O Rei sobre os impossíveis da vida (Marcos 9.14-29)
O Rei que se tornou servo: sermões no Evangelho de Marcos • Sermon • Submitted • Presented
0 ratings
· 13 viewsNotes
Transcript
O Rei sobre os Impossíveis da Vida (Marcos 9.14-29)
O Rei sobre os Impossíveis da Vida (Marcos 9.14-29)
Introdução
Introdução
Em nossa jornada, Marcos tem nos mostrado o aspecto desafiador da caminhada com Cristo, especialmente após o capítulo 8. O tema do discipulado foi aberto e tem sido aprofundado por Marcos. Os discípulos têm demonstrado dificuldades em entender e tirar as conclusões corretas sobre quem Jesus é. Nossa própria jornada com Deus, como um todo, não é uma linha reta para cima; ela tem seus altos e baixos. Nem sempre nossa visão estará cristalina e imediata, e muitas vezes veremos as coisas de forma embaçada, como aquele cego de Betsaida.
Embora Marcos seja o menor dos evangelhos sinóticos, o texto de hoje é duas vezes maior que o relato em Mateus em Lucas. Isso nos mostra o quanto este episódio é importante para o evangelista. Os temas centrais são a incredulidade e a fé, e, curiosamente, esta é a passagem das perguntas, como veremos ao longo da exposição.
O cenário em que a narrativa acontece é crucial. Logo após a experiência gloriosa da Transfiguração no monte, onde o Reino de Deus veio com poder para alguns, Jesus desce à planície e encontra um povo em condição de profunda incredulidade. Isso nos lembra a conexão entre Moisés e Jesus: ambos descem do monte (Sinai e da Transfiguração) e encontram incredulidade em meio ao povo.
A narrativa que Marcos nos apresenta é uma das mais importantes de seu evangelho, pois conecta diretamente a fé com a oração, e a oração com a dependência.
Exposição
Marcos 9.14-29 nos confronta com a realidade da incredulidade humana diante do poder de Deus e nos aponta para a verdadeira fonte de poder: Jesus.
1. O Cenário da Confusão (vs. 14-15)
1. O Cenário da Confusão (vs. 14-15)
Ao descer do monte, depois daquela experiência maravilhosa de glória antecipada, Jesus e os três discípulos encontram o que Marcos descreve como uma cena de confusão e discussão entre os discípulos e os mestres da lei diante da multidão. O quadro, narrado por alguém que parece ter visto o ocorrido [muitos estudiosos concordam que Pedro é a fonte principal de Marcos], é de briga, e não de um diálogo que busca a verdade (talvez um amontoado de perguntas?).
No meio daquele tumulto, o diabo continua agindo [os discípulos discutindo e o diabo agindo], e o menino, possuído, continua sofrendo. A multidão, surpresa com a chegada de Jesus, corre a saudá-lo. Por que surpresa? Não esperavam Jesus com os discípulos? Estavam falando sobre Jesus e ele apareceu? É provável. Estavam discutindo sobre a incapacidade dos discípulos e agora Jesus apareceu? Provável também. Jesus ainda transmitia reminiscência daquela glória? Não sabemos.
2. A Origem da Discussão (vs. 16-19)
2. A Origem da Discussão (vs. 16-19)
Jesus questiona a causa da discussão (16). Antes que os discípulos respondam, o pai do menino se manifesta, descrevendo a dimensão da dor e do sofrimento de sua família. A fala dele explica que trouxe seu filho aos discípulos de Jesus para que o curassem, mas eles não puderam. Ao mesmo tempo, demonstra que o problema do pai era urgente, enquanto os discípulos estavam presos a uma discussão infrutífera. É provável que a incapacidade dos discípulos tenha desencadeado a discussão, mas fica claro que ficaram presos à discussão enquanto aquele jovem ainda precisava de socorro.
A exclamação de Jesus em resposta ao cenário é um lamento: "Ó geração incrédula, até quando estarei convosco? Até quando vos sofrerei?" O alvo desta repreensão parece ser geral. Embora Jesus não use o termo "geração" para se referir somente aos discípulos, o contexto aponta para uma incredulidade generalizada. Os discípulos não progridem com o jovem, o pai do menino está com o coração endurecido, e a multidão e os mestres da lei estão mais preocupados com a discussão do que com a necessidade urgente do menino.
Jesus considera tudo isso desagradável. Temos que observar o paralelo entre “estar” e “suportar”. Isso nos faz imaginar qual o tom de Jesus. Ira ou suspiro? De qualquer forma, sua pergunta revela o quanto a incredulidade é exaustiva para Ele e que o objetivo de sua exclamação é de envergonhar aqueles que o ouvem. Todos são desafiados.
