Depois das trevas, Luz
Cristiano Gaspar
Igreja em Movimento • Sermon • Submitted • Presented
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Introdução
Introdução
Alguns anos atrás ouvi a história de um homem que parecia estar perdido demais para ser transformado. Ele era envolvido com o tráfico, violento, e chegou a ser preso diversas vezes. Dentro da cadeia, a Bíblia que caía em suas mãos era usada não para ser lida, mas para arrancar páginas e enrolar cigarro. Ele ria quando alguém falava de Jesus.
Mas um dia, em meio à escuridão da cela, antes de rasgar mais uma página, decidiu ler o que estava escrito. Era o evangelho de João. Pouco a pouco, aquela Palavra que ele desprezava começou a confrontá-lo. A luz de Cristo invadiu suas trevas. O mesmo homem que zombava da Bíblia passou a ser transformado por ela. Hoje, aquele que antes usava as páginas das Escrituras para alimentar o vício é um pregador, alguém que guia outros para a mesma luz que um dia o encontrou.
Histórias assim nos lembram de uma verdade poderosa: ninguém está fora do alcance da graça de Deus. A luz do evangelho pode romper até a noite mais escura.
E é exatamente isso que vemos em Atos 9. Imagine por um instante a cena: uma cidade em alerta máximo, famílias trancando portas, comunidades inteiras vivendo em tensão porque há um homem com cartas oficiais nas mãos, disposto a perseguir e destruir aqueles que seguem a Cristo. Esse homem respira ameaças como quem respira oxigênio. O nome dele é Saulo.
Mas antes de mergulharmos nesse episódio, quero te lembrar de uma frase histórica que atravessou séculos. Os reformadores do século XVI usavam uma expressão em latim para resumir o que o evangelho fez em seus dias: Post Tenebras Lux — “Depois das trevas, luz”. Eles criam que, após séculos de escuridão espiritual e distorção da verdade, a luz do evangelho voltou a brilhar.
Essa frase não descreve apenas a Reforma. Ela descreve Atos 9. Ela descreve o que acontece na vida de cada cristão. Porque todos nós, de uma forma ou de outra, já caminhamos em trevas. Trevas de orgulho, trevas de incredulidade, trevas de justiça própria, trevas de buscar em Deus apenas um meio para conquistar aquilo que realmente amamos: status, segurança, aceitação, poder.
Muitas vezes não queremos a Deus em si, mas aquilo que achamos que Deus pode nos dar. E assim, sem perceber, estamos em trevas — mesmo quando pensamos estar em plena luz.
Foi nesse estado que Saulo caminhava: religioso, zeloso, respeitado, mas cego. E é nesse estado que Cristo o encontra no caminho de Damasco. Aquele que respirava morte é surpreendido por uma luz mais forte que o sol do meio-dia. E o que veremos em Atos 9 é exatamente isso: depois das trevas, luz.
Esse é o título da nossa mensagem de hoje e também o movimento central do texto. A luz de Cristo confronta Saulo, transforma sua vida e o envia em missão. E se essa é a história dele, também pode ser a nossa.
E isso levanta uma pergunta decisiva: o que acontece quando Cristo interrompe a nossa jornada de autossuficiência?
Hoje vamos ver três movimentos claros nesse texto:
Como a graça de Cristo nos confronta.
Como a graça de Cristo nos transforma.
Como a graça de Cristo nos envia.
E no final, você vai perceber: a conversão de Saulo não é apenas uma história extraordinária de 2000 anos atrás. É um convite para que cada um de nós seja confrontado, transformado e enviado por Jesus.
1 Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote 2 e lhe pediu cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que, caso achasse alguns que eram do Caminho, tanto homens como mulheres, os levasse presos para Jerusalém. 3 Enquanto seguia pelo caminho, ao aproximar-se de Damasco, subitamente uma luz do céu brilhou ao seu redor. 4 Ele caiu por terra e ouviu uma voz que lhe dizia:
— Saulo, Saulo, por que você me persegue?
