Colocando as prioridades no lugar certo
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No primeiro dia do sexto mês do segundo ano do reinado de Dario, a palavra do Senhor veio por meio do profeta Ageu ao governador de Judá, Zorobabel, filho de Sealtiel, e ao sumo sacerdote Josué, filho de Jeozadaque, dizendo: “Assim diz o Senhor dos Exércitos: Este povo afirma: ‘Ainda não chegou o tempo de reconstruir a casa do Senhor’ ”. Por isso, a palavra do Senhor veio novamente por meio do profeta Ageu: “Acaso é tempo de vocês morarem em casas de fino acabamento, enquanto a minha casa continua destruída?” Agora, assim diz o Senhor dos Exércitos: “Vejam aonde os seus caminhos os levaram. Vocês têm plantado muito, e colhido pouco. Vocês comem, mas não se fartam. Bebem, mas não se satisfazem. Vestem-se, mas não se aquecem. Aquele que recebe salário, recebe-o para colocá-lo numa bolsa furada”. Assim diz o Senhor dos Exércitos: “Vejam aonde os seus caminhos os levaram! Subam o monte para trazer madeira. Construam o templo, para que eu me alegre e nele seja glorificado”, diz o Senhor.“Vocês esperavam muito, mas, eis que veio pouco. E o que vocês trouxeram para casa eu dissipei com um sopro. E por que o fiz?”, pergunta o Senhor dos Exércitos. “Por causa do meu templo, que ainda está destruído, enquanto cada um de vocês se ocupa com a sua própria casa. Por isso, por causa de vocês, o céu reteve o orvalho e a terra deixou de dar o seu fruto. Nos campos e nos montes provoquei uma seca que atingiu o trigo, o vinho, o azeite e tudo mais que a terra produz, e também os homens e o gado. O trabalho das mãos de vocês foi prejudicado”. Zorobabel, filho de Sealtiel, o sumo sacerdote Josué, filho de Jeozadaque, e todo o restante do povo obedeceram à voz do Senhor, o seu Deus, por causa das palavras do profeta Ageu, a quem o Senhor, o seu Deus, enviara. E o povo temeu o Senhor. Então Ageu, o mensageiro do Senhor, trouxe esta mensagem do Senhor para o povo: “Eu estou com vocês”, declara o Senhor. Assim o Senhor encorajou o governador de Judá, Zorobabel, filho de Sealtiel, o sumo sacerdote Josué, filho de Jeozadaque, e todo o restante do povo, e eles começaram a trabalhar no templo do Senhor dos Exércitos, o seu Deus, no vigésimo quarto dia do sexto mês do segundo ano do reinado de Dario.
O que nos une
O que nos une
Existem coisas na experiência humana que nos unem, que demonstram que somos parecidos — até demais. E, certamente, uma delas é a frustração. Afinal, todos nós, em alguma medida, em algum momento das nossas vidas, já lidamos com a frustração.
Seja a criança que pede algo à sua mãe no mercado e ouve um: “-Quando eu voltar, eu compro.” Seja um término de relacionamento. Seja o ônibus que partiu assim que você chegou no ponto. Um bom negócio que você perdeu. Uma decepção amorosa. Ou o salário que não caiu no dia.
Todos nós já sofremos com as frustrações da vida. E, se existe uma coisa que aprendemos, é aquilo que devemos fazer para que, de alguma maneira, não enfrentemos mais — ou não tenhamos mais — a experiência da frustração.
É então que você começa a observar as letras miúdas do contrato para não ser mais enganado. Você faz uma reserva de dinheiro para não ser pego de surpresa. Você não se entrega de todo o coração em uma relação até perceber como a outra pessoa age. Ou você acorda mais cedo para não perder o ônibus no ponto.
De todos os modos, tentamos nos blindar contra as frustrações — algumas pessoas chamariam isso de instinto. E o modo que normalmente encontramos para estarmos blindados é fazendo algo.
No entanto, e quando a frustração vem mesmo depois de fazermos tudo certo? E quando a frustração vem mesmo depois de sermos inteligentes e diligentes? E quando a frustração vem mesmo depois de pensarmos em todos os passos? De fazermos o plano A, o B e o C? E quando a frustração vem depois de tomarmos todas as medidas possíveis para não sermos pegos de surpresa?
