Cristo, nossa paz

Salmos para Viver  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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SOBRE A SÉRIE: Salmos para Viver

(Os Salmos de Peregrinação – Sl 120–134)
Os Salmos 120-136 compreendem o “o Grande Hallel”; cf. “O Hallel Egípcio” (Salmos 113 - 118) e "O Último Hallel" (Salmos 145-150). Quase todos esses salmos (15 dos 17) são "Cânticos de Peregrinação" (Salmos 120-134) que os peregrinos judeus cantavam a caminho de Jerusalém (cerca de 822 metros acima) em três ocasiões anuais prescritas. Essas festas incluíam: (1) Pães sem Fermento; (2) Semanas/Pentecostes/ Colheita; e (3) Tabernáculos/Cabanas. Cf. Exodo 23:14 -17; 34:22,23; Deuteronômio 16:16. Davi escreveu quatro dessas músicas (Salmos 122; 124; 131; 133), Salomão, uma (Salmos 127), enquanto dez permanecem de autoria anônima. A data em que esses salmos foram reunidos dessa maneira não é conhecida. Parece que essas músicas começam longe de Jerusalém (cf. Meseque e Quedar, em Salmos 120:5) e, progressivamente, movem-se em direção a essa cidade, até que os peregrinos tenham realmente alcançado o templo e concluído sua adoração (cf. Salmos 134:1,2).
📌 Bloco 1 – A Jornada da Peregrinação (Sl 120–126) 📌 Ênfase: O caminho do povo de Deus é cheio de perigos, mas sustentado pela fé e pela promessa da restauração.
📌 Bloco 2 – A Comunhão em Sião (Sl 127–134) 📌 Ênfase: O destino da jornada é a comunhão plena com Deus, marcada pela bênção, unidade e louvor no templo.

TEXTO BASE

Psalm 120 NVI
Cântico de Peregrinação. 1 Eu clamo pelo Senhor na minha angústia, e ele me responde. 2 Senhor, livra-me dos lábios mentirosos e da língua traiçoeira! 3 O que ele lhe dará? Como lhe retribuirá, ó língua enganadora? 4 Ele a castigará com flechas afiadas de guerreiro, com brasas incandescentes de sândalo. 5 Ai de mim, que vivo como estrangeiro em Meseque, que habito entre as tendas de Quedar! 6 Tenho vivido tempo demais entre os que odeiam a paz. 7 Sou um homem de paz; mas, ainda que eu fale de paz, eles só falam de guerra.

INTRODUÇÃO

SOBRE OS CONTEXTOS DO TEXTO

CONTEXTO GERAL DO LIVRO

Posso, com toda a sinceridade, chamar este livro de anatomia de todas as partes da alma, pois não há movimento do espírito que não se encontre refletido em seu espelho. Salmos registra de modo vívido todas as tristezas, dificuldades, medos, dúvidas, esperanças, dores, perplexidades e tempestades que agitam o coração dos homens

A Bíblia Hebraica simplesmente chama o Livro dos Salmos, tehillim, em hebraico “Louvores”. A Septuaginta, versão grega do Antigo Testamento (comumente referida como a LXX), produzida em cerca de 200 a.C., os denomina de “Salmoi”, e é desta palavra que finalmente obtemos nossa palavra “Salmos” (

O Livro dos Salmos ocupa posição central no cânon bíblico como expressão poética, litúrgica e teológica da fé de Israel. Estruturado em cinco livros (Sl 1–41; 42–72; 73–89; 90–106; 107–150), ele ecoa a divisão do Pentateuco, sugerindo um paralelismo deliberado entre Torá e oração. Seu conteúdo é diverso: cânticos de lamento, hinos de louvor, salmos reais, sapienciais e de confiança. Essa variedade reflete o caráter multifacetado da vida religiosa de Israel, abrangendo tanto a adoração comunitária no templo quanto a devoção individual em contextos de sofrimento ou alegria.
Os estudiosos notam que os Salmos foram compostos e compilados ao longo de vários séculos, desde a época davídica até o pós-exílio. Embora muitos sejam atribuídos a Davi, outros têm autoria de Asafe, dos filhos de Corá ou de contextos anônimos. Essa diversidade ressalta sua função como hinário nacional e manual de oração, usado em festivais, procissões e na vida cotidiana. Além disso, a poesia hebraica, marcada pelo paralelismo e por imagens fortes, confere aos Salmos uma profundidade literária única.
Do ponto de vista teológico, os Salmos articulam temas centrais da fé: a soberania de YHWH, sua justiça, fidelidade e misericórdia. Eles expressam a tensão entre o sofrimento humano e a confiança na aliança divina, fornecendo linguagem para a oração em todas as circunstâncias. Para a tradição cristã, os Salmos são ainda cristologicamente significativos, pois apontam para Cristo como cumprimento das esperanças messiânicas e como aquele que ora e sofre em solidariedade com o povo de Deus.

