O Rei e a verdadeira grandeza de seu Reino (Marcos 9.30-41)

O Rei que se tornou servo: sermões no Evangelho de Marcos  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
0 ratings
· 22 views
Notes
Transcript

O Rei e a verdadeira grandeza de seu Reino

Texto: Marcos 9:30-41

Introdução: A Sede Humana por Grandeza

Há em cada coração humano uma sede insaciável por significado, por relevância, por grandeza. Desejamos ser notados, fazer a diferença, deixar uma marca. Esta ambição permeia todas as esferas da nossa existência, desde a carreira profissional até as dinâmicas familiares e, tragicamente, até mesmo os corredores da igreja. Buscamos posições, títulos, influência, reconhecimento. Queremos, no fundo, ser "o maior".
É precisamente neste ponto de nossa humanidade que o Evangelho de Marcos nos confronta de maneira chocante. A cena que temos diante de nós em Marcos 9 é de uma desconexão quase surreal. Jesus, tendo acabado de descer do Monte da Transfiguração, onde Sua glória divina foi revelada, e tendo acabado de curar um menino possuído por um demônio que Seus discípulos não conseguiram expulsar, agora busca um momento de privacidade para lhes dar o ensinamento mais crucial de todos. Ele lhes fala do coração do plano de Deus: Sua própria morte e ressurreição. E qual é a reação de Seus discípulos mais próximos? Enquanto Jesus contempla a cruz, eles discutem acaloradamente sobre suas posições e rankings no futuro gabinete celestial. A dissonância é ensurdecedora e, ao mesmo tempo, profundamente familiar.
Nesta passagem, Jesus confronta não apenas a ambição de Seus doze seguidores, mas a nossa. Ele desmantela nossa definição de sucesso e nos mostra uma verdade paradoxal e revolucionária [no mais verdadeiro sentido do termo]: no Reino de Deus, o único caminho para a verdadeira grandeza é para baixo.

1. A Grandeza em Abraçar a Cruz que Evitamos (vv. 30-32)

O texto começa com Jesus e Seus discípulos atravessando a Galileia em segredo. O ministério público e popular na Galileia havia terminado; agora, o foco de Cristo era a preparação intensiva e privada dos Doze para a crise que se aproximava em Jerusalém - simbolicamente, a descida da Galileia para Jerusalém. O versículo 31 nos diz o porquê: "porque estava ensinando os seus discípulos". E qual era a lição central? "O Filho do homem será entregue nas mãos dos homens. Eles o matarão, e, três dias depois, ressuscitará".  
Este é o segundo anúncio formal da paixão em Marcos, e a linguagem é teologicamente carregada. A expressão "será entregue" — em grego, paradidotai — está na voz passiva. Comentaristas como Robert Stein e James Edwards observam que este é um exemplo clássico do "passivo divino", uma forma reverente de se referir à ação de Deus sem nomeá-Lo diretamente. A implicação é monumental: não são apenas os homens que entregarão Jesus. É Deus Pai quem, em Sua soberania, entrega o Filho como o sacrifício redentor pelo pecado do mundo. Este ato de entrega é, portanto, a maior demonstração de humildade e obediência que o universo já testemunhou. Jesus está definindo Sua missão não em termos de poder e conquista, mas de rendição e sacrifício.   
A reação dos discípulos é reveladora: "não entendiam o que ele queria dizer e tinham receio de perguntar‑lhe". A incompreensão deles não era meramente intelectual. Como João Calvino argumenta, suas mentes estavam cobertas por um "denso véu de uma imaginação tola". Eles estavam cativos de uma teologia de glória sem sofrimento, esperando um Messias que esmagaria Roma e restauraria o poder político de Israel. A ideia de um Messias sofredor, rejeitado e crucificado era um escândalo, uma contradição que eles simplesmente se recusavam a processar. Adiciona-se a isso, a possibilidade de negarem o tratamento similar que poderiam passar ao se identificarem com o Messias sofredor e a clara expectativa de que, naquela altura, eles deveriam compreender as coisas. O medo de perguntar não era apenas reverência; era o medo serem repreendidos, de ter suas esperanças e sonhos desfeitos, ou de revelar algo ruim neles[como veremos], uma timidez que os mantinha em uma ignorância deliberada.   

