O Rei sobre o Casamento (Marcos 10.1-12)

O Rei que se tornou servo: sermões no Evangelho de Marcos  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
0 ratings
· 11 views
Notes
Transcript

O Rei sobre o Casamento (Marcos 10.1-12)

Introdução

Em nosso último sermão, Jesus ensinou sobre o custo do discipulado, advertindo os seus discípulos sobre não serem motivos de tropeço para os outros ou para si mesmos, bem como os direcionou a serem bênção para os outros e promotores da paz. As advertências traziam imagens severas, como a de alguém que se atira ao mar com uma pedra de moinho no pescoço e a de alguém que vai para o inferno, lugar de fogo inextinguível e onde o verme nunca morre.
Em nosso sermão de hoje, vemos Jesus mudando de contexto, indo para a Judeia. Marcos apresenta uma cena familiar com Jesus e as multidões reunidas junto d'Ele enquanto as ensinava. É nesse contexto de ensino que os fariseus se aproximam com uma pergunta capciosa, não para aprender, mas para pôr Jesus à prova. A interação de Jesus continua, então, aprofundando o tema do discipulado, e agora, Jesus aborda o que a vida de um discípulo envolve na área do casamento. Parte-se, portanto, do tema inferno para o tema divórcio, do tema assustador, para o tema espinhoso.

Exposição: Jesus e a Doutrina do Casamento

1. A Pergunta Mal-Intencionada dos Fariseus (v. 1-2)

Jesus muda de Cafarnaum, na Galileia para a Judeia. A rota de Jesus tem se direcionado para Jerusalém, onde o FIlho do Homem será rejeitado, preso, morto e, ao terceiro dia, ressurreto dentre os mortos. Marcos apresenta uma cena familiar com Jesus e as multidões reunidas junte dele enquanto ele os ensinava, como de costume.
Enquanto Jesus ensinava, os fariseus se aproximam para testá-lo com uma pergunta sobre divórcio: "É lícito ao marido repudiar sua mulher?". Esta pergunta é curiosa, visto que a lei judaica permitia o divórcio - e ele era relativamente fácil naquela época. Mateus insere algo que aqui parece estar presumido: a pergunta era sobre o divórcio "por qualquer motivo" (Mateus 19.3). Através do Evangelho de Marcos, no entanto, sabemos que as intenções dos líderes religiosos muitas vezes - no caso em específico - não eram de aprendizado, mas de desacreditar Jesus [Nossa experiência também nos ensina isso, que nem toda pergunta quer saber a resposta, mas acusar ou por a outra pessoa em uma situação difícil]. Essa pergunta, portanto, não vinha com o propósito de esclarecer alguma doutrina teológica, mas colocar Jesus em uma situação difícil.
Primeiramente, diante da população. Entre os judeus haviam diferentes opiniões acerca do ensino de Moisés sobre o divórcio. Segundo Shamai e seus seguidores, “algo escandaloso” [עֶרְוַ֣ת דָּבָ֔ר / erwath dabhar] em Dt 24 seria uma conduta relacionada a falta de castidade ou pureza. Segundo Hillel e seus discípulos, era algo bem mais amplo, interpretando que “não achar favor a seus olhos” daria base para o divórcio por razões mais triviais como servir uma comida queimada ou, conforme William Hendriksen (Mateus, Comentário do Novo Testamento, 2010) “se em casa ela falasse tão alto que os vizinhos a ouvissem”.
Se defendesse Hillel, Jesus estaria mal diante dos discípulos de Shamai e seria visto como alguém de extrema flexibilidade moral - e provavelmente teria uma rusga com seu público feminino de seguidores. Se defendesse a posição de Shamai, teria uma multidão [Mt 19.2] ali presente descontente e poderia se acusado injustamente de incoerência, visto sua proximidade com os pecadores.
Politicamente, poderia ficar numa situação difícil assim como aconteceu com João Batista, o que é indicado principalmente pelo fato de a dúvida ser levantada "além do Jordão", local sob a jurisdição de Herodes Antipas e onde João Batista foi morto.
De qualquer forma, os judeus e a lei judaica concordavam que o divórcio era permitido e os fariseus refletiam uma postura de que o casamento é um pacto reversível. Eles irão reforçar a sua visão no verso 4. Ademais, a interpretação mais liberal de Hillel, ao que parece, era inclusive a majoritária - e talvez até a que os discípulos concordavam (v. 10). Era esse o ambiente cognitivo acerca do divórcio em que a pergunta “é lícito ao marido repudiar a sua mulher por qualquer motivo?” surge.

