Ser Igreja é se comprometer de Verdade
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Texto base:
Eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações. Todos estavam cheios de temor, e muitas maravilhas e sinais eram feitos pelos apóstolos. Os que criam mantinham-se unidos e tinham tudo em comum. Vendendo suas propriedades e bens, distribuíam a cada um conforme a sua necessidade. Todos os dias, continuavam a reunir-se no pátio do templo. Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração, louvando a Deus e tendo a simpatia de todo o povo. E o Senhor lhes acrescentava diariamente os que iam sendo salvos.
A realidade da Igreja de Atos dos Apóstolos
A realidade da Igreja de Atos dos Apóstolos
Ser igreja hoje, no Brasil, é muito diferente do que foi ser igreja no livro de Atos dos Apóstolos.Quando digo isso, não me refiro apenas às bizarrices e loucuras que acontecem em muitas igrejas atualmente. Falo do que está em jogo quando decidimos e nos comprometemos a ser igreja.
Imagine o seguinte cenário do primeiro século: Diferente de hoje, o cristianismo não era tão difundido nem conhecido pelas pessoas. Pelo contrário, a igreja estava no seu início. Ali havia apenas um número pequeno de seguidores, se compararmos com o que vemos hoje. No entanto, a questão não era somente numérica.
A igreja surge a partir da história de um homem judeu que chamou doze outros homens para caminharem com ele. Por um breve período, esse homem chamou a atenção de muita gente. Operou muitos milagres, e os seus ensinamentos ecoaram tanto entre as multidões de pessoas comuns como entre os seus opositores.
Ele foi tão odiado que chegou a ser acusado sem ter cometido crime algum. Mesmo assim enfrentou uma sentença de morte, e uma das piores mortes da época: a cruz. Ali ele morreu e foi sepultado.
Essa poderia ser uma história como qualquer outra. No entanto, aquele homem judeu que foi morto na cruz e sepultado, ao terceiro dia se apresentou como alguém que voltou dos mortos. Os seus amigos, que andaram com ele por quase três anos e que, no período entre a sua morte e ressurreição, estavam com medo por suas próprias vidas, agora puderam rever e receber novamente o seu mestre.
E mais: eles desfrutaram da sua presença por um tempo. Receberam direcionamentos, ouviram promessas e puderam vê-lo subindo aos céus. Essa história poderia terminar aqui. Mas aquele homem judeu, que morreu e ressuscitou, também prometeu que enviaria outro em seu lugar, pois retornaria para o Pai.
É então que, alguns dias depois, quando todos estavam reunidos em um só lugar, um visitante, ao mesmo tempo desconhecido e esperado, invade o recinto. Ele toma a vida daqueles homens e mulheres a tal ponto que, naquele momento, um grande evento acaba chocando a todos que estavam por perto e faz com que aquele pequeno grupo, em um único dia, receba mais de três mil pessoas como parte dessa nova família.
No entanto, ainda que coisas sobrenaturais estivessem acontecendo, milagres fossem realizados. Ainda que dia após dia, o número de seguidores daquele homem judeu crescesse, aquele grupo não era recebido por todos. Para os judeus, era uma seita, formada por pessoas que se rebelaram e que estavam se opondo contra Deus e contra a sua lei. Para os gregos, era uma loucura, talvez apenas mais um entre vários outros deuses. Para os romanos, era um grupo de insurgentes: escravos, marginalizados, viúvas, órfãos e gente de quem ninguém se importava muito, mas que, talvez, a qualquer momento, com a motivação certa, poderiam iniciar uma revolta. Afinal, eles não reconheciam César como senhor, mas sim um tal de Jesus de Nazaré.
Ser igreja nos dias de Atos dos Apóstolos era diferente dos nossos dias, pois o cristianismo era considerado uma religio illicita, ou seja, uma religião ilegal, não autorizada pelo Império Romano.
As consequências de participar desse tipo de grupo, aos olhos de Roma, incluíam perseguição social ou administrativa, podendo os praticantes ser presos, deportados ou até mortos. Os líderes, por encabeçarem o movimento, eram executados. Havia a proibição do culto público e, em muitos casos, era necessário realizar essas reuniões em locais privados. Havia também o confisco de bens,sem contar o desprezo, a discriminação e até dificuldades profissionais quando se sabia que alguém participava de uma religião ilegal. Afinal, o Império considerava grupos como o cristianismo uma ameaça à ordem social.
Diferente dos nossos dias, em que pastores sobem em palanques com seus políticos de estimação, e em que temos no Congresso uma bancada evangélica e leis que asseguram a nossa liberdade religiosa, nos dias da igreja primitiva não havia nada que levasse alguém a se comprometer com a mensagem e o conteúdo da mensagem pregada pelos primeiros cristãos.
Ser cristão era ter um alvo nas costas. Era saber que, em algum momento, você poderia ser arrancado da sua casa, separado da sua família, ter seus bens confiscados, ser lançado em uma prisão e acabar sendo despedaçado por leões famintos dentro de uma arena, repleta de pessoas vibrando ao ver a sua morte.