2. A Grandeza se Parece com o Servo que Ignoramos (vv. 33-37)

A narrativa se desloca para uma casa em Cafarnaum. O silêncio tenso paira no ar quando Jesus pergunta: "O que vocês estavam discutindo no caminho?". Eles se calam, consumidos pela vergonha (Mc 3.4), pois a discussão era sobre quem entre eles era o maior [logo depois de uma resistência em assumir a morte e ressureição de Jesus]. Olhavam para suas próprias posições no reino futuro. A justaposição é devastadora: enquanto Jesus lhes ensinava sobre Seu serviço sacrificial até a morte, eles competiam por status. Enquanto Jesus falava sobre o preço do discipulado, eles falavam sobre os benefícios do discipulado.
Então, Jesus assume a postura de um mestre: "Sentando‑se, Jesus chamou os Doze" e proferiu uma das declarações mais revolucionárias de toda a Escritura: "Se alguém quiser ser o primeiro, será o último e servo de todos". A cultura do primeiro século, assim como a nossa, media a grandeza pelo poder exercido, pela autoridade detida e pelo número de pessoas que estão a seu serviço [“como um homem pode ser feliz se tiver de servir alguém?”, Platão, Górgias]. Jesus vira essa pirâmide de cabeça para baixo. A verdadeira grandeza não é medida por quantos te servem, mas por quantos  você serve. Como Charles Spurgeon resumiu de forma memorável: "No Reino de Cristo, o caminho para cima é para baixo. Afunde o eu, e você certamente se levantará".   
Para que não restasse dúvida, Jesus oferece uma ilustração viva. Ele "tomando uma criança, colocou‑a no meio deles e, pegando‑a nos braços, disse‑lhes: Quem recebe uma destas criancinhas em meu nome recebe a mim". É crucial entender o que a criança simbolizava naquele contexto. Não era primariamente um símbolo de inocência, mas de total insignificância social, dependência e vulnerabilidade. Uma criança não tinha status, poder ou influência. Não podia oferecer nada em troca. Jesus está dizendo: "A sua grandeza será medida pela forma como vocês tratam e recebem os impotentes, os invisíveis, os que não podem lhes retribuir. Ao acolherem o 'ninguém' da sociedade, vocês estão, na verdade, acolhendo a Mim e ao Pai que Me enviou". Nesse texto, o convite não é para os discípulos serem como as criancinhas, mas como Jesus, que as recebe, que é servo de todos. Como destaca Luiz Sayão, essa atitude de acolher a simplicidade reflete a aceitação do próprio Jesus. Este ensino nos força a reavaliar radicalmente nossos valores.

3. A Grandeza se Alegra com a Graça que Não Controlamos (vv. 38-41)

O orgulho dos discípulos, no entanto, tinha outra faceta. Se a primeira era a competição individual, a segunda era o exclusivismo tribal. João, talvez para desviar o foco de sua vergonha, interrompe Jesus: "Mestre, vimos um homem expulsando demônios em teu nome e procuramos impedi‑lo, porque ele não era um dos nossos". Note a ênfase: "não era um de nós". Não era por negar a Cristo, ou, como aponta Robert Stein, a preocupação deles não era primariamente com a honra de Cristo, mas com a preservação do status exclusivo de seu grupo. E olha a ironia: impedi-lo de fazer o que eles não conseguiram fazer. Eles haviam transformado o chamado para seguir a Cristo em um clube fechado.   
A resposta de Jesus é uma repreensão à mentalidade sectária e um chamado à generosidade eclesiástica. "Não o impeçam... pois quem não é contra nós é a favor de nós". Jesus alarga radicalmente as fronteiras do Seu Reino. Ele ensina que a obra de Deus não está confinada ao nosso grupo, à nossa denominação ou à nossa teologia particular. João Calvino oferece uma perspectiva pastoralmente sábia aqui: o critério final não é se alguém segue nossos métodos ou pertence à nossa organização, mas se o nome de Cristo está sendo glorificado. Se demônios estão sendo expulsos em nome de Jesus, devemos nos alegrar, mesmo que os meios nos pareçam diferentes de nossa tradição.
Jesus então conecta este ensino sobre a amplitude do Reino com a recompensa pelo serviço humilde. "Em verdade lhes digo que quem der a vocês um copo de água em meu nome, por vocês pertencerem a Cristo, não perderá a sua recompensa". Este versículo é a apoteose do ensino sobre a grandeza. Ele eleva o menor ato de bondade — um copo de água, algo que qualquer um pode dar — ao nível de significado eterno, contanto que seja feito por amor a Cristo e aos Seus. Deus não está impressionado com nossos feitos grandiosos, mas com nossos simples atos de amor sacrificial.   