15. USANDO OS SALMOS HOJE

15.1. Os Salmos e a Vida Espiritual

Como já vimos em nossos estudos iniciais, o Livro dos Salmos serve a dois grandes propósitos, que podem ser expressos nestas afirmações:

- O Livro dos Salmos fala a nós.

- O Livro dos Salmos fala por nós.

Cada um desses aspectos é importante e tem conseqüências práticas para nós hoje. O Saltério veio de Deus e conduz a Deus. Recebemos bênção quando lemos e usamos os Salmos e quando somos instruídos por eles. Falam ao nosso coração e trazem verdades espirituais à nossa mente e consciência. Mas também falam por nós, quando os utilizamos em louvor e oração como se fôssemos seus autores. Procedem de situações reais da vida e, porque estão arrostando de frente a variedade de necessidades humanas, são capazes de responder a Deus por usarem seu vocabulário como sendo o nosso próprio.

CONTEXTO IMEDIATO

Sobre os Cânticos de Peregrinação
Os Cânticos de Peregrinação (também chamados de Cânticos de Romagem ou Shir ha-ma‘alotשִׁיר הַמַּעֲלוֹת) correspondem ao grupo de salmos 120 a 134. A expressão hebraica significa literalmente “cântico das subidas”. Esse título pode ser entendido de três maneiras principais:
Subida geográfica — Jerusalém está situada em região montanhosa, de modo que peregrinos sempre “subiam” para a cidade santa (Sl 122.4; Is 2.3). Esses cânticos teriam sido entoados durante as festas anuais de peregrinação (cf. Dt 16.16).
Subida litúrgica — alguns estudiosos sugerem relação com a escadaria do templo, sendo os cânticos utilizados em procissões litúrgicas. A tradição rabínica posterior associou os 15 salmos aos 15 degraus do átrio do templo (Mishna, Sukkah 5:4).
Subida espiritual — no plano teológico, os salmos expressam a jornada de aproximação a Deus, uma peregrinação interior em direção à comunhão plena com o Senhor.
Os temas principais desses cânticos refletem a vida do povo em movimento: súplica por livramento (Sl 120), confiança na proteção divina (Sl 121), alegria de estar em Sião (Sl 122), lamentos em meio à oposição (Sl 123–126), e celebração da bênção comunitária (Sl 133–134). O caráter breve e repetitivo de muitos deles indica que eram adequados para canto coral ou responsorial em viagem.
Do ponto de vista teológico, os Cânticos de Peregrinação formam uma teologia da jornada: o povo de Deus, embora sofredor e exilado, caminha em direção à presença do Senhor, sustentado pela esperança do shalom. Para os cristãos, eles antecipam a peregrinação espiritual rumo ao reino definitivo em Cristo (Hb 13.14; Ap 21).
Os Cânticos de Peregrinação (Sl 120–134): Estrutura, Temas e Teologia
1. Panorama Geral
Os Cânticos de Peregrinação constituem uma pequena coletânea no Saltério, tradicionalmente usada nas peregrinações a Jerusalém nas três festas anuais (Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos, cf. Dt 16.16). O título “Shir ha-ma‘alot” pode referir-se tanto à subida física para Sião quanto ao movimento espiritual de aproximação a Deus. Sua disposição sequencial sugere uma jornada litúrgica e teológica: começa no exílio e opressão (Sl 120) e culmina na adoração jubilosa no templo (Sl 134).
2. Exegese Temática Salmo a Salmo
Salmo 120 — O clamor do peregrino distante Marca o início da jornada: o fiel ainda vive “em Meseque e Quedar”, cercado por hostilidade e mentira. É o ponto de partida: a consciência de que estamos em exílio e precisamos clamar por socorro. Tema: oração em meio à alienação.
Salmo 121 — O Deus que guarda o peregrino Contrasta com o medo inicial: “Elevo os olhos para os montes”. O salmo exalta YHWH como guardião constante, que não dorme nem se descuida. Tema: confiança na proteção divina.
Salmo 122 — Alegria em Jerusalém Chegada triunfante: “Alegrei-me quando me disseram: Vamos à casa do Senhor.” Celebra a unidade das tribos em Sião e ora pela paz de Jerusalém. Tema: adoração comunitária e shalom.
Salmo 123 — Olhos fixos no Senhor Aqui, o tom retorna à súplica: os fiéis olham para Deus como servos para o seu senhor, pedindo misericórdia contra o desprezo. Tema: dependência humilde da graça divina.
