Não fosse o Senhor
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Salmo 124
Salmo 124
Introdução:
No fim de cada ano, as emissoras de TV costumam apresentar uma retrospectiva, relembrando os principais acontecimentos que marcaram o Brasil e o mundo. Esse hábito de olhar para trás é comum, pois recordar nos ajuda a valorizar o que aconteceu e a aprender com o passado. Mas será que fazemos isso em nossa vida pessoal? Quantas vezes paramos para refletir sobre o que já vivemos — nossos erros, acertos e até os livramentos que recebemos?
É justamente esse exercício de memória que o salmista realiza no Salmo 124. Ele olha para a história de Israel e reconhece: se o Senhor não estivesse ao lado de seu povo, eles teriam sido destruídos. Ao recordar, ele entende que Deus sempre esteve presente, guardando e preservando a vida da nação. Assim, o salmo nos convida a refletir sobre a mesma pergunta: “E se não fosse o Senhor?” O que teria sido de nós?
O texto nos mostra uma verdade preciosa: é o Senhor quem preserva a nossa existência. Veremos essa ideia ao longo do Salmo.
Desenvolvimento:
Não é difícil imaginar que esse salmo tenha sido usado também no retorno do exílio babilônico, quando o povo experimentava um novo começo após setenta anos de cativeiro.
No entanto, o texto traz a marca de Davi. E, conhecendo sua história, entendemos bem o tom dessa reflexão.
Davi passou boa parte da vida na corte de Saul, mas sempre cercado de perigos. Quantas vezes sua vida esteve por um fio? Lanças lançadas contra ele, perseguições intensas, noites escondido em cavernas.
Mesmo sendo o rei ungido, seu caminho não foi fácil, pois Saul não entregaria o trono de bom grado — embora tivesse reconhecido em 1Sm 24.20 que o reinado seria de Davi.
É desse lugar de memória que Davi declara: “Se não fosse o Senhor que esteve ao nosso lado...”. Ele chama o povo a refletir não apenas sobre sua própria vida, mas sobre a história da nação inteira.
O livramento de Davi foi também o livramento de Israel. E o povo, ao recitar esse salmo, era convidado a reconhecer a mesma verdade: todos foram preservados pela mão de Deus.
Essa retrospectiva é também um convite para nós. Substitua o nome de Israel pelo seu. Relembre os dias bons e maus, os momentos em que você esteve em perigo, em aflição ou em enfermidade.
Quantas vezes algo poderia ter dado errado, mas não deu? Quantas vezes parecia que não haveria saída, mas o Senhor interveio?
O salmista repete, para enfatizar: os inimigos vieram, mas o Senhor estava lá. Os homens tramaram, mas Deus os limitou.
A sombra protetora de Deus acompanhava o seu povo em cada detalhe. E essa é uma importante lição: Deus guarda os seus, mesmo nos piores dias.
Repitam comigo, irmãos: “Se não fosse o Senhor...”. Essa frase ecoa como um refrão nos versos 3 a 5, trazendo imagens fortes que descrevem o que teria acontecido sem a intervenção divina.
O salmista diz que o povo teria sido engolido vivo. Davi sabia bem o que era estar a um fio da morte, quantas vezes escapou por pouco das mãos de Saul.
Da mesma forma, Israel conhecia essa realidade desde os dias do Egito: Faraó tentou aumentar o peso da escravidão, matar os primogênitos, eliminar a nação eleita de todos os modos. Mas falhou, porque o Senhor estava presente.
Essa verdade não mudou. O inimigo continua a perseguir o povo de Deus. João, em Apocalipse 12.17, descreve o dragão irado contra os que guardam os mandamentos e permanecem fiéis ao testemunho de Jesus.
A fúria de Satanás é real, mas a confiança do salmista também é real: o Senhor está conosco, e não seremos engolidos.
No verso 4, outra imagem aparece: a de águas impetuosas. Quem já viveu enchentes sabe como a água sobe de repente, tomando ruas e casas em questão de minutos.
Assim também eram os ataques das nações inimigas: rápidos, violentos e esmagadores. Se não fosse o Senhor, Israel teria sido arrastado sem deixar rastro.
O verso 5 reforça a cena: sem Deus, a destruição seria total. Mas Deus sempre intervém. Foi assim quando quebrou o orgulho de Faraó, mostrando sua pequenez diante das dez pragas.
Foi assim quando cegou Saulo de Tarso, que perseguia a igreja como uma onda impetuosa (Gl 1.13), até que fosse transformado em Paulo, o apóstolo dos gentios.