Aplicações

1. Nossa noção de glória não evita a cruz.
Nós também temos nossas cruzes que preferimos evitar. Evitamos o serviço inconveniente que exige nosso tempo e conforto. Evitamos a conversa difícil de reconciliação que exige a morte do nosso orgulho. Evitamos o sacrifício financeiro que desafia nossa segurança. Evitamos a disciplina espiritual que confronta nossa preguiça. Parece que, em semelhança com a ignorância daqueles discípulos, nossa falta de entendimento vem como uma teimosia orgulhosa. Como John Piper adverte, a ambição por uma vida de grandeza e conforto neste mundo pode, no fim, nos roubar a verdadeira vida que Cristo oferece. A jornada para a grandeza no Reino de Deus não começa com a pergunta "Como posso subir?", mas sim com a pergunta "Estou disposto a abraçar a cruz que me convida a descer?". Aqui ressoam as letras da canção
“Tudo é uma lição A gente tem que aprender O mestre usa a vida a vida usa tudo Será que oramos tanto sem nunca compreender Que aquilo contra o que lutamos poderia ser O caminho que quer ensinar a viver o futuro?”
2. Nossa imagem de grandeza não é cultural, mas cristocêntrica.
A imagem que nossa cultura nos vende é a de uma escada corporativa ou social que devemos subir a todo custo. Estamos constantemente sendo educados com mensagens de que você tem que superar, você tem que ser o primeiro, você tem que ser o melhor. Quantas pessoas hoje estão colhendo os frutos negativos de não conseguirem ter uma vida “de sucesso”? E veja: esse estado negativo não tem nenhuma relação com a disposição em servir. O alvo, muitas vezes, é a posição, é o status. O pastor Romulo Monteiro diz: “Quantas pessoas colocam seus filhos em certas escolas por causa de status, compram um carro por causa de status, compram uma casa por causa de status? E quando não conseguem, pronto, a vida acaba. Percebe que não é uma questão só judaica? O que os discípulos queriam e discutiam é uma questão humana”. O Evangelho, no entanto, nos apresenta uma imagem radicalmente diferente: a da descida de Cristo. Ele desceu da glória do céu para a humildade de um ventre. Desceu para a pobreza de uma manjedoura. Desceu até Seus joelhos com uma bacia para lavar os pés sujos de Seus discípulos. E, finalmente, desceu à agonia e vergonha da cruz. Ele é o exemplo supremo de que o caminho para a exaltação passa pela humilhação. O convite do evangelho, portanto, não é para que você suba mais alto na escada do sucesso mundano. É um convite para descer. Descer do pedestal do seu orgulho. Descer da sua “sala VIP”. Descer ao nível do serviço humilde. Descer para encontrar a verdadeira vida e a glória eterna no caminho descendente do seu Salvador. Como podemos começar essa descida? Martin Lloyd-Jones nos dá a resposta: "Há apenas uma coisa... que me esmaga até o chão e me humilha até o pó, e isso é olhar para o Filho de Deus, e especialmente contemplar a cruz".   
3. Aprendamos a acolher quem não pode nos dar nada.
Quando Jesus apresenta aquela criança ele está mostrando que “é assim no meu Reino. Eu olho para quem não é visto, para o insignificante, para o esquecido”. Quem são os "pequeninos" em nossa esfera de influência? São os idosos em um asilo, o novo membro tímido na igreja, o colega de trabalho que todos ignoram, o necessitado em nossa comunidade. Quem são aqueles “não vistos” a quem deveríamos olhar? A verdadeira humildade não é pensar mal de si mesmo, mas pensar menos em si mesmo. É um "esquecimento de si". A grandeza é encontrada no momento em que paramos de nos preocupar com a nossa própria grandeza e nos perdemos no serviço aos outros. Rejeitar que a referência final de nossas vidas sejamos nós mesmos. Enquanto na nossa cultura diz que você é a referência, como servo e membro do Reino, o outro é referência. E para isso, olhe para Ele. Contemple Seu sacrifício. Veja o preço que Ele pagou por seu orgulho e pelo meu. E ao olharmos para a cruz, o desejo febril de ser "o maior" se dissolverá no desejo pacífico e libertador de ser simplesmente Seu servo. E nisso, encontramos nossa mais elevada e sublime identidade: servo. Quem é o maior entre nós? O que tem mais títulos? O mais intelectual? O que serve. Amém.
4. Cuidado com uma visão restrita de igreja.
O texto inevitavelmente nos desafia a examinar nossa atitude em relação a outros cristãos e outras igrejas. Nós os vemos como competidores pelo mesmo "mercado" ou como co-herdeiros e parceiros na mesma missão? A grandeza do Reino se alegra onde quer que o Evangelho avance, onde quer que vidas sejam transformadas pelo poder do nome de Jesus, independentemente da placa na porta da igreja. E nos convida a participar dessa grande obra, não necessariamente através de atos espetaculares, mas através de incontáveis e fiéis "copos de água" dados em nome de Cristo.
Related Media
See more
Related Sermons
See more
Earn an accredited degree from Redemption Seminary with Logos.