5 Ele perguntou:
— Quem é o senhor?
E a resposta foi:
— Eu sou Jesus, a quem você persegue. 6 Mas levante-se e entre na cidade, onde lhe dirão o que você deve fazer.
7 Os homens que viajavam com Saulo pararam emudecidos, ouvindo a voz, mas não vendo ninguém. 8 Então Saulo se levantou do chão e, abrindo os olhos, nada podia ver. E, guiando-o pela mão, levaram-no para Damasco. 9 Esteve três dias sem ver, durante os quais nada comeu, nem bebeu.
1. A graça de Cristo nos confronta (Atos 9.1–9)
1. A graça de Cristo nos confronta (Atos 9.1–9)
Se você olhar para os primeiros versículos, Saulo está no auge da sua fúria religiosa. O texto diz que ele “respirava ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor” (v. 1). Essa expressão é fortíssima: é como se respirar fosse sinônimo de odiar. O oxigênio de Saulo era a violência contra os cristãos. Ele não se contentava em ser um fariseu convicto; ele queria ser um executor implacável.
Agora, aqui está a ironia: Saulo acreditava estar fazendo isso por Deus. Ele achava que perseguir cristãos era um ato de zelo espiritual. Aos olhos dele, Jesus era um impostor, e aqueles homens e mulheres do Caminho eram uma seita perigosa. Você percebe o perigo? O coração humano é capaz de chamar o ódio de devoção, a violência de fé, o pecado de santidade.
E então, no meio da estrada para Damasco, Jesus o interrompe. Uma luz do céu brilha, Saulo cai por terra, e uma voz o chama pelo nome: “Saulo, Saulo, por que você me persegue?” (v. 4). Essa é a primeira lição que precisamos absorver: a graça de Cristo começa nos confrontando.
Agora, deixe-me abrir um parêntese aqui. Existe um mito muito repetido entre nós: que Saulo ‘caiu do cavalo’. A cena é quase clássica em nossa imaginação, Paulo montado, caindo dramaticamente. Mas perceba: o texto não menciona cavalo nenhum! Ele pode até ter usado um animal ou uma carruagem na viagem, mas a ênfase de Lucas não está no meio de transporte, e sim no fato de que ele caiu diante da glória de Cristo. O que importa não é de onde Saulo caiu, mas por que ele caiu. Ele caiu porque seu orgulho foi desmontado. Ele caiu porque sua autossuficiência não podia permanecer de pé diante da luz de Jesus. Em outras palavras: o que Cristo derruba não é a montaria, mas o ego.
Perceba que Jesus não diz: “Por que você persegue os meus discípulos?”, mas “por que você me persegue?”. Em outras palavras, ferir a igreja é ferir o próprio Cristo. Tocar no corpo é tocar na cabeça. Aqui está algo profundamente consolador: Jesus se identifica de tal maneira com o seu povo que qualquer agressão contra os discípulos é uma agressão contra o próprio Senhor. Isso significa que se você é de Cristo, nunca está sozinho. Quando você sofre injustiça por causa do evangelho, Jesus toma aquilo como pessoal.
Mas veja também o escândalo dessa graça. Jesus poderia ter destruído Saulo ali mesmo, fulminado-o com a luz. Ele tinha poder para isso. Mas, em vez de aniquilar, ele confronta com uma pergunta. É quase como se dissesse: “Saulo, você percebe para onde esse caminho está te levando? Você realmente sabe a quem está servindo?”
E aqui está a aplicação: a conversão começa quando Cristo desmascara nossas ilusões. Saulo pensava estar no controle, mas descobre que é cego. Ele acreditava ver com clareza, mas sai da estrada tateando, guiado pela mão de outros. Você percebe a ironia? O homem mais determinado, mais convicto, mais autoconfiante de Jerusalém agora precisa ser conduzido como uma criança.
Essa é a obra da graça: antes de curar, ela nos fere; antes de levantar, ela nos derruba. Não há encontro real com Jesus sem confronto.