Salmo 124 — O Senhor, nosso socorro Memorial histórico: “Se não fosse o Senhor que esteve ao nosso lado…”. O salmo relembra livramentos passados para fundamentar a confiança presente. Tema: a memória da salvação.
Salmo 125 — Os que confiam são inabaláveis Imagem de Sião firme como os montes ao redor. Expressa segurança da fé em contraste com o destino dos ímpios. Tema: estabilidade da confiança.
Salmo 126 — O sonho do retorno Recorda a restauração de Sião como um sonho, mas também pede renovação: “os que semeiam em lágrimas, com júbilo ceifarão”. Tema: esperança em meio às lágrimas.
Salmo 127 — Deus, fundamento da vida Salmo atribuído a Salomão. Declara que sem o Senhor, todo trabalho é vão, mas com ele há bênção para família e filhos. Tema: dependência de Deus no cotidiano.
Salmo 128 — A bem-aventurança do temor do Senhor Retrata a família piedosa, abençoada em trabalho e descendência. Eco do salmo anterior, em tom de sabedoria. Tema: o shalom no lar.
Salmo 129 — Libertação da opressão O salmista recorda como Israel foi “muito oprimido desde a juventude”, mas sempre preservado por Deus. Tema: perseverança e vitória contra opressores.
Salmo 130 — Clamor das profundezas Um dos mais profundos salmos penitenciais: “Das profundezas clamo a ti, Senhor.” Exalta a graça do perdão e conclama Israel a esperar no Senhor. Tema: perdão e esperança escatológica.
Salmo 131 — Humildade diante de Deus Brevíssimo, mas denso: o salmista confessa que não se ensoberbece, antes se aquieta como criança no colo da mãe. Tema: humildade confiante.
Salmo 132 — Orei por Davi, Sião escolhida Celebra a promessa davídica e a eleição de Sião como lugar do Senhor. Tema: aliança davídica e presença divina.
Salmo 133 — A unidade fraterna Comparada ao óleo sobre a cabeça de Arão e ao orvalho do Hermom: imagem poética da bênção da comunhão fraterna. Tema: a bênção da unidade.
Salmo 134 — Bênção final no templo Encerramento da peregrinação: convoca os servos do Senhor a bendizerem-no no santuário noturno. Tema: adoração jubilosa no clímax da jornada.
3. Estrutura Progressiva
Os Cânticos de Peregrinação formam uma narrativa espiritual coletiva:
Partida (Sl 120–122): do exílio à alegria em Jerusalém.
Caminho (Sl 123–126): súplica, confiança e esperança.
Vida em Sião (Sl 127–132): bênção familiar, segurança, promessa davídica.
Clímax (Sl 133–134): unidade fraterna e louvor no templo.
4. Teologia dos Cânticos de Peregrinação
Deus protetor: Ele guarda o peregrino em todas as etapas (Sl 121).
Sião como centro da fé: Jerusalém aparece como lugar de unidade e bênção (Sl 122; 132).
Shalom como dom: paz, prosperidade e plenitude são pedidos recorrentes (Sl 122; 128).
Memória e esperança: lembrança do passado e expectativa da restauração plena (Sl 124; 126; 130).
Comunidade em adoração: a fé não é isolada, mas coletiva (Sl 133–134).
5. Relevância Cristológica
No Novo Testamento, esses salmos encontram eco na ideia de que a Igreja é o povo peregrino, caminhando rumo à Jerusalém celestial (Hb 11.13–16; Ap 21–22). O cumprimento messiânico se dá em Cristo, o verdadeiro templo (Jo 2.21), a fonte do perdão (Sl 130 // Jo 20.23), e o príncipe da paz que reúne irmãos em unidade (Sl 133 // Jo 17).
Introdução: O lugar do Salmo 120 no Saltério
O Salmo 120 é o primeiro dos “Shir ha-ma‘alot” (שִׁיר הַמַּעֲלוֹת), os chamados “Cânticos de Ascensão” ou “Cânticos de Romagem”. A posição inicial do Salmo 120 sugere que ele expressa a condição do peregrino ainda longe de Sião, cercado por hostilidade e falsidade, clamando por livramento. Assim, abre a jornada espiritual com uma oração marcada pela tensão entre exílio e esperança.
Dentro do Saltério, o Salmo 120 inaugura os cânticos de peregrinação, marcando o início da jornada do fiel rumo a Jerusalém. Enquanto os salmos seguintes (Sl 121–122) acentuam a confiança e a alegria no templo, o Salmo 120 parte do exílio existencial. Esse arranjo literário reforça a progressão espiritual: da alienação ao encontro com Deus. No cânon cristão, essa progressão ressoa com a trajetória do povo de Deus, que caminha da dispersão e sofrimento até a plenitude da comunhão em Cristo. Assim, o salmo funciona como paradigma da vida cristã: o discipulado começa com o clamor por livramento e se orienta pela esperança da paz escatológica.