Bom, essa era exatamente a situação do povo de Deus, nesse período da história que acabamos de ler.
Fazendo o certo e dando tudo errado
Fazendo o certo e dando tudo errado
Depois de tantos anos longe de casa —70 anos no exílio babilônico — o povo de Deus finalmente retorna para sua terra. Eles estão de volta.
E pense comigo: depois de tudo o que viveram, o que qualquer um de nós faria? A resposta em 99% dos casos é a mesma: Tentaríamos recomeçar. Retomar a vida. Voltar a plantar. A construir. Cuidar da casa. Reconstruir aquilo que foi destruído. Cuidar da família. Tentaríamos devolver o mínimo de normalidade para os nossos dias. E é isso que eles estavam fazendo.
Por certo havia muito trabalho e o povo judeu não estava parado.Eles não estavam relaxados e nem de braços cruzados. Pelo contrário, estavam reconstruindo aquilo que se perdeu com o tempo. Estavam trabalhando. Estavam se esforçando.
Depois de tanto tempo longe da sua terra, eles queriam voltar a ter uma vida normal. A ter uma rotina. A se sentir seguros, úteis, realizados. E convenhamos: isso faz todo o sentido. Qualquer um de nós, depois de uma temporada difícil, depois de perdas e depois do exílio — seja literal ou metafórico — também faria a mesma coisa.
Eles querem viver e essa era a hora! Queriam ver os filhos crescendo em paz. Queriam finalmente voltar a plantar e colher com as próprias mãos na sua própria terra. Queriam cuidar da casa, ajeitar as coisas, fazer o que era possível. E se formos francos, quando analisamos tudo isso e nos colocamos no lugar deles, também faríamos as mesmas coisas.
No entanto, mesmo depois de todo o esforço, mesmo depois de retomar o trabalho e reconstruir um pouco de tudo aquilo que foi destruído, o povo ainda enfrentava aquele sentimento me nos mostra que somos iguais: a frustração.
E nesse caso, a gente descobre isso por aquilo que o próprio Deus aponta sobre o povo:
Vocês têm plantado muito, e colhido pouco. Vocês comem, mas não se fartam. Bebem, mas não se satisfazem. Vestem-se, mas não se aquecem. Aquele que recebe salário, recebe-o para colocá-lo numa bolsa furada”.
“Vocês esperavam muito, mas, eis que veio pouco...”
Se o sentimento de frustração já é ruim, esse tipo específico de frustração talvez seja o pior de todos: aquela que vem quando você se esforça, se empenha, faz tudo certo — e ainda assim não alcança o resultado que esperava.
Afinal, quando não recebemos algo que esperávamos, mas sabemos que não nos esforçamos o suficiente, até conseguimos aceitar. Pode nos chatear, mas é compreensível. A gente reconhece que poderia ter feito mais. Mas, e quando a história é diferente? E quando você realmente se dedicou? E quando, como o povo judeu, você fez por onde? E mesmo assim o resultado é inferior ao esperado?
É nesse ponto que entra a virada dessa história. É nesse ponto que surge o profeta Ageu, como boca de Deus, demonstrando onde estava o erro dos remanescentes de Israel.
O grande problema do povo, naquele momento da história, não estava naquilo que eles estavam fazendo, mas naquilo que eles estavam deixando de fazer. O problema não estava nas mãos que trabalhavam, mas no coração que se esqueceu do essencial. No entanto, o que era essencial?
As Etapas da Reconstrução
As Etapas da Reconstrução
Bom, é incrível notarmos como Deus, de maneira singular, planejou e dirigiu o retorno do seu povo e a reconstrução de Jerusalém.
Talvez, se a decisão estivesse em nossas mãos, depois de 70 anos como cativos em uma nação inimiga, a nossa primeira ação seria reconstruir os muros. Talvez até dobrar o tamanho deles. De alguma forma, tentaríamos fortificar a cidade, garantir segurança, nos proteger de novos ataques. Só depois disso, cuidaríamos da vida, da casa, do sustento.