3. O poder de Jesus sobre situações impossíveis (vs. 20-24)
3. O poder de Jesus sobre situações impossíveis (vs. 20-24)
O pai traz o filho a Jesus, e quando o menino O vê, o espírito o convulsiona violentamente. Como D. A. Carson nos lembra, quando Jesus confronta um mundo cheio de pecado, pode haver muita convulsão antes de haver arrependimento. Pode haver muito horror antes de haver solução. Quando o mundo demoníaco está perante Jesus, o mundo convulsiona.
A pergunta de Cristo sobre há quanto tempo a situação ocorre revela que o público não está vendo tudo: a situação é grave! Os olhos dos presentes e dos leitores deviam perceber isso. O pai acrescenta que a tormenta é de longa data e já levou o menino a tentar o suicídio.
A resposta do pai ao descrever a situação revela a incredulidade de seu coração, expressa em sua dúvida: "se tu podes alguma coisa". A resposta do homem expõe a informação equivocada do coração diante de situações difíceis. O tipo de resposta que cresce em um ambiente de de incredulidade: que Deus não pode.
A nova pergunta de Jesus é: "Se podes?". É como se Jesus dissesse: "Você acha que a questão é se Deus pode fazer isso? Você não entende que ao fazer algo, não existe algo difícil para Deus?". A resposta de Jesus revela que o problema não é se Deus pode, ou mesmo se Ele quer, mas uma questão de fé.
Precisamos entender o que significa fé. Esse texto se tornou um texto facilmente abusado por alguns cristãos, muitas vez uma espécie de mantra espiritual onde Deus é um tipo de força que é acionada quando se quer. Ou mesmo abusos relacionados a crença que dificuldades da vida são resultado condicional da falta de fé. Em nossa cultura, a fé é frequentemente vista como uma escolha religiosa ou uma crença subjetiva, desconectada da verdade. No entanto, a Bíblia não usa a palavra dessa forma.
Como D. A. Carson nos ensina, a fé verdadeira não tem substância se for desconectada da veracidade do seu objeto. Ele nos lembra, por exemplo, que em 1Coríntios a fé desconectada da realidade e da veracidade é sem substância, sem credibilidade, uma futilidade e piada. A fé depende da veracidade do objeto de fé. Mas não somente isso - os demônios já cumprem essa condição, conforme Tiago. A fé depende de uma total e pessoal confiança no Salvador Jesus.
O contexto não é de que "quem tem fé pode tudo", mas de que quem tem fé não duvida da capacidade de Deus diante dos nossos impossíveis. De que quem tem fé pode aguardar a ação soberana de Deus sem perder a expectativa de que ele faça mais do que esperamos. A questão é onde a fé repousa.
Diante do desafio de Cristo, o homem crê. O fruto da repreensão foi que o homem percebeu sua incredulidade. A força da fé não depende da sua quantidade, depende do objeto de fé (se sua fé for do tamanho de um grão de mostarda …”). Parte da fé é pedir para ter fé: "Ajuda-me na minha falta de fé!". Isso está fora da nossa mentalidade moderna: como assim o crente se vê incrédulo no processo? A bíblia nos desafia a apreender as complexidades.
4. O retorno à dependência (vs. 25-29)
4. O retorno à dependência (vs. 25-29)
O povo se aglomera, e Jesus repreende o espírito imundo, ordenando-lhe que saia. O espírito convulsiona o menino, deixando-o como morto. O interessante é que isso demonstra a falta de fé das pessoas, que só veem, de sua perspectiva, a situação piorar: "o menino estava endemoniado, mas agora parece morto". Mas Jesus, tomando-o pela mão, o levanta, e ele se põe em pé.
Agora entendemos a questão da fé no texto com mais nitidez. A conclusão é clara: Cristo é o Senhor! Ele pode fazer qualquer coisa. Ninguém pode impedi-lo. Esse é o poder e a autoridade daquele que está indo para a cruz.
Depois de toda a situação, os discípulos perguntam em particular: "Por que não pudemos nós expulsá-lo?". Jesus responde que aquele tipo de espírito só pode sair por meio de oração. O jejum parece ser um acréscimo posterior, pelo entendimento que fé, oração e jejum andavam juntos. Para o contexto imediato, o jejum não faz sentido pois os discípulos não jejuavam na presença de Jesus. É provável que os discípulos, devido aos grandes feitos que Deus estava fazendo através deles, tenham desenvolvido a compreensão de que o poder estava neles. Eles descansaram em si mesmos. Descansaram de depender de Deus. O espírito de dependência é o estado daquele que ora. Os discípulos deveriam estar em oração, clamando a Deus, mas perderam seu tempo em discussões vãs. A disciplina da oração que Jesus tanto desenvolvia lhes faltava. Sua fé foi reprovada por falta de poder. Eles precisavam buscar a Deus para poder servir melhor ao próximo.