Não havia promessas de prosperidade. Você não decidia seguir a Jesus porque Ele poderia te dar um carro ou uma casa. Você não escolhia Jesus por promessas de um emprego dos sonhos ou por causa de uma viagem para a Disney.
Se desejamos entender o que é se comprometer de verdade, quando o assunto é ser igreja, precisamos olhar para os nossos irmãos de Atos dos Apóstolos. Não era um compromisso fácil, confortável ou vantajoso. Ser igreja naquele tempo exigia uma dedicação total, mesmo não havendo as garantias que hoje normalmente buscamos.
É então que aqui no nosso texto, no início de tudo, logo após a descida do Espírito Santo, tendo sido acrescentado cerca de três mil pessoas por conta do sermão de Pedro, que encontramos aquilo que faz a igreja de Atos ser um exemplo para nós quando pensamos no que é se comprometer de verdade.
Compromisso com o ensino
Compromisso com o ensino
No v.42 de Atos lemos que os primeiros cristãos se dedicavam ao ensino dos apóstolos. Repare que antes de qualquer movimento na igreja, antes de qualquer atitude, de qualquer projeto, missão ou evento, houve um compromisso em aprender.
É certo que a Igreja de Cristo foi chamada para influenciar, para ser um canal e alcançar as pessoas. No entanto, não há como alterarmos a ordem que o próprio Deus estipulou. Existe um grande risco em nos colocarmos à disposição e nos dedicarmos a qualquer outra coisa, sem que em primeiro lugar, não nos dediquemos aprender.
Muitos querem liderar, influenciar e comandar, mas acabam se esquecendo de que, antes de assumirmos qualquer cargo, antes de tomarmos os nossos postos, precisamos nos submeter e ser capacitados para isso.
Aprender é, antes de tudo, um ato de humildade. É reconhecer que ainda não sabemos tudo, que precisamos ser moldados, e que de certa forma dependemos de alguém que já caminhou à frente para nos guiar. Essa é a base para qualquer crescimento cristão. Os discípulos andaram 3 anos com Jesus antes de ouvirem o ide em Mateus 28. Paulo, após ser encontrado por Jesus a caminho de damasco, também ficou longe da ação por três anos, onde esteve aprendendo para depois começar a ensinar.
Negligenciar o aprendizado do que Deus nos confiou é perder a oportunidade de aprender a como fazer as coisas de Deus do jeito certo. Aprender nos ajuda a orar melhor. Quando estudamos a Palavra, quando ouvimos ensinamentos fiéis, começamos a entender a vontade de Deus e a alinhar nossos pedidos ao que Ele deseja fazer em nossas vidas. Aprender nos ajuda a buscar Deus melhor. Quanto mais conhecemos a Sua Palavra, mais sabemos o que estamos buscando. Aprender nos ajuda a servir melhor. Uma pessoa com um coração ensinável, quando aprende, se torna apta para agir de forma eficaz, para edificar outros, para ser útil no corpo de Cristo.
O que vemos nas igrejas hoje em dia, os escândalos e loucuras, são apenas consequências da falta de comprometimento com o ensino da palavra. Vemos cultos cheios quando o assunto é milagres. Pessoas fazem fila quando um profeta aparece. Mas, são poucos que desejam e se comprometem, assim como nossos irmão em Atos, a serem instruídos.
Portanto, o compromisso com o ensino não é apenas uma obrigação; é a base de tudo. É sentar para aprender antes de estar de pé para ensinar.
Compromisso com a comunhão
Compromisso com a comunhão
O segundo compromisso que vemos na igreja de Atos é com a comunhão. Hoje, muitas vezes, nos contentamos em estar presentes fisicamente na igreja, mas não nos comprometemos de verdade com a comunidade. Comunhão não é apenas participar de encontros ou eventos. É estar aberto a vida em comunidade. É estarmos dispostos e disponíveis.
Comunhão é investir tempo, atenção e cuidado uns pelos outros. É ouvir, encorajar, apoiar e caminhar juntos, mesmo quando isso exige sacrifício ou renúncia.
Desejamos receber palavras amigas em meio ao sofrimento. Almejamos por um abraço ou algo do tipo no dia mal. Esperamos uma mensagem ou um ombro para chorar quando precisamos, mas na maioria das vezes não estamos dispostos a ser para os outros, o que esperamos que os outros sejam para nós.
O compromisso com a comunhão é uma semente que plantamos em nossos relacionamentos hoje e que colhemos quando menos esperamos e quando mais precisamos.
Compromisso com a partilha
Compromisso com a partilha
O terceiro compromisso que vemos na Igreja de Atos é com a partilha.
O texto nos diz que eles se dedicavam ao partir do pão. É claro que essa expressão também aponta para a Ceia do Senhor. Certamente, ao usar esse termo, Lucas, o escritor de Atos dos Apóstolos, tinha em mente o momento em que fazemos memória do sacrifício de Jesus. Porém, quando olhamos para todo o nosso texto, percebemos que, no contexto, essa prática não se restringia apenas a um momento solene da Igreja. O partir do pão também era vivido no dia a dia. Também era vivido no compartilhar da vida.