CONTEXTO HISTÓRICO CULTURAL DO TEXTO

CONTEXTO LITERARIO GRAMATICAL DO TEXTO

O gênero predominante do Salmo 120 é o lamento individual. Ele se organiza em três movimentos: (1) confiança retrospectiva no livramento divino (v.1); (2) súplica contra a língua enganosa (vv.2–4); (3) lamento pela condição de exílio e busca de paz (vv.5–7). Essa estrutura reflete o movimento espiritual do fiel: da experiência de oração respondida ao clamor renovado diante da hostilidade. A linguagem é concisa, típica dos salmos de peregrinação, destinados à repetição litúrgica. Imagens fortes — “flechas agudas” e “brasas de zimbro” — traduzem poeticamente a intensidade do julgamento divino contra a mentira. A alternância entre experiência pessoal (“clamei ao Senhor”) e denúncia comunitária (“eles odeiam a paz”) reforça o caráter representativo do salmo.

UMA ILUSTRAÇÃO

A língua que matou, e Deus que restaurou

Era o início do século XVI, e a Inglaterra estava mergulhada em ignorância espiritual. A Bíblia, guardada em latim, permanecia inacessível para o povo comum. Um jovem chamado William Tyndale sentia em seu coração uma convicção ardente: cada lavrador deveria poder ler a Palavra de Deus em sua própria língua.
Mas sua paixão pela Escritura o colocou contra forças poderosas. Bispos e autoridades religiosas começaram a espalhar rumores sobre ele: “Tyndale é um herege, está corrompendo a fé, vai destruir a Igreja!”. Esses boatos, repetidos em púlpitos e tribunais, se espalharam como fogo. Amigos se afastaram, e sua reputação foi manchada. Onde quer que fosse, o nome de Tyndale era associado à mentira e à deslealdade. Era o assassinato de sua reputação.
Perseguido, ele fugiu da Inglaterra. Continuou a traduzir a Bíblia em quartos escuros, movendo-se de cidade em cidade. Mesmo assim, a calúnia o alcançava: “Traidor, inimigo da fé, servo do diabo!”. Finalmente, foi capturado. Preso, foi julgado não por seus atos, mas pelas mentiras que o cercavam. Em 1536, foi condenado e executado.
Mas a história não terminou ali. Poucos anos depois, a própria tradução que Tyndale fizera começou a ser usada amplamente. Quando a Versão do Rei Tiago (1611) foi publicada, mais de 80% do Novo Testamento trazia o trabalho de Tyndale. O mesmo homem que fora destruído pela calúnia agora era reconhecido como herói da fé. Hoje, seu nome é honrado em todo o mundo como o mártir que deu ao povo a Bíblia em inglês.
O salmo 120 ganha vida em sua história: “Clamei ao Senhor na minha angústia, e ele me respondeu. Senhor, livra-me dos lábios mentirosos, da língua enganadora”. As mentiras tentaram apagar Tyndale, mas Deus transformou sua reputação manchada em testemunho eterno.