E essa é a nossa história também. Cristo não vem para nos derrubar do cavalo, mas para nos desmontar da ilusão de que estamos no controle. Você já caiu do seu orgulho diante dele?
E talvez seja por isso que muitos não querem de fato Jesus. Querem um Cristo que os confirme, não que os confronte. Querem um salvador que os ajude a realizar seus planos, não um Senhor que os interrompa no caminho e diga: “Você está indo na direção errada.”
E eu pergunto: você já foi confrontado dessa forma? Já sentiu Jesus questionar sua autossuficiência? Talvez você nunca tenha respirado “ameaças e morte”, mas respira orgulho, controle, indiferença. A graça de Cristo continua perguntando: “Por que você vive dessa forma? Por que você insiste em me resistir?”
Eis a boa notícia: esse confronto não é para destruir, é para salvar. É o choque da luz que primeiro cega, mas depois cura. É o confronto que humilha, mas também prepara para a verdadeira visão.
10 Havia em Damasco um discípulo chamado Ananias. O Senhor lhe apareceu numa visão e disse:
— Ananias!
Ao que ele respondeu:
— Eis-me aqui, Senhor!
11 Então o Senhor lhe disse:
— Levante-se e vá à rua que se chama Direita e, na casa de Judas, procure um homem de Tarso chamado Saulo. Ele está orando 12 e, numa visão, viu entrar um homem, chamado Ananias, e impor-lhe as mãos, para que recuperasse a vista.
13 Ananias, porém, respondeu:
— Senhor, de muitos tenho ouvido a respeito desse homem, quanto mal tem feito aos teus santos em Jerusalém. 14 E aqui em Damasco ele tem autorização dos principais sacerdotes para prender todos os que invocam o teu nome.
15 Mas o Senhor disse a Ananias:
— Vá, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome diante dos gentios e reis, bem como diante dos filhos de Israel. 16 Pois eu mesmo vou mostrar a ele quanto deve sofrer pelo meu nome.
17 Então Ananias foi e, entrando na casa, impôs as mãos sobre Saulo, dizendo:
— Saulo, irmão, o Senhor Jesus, que apareceu a você no caminho para cá, me enviou para que você volte a ver e fique cheio do Espírito Santo.
18 Imediatamente caíram dos olhos de Saulo umas coisas parecidas com escamas, e ele voltou a ver. A seguir, levantou-se e foi batizado. 19 E, depois de comer, sentiu-se fortalecido.
Saulo permaneceu alguns dias com os discípulos em Damasco. 20 E logo, nas sinagogas, proclamava Jesus, afirmando que ele é o Filho de Deus. 21 Todos os que ouviam Saulo estavam atônitos e diziam:
— Não é este o que exterminava em Jerusalém os que invocam o nome de Jesus e veio para cá precisamente para prender e levá-los aos principais sacerdotes?
22 Saulo, porém, mais e mais se fortalecia e confundia os judeus que moravam em Damasco, demonstrando que Jesus é o Cristo.
2. A graça de Cristo nos transforma (Atos 9.10–22)
2. A graça de Cristo nos transforma (Atos 9.10–22)
Se a primeira parte do texto mostra Saulo sendo derrubado e confrontado, agora vemos a graça de Cristo reconstruindo sua vida. É como se a velha estrutura fosse demolida para que uma nova pudesse ser erguida.
O cenário muda para Damasco, onde aparece um personagem improvável: Ananias. Não sabemos muito sobre ele, apenas que era um discípulo comum, sem títulos, sem notoriedade. Mas é a ele que o Senhor dá uma ordem surpreendente: vá até Saulo, imponha as mãos sobre ele e ore para que volte a ver.
Agora, tente imaginar a reação de Ananias. Em outras palavras Ananias responde (v.13): “Senhor, o senhor tem certeza? Esse homem é um assassino. Ele veio aqui justamente para prender a gente. O senhor quer que eu vá até ele e o chame de irmão?”