2. A Dureza do Coração vs. a Ordem de Deus (vs. 3-5)

Jesus responde à pergunta deles com outra pergunta: "Que vos ordenou Moisés?"
Deuteronômio 24.1–4 ARA
Se um homem tomar uma mulher e se casar com ela, e se ela não for agradável aos seus olhos, por ter ele achado coisa indecente nela, e se ele lhe lavrar um termo de divórcio, e lho der na mão, e a despedir de casa; e se ela, saindo da sua casa, for e se casar com outro homem; e se este a aborrecer, e lhe lavrar termo de divórcio, e lho der na mão, e a despedir da sua casa ou se este último homem, que a tomou para si por mulher, vier a morrer, então, seu primeiro marido, que a despediu, não poderá tornar a desposá-la para que seja sua mulher, depois que foi contaminada, pois é abominação perante o Senhor; assim, não farás pecar a terra que o Senhor, teu Deus, te dá por herança.
O texto apresenta dificuldades interpretativas. Isso já mostra o quanto o divórcio é uma confusão, uma bagunça. O divórcio é uma das máculas do mundo caído. Mas observe que Moisés não ordenou divórcio nenhum, apenas regulou algo que já estava acontecendo. Como nos lembra Robert Stein, “Deuteronômio 24.1-4 nem sequer ‘permite’ o divórcio, mas procura 'regulamentá-lo’”. E parece óbvio que o sentido do texto é desencorajar divórcios rápidos e aquele “vai e vem” constrangedor que até hoje muitas vezes acontece. E observe, naquela cultura, a carta de divórcio era uma proteção para a mulher, assegurando um status que a permitia a se casar novamente e não ser obrigada a retomar com o ex-marido. Como explica Derek Thomas, o principal objetivo da lei não era falar sobre o divórcio em si, mas sim evitar que um homem abusivo tentasse reaver a mulher que ele mesmo havia repudiado, garantindo a ela dignidade e segurança.
A resposta dos fariseus no verso 4 não é o que Moisés ‘ordenou’ sobre o casamento, mas o que ele “permitiu” (Deuteronômio 24.1). Jesus, com isso, já cria o ambiente para a tônica correta: o divórcio é uma permissão. É uma concessão e não a intenção. Adultério, por exemplo, não anula um casamento, assim como a fornicação não cria um casamento. A malandragem foi revelada. A meninice também. “Vocês querem saber o que é permitido como exceção? Eu pergunto o que é ordenança”. Os fariseus, assim, tomavam a referência de Moisés, não para limitar o mal do divórcio, mas como um pretexto para ele - do adultério aos mais triviais motivos.
A concessão, Jesus acrescenta, vem da dureza do coração e não da vontade original de Deus. O divórcio ocorre por conta do pecado, e nele, sempre há alguém errado [dois errados; um errado; mas nunca os dois certos]. Na cláusula de exceção, o divórcio não é pecado, mas surge devido ao pecado (Jeremias 3.6-8 Deus entrega carta de divórcio, quando o povo cai em adultério). O divórcio, portanto, é uma concessão à luz do pecado humano.

3. O Princípio da Criação: A Regra, Não a Exceção (vs. 6-9)

Mas Jesus aponta para a criação do casamento, o princípio da regra, antes de se olhar para a exceção. “Vejam que não há ordenança para o divórcio - mas o casamento é a ordenança”. A articulação de Jesus é notável. Afinal, por que citam Deuteronômio 24.1 em vez de Gênesis 1.27, 2.24, 5.2)? Por que não citar Malaquias 2.16?”. E é exatamente isso que Ele faz. Jesus os leva de volta a Gênesis 1.27 e 2.24: “Deus os fez homem e mulher. Por isso, deixará o homem a seu pai e mãe e unir-se-á a sua mulher, e, com sua mulher, serão os dois uma só carne. De modo que já não são dois, mas uma só carne.”
A questão do divórcio, portanto, deve ser olhada sob a lente do princípio do casamento. O casamento, na ordem criacional de Deus, é: Heterossexual: a união é entre um homem e uma mulher. Monogâmico: a união é entre uma só pessoa e outra. Indissolúvel: a união se torna uma só carne. O casamento é uma unidade. Jesus, ao voltar para Gênesis, reforça a complementaridade dos dois e as responsabilidades de ambos, homem e mulher. Os fariseus perguntam duas vezes sobre as exceções para o casamento, e Jesus declara duas vezes a vontade original de Deus para o casamento (v. 8 e 9).
O divórcio é uma permissão, uma cláusula de exceção, não uma opção. Ele quebra a unidade instituída por Deus. Jesus, então, não explora a exceção, mas aprofunda a regra, pois, como vimos, nossa tendência é procurar a brecha para se eximir da responsabilidade. Jesus demonstra que não é o homem ou a mulher quem governa o casamento, mas Deus. “O que Deus uniu, ninguém separe”.

4. O Ensino aos Discípulos: O Divórcio é Adultério (vs. 10-12)

Em particular, Jesus conclui a lição para os seus discípulos, reforçando seu ensino radical: "Quem repudiar sua mulher e casar com outra comete adultério contra aquela. E, se ela repudiar seu marido e casar com outro, comete adultério". Marcos, ao registrar essas palavras, as endereça tanto a homens quanto a mulheres, uma vez que entre as mulheres romanas, o divórcio era tanto possível quanto comum (Romanos 7.2,3), e o caso de Herodias provavelmente era vívido na memória de todos.
O texto nos mostra que os divórcios que não se enquadram nas cláusulas de exceção são ilícitos e, portanto, caem no pecado de adultério. Isso nega o pressuposto dos fariseus de divórcio como via de saída do casamento, especialmente por motivos triviais, e estabelece o alerta para os discípulos de que se separar para se casar novamente é um pecado gravíssimo. Vale notar que Jesus, no relato de Marcos, não cita publicamente a cláusula de exceção, pois aqui o ponto é a ênfase que Jesus dá a natureza do casamento e a seriedade que os discípulos de Jesus o conferem.