UMA PROBLEMÁTICA

A maioria de nós já foi ferida não por armas, mas por palavras. Uma frase maldosa, um comentário distorcido, uma fofoca sussurrada nos bastidores… e de repente uma reputação está abalada, uma amizade destruída, uma comunidade dividida. A fofoca é aparentemente inofensiva — “apenas uma conversa” —, mas na realidade ela funciona como veneno lento. Ela espalha suspeita, mina a confiança e corrói relacionamentos. A Bíblia não trata a fofoca como algo leve: ela a denuncia como obra do maligno, pois o diabo é chamado de “pai da mentira” (Jo 8.44).
O salmista do Salmo 120 sabia exatamente o peso disso. Ele clama: “Livra-me, Senhor, dos lábios mentirosos, da língua enganadora.” Ele estava cercado por gente que torcia suas palavras, que o acusava falsamente, que o fazia viver em constante tensão. Sua oração é a de quem sofre calúnia e busca refúgio no Deus que responde e faz justiça.
Assim, quando lemos o Salmo 120, não estamos diante de poesia antiga, mas de um espelho da nossa realidade. Ele nos ensina a clamar ao Senhor quando palavras nos ferem, a confiar na justiça de Deus quando sofremos difamação, e a assumir a postura de quem ama a paz, mesmo quando cercado por vozes de guerra.

AFIRMAÇÃO TEOLÓGICA: Em meio a um mundo de mentira e hostilidade, Cristo é a nossa paz, aquele que ouve o nosso clamor e nos sustenta na peregrinação.

SENTENÇA INTERROGATIVA: Como devemos viver quando somos atingidos por palavras falsas e hostis, quando a “língua mentirosa” tenta nos destruir?

SENTENÇA DE TRANSIÇÃO: O Salmo 120 nos mostra três respostas fundamentais: clamar ao Senhor, confrontar a falsidade com a verdade de Deus e comprometer-se a ser alguém pela paz.

ARGUMENTAÇÃO

PONTO 1: CLAME: A ORAÇÃO QUE TESTEMUNHA

Salmo 120.1 “1 Eu clamo pelo Senhor na minha angústia, e ele me responde.”

EXPLICA

Estrutura: confiança retrospectiva — o salmista começa lembrando que já clamou e já foi atendido.
O verbo qārā’tî (קָרָאתִי) — “clamei” (Qal perfeito) indica ação concluída.
O verbo ‘ānānî (עָנָנִי) — “ele me respondeu” mostra certeza e imediatidade da resposta.
Teologia: a fé não é esquecida, mas confiante na memória da ação de Deus.
“O salmista não começa com dúvida — começa com memória: ‘clamei… e ele me respondeu’. Sejam honestos: quantos de nós têm uma lista de ‘respostas de Deus’ para lembrar quando chega a tempestade? A oração cristã não é tiro no escuro; é diálogo de quem já experimentou socorro. Por isso o primeiro remédio é relembrar.”