A ironia aqui é tremenda. Jesus escolhe o perseguidor mais violento para ser o pregador mais apaixonado, e envia um discípulo comum, cheio de medo, para ser o agente humano dessa transformação. Isso nos mostra que a graça de Cristo é radicalmente transformadora, tanto para quem recebe como para quem obedece.
E a transformação em Saulo é profunda. Note alguns detalhes:
Ele entra cego, mas sai com nova visão.
Ele chega cheio de ódio, mas sai batizado em nome de Jesus.
Ele se alimentava de violência, mas agora se fortalece com pão e com a comunhão dos discípulos.
O perseguidor agora é chamado de “irmão” (v. 17).
Isso não é reforma de comportamento, é nova criação. Como Paulo mesmo diria anos depois: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura” (2Co 5.17).
E perceba: a transformação não é apenas espiritual e interior, mas também comunitária. A primeira coisa que Saulo experimenta como novo discípulo é ser acolhido pela igreja que antes ele queria destruir. Ele não apenas vê Jesus, mas passa a ver os cristãos de uma nova maneira. O inimigo vira família. Isso nos lembra que ninguém pode dizer: “Eu tenho Jesus, mas não preciso da igreja.” A conversão verdadeira sempre nos insere no corpo.
E então vem o clímax: imediatamente Saulo começa a pregar nas sinagogas (v. 20). Pense nisso: o mesmo homem que via Jesus como impostor agora proclama publicamente: “Ele é o Filho de Deus!” A transformação é tão drástica que as pessoas ficam atônitas: “Não é este o homem que perseguia em Jerusalém aqueles que invocavam esse nome?” (v. 21).
Esse é o poder da graça: tornar o inimigo em testemunha, o opressor em proclamador, o religioso orgulhoso em servo humilde.
E aqui está a aplicação para nós: a conversão verdadeira não é apenas abandonar o pecado, mas abraçar uma nova missão. Jesus não apenas nos tira da escuridão; ele nos envia como portadores da luz.
Você percebe como isso atinge a nossa vida prática? Quantos de nós tratam a fé como uma espécie de “seguro de vida espiritual”: eu entrego meu coração a Jesus para não ir para o inferno, e sigo vivendo como sempre vivi. Mas não foi assim com Saulo. Encontrar Cristo significou uma reconfiguração total da sua identidade, das suas prioridades, dos seus relacionamentos.
E a pergunta inevitável é: o que a graça de Cristo transformou em você? Sua agenda, seu casamento, suas finanças, suas ambições, seu olhar sobre os outros — tudo isso foi tocado? Ou você apenas acrescentou “ir à igreja” na sua lista semanal, mas o centro da vida continua sendo você mesmo? A verdaderia conversão tira o eu do centro orientador da nossa vida e coloca Cristo. Isso muda a forma como eu me relaciono com o próximo, comigo mesmo, como eu vejo a vida, como eu me relaciono com os bens materiais, com o trabalho, com o lazer, a forma como eu gasto meu dinheiro, tudo… Por isso o domingo é emblemático para nós, o primeiro dia da semana como o dia do Senhor, é como eu começo apontando para qual é a minha prioridade.
A graça que salva é a mesma graça que transforma. Não é possível ter Cristo como Salvador sem tê-lo como Senhor.
23 Decorridos muitos dias, os judeus resolveram matar Saulo, 24 mas ele ficou sabendo do plano deles. Dia e noite guardavam também os portões da cidade, para o matar. 25 Mas os discípulos de Saulo tomaram-no de noite e, colocando-o num cesto, desceram-no pela muralha.
26 Quando chegou a Jerusalém, Saulo procurou juntar-se aos discípulos de Jesus. Porém todos tinham medo dele, não acreditando que ele fosse discípulo. 27 Mas Barnabé, tomando-o consigo, levou-o aos apóstolos. Contou-lhes como Saulo tinha visto o Senhor no caminho, e que o Senhor tinha falado com ele. Também contou como, em Damasco, Saulo tinha pregado ousadamente em nome de Jesus. 28 E Saulo ficou com eles em Jerusalém, entrando e saindo, pregando ousadamente em nome do Senhor. 29 Falava e discutia com os helenistas, mas eles procuravam matá-lo. 30 Quando isto chegou ao conhecimento dos irmãos, levaram Saulo até Cesareia e dali o enviaram para Tarso.