Mas Deus não pensa como nós pensamos. A maneira como Ele conduziu todo esse processo foi completamente diferente. Na história bíblica, vemos claramente que Deus estabeleceu três etapas principais nesse processo de restauração:
Primeiro, Ele restaurou o culto. E essa restauração se deu em duas partes: começou com a restauração do altar — o lugar do sacrifício, da entrega, da reconciliação. Só depois, com o passar dos anos, veio a reconstrução do templo. [Tudo isso tendo Zorobabel e Josué a frente].
Depois, houve uma reforma espiritual. A Palavra voltou a ocupar o centro, a aliança foi relembrada, a identidade do povo foi restaurada. [Isso tendo Esdras a frente desse processo]
E, só então, vieram os muros. Só depois da adoração e da identidade restauradas, é que veio a proteção externa. Só depois é que veio a estrutura [Tendo Neemias a frente do projeto]
A própria ordem que Deus estabeleceu nessas etapas nos ensina algo que o povo não foi capaz de perceber. Afinal, o período que Ageu profetiza — e que lemos no início — se encontra entre as duas partes da primeira etapa.
Ao retornar da Babilônia, o povo judeu restaurou o altar (assim como era esperado). Um ano após, eles lançam os alicerces do templo e iniciam as obras de reconstrução. No entanto, por conta de alguns levantes e do desanimo do povo, a obra é interrompida e fica 16 anos parada.
E é justamente isso que Deus denuncia por meio do profeta Ageu. O problema não era o povo construir suas casas. Não era trabalhar, plantar, cuidar da família. Tudo isso tem o seu lugar. O problema não era aquilo que eles estavam fazendo em si — era o esquecimento do propósito estabelecido anteriormente.
Deus não estava pedindo que o povo ignorasse suas necessidades básicas ou vivesse de forma irresponsável. Mas o fato é que eles estavam completamente centrados em si mesmos. Eles esqueceram da razão pela qual haviam sido libertos. Esqueceram do propósito que fez eles retornarem. Esqueceram da Casa de Deus. E, por consequência, esqueceram do próprio Deus.
Eles poderiam muito bem ter tirado um tempo para organizar a vida. Isso é compreensível. Um, dois anos, três talvez. Mas 16 anos?!
Dezesseis anos sem sequer tocar na reconstrução do templo. Dezesseis anos vivendo como se a presença de Deus — simbolizada por aquele lugar — fosse secundária. Isso mostra que não era apenas uma questão de tempo, de trabalho ou de dificuldades externas. Era uma questão de coração. De prioridades.
E é por isso que Deus levanta Ageu. Não para condenar, mas para despertar. Ageu chama o povo de volta ao propósito. De volta ao que era essencial. Ele os chama a lembrar por que estavam ali. Eles não tinham voltado apenas para reconstruir uma cidade — tinham voltado para restaurar a adoração. Para viver como povo de Deus.
Eles podiam não ter percebido, mas a frustração que eles estavam sentindo era um sintoma de um desalinhamento espiritual. E é então que aqui a história bíblica começa a conversar com a nossa.
Nossas histórias
Nossas histórias
Porque talvez o sentimento que dominava o coração daquele povo — a frustração — também esteja presente no coração de muita gente hoje. E, assim como eles, talvez você também esteja vivendo esse mesmo ciclo: você planta, mas não colhe como esperava. Você se esforça, mas os resultados não vêm. Você trabalha, corre atrás, faz o certo — mas parece que nada vai para frente.
Você até é uma pessoa organizada. Tenta fazer a vida funcionar. Está sempre tentando ajeitar alguma coisa — o trabalho, a casa, a família. Não é como se você estivesse parado, vivendo de forma irresponsável. Pelo contrário: você está se esforçando. Você está tentando.
Mas, ainda assim, existe aquele sentimento que insiste em te acompanhar. Existe essa sensação de que, por mais que você dê o seu melhor, o retorno é sempre menor do que o esperado. É como se o salário sumisse, como se a comida não sustentasse, como se o dia não rendesse. E isso vai se acumulando, gerando cada vez mais e mais frustração.
E assim como o povo judeu, Frustração constante pode ser o sintoma de uma vida espiritualmente desalinhada.
Deus não está contra o seu trabalho. Ele não é contra o seu esforço. Ele não tem problema com suas metas, com os seus projetos, com a sua organização. O problema é quando tudo isso se torna o centro, e Ele, um detalhe.