ILUSTRA

Corrie ten Boom e sua família, cristãos holandeses, ficaram conhecidos por abrigar judeus durante a ocupação nazista. Em 1944, um homem bateu à porta pedindo ajuda, afirmando que sua esposa havia sido presa. Confiando nele, Corrie abriu sua casa. Mas aquele homem era um traidor. Ele os denunciou, e logo a Gestapo invadiu a residência.
No interrogatório, Corrie ouviu mentiras terríveis. Disseram que ela lucrava com a miséria dos judeus, que usava a fé cristã como fachada. Sua reputação, construída em anos de serviço, foi manchada por calúnias. Sozinha em sua cela, ela escreveu: “Senti o peso das palavras mentirosas, e minha alma quis gritar. Mas dobrei os joelhos e clamei: Senhor, ouve a minha angústia.”
Naquele momento, Corrie descreve que uma paz inexplicável a envolveu. Ela entendeu que sua vida estava nas mãos de Deus, e não dos homens. O sofrimento continuou — ela foi levada a um campo de concentração —, mas a calúnia não venceu. Anos depois, sua história foi restaurada diante do mundo: Corrie tornou-se símbolo de perdão e fé, e seu testemunho alcançou milhões de pessoas em livros e palestras.
Assim como no Salmo 120, Corrie pôde dizer: “Na minha angústia clamei ao Senhor, e Ele me respondeu.”

APLICA

Incentivar práticas de oração memorativa: registros de oração, testemunhos nas células.
Ensinar a comunidade a cultivar memória espiritual de respostas de Deus.
(Aplicação prática: criar uma “caixa de memórias de oração” na comunidade).

PONTO 2: CONFRONTE: A FALSIDADE COM A VERDADE DE DEUS

Salmo 120.2–4 “2 Senhor, livra-me dos lábios mentirosos e da língua traiçoeira! 3 O que ele lhe dará? Como lhe retribuirá, ó língua enganadora? 4 Ele a castigará com flechas afiadas de guerreiro, com brasas incandescentes de sândalo.”

EXPLICA

O salmista passa da recordação da resposta divina (v.1) para um novo clamor: “Senhor, livra-me dos lábios mentirosos e da língua traiçoeira.” (v.2). Aqui surge a súplica e a denúncia contra a mentira.
A “língua enganosa” não é apenas falha retórica; é força social que quebra reputações e destrói comunidades.
No v.2, o pedido é pela libertação da lāšôn šeqer (לָשׁוֹן שֶׁקֶר) — “língua mentirosa” — associada a poder destrutivo.
A súplica usa o verbo hatzilēnî (הַצִּילֵנִי) — “livra-me / salva-me” — forma de pedido urgente por resgate.
A imagem culmina no v.4: “flechas agudas” (ḥiṣṣê gibbôr šenûnîm) e “brasas de zimbro” (gaḥălê r’tamîm). Palavras falsas são ajuizadas com armas letais: flechas que atingem longe e brasas que queimam longamente, metáfora da consumação inevitável do juízo.
Teologia
O salmo enfatiza que a esperança do justo não está em contra-ataques verbais, mas em Deus, único recurso contra a hostilidade. A justiça divina é descrita poeticamente como reversão: os enganadores colherão as consequências de sua própria violência (vv.3–4).
Esse tema ecoa na sabedoria bíblica: “Há seis coisas que o Senhor odeia… a língua mentirosa” (Pv 6.16–19); “Os lábios mentirosos são abomináveis ao Senhor” (Pv 12.22).
O mal da fofoca e da calúnia não é apenas pessoal, mas comunitário: ameaça o shalom de Sião.

ILUSTRA

Quando Jesus foi levado ao Sinédrio, os líderes religiosos buscaram testemunhas que o incriminassem. Mateus registra: “Ora, os principais sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam algum testemunho falso contra Jesus, a fim de o condenarem à morte; e não o acharam, apesar de se terem apresentado muitas testemunhas falsas” (Mt 26.59–60).
A cena é clara: a “língua mentirosa” estava em ação, tentando destruir o Justo. Palavras falsas foram usadas como flechas contra Cristo, e calúnias como brasas consumiram sua reputação diante da multidão. Contudo, mesmo sem responder a essas mentiras, Jesus permaneceu firme. Deus reverteu a injustiça na ressurreição, provando que a verdade tem a última palavra.
Assim como o salmista de Salmo 120 clama por livramento, vemos em Jesus aquele que enfrentou a calúnia em nosso lugar e venceu pela verdade de Deus.