31 Assim, a igreja tinha paz por toda a Judeia, Galileia e Samaria, edificando-se e caminhando no temor do Senhor; e, no consolo do Espírito Santo, crescia em número.
3. A graça de Cristo nos envia (Atos 9.23–31)
3. A graça de Cristo nos envia (Atos 9.23–31)
Se no início do capítulo vemos Saulo respirando ameaças, agora vemos a igreja respirando paz (v. 31). O arco é extraordinário: do perseguidor ao missionário, da ameaça à consolação. Mas repare: essa transição não acontece sem resistência, sem oposição e sem riscos.
Logo após começar a pregar nas sinagogas, Saulo experimenta na pele aquilo que ele mesmo havia feito contra os outros: perseguição. O texto diz que, “decorridos muitos dias, os judeus deliberaram matá-lo” (v. 23). Em Damasco, ele precisa ser descido num cesto, pelas muralhas da cidade, para escapar da morte (v. 25). O caçador vira caçado.
Aqui há uma verdade desconfortável: a missão sempre terá um custo. Ser enviado por Cristo significa entrar em conflito com sistemas, culturas e até religiões que rejeitam o evangelho. Não é à toa que Jesus já havia advertido Ananias: “Eu mostrarei a ele quanto deve sofrer pelo meu nome” (v. 16). O chamado não era para uma vida confortável, mas para uma vida de testemunho sacrificial.
Depois Saulo vai a Jerusalém. E mais uma vez enfrenta oposição — agora, desconfiança dentro da própria igreja. Os discípulos não acreditam em sua conversão (v. 26). É aqui que Barnabé entra em cena. Ele se coloca ao lado de Saulo, apresenta-o aos apóstolos, dá testemunho da sua transformação. Barnabé é o exemplo daquele irmão que aposta na graça, que acredita na obra de Cristo mesmo quando os outros duvidam.
E assim, aos poucos, a igreja começa a aceitar Saulo não como inimigo, mas como aliado. E ele continua pregando ousadamente, agora em Jerusalém, até que precisa ser enviado novamente para não ser morto.
Note a ironia: o homem que queria “prender” cristãos agora é “protegido” por cristãos. O perseguidor é sustentado pelo corpo que antes tentava destruir. Isso é missão: não um projeto individual de heróis solitários, mas a vida de alguém que depende da igreja e serve junto com a igreja.
E o resultado final é surpreendente: “A igreja, na verdade, tinha paz por toda a Judeia, Galileia e Samaria; edificando-se e andando no temor do Senhor, e, no conforto do Espírito Santo, crescia em número” (v. 31).
E aqui vale já corrigir outro mito. Muita gente pensa que Deus mudou o nome de Saulo para Paulo, como aconteceu com Abrão/Abraão ou Jacó/Israel. Mas isso nunca aconteceu. Saulo sempre foi Saulo, esse é o seu nome hebraico. E Paulo é simplesmente a forma grega do mesmo nome. O que acontece é que, quando sua missão se volta principalmente para os gentios, Atos passa a registrar o nome Paulo, porque fazia sentido no novo contexto. Ou seja: não foi uma mudança mística, mas missionária. Não foi Deus impondo um novo nome, mas Saulo assumindo a melhor forma de se apresentar para alcançar outros com o evangelho. É a graça que nos envia, e às vezes até a forma como queremos ser chamados precisa ser ajustada para que Cristo seja conhecido.
Perceba a dinâmica:
Perseguição não freou a missão.
Desconfiança não anulou o chamado.
Sofrimento não impediu a multiplicação.
Porque a missão não depende da força humana, mas do Espírito Santo. É Ele quem envia, quem sustenta, quem abre portas, quem dá fruto.