Aplicações

O Casamento é uma Criação Divina. A união entre um homem e uma mulher não é uma invenção humana, mas a ordem original da criação. O casamento é um reflexo do propósito de Deus de união e permanência. Por isso, ele é regulado por Deus. Neste casamento há diversidade e unidade - um reflexo da Trindade. É uma aliança, ou um pacto - que tem seu relacionamento feito diante de Deus e das pessoas (Ml 2). Uma aliança pública de companheirismo, mutualidade e novo nascimento (uma só carne). É a aliança de amor em que duas pessoas que se comprometem a fazer o bem para a outra pessoa. Como nos lembra o pastor John Piper, uma aliança que sustenta o amor, e não o contrário. O casamento é a figura que espelha a aliança eterna e bela entre Cristo e a Sua Igreja. Ao colocar o ensino de Jesus sobre o casamento nesta seção que enfatiza o discipulado, temos destacada a importância do casamento no Reino de Cristo.
Para o Discípulo de Jesus, o Divórcio Não é uma Opção. Vivemos em uma cultura que banaliza o casamento, vendo o divórcio como uma opção fácil. Mas os discípulos de Jesus não devem permitir que a palavra "divórcio" ocupe suas mentes. É como um soldado que quer aprender a lutar lendo lições de como bater em retirada. Não coloque Deus na sua dureza de coração, dizendo "oramos e concluímos que o melhor era nos separarmos". Precisamos resgatar convicções como: "a saída do casamento é o cemitério". Passamos por crises, dificuldades, mas não deixamos repousar em nossas mentes e corações o divórcio como alternativa. O verdadeiro discipulado, como Jesus ensina, não deve ser vivido à luz de concessões feitas por causa da natureza caída da humanidade, mas à luz do objetivo supremo de Deus.
Não Busque o que Deus Permite, Busque o que Deus Ordena. Certo dia eu recebi uma ligação: “pastor, em que situações que eu posso me separar mesmo?” Não foi “pastor, precisamos de ajuda”. Veja, irmãos, Isso precisa ficar claro para nós: precisamos buscar o que Deus quer, e não o que permite. Jesus está interessado na ordem de Deus, enquanto os fariseus estavam interessados nas exceções. Os fariseus respondem à prática da vida tendo em vista as exceções; Cristo revisita a ordem. Os fariseus são como alguém que financia uma casa já se preparando em maneiras de como não pagar a dívida. Mas para nós, a razão das coisas importa e serve como baliza. Ao pensarmos em família e casamento, pensamos na criação. Ao pensarmos em relacionamentos, pensamos na criação. E como crentes, pensamos na criação tendo em vista como o Evangelho de Jesus nos faz viver esse propósito agora redimido.
O Divórcio é uma Exceção. Falemos sobre divórcio sempre com lágrimas nos olhos e pesar no coração. É um resultado trágico do pecado e deve ser tratado como a exceção que ele é, e não como uma opção. Se há motivos para o divórcio, não há necessariamente a ordenança. Jesus diria que o divórcio não deveria ser a via de solução, mas que ambos os cônjuges em primeiro lugar vejam o significado e busquem cumprir a vontade de Deus. Se o divórcio exige lágrimas, não o coloquemos como “caminho fácil” e também não caiamos no discurso da cultura de “divórcio gourmet / divórcio feliz”, pois não há caminho “mais fácil” no divórcio. Separar um só corpo não é possível sem sequelas gravíssimas. Divórcio é bagunça - “com quem as crianças vão ficar”? “Outro homem ou mulher vai criar meu filho”? Como ficam as relações com os novos avós e netos? Pensão alimentícia, divisão de bens, etc. Lamentemos e choremos.
Palavra para Quem Já se Divorciou. Se seu caso se enquadra em alguma dessas questões dessa exposição, procure conversar e entender. Se você já adulterou e gerou prejuízos a pessoas, corra pra Cristo e busque as reparações necessárias! Se você foi a parte machucada, seja por abandono ou adultério, encontre amparo em Cristo. Não se sinta inferior ou uma segunda classe de crente - em Cristo você tem perdão real e na igreja verdadeira família. Deus é quem pode trazer perdão e cura. Não viva sob estigma mas sobre a identidade que Cristo te dá. Se você está separado e há como reaver o relacionamento, busque perdão do seus pecados e tentar restaurar o que foi perdido.

SDG
Related Media
See more
Related Sermons
See more
Earn an accredited degree from Redemption Seminary with Logos.