APLICA

Que não sejamos nós os de “labios mentirosos e lingua traiçoeira”
Efésios 4.29 “29 Nenhuma palavra torpe saia da boca de vocês, mas apenas a que for útil para edificar os outros, conforme a necessidade, para que conceda graça aos que a ouvem.”
Estabelecer disciplina no falar: antes de compartilhar algo, perguntar: 1- é verdade? 2- edifica? 3- é necessário? 4- é amoroso?
Ser igreja que edifica pela palavra, não que destrói pela calúnia.
“vamos falar da vida de Jesus”

PONTO 3: COMPROMETA-SE: A SER ALGUÉM PELA PAZ

Salmo 120.5–7 “5 Ai de mim, que vivo como estrangeiro em Meseque, que habito entre as tendas de Quedar! 6 Tenho vivido tempo demais entre os que odeiam a paz. 7 Sou um homem de paz; mas, ainda que eu fale de paz, eles só falam de guerra.”

EXPLICA

O salmista expressa um lamento existencial: sente-se estrangeiro, vivendo entre povos hostis — “em Meseque, nas tendas de Quedar” (vv.5–6). A menção a Meshech (מֶשֶׁךְ) e Qēdār (קֵדָר) situa o salmo em um contexto simbólico mais do que geográfico. Historicamente, Meshech era um povo das regiões do Cáucaso ou Ásia Menor, ligado a tribos bárbaras (Gn 10.2; Ez 32.26), enquanto Qedar designava tribos nômades árabes do deserto (Is 21.16-17; Jr 49.28–33). Esses nomes evocam povos distantes e hostis e, por isso, representam não apenas realidades geográficas, mas símbolos de alienação espiritual: a experiência de viver entre aqueles que rejeitam a paz e cultivam a violência.
O salmista, portanto, não afirma necessariamente habitar nessas terras, mas usa-as como metáfora da condição do fiel em mundo hostil. Tal quadro pode refletir a situação pós-exílica, quando Israel enfrentava oposição de vizinhos ao reconstruir Jerusalém (cf. Ed 4; Ne 4).
Em meio a esse ambiente, ele declara: “Eu sou pela paz” (v.7). Essa afirmação não é passividade, mas uma opção consciente pela reconciliação. O salmista assume postura contracultural: mesmo cercado por aqueles que falam de guerra, ele se compromete com o shalom de Deus. Da mesma forma, Jesus não nos chama à neutralidade, mas à ação: ser pacificadores (Mt 5.9), agentes que plantam paz onde há conflito, o que exige coragem para enfrentar mentiras e oferecer reconciliação.
O clímax do salmo está no v.7: “Eu sou pela paz, mas, quando falo, eles são pela guerra.” Esse versículo apresenta a antítese entre o fiel, que se orienta pelo shalom (שָׁלוֹם), e os ímpios, que se alimentam do conflito. O termo shalom na teologia bíblica não se limita à ausência de guerra; ele expressa plenitude, harmonia e ordem segundo o propósito divino (cf. Nm 6.26; Is 9.6).
Assim, a declaração do salmista é contracultural: em meio a um ambiente hostil, ele se compromete com a paz, não como passividade, mas como opção ética e teológica pela reconciliação. A hostilidade dos que odeiam a paz reflete oposição não apenas ao justo, mas ao próprio Deus da aliança.
O salmo dramatiza, portanto, a tensão escatológica entre o Reino de paz prometido por Deus e a realidade presente de conflito. Essa tensão aponta para a necessidade de intervenção divina definitiva, quando o shalom será plenamente estabelecido.

ILUSTRA

Um ditado português diz: "Dou um boi para não entrar numa briga, mas dou uma boiada para não sair." Deveria ser: Eu dou um boi para não entrar numa briga e uma boiada para sair.
Mateus 5.9 “9 Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus.”
Efésios 4.15–16 “15 Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo. 16 Dele todo o corpo, ajustado e unido pelo auxílio de todas as juntas, cresce e edifica-se a si mesmo em amor, na medida em que cada parte realiza a sua função.”

APLICA

Ser igreja como lugar seguro contra fofoca e divisão.
Desenvolver práticas de mediação e reconciliação dentro da comunidade.
Dar testemunho público de honestidade e paz em meio a uma sociedade polarizada.
Comprometer-se pessoalmente a ser pacificador, não cúmplice da guerra de palavras.
Aplicações concretas para a igreja incluem: treinamento em resolução de conflitos, criação de espaços de reconciliação e testemunho público de compromisso com a paz

CONCLUSÃO

Recapitulação

O Salmo 120 inaugura os cânticos de ascensão mostrando o povo de Deus em exílio existencial: cercado por mentira e hostilidade, mas confiante na resposta do Senhor. Estruturalmente, o salmo articula oração atendida, súplica renovada e lamento pela alienação, culminando no desejo de paz.