Eu sempre achei curioso como o nosso sistema solar funciona. Todos os planetas, luas e astros giram em torno de uma única estrela: o Sol. É ele quem sustenta tudo. É ele quem aquece, ilumina, dá energia e mantém cada coisa no seu devido lugar.
Agora, se por algum motivo o Sol deixasse de existir, nenhum planeta conseguiria se manter onde está. Todos se perderiam na imensidão do espaço.E, com o tempo, tudo entraria em colapso.
Em nossas vidas, Deus é como o Sol no sistema solar. Ele não faz apenas parte do nosso sistema. Deus não é apenas um elemento do nosso projeto. Ele é o centro de tudo.
Quando Deus está no centro, tudo encontra o seu lugar. As prioridades se alinham. A vida acontece como deve ser. Mas, quando tiramos Deus do centro, é só uma questão de tempo até tudo sair da sua órbita. A vida até pode continuar por um tempo, mas vai perdendo o ritmo, a direção, a alegria. Ela vai se tornando caótica, cada vez mais pesada e frustrante. E o pior é que a gente nem percebe que isso está acontecendo, porque está ocupado demais tentando segurar os pedaços daquilo que restou.
Foi por isso que Deus levantou Ageu. O povo estava reconstruindo tudo — menos o que realmente importava. Estavam tentando organizar a vida, mas haviam deixado Deus de lado. E, em meio a tudo isso, Deus não deixou de ser Deus. Afinal, é Ele que aponta para uma solução.
E a solução que Ele traz por meio do profeta Ageu não começa com uma estratégia de produtividade, nem com novas técnicas de gestão. Não é algo que as pessoas precisam fazer para se tornarem mais produtivas e, então, alcançarem os seus resultados. Deus não oferece fórmulas. Ele oferece um caminho. E o caminho é simples e direto:
Subam o monte para trazer madeira. Construam o templo, para que eu me alegre e nele seja glorificado”, diz o Senhor.
Em outras palavras: “voltem ao propósito. Voltem a me colocar no centro.”Essa era a ordem de Deus. E essa também é a mensagem dEle para as nossas vidas hoje. A frustração que você sente pode não ser um sinal de fracasso, mas sim um sinal de desvio. E o caminho de volta não exige mágica, nem grandes feitos. Exige realinhamento. Exige coragem para inverter a ordem das suas prioridades. Porque o que Deus está dizendo é:
“Pare de tentar resolver tudo do lado de fora, enquanto o lado de dentro continua em ruínas.”
O altar precisa voltar a ser prioridade. A presença de Deus precisa voltar para o centro da vida. Antes dos muros, antes dos ganhos, antes da colheita, antes da estabilidade, vem a entrega.
Mas por que Deus deve estar no centro? Talvez algumas pessoas pensem que isso é uma decisão egoísta — como se Deus quisesse os holofotes, e, caso não seja assim, então as coisas começariam a dar errado. Mas a verdade é que Deus precisa estar no centro da nossa vida porque esse é o lugar que Lhe pertence. É a ordem natural das coisas.
É como o sol no sistema solar — não se trata de orgulho, mas de sustentação. Não é sobre controle autoritário, é sobre vida. Você pode até tentar organizar a sua vida sem Ele. Por um tempo, até parece que dá certo. Mas, cedo ou tarde, tudo começa a sair da órbita. E não é porque Deus está te punindo. É porque você está tentando sustentar tudo com as próprias mãos, sendo que a verdade é que só permanece de pé aquilo que é sustentado por Aquele que tem todo o poder. E esse alguém é Deus.
Então, a palavra de Deus para você hoje é essa: volte ao propósito. Volte a colocar Deus no centro das suas decisões, dos seus planos, da sua vida.
Antes dos muros, antes dos planos, antes das metas — vem o altar. Vem a presença de Deus. Vem a entrega.
A reconstrução — o recomeço — não começa quando um homem decide voltar e consertar o que foi destruído. Começa quando entendemos e vivemos o propósito de Deus.
Esse é o convite dEle para você hoje: Volte. Realinhe. Reconstrua.
Que Deus tenha misericórdia de nós. Amém!
Sermão exposto no dia: 20 de abril de 2025
Local: Igreja Vivendo em Amor (Sede-Noite)
Por Alex Amaral
Soli Deo Gloria