Essas imagens nos lembram que as águas, a fúria dos homens e até o ódio de Satanás só têm poder até onde Deus permite. Sem o Senhor, seríamos destruídos. Mas com Ele, permanecemos de pé.
Essa primeira parte do Salmo tem um caráter didático: ela procura fixar na mente do povo, seja por meio de imagens ou da repetição, que a razão de ainda estarem de pé não estava na força do braço humano.
Não foram os muros reforçados, nem um exército numeroso que impediram a destruição. Foi o Senhor dos Exércitos, o Deus todo-poderoso, quem estendeu a mão e manteve seu povo existindo.
Talvez alguém pergunte: por que tanta repetição? Por que ser tão enfático? Justamente porque o coração humano se esquece com facilidade. O próprio Davi passou por isso.
Perto do fim de seu reinado, mandou fazer o censo do povo (2Sm 24), colocando sua confiança não no Senhor, mas na força de sua mão de obra. E por esse pecado recebeu a disciplina de Deus, escolhendo três dias de juízo.
A repetição, aos hebreus, é uma técnica para fixar na mente a verdade essencial: o Senhor é quem guarda o seu povo. Nós esquecemos com frequência, mas Ele jamais se esquece de nós. E é por isso que permanecemos de pé.
A segunda parte do Salmo é um cântico de louvor que nasce da retrospectiva feita anteriormente. Depois de recordar os livramentos, o salmista reconhece: tudo foi obra de Deus.
Essa memória se torna uma âncora para os dias difíceis, pois nos lembra que o Senhor não abandona o seu povo. Ele age, Ele preserva. Por isso o verso 6 declara: “Bendito seja o Senhor” — Deus é exaltado por sua obra de preservação.
O salmista usa novas imagens para reforçar essa verdade. Sem o Senhor, Israel seria como uma presa fácil diante de um leão faminto.
Mas Deus os arrancou da boca do predador. Ou então, como no verso 7, seriam vítimas de uma armadilha mortal. Porém, foi o Senhor quem quebrou o laço do caçador, permitindo que Seu povo escapasse.
Um exemplo que ecoa essa ideia está em Atos 12: Pedro estava preso, esperando a morte. Mas, de repente, um anjo o desperta, as portas se abrem, e ele sai livre.
A armadilha havia sido desfeita, porque o Senhor tinha outros planos. Pedro podia descansar, pois sua vida estava nas mãos de Deus, não nas correntes de Herodes.
Assim também é conosco. Podemos caminhar em paz, mesmo diante das perseguições ou das intenções do mal. Nada nos acontece fora da permissão de Deus.
Nenhuma arma espiritual ou terrena tem poder absoluto contra o povo do Senhor. Somos como pássaros frágeis, sim, mas guardados por Aquele que despedaça o laço e nos dá liberdade para prosseguir.
O salmo termina com uma recordação poderosa: nossa confiança não está nas coisas criadas, mas naquele que as criou. Assim como no Salmo 121, o salmista aponta para o Deus que fez os céus e a terra.
Ele é o sustentador de toda a criação — e, nessa bênção, nós estamos incluídos! Somos guardados em sua mão, e nada pode nos arrancar desse lugar seguro.
Em Cristo, já participamos de sua vitória: espiritualmente reinamos com Ele. Nenhum império ou poder humano pode destruir a igreja. Onde estão os reis que perseguiram os cristãos? Calígula, Nero, Domiciano... todos morreram. Mas a igreja permanece de pé, viva, preservada pelo Senhor.
Essa lembrança da obra criadora de Deus também nos ensina que todos os reinos e governos existem apenas porque Ele permite.
E quando usam seu poder de forma injusta, acabam em ruínas. Mas o povo de Deus jamais será extinto, porque sua existência está firmada no Senhor que fez os céus e a terra.
Como disse o Cantor Marco Teles: “Veja os tronos de outros reis dobrados ao chão, tudo se rendeu, até o meu coração se deu”!
E o seu coração? Já se rendeu ao rei? Ao soberano? Lembrar do Salmo 124 é te colocar de joelhos em reverência ao Senhor! Não perca tempo e o faça!
Conclusão:
Maior do que qualquer sombra ou monte é o Senhor, o único e verdadeiro Deus! Por isso, irmãos, rendamos a Ele não apenas uma gratidão superficial, como se fosse alguém que apenas nos devolveu uma caneta perdida. Entreguemos tudo: o coração, a vida, o nosso ser por completo!
O salmista se rende em louvor porque entende que não existe outro caminho senão a adoração ao SENHOR, em caixa alta, o Rei dos reis e Senhor dos senhores. Que também nós nos prostremos diante d’Ele, em honra, rendição e louvor eterno. Amém!