Síntese Teológica e Cristológica

Teologicamente, destaca a fidelidade de Deus, a justiça contra a mentira e a centralidade do shalom.
Canonicamente, abre a peregrinação rumo a Jerusalém, imagem da jornada espiritual da comunidade.
Cristologicamente, cumpre-se em Jesus, que é a nossa paz (Ef 2.14), alvo de calúnias mas vitorioso na cruz e ressurreição.
Eticamente, desafia-nos a viver como pacificadores em meio a uma cultura de hostilidade e mentira.

Aplicação Pastoral

Há três tarefas práticas que este salmo nos propõe:
Lembrar — cultivar memória da oração respondida, fortalecendo a fé.
Refrear — controlar a língua e também as redes, rejeitando boatos e fofocas.
Comprometer-se — ser pacificador, mesmo quando cercado por vozes de guerra.

Perguntas para Reflexão

Em sua vida, quais são os obstáculos que o impedem de trabalhar pela paz? Como você poderia superá-los em Cristo?
Como sua comunidade pode promover uma paz comprometida com a verdade e a justiça?

Estrutura “O que ser? O que saber? O que fazer?”

O que ser? Um peregrino da paz, que segue a Cristo em meio a um mundo de mentira e hostilidade.
O que saber? Que Deus ouve o clamor, responde ao seu povo e garante o triunfo da verdade sobre a mentira.
O que fazer? Lembrar-se das respostas de oração, refrear a língua e viver como agente do shalom de Cristo.

Oração Comunitária (sugestão para leitura em voz alta)

“Senhor da paz, livra-nos da língua mentirosa e da boca enganadora. Dá-nos coragem para lembrar das Tuas respostas, disciplina para refrear nossas palavras e compromisso para sermos pacificadores. Que a nossa comunidade seja um lugar de verdade e reconciliação. Concede-nos o shalom de Cristo, que é a nossa paz e vitória sobre a mentira. Em nome de Jesus, Amém.”

A Língua (O Vale da Visão) The Valley of Vision: A Collection of Puritan Prayers & Devotions (Ed. Arthur Bennett, 1975).

Ó Senhor, subjuga em mim o amor ao pecado. Faz-me conhecer a necessidade não só do perdão, mas também da renovação, para que eu te sirva e desfrute para sempre.
Venho a ti no nome todo-poderoso de Jesus, sem nada meu para apresentar: nem obras, nem méritos, nem promessas.
Muitas vezes me desvio, muitas vezes me levanto contra a tua autoridade, muitas vezes abuso da tua bondade. Grande parte da minha culpa nasce do espírito de independência, querendo fazer o que me agrada.
Ó grava no meu coração a semelhança de teu Filho, para que cada visão dele aumente meu ódio ao pecado. Assim como a permanência do mal é ofensiva a ele, que eu seja sensível a todo sinal do pecado. Não me deixes esquecer que a gravidade do pecado não está tanto na natureza do ato cometido, mas na grandeza daquele contra quem o pecado é praticado.
Quando eu for tentado a guardar na mente os pecados dos outros, ajuda-me a esmagá-los debaixo dos pés e a voltar sempre ao pensamento da tua glória. Que minhas palavras sejam temperadas com sal, minha conversação sempre cheia de graça, minha língua refreada do mal, meus lábios da falsidade.
Livra-me de ser hipócrita na profissão da fé, de enganar os outros, de enganar a mim mesmo, de parecer melhor do que sou, de permitir que minha língua e minha vida entrem em contradição, de me tornar uma mancha que tu jamais apagarás.
Livra-me do poder da língua, do seu veneno mortal, do uso desgovernado dela, de falar com pressa, dos males da difamação, de toda palavra contrária à verdade e ao amor.
Ó Senhor, disciplina a minha língua, usa-a para a tua glória, faz dela um instrumento de bênção para o teu povo.
Amém.
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