Hoje, em nossa realidade, vivemos cercados por uma cultura que valoriza o individualismo e a acumulação.Somos constantemente estimulados a pensar apenas em nós mesmos, em nossos sonhos, em nossas conquistas. Quando nos reunimos como Igreja, essa cultura individualista também influencia o nosso congregar. Às vezes, cantamos canções onde o “eu” é valorizado e não o “nós”. Nas pregações, queremos uma mensagem que fale unicamente e exclusivamente com a gente, e não com todos. Queremos ser tratados com atenção, ser bem recebidos quando chegamos, mas não estamos dispostos nem mesmo a compartilhar a nossa atenção com o outro no final do culto.
Partir o pão e se dedicar a isso é muito mais do que sentar-se à mesa para comer. É estar disposto a repartir a vida, quando necessário, os recursos. Repartir o nosso tempo e, às vezes, até mesmo as nossas lágrimas. É olhar o outro e não enxergar um estranho, mas um irmão.
Partilhar é demonstrar, na prática, que cremos em um Deus que nos sustenta. É transformar o amor que nós cantamos e ouvimos em uma atitude concreta. Partilhar, ao mesmo tempo, é abrir espaço para que outros cuidem de nós quando for necessário. Porque também agimos assim para com os outros.
Ser comprometido com a partilha nos ensina que Igreja não é apenas um lugar de receber. Ela é, antes de tudo, um espaço onde cada um se doa.
Compromisso com a oração
Compromisso com a oração
O quarto compromisso que vemos na Igreja de Atos é com a oração.
Hoje, para muitos de nós, a oração se tornou algo estranho. Até fechamos os nossos olhos quando estamos na igreja. Esperamos que o pastor comece a orar no altar para a gente poder concordar. Pedimos para que as pessoas orem por nós. E quando, um dia, decidimos orar, tratamos a oração apenas como um meio para conseguirmos alguma coisa de Deus. Por certo, negligenciamos a oração. Deixamos para depois, quando nos sobra tempo, ou quando as coisas ficam realmente ruins.
Mas quando olhamos para a Igreja de Atos, percebemos que eles eram diferentes. Eles oravam por tudo. Oravam antes de cada decisão. Oravam quando estavam em perigo. Oravam quando se alegravam. Oravam quando sofriam. A oração fazia parte do dia a dia da Igreja.
Vemos isso em vários momentos, como:
Na escolha de Matias para substituir Judas (Atos 01.24-26)
No dia de Pentecostes (Atos 02.01-04)
Na primeira perseguição, quando Pedro e João foram ameaçados (Atos 04.23-31)
Na escolha dos sete diáconos (Atos 06.06)
Quando Pedro e João foram presos (Atos 05.18-21)
Outra vez, quando Pedro foi preso (Atos 12.05-07)
Antes de Barnabé e Paulo serem enviados em missão (Atos 13.02-03)
Na prisão de Paulo e Silas (Atos 16.25)
Na despedida de Paulo em Éfeso (Atos 20.36)
A oração não era um detalhe, nem muito menos um último recurso. Ela estava presente em todas as áreas da vida da Igreja: nas decisões, nas dificuldades, nas alegrias, nos momentos de partida. Orar era um hábito que sustentava a fé, que fortalecia, encorajava e unia a Igreja de Atos dos Apóstolos.
O compromisso com a oração nos ensina que ser Igreja não é apenas estar presente, não é apenas participar de eventos ou ouvir pregações. É estarmos conectados com Deus, unidos em oração, prezando por momentos assim e valorizando a comunhão com Ele.
A oração não é opcional para a Igreja de Cristo. Ela é essencial, é o oxigênio da vida da comunidade, é o fio que mantém cada um de nós ligados ao Pai e ligados uns aos outros.
Quando isso acontecer...
Quando isso acontecer...
Quando falamos de se comprometer, não estamos falando de fidelidade a uma instituição, a um homem ou a um líder. Não é apenas frequentar cultos ou seguir este ou aquele pregador. Se comprometer de verdade é se comprometer com o Evangelho. É ser cristão de forma que isso transforme a maneira como agimos no mundo e, também, como corpo de Cristo.
Só experimentaremos crescimento e progresso como igreja quando compreendemos isso e vivemos dessa forma. Não podemos esperar que o crescimento em números de pessoas, nem a atuação da nossa igreja em nosso bairro ou na sociedade, aconteça pelas mãos de uma única pessoa.
Quando nos comprometermos com o ensino da Palavra, quando vivermos em verdadeira comunhão, quando aprendermos que partilhar é multiplicar e descansarmos nossa esperança em oração, estaremos preparados para o que Deus ainda tem para nós. Será nesse momento que poderemos experimentar, juntos, o crescimento e a vida abundante que Ele planejou para a Igreja.
Que Deus tenha misericórdia de nós. Amém!
Sermão exposto no dia: 24 de agosto de 2025
Local: Igreja Vivendo em Amor (Mandaqui-Noite)
Por Alex Amaral
Soli Deo Gloria