E aqui está a aplicação: a graça que nos confronta e nos transforma também nos envia. Não existe discipulado sem missão. Jesus não salvou Saulo apenas para que ele tivesse paz interior, mas para que fosse instrumento de paz no mundo.
E você? Para onde a graça de Cristo tem te enviado? Talvez não seja para pregar em sinagogas, mas para viver com ousadia na sua família, no seu trabalho, na sua vizinhança. Talvez o seu “cesto pelas muralhas” seja suportar zombarias, abrir mão de oportunidades, ser mal interpretado. Talvez o seu “Barnabé” seja aquele irmão que te encoraja quando você mesmo duvida.
Mas a lógica é a mesma: todo cristão é enviado. O evangelho não nos deixa parados, nos coloca em movimento.
E aqui está a ironia maior: no fim, o homem que queria sufocar a igreja se torna o instrumento para que ela cresça. O perseguidor vira proclamador, e a paz da igreja é fruto da obra daquele que antes respirava morte. Essa é a inversão radical da graça.
Isso nos ensina algo precioso: conversão verdadeira não é só ganhar uma nova identidade em Cristo, mas também viver de modo que essa identidade seja ponte para alcançar outros. Pergunte-se: o que você está disposto a ajustar em sua vida para que Cristo seja visto mais claramente?
Conclusão
Conclusão
Quando lemos Atos 9, é fácil se impressionar com a história de Saulo. Uma luz do céu, uma voz poderosa, uma transformação radical. Parece algo distante, quase cinematográfico. Mas não se engane: essa não é apenas a história de um apóstolo, é a história de todo cristão.
Porque, no fundo, a conversão de Saulo é um retrato em alta definição do que o evangelho faz em cada um de nós. Ele nos encontra no caminho da autossuficiência, nos confronta com a realidade do nosso pecado, nos transforma em nova criatura e nos envia em missão.
A luz de Cristo não veio apenas para Saulo, mas para todos que estão na escuridão. Talvez você pense: “Mas eu nunca persegui cristãos. Nunca respirei ódio como Saulo.” É verdade. Mas talvez você respire outra coisa: orgulho, ambição, indiferença, amor ao dinheiro, desejo de controle. E o mesmo Cristo que interrompeu Saulo continua interrompendo a nós. Ele continua perguntando: “Por que você vive assim? Por que você insiste em me resistir?”
E aqui está o escândalo do evangelho: Jesus não destrói os seus inimigos; ele os transforma em filhos. Ele não fulminou Saulo, ele o chamou. Ele não aniquilou o perseguidor, ele o enviou como missionário. Essa é a boa notícia: Deus não nos trata como merecemos. Em Cristo, ele derrama graça sobre inimigos.
E se você é cristão, lembre-se: a mesma graça que te salvou é a graça que te envia. Não existe discípulo sem missão. Ser cristão não é apenas frequentar cultos ou acreditar em doutrinas corretas, mas viver no mundo como testemunha daquilo que Cristo fez em você.
A pergunta final é: você já experimentou esse choque da graça? Já foi derrubado pela luz, já percebeu sua cegueira, já se rendeu a Cristo como Senhor? E se já, está disposto a viver como alguém enviado, mesmo que isso custe reputação, conforto ou segurança?
No fim, a história de Saulo aponta para uma história ainda maior: a de Jesus. Porque Cristo também foi confrontado, não pelos seus pecados, mas pelos nossos. Ele também foi descido — não num cesto pelas muralhas, mas da cruz para o túmulo. E foi transformado — não de perseguidor em pregador, mas de morto em vivo, ressuscitado em glória. E é justamente por meio dessa vitória que ele nos envia, no poder do Espírito, para anunciar que há salvação em seu nome.
Portanto, receba o convite: deixe a graça te confrontar, deixe a graça te transformar e deixe a graça te enviar. Porque se Deus pôde transformar Saulo, não há ninguém — absolutamente ninguém — fora do alcance da sua misericórdia.