Aplicações
Aplicações
Aqui estão cinco lições que podemos extrair deste texto para nossa vida hoje:
1. A incredulidade faz com que nos preocupemos mais com as coisas menos importante.
1. A incredulidade faz com que nos preocupemos mais com as coisas menos importante.
A incredulidade faz com que nos preocupemos mais com as coisas menos importantes, como a discussão entre os discípulos e os mestres da lei. Os discípulos a pouco confundiram a glória do momento com a glória de Cristo. Agora, outros discípulos, ao invés de estarem em oração, em diligente labor para auxiliar aqueles que sofrem, estão presos em discussões. Não que discussões não tenham seus lugar, mas às vezes tomam a nossa agenda quando temos tarefas mais importantes a fazer, como ajudar nossos irmãos e o próximo. Porém, invertemos as prioridades devido a incredulidade. Quais tarefas prioritárias você tem deixado para depois, pois, movido pela incredulidade e desobediência, você tem se dedicado a tarefas secundárias.
2. A Dúvida e a Fé no Mesmo Lugar.
2. A Dúvida e a Fé no Mesmo Lugar.
Em nossa vida, montes e vales serão, muitas vezes, a sequência dos nossos dias. Moisés e a descida. Jesus no batismo e no deserto. Aqui, a transfiguração no monte seguida pela incredulidade no vale. Parece que estes acontecimentos nos direcionam a uma realidade em nossas vidas. O Evangelho de Marcos desenvolve em nós a consciência de nossa total insuficiência e da total suficiência do Salvador. De que nossa caminhada com Cristo não é uma linha reta para cima. De que fé não é questão de tamanho. Talvez hoje somente uma faísca de confiança está presente em você, mas ela deve ser exercitada. Use a sua faísca. Faca como aquele homem e, mesmo em sua dúvida, clame: "ajuda-me na minha falta de fé".
3. Ore quando tudo está bem. Ou: A Oração como Demonstração de Dependência.
3. Ore quando tudo está bem. Ou: A Oração como Demonstração de Dependência.
Jesus é o nosso maior exemplo de dependência do Pai - e Ele ora sempre. O texto nos ensina que a oração é a forma de alimentar nosso espírito de dependência. Quando tudo está bem, será que oramos menos? Quando nosso casamento está bem, quando nossas finanças estão bem, será que oramos menos? Será que oramos menos porque está tudo bem, ou porque pensamos que o "estar bem" depende de nós? Se há confiança, transforme isso em oração. Alimente seu espírito de dependência em todos os momentos. Na oração, nosso senso de dependência é alimentado. Os discípulos deveriam ter buscado a Deus em oração, mas estavam perdendo seu tempo com discussões. A disciplina da oração que Jesus tanto desenvolvia lhes faltava.
4. Em momentos difíceis, é esperado que discípulos creiam.
4. Em momentos difíceis, é esperado que discípulos creiam.
Aquele pai vive uma peleja há muitos anos, mas a pergunta desafiadora de Jesus revela que ele deixou de confiar. E por que essa pergunta desafiadora? Porque precisamos negar muitas coisas para não crer. O desafio da narrativa é que os presentes não estão crendo, quando se esperava naturalmente que cressem. Não que o ser humano seja capaz de crer sozinho - “ajuda-me na minha falta de fé”, mas ele faz um esforço muito grande para não crer. Pergunte-se: Por que não deveríamos acreditar n'Ele? Por que não deveríamos confiar n'Ele? Por que não deveríamos obedecer a Ele? Por quanto tempo Jesus precisa suportar a nossa falta de fé? Às vezes, tudo que precisamos para nos voltar em fé é que alguém nos pergunte: "Você não crê?" (cf. Apocalipse 2.14-22).
5. Onde o texto te desafia na sua falta de fé?
5. Onde o texto te desafia na sua falta de fé?
“Pastor, mas se eu tiver fé tudo vai ficar bem?” O texto não nos ensina que "quem tem fé pode tudo". Em vez disso, nos ensina que quem tem fé não duvida da capacidade de Deus diante dos nossos impossíveis. Onde o texto te desafia na sua falta de fé? Qual é o seu "se podes?"? O que você já aceitou como explicação para não avançar para a obediência a Deus? Será que a situação que temos agora pode ainda não ser a que se extrai da fé? A fé não é uma fórmula que aciona Deus para realizar nossos desejos, mas uma total confiança de que podemos aguardar a ação soberana de Deus sem perder a expectativa de que ele faça mais do que esperamos. Que podemos agir em expressão de nossa confiança no poder de Deus para vivermos conforme aquilo que Deus espera de nós.
SDG
