Chamados para Ser, Antes de Fazer
Em Cristo, os crentes recebem uma nova identidade espiritual que transforma fundamentalmente sua existência. De acordo com os artigos, o Espírito de Cristo passa a viver no crente, capacitando-o a seguir uma nova direção de vida centrada em Deus[1]. Os pecados são perdoados e não há mais condenação para quem está em Cristo[1][2]. O crente é considerado uma nova criação, com as coisas antigas passando e tudo se fazendo novo[3]. Além disso, o cristão é tornado "justiça de Deus" através de Cristo[3] e é aperfeiçoado para sempre em sua posição diante de Deus[3]. A união com Cristo é descrita como íntima e vital, comparada a ramos em uma videira ou à assimilação de alimento e água espiritual[4]. Esta nova identidade em Cristo implica uma mudança completa, afetando todos os aspectos da vida do crente, incluindo sua relação com Deus, sua natureza espiritual e seu propósito de vida[1][2][5]. [1] FERRARO, L. Mulheres e Sexo: Mentiras que Escravizam e Verdades Bíblicas que Libertam. 2a Edição ed. Eusébio, CE: Peregrino, 2020. p. 156–157 [2] FERREIRA, F.; MYATT, A. Teologia Sistemática: Uma Análise Histórica, Bíblica e Apologética para o Contexto Atual. 1.a edição revisada ed. São Paulo: Vida Nova, 2008. p. 740 [3] CHAFER, L. S. Teologia Sistemática. Tradução: Heber Carlos De Campos. 3a edição ed. São Paulo: Hagnos, 2013. v. 7p. 162 [4] MULLINS, E. Y. A Religião Cristã na Sua Expressão Doutrinária. Tradução: Cláudio J. A. Rodrigues. 1a edição ed. São Paulo: Hagnos, 2005. p. 511 [5] LOPES, H. D. Filipenses: A Alegria Triunfante no Meio das Provas. 1a edição ed. São Paulo: Hagnos, 2007. p. 42
ζάω (zaō), VB. viver. fut. ati. ζήσω; aor. ati. ἔζησα. Equivalente hebraico: חיה (97), חַי 2 (57). Equivalente aramaico: חַי 1 (2), חיה (2). Para obter informações sobre o uso como nome ou entidade, consulte Deus.
Uso do Verbo
2. viver — levar um certo tipo de vida; viver de certa forma.
σάρξ -ὸς, ἡ; (sarx), SUBS. carne. Equivalente hebraico: בָּשָׂר (120). Equivalente aramaico: בְּשַׂר (2).
Uso do Substantivo
4. corpo ⇔ carne — o corpo físico de um indivíduo; compreendido pelos tecidos moles do corpo. Tópicos Relacionados: Criaturas Vivas; Carne. Entidade Relacionada: Costas, Parte de trás do corpo.
πίστις -εως, ἡ; (pistis), SUBS. fé. Equivalente hebraico: אֱמוּנָה (13), אֱמֶת (5), אמן 1 (1), אֲמָנָה 2 (1).
Uso do Substantivo
1. confiança (fé) — forte confiança em alguém ou algo; frequentemente com o objeto de confiança pretendido. Tópicos Relacionados: Confiança; Ousadia; Fé; Confiança; Cristianismo; Prosélito; Crença.
ἀγαπάω (agapaō), VB. amar. fut. ati. ἀγαπήσω; aor. ati. ἠγάπησα; perf. ati. ἠγάπηκα; aor. pass. ἠγαπήθη; perf. méd. ἀγαπῆσαι. Equivalente hebraico: אהב (101).
Uso do Verbo
1. amar (cuidar) — ter um grande afeto, cuidado ou lealdade para com. Sentido Antônimo: odiar. Ver também φιλέω. Tópicos Relacionados: Benignidade; Amor; Companheirismo; Cuidado; Afeto; Amante; Amizade.
παραδίδωμι (paradidōmi), VB. entregar; trair. fut. ati. παραδώσω; aor. ati. παρέδωκα; perf. ati. παραδέδωκα; aor. pass. παρεδόθην; perf. méd. παραδέδοται. Equivalente hebraico: נתן (53). Equivalente aramaico: יהב (3), שׁלם (1).
Uso do Verbo
9. sacrificar (renunciar)† — suportar a perda de alguém ou algo.
Cristo vive em mim. Não conheço epítome melhor da experiência cristã do que esta. Este é o caminhar diário de um verdadeiro filho de Deus; se ele vive de qualquer outra forma, então ele não vive de modo algum a vida de um cristão. Cristo vivendo em nós, nós mesmos vivendo de Cristo, e nossa união com Cristo sendo visivelmente mantida por um ato de fé simples Nele — esta é a verdadeira vida cristã.
que me amou. É verdade que Ele nos ama agora, mas Paulo também escreveu verdadeiramente: “Que me amou”. O verbo está no tempo passado. Jesus me amou na cruz, amou-me na manjedoura de Belém, amou-me antes que a terra existisse. Nunca houve um tempo em que Jesus não amasse o Seu povo. Crente, agarre-se à preciosa verdade de que Cristo o amou eternamente. O todo-glorioso Filho de Deus escolheu você e desposou você para Si mesmo, para que você possa ser Sua noiva por toda a eternidade. Aqui está uma união abençoada de fato.
Aproprie-se de Cristo como você participa da Ceia
Temas de pregação: Amor de Deus, Ceia do Senhor
A fé, assim que abre a boca, começa a fazer uma apropriação pessoal das bênçãos da graça de Deus. O que você faz quando se aproxima da mesa da comunhão? Você vem para ver outras pessoas comerem pão e beberem vinho? Não. Na comunhão, cada um de vocês come, e cada um de vocês bebe, e essa é a própria essência da comunhão. Assim, cada um de vocês deve tomar Cristo para si pessoalmente e dizer: “Ele me amou e se entregou por mim”. Esta é a fé mencionada pelo apóstolo, uma fé que se apropria.
Em quarto lugar, os destinatários posicionados. Paulo diz que “os santos” têm dois endereços. Eles vivem em uma dupla dimensão. São cidadãos do céu e também da terra. Vivem neste mundo e também nas regiões celestes. Vejamos esses dois pontos:
Os santos estão em Cristo. Eles habitam em Cristo antes de habitarem em Filipos. São cidadãos dos céus antes de serem cidadãos do mundo. Estão identificados com um reino espiritual antes de estarem vinculados a um reino terreno.
A igreja é um povo separado não para viver em um gueto espiritual, isolada e escondida. A nossa suprema vocação é um chamado não apenas para sermos separados do mundo, mas, sobretudo, para vivermos em Cristo. Os crentes são santos em Cristo Jesus, isto é, mediante sua união com Ele, que os reivindicou como o Seu povo, e que Se tornou a base de sua nova vida. Os santos não têm essa posição perante Deus e essas qualidades a partir de si mesmos. Na verdade, é isso que diferencia o “ser santo” de todas as aquisições morais. São santos “em Cristo Jesus”.
Ralph Martin, citando Karl Barth, elucida esse ponto, dizendo:
Pessoas “santas” são pessoas não-santas que, mesmo sendo não-santas, foram, entretanto, separadas, reivindicadas e requisitadas por Deus, para o Seu controle, para o Seu uso, para Si mesmo, que é santo.36
Werner de Boor interpreta corretamente esse ponto, quando diz:
Exatamente esse relacionamento com Jesus é o cristianismo em sua totalidade. Trata-se não apenas de saber a respeito de Jesus, nem mesmo de crer Nele, mas de ser em Cristo Jesus, de viver toda a vida nesse ambiente, de estar enraizado nesse chão.37
William Barclay, nessa mesma linha de pensamento, escreve:
Ninguém que leia as cartas de Paulo passará por alto a freqüência das frases em Cristo, em Cristo Jesus, no Senhor. Em Cristo Jesus aparece 48 vezes, em Cristo, 34 vezes, e no Senhor, 50 vezes. Evidentemente, estar em Cristo constituía para Paulo a essência do cristianismo.
Citando Marvin Vincent, Barclay continua a dizer:
Quando Paulo fala que o cristão está em Cristo, quer dizer que vive em Cristo como o pássaro no ar, o peixe na água, as raízes de uma árvore na terra. Estar em Cristo é viver continuamente na atmosfera e no espírito de Cristo; é viver em um mundo em que cada coisa nos fala Dele; é viver uma vida na qual nunca nos sentimos separados Dele nem por um só momento e de onde sempre nos sentimos rodeados e favorecidos por Sua presença, por Sua força e Seu poder. O cristão é diferente porque sempre e em todas as partes é consciente da presença de Cristo que o circunda.38
“Em Cristo” é o novo relacionamento em que o cristão vive. É em Cristo que recebemos a nossa salvação (3.14). Em Cristo, estamos seguros e temos todas as coisas de que precisamos (4.7,19). Em Cristo, nos tornamos um novo povo com novos sentimentos (1.8); recebemos uma nova mente ou uma nova maneira de ver as coisas (2.5). Em Cristo, recebemos um novo encorajamento para viver como cristãos (2.1) e novas habilidades para trazer esses incentivos à fruição (4.13). Estar em Cristo é tomar posse da plena salvação. Mas não apenas os benefícios que temos estão em Cristo, como também nós mesmos estamos Nele.39
Em terceiro lugar, o crente vive para Deus quando Cristo vive nele. “Logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (2.20). Somos salvos pela fé em Cristo (ele morreu por nós) e vivemos pela fé em Cristo (ele vive em nós).226 Paulo não vivia mediante a sua própria vida; era animado pelo poder secreto de Cristo. Assim como a alma energiza o corpo, também Cristo trazia vida a seus membros. Os crentes vivem fora de si mesmos; eles vivem em Cristo.227
João Calvino diz que Cristo vive em nós de duas maneiras: uma consiste em governar-nos por meio de seu Espírito e dirigir todas as nossas ações; a outra, em tornar-nos participantes de sua justiça, de modo que, embora nada possamos fazer por nós mesmos, somos aceitos aos olhos de Deus. A primeira, se relaciona à regeneração; a segunda, à justificação pela graça.228
Essa vida em Cristo consiste em fé, e isso implica que ela é um segredo oculto dos sentidos humanos. A vida, pois, que obtemos pela fé, não é visível aos olhos, mas é percebida interiormente, