando escolhe, acaba pedindo a mesma coisa de sempre.
Paulo nos lembra que a primeira coisa que Deus faz é nos escolher. Essa escolha não é por acaso. Não fomos frutos de coincidência, nem escolhidos por último, como se só restasse a nós. Deus em sua santa e infinita bondade, antes de todas as coisas serem criadas, nos escolheu desde a eternidade (Ef 01.04-05).
2. Ele nos separou (v.12b) — Não só fomos escolhidos, como também fomos separados por Deus, como sua propriedade exclusiva. Entenda que ser santo, nesse caso, não significa “ser perfeito”, mas sim, ser dedicado a Deus, ser reservado para um propósito que Ele mesmo definiu;
3. Ele nos amou (v.12a) — Deus não apenas nos escolheu e nos separou, como nos amou profundamente desde o início. Esse amor é pessoal e transformador. Ele não é um chefe que nos chama e separa para trabalharmos em sua empresa para nunca mais termos contato com Ele. Tratando-se de Deus, tanto escolher, como separar, são coisas possíveis pois além de ser Amor, Ele também ama.
4. Ele nos perdoou (v.13b) — Deus poderia ter apenas nos escolhido, e isso já seria grandioso. Ele poderia ter nos separado como sua propriedade exclusiva, e já seria suficiente. Poderia até ter nos amado, e isso já seria extraordinário. Mas Ele foi além. Ao nos perdoar, Ele nos reconciliou consigo mesmo e nos aproximou da sua presença, para que vivamos em comunhão com Ele.
Ser igreja só é possível, pois Deus fez algo em primeiro lugar. Ser igreja, antes de tudo, é algo que não depende de nós. A igreja não existe, não acontece e sobrevive por ser um empreendimento humano. Se hoje nos reunimos, se podemos cantar, orar, servir e aprender juntos, é porque Ele nos escolheu, nos separou, nos amou e nos perdoou. É o agir de Deus que nos dirige e nos define como igreja.
No entanto, uma definição mais correta e honesta do que é ser igreja, não é completa se não apontarmos para aquilo que nós devemos fazer.

Como nós devemos agir?

É diante daquilo que Deus fez, que somos chamados para a ação.E é justamente aqui que existem dois extremos na igreja de Cristo: De um lado, existem pessoas que desejam e fazem tudo sozinhas. Estão sempre ocupadas, correndo de uma atividade para outra, como se a aquilo que Deus fez e faz não fosse suficiente. De outro, há quem pense: “Cristo já fez tudo, então não preciso me esforçar em nada”.
Paulo nos mostra que nem um extremo, nem o outro, expressam a verdade do evangelho. A obra de Cristo é suficiente e completa, mas é justamente ela que nos chama a viver em resposta, como novas criaturas dentro da comunidade de fé.
No v.12, o apostolo poderia simplesmente listar comportamentos, mas escolhe usar a imagem de quem escolhe e veste uma roupa todos os dias. Ele diz:
Colossians 3:12 NVI
“...revistam-se...”
Isso nos mostra que viver como igreja não é automático. É uma decisão diária, que se manifesta em ações cotidianas e conscientes, especialmente na maneira como tratamos uns aos outros. E dessas ações diárias e conscientes, vemos:
Compaixão: É sentir pelo outro. É se importar com as dores e necessidades, mesmo quando alguém erra ou nos desaponta. É oferecer ajuda, ouvir com atenção e, acima de tudo, se colocar no lugar da outra pessoa.
Bondade: É agir pelo bem do próximo, sem esperar algo em troca. É fazer pequenas coisas que mostram cuidado, como apoiar, incentivar ou simplesmente estender a mão quando alguém precisa.
Humildade: É reconhecer nossas limitações e não buscar estar acima do outro. É estar disposto a ouvir, aprender e servir, sem orgulho ou vaidade.
Mansidão: É lidar com os outros com calma e gentileza, mesmo quando eles nos provocam ou discordam de nós. É responder com paciência, e não com agressividade.
Paciência: É saber lidar com as limitações e dificuldades do outro sem irritação. É manter a calma e a perseverança, mesmo quando situações ou atitudes nos desafiam, buscando sempre a compreensão e o bem do próximo.
Suportar uns aos outros: É conviver com as diferenças do outro sem julgar. É aceitar que cada irmão tem sua própria história, personalidade e jeito de agir.Perdão: É liberar o outro das ofensas e mágoas, mesmo quando dói. É manter a unidade da comunidade, lembrando que nós mesmos fomos perdoados por Deus.
Agora, sejamos sinceros! Quão difícil coisa é viver tudo isso. Difícil coisa é tornar essas atitudes em práticas diárias em nossas vidas. A questão é que quando tratamos sobre igreja, parece que isso tudo se torna ainda mais difícil. Afinal, se existe um lugar onde encontramos pessoas quebradas, pessoas com falhas de caráter e pessoas imperfeitas, esse lugar é a igreja.
De modo mais fácil, conseguimos tolerar alguém que não professa a mesma fé que nós. Conseguimos perdoar colegas de trabalho, amigos de longa data e familiares. Mas irmãos na fé, por vezes é muito mais difícil.
Até porque, são essas pessoas que conhecem a Palavra. São pessoas assim que vemos todos os domingos na igreja. É esse tipo de pessoa que vemos nas fotos nas redes sociais com as mãos erguidas visivelmente quebrantadas.
Sim, somos mais maleáveis com aquilo que acontece fora da comunidade da fé, do que com aqueles que chamamos de nossos irmãos em Cristo Jesus. Como isso acontece? Bom, se por algum motivo brigamos com um colega de trabalho, no outro dia estamos cumprindo com nossos horários, nos sentando à mesa na hora do almoço e tudo isso como se nada tivesse acontecido. Já, se nos desentendemos com um irmão na fé, ou se apenas sabemos de algo que aconteceu (e às vezes nem foi com a gente) isso já se torna um motivo de mudarmos de igreja ou nunca mais acreditarmos no evangelho.

Fundamentos para se viver em comunidade

Por mais que saibamos o que deve ser feito e conheçamos as atitudes que Paulo nos chama a viver uns com os outros, a verdade é que sozinhos não conseguimos. É diante dessa impossibilidade humana que ele nos apresenta fundamentos, recursos que tornam possível a vida em comunidade e a prática dessas atitudes.Paulo nos mostra três fundamentos que devem sustentar a vida da igreja:
A paz de Cristo como árbitro em nossos corações (Cl 3.15) – Aqui, Paulo nos lembra que não são os nossos sentimentos que devem comandar nossas reações. Não é o nosso ego, nem nossas frustrações, que determinam como lidamos com os outros. A paz de Cristo atua como um juiz, um mediador interno, equilibrando nossos corações diante de conflitos, mágoas ou provocação. Por exemplo, quando um irmão nos irrita ou nos desaponta, não é nossa raiva ou impaciência que deve decidir nossa resposta, mas a paz de Cristo que nos permite agir com mansidão, compaixão e paciência.
A palavra de Cristo habitando em nós (Cl 3.16) – Não basta apenas conhecer a Bíblia; ela precisa fazer morada em nosso coração. Quando a palavra de Cristo habita em nós, adquirimos sabedoria para aconselhar, ensinar e apoiar uns aos outros com discernimento. Por exemplo, diante de um irmão que enfrenta uma dificuldade, não agimos segundo nossas experiências ou até nós inexperiência, mas nesse caso, somos guiados pela sabedoria que Deus nos dá, oferecendo palavras que edificam e fortalecem.
Fazer tudo em nome do Senhor Jesus (Cl 3.17) – Nossas ações não devem ser apenas bem-intencionadas, mas inspiradas pela certeza de que refletimos Cristo em cada atitude. Isso significa assumir responsabilidade sobre o que fazemos, sabendo que nossas palavras e gestos impactam aqueles que nos veem. Por exemplo, ao ajudar alguém ou corrigir com amor, fazemos isso como se o próprio Cristo estivesse atuando naquela situação, e não apenas nossa boa vontade.
E é nesse ponto que devemos chegar a uma grande conclusão: Deus fez algo no início de tudo e não parou por ali. Ser igreja não é apenas compreender e viver a realidade de que Deus fez algo por nós. É também compreender que, para agirmos da maneira certa (que agrada a Deus) uns com os outros, dependemos de Deus para assim viver. Ele não só nos escolheu, nos separou, nos amou e nos perdoou. Ele é quem nos dá condições de praticar a compaixão e a bondade, viver em humildade, ser manso e paciente, suportar uns aos outros e perdoar de verdade.
Se tentássemos fazer isso apenas com nossas próprias forças, como muitas vezes tentamos, rapidamente perceberíamos nossas limitações. É por isso que recorremos a Deus! Afinal, Deus que tem o poder de manter a paz de Cristo em nossos corações, é Ele que nos dar a Sua Palavra e pode fazê-la habitar em nós e é Ele que pode nos capacitar a agir como Jesus agiria. Ele não apenas inicia a transformação; Ele a sustenta e nos garante um futuro onde, mesmo em meio à imperfeição e aos nossos erros, podemos viver a perfeição do Seu amor como comunidade. Em outras palavras, precisamos de Deus, para ser a igreja de Deus.

Viver a perfeição no imperfeito

Sabe, irmãos, quando pensamos em ser igreja, na mente da maioria das pessoas, é “normal” esperar a perfeição dos outros. Esperamos que os irmãos sejam bondosos, que tenham compaixão, que sejam humildes, mansos, pacientes, que perdoem. Afinal, é isso que nós ouvimos. E a gente torce para que o irmão do nosso lado também tenha ouvido. E nós esperamos isso porque nós estamos na igreja, não é? Parece justo esperar por isso.
Mas a verdade é que esperar a perfeição dos outros é um erro cometido de duas maneiras. A primeira maneira é porque nós queremos e exigimos que o outro seja perfeito, mesmo que nenhum de nós seja. Nós não vivemos em um mundo perfeito e ainda assim insistimos e esperamos que as coisas aconteçam de maneira perfeita, ignorando essa realidade.
E a segunda forma de errar é que, ao exigirmos que as pessoas sejam perfeitas, esquecemos que nós não somos. Por vezes esperamos algo que nós mesmos não entregamos. É então que se começa um jogo de culpa, porque a pessoa diz: “—Eu não perdoo o outro porque ele não perdoa.” “—Eu não faço tal coisa porque ele não faz.”
E nesse jogo de transferir a responsabilidade, quem perde é a igreja. Porque viver desse jeito não é viver como quem tem a paz de Cristo como árbitro. Não é viver como quem tem a palavra de Cristo habitando no coração. E não é viver como quem vive em nome de Cristo.
Paulo, depois dessas palavras que lemos em Colossenses 03.12-17, segue mostrando como devemos viver em cada área das nossas vidas: no casamento, nos relacionamentos entre pais e filhos, no trabalho. E ele resume tudo nos v. 23-24:
Colossians 3:23–24 NVI
Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens, sabendo que receberão do Senhor a recompensa da herança. É a Cristo, o Senhor, que vocês estão servindo.
Esse é o ponto. Ser igreja não é apenas esperar dos outros, nem exigir perfeição de quem não pode dar. Ser igreja é entender que tudo o que nós fazemos, até quando servimos quem não reconhece, até quando demonstramos amor sem receber nada em troca, até quando agimos com paciência e compaixão com alguém que falhou conosco, tudo isso não é para os homens. É para Cristo.
Embora as pessoas sejam beneficiadas de alguma forma, embora eu e você venhamos arcar com o custo de ser discípulo mesmo quando os outros não fazem, tudo isso fazemos como para Cristo Jesus.
A recompensa que recebemos não é o reconhecimento humano. Não é o aplauso. Não é uma troca de gentilezas. A recompensa que recebemos vem de Cristo.
E é essa a beleza da igreja: no meio da imperfeição dos irmãos, podemos experimentar e desfrutar da perfeição de Deus. Ele é quem começa a obra. Ele é quem age em primeiro lugar. Ele nos chama para agir. Ele nos capacita a agir. E é Ele que nos recompensa no fim.
Que Deus tenha misericórdia de nós. Amém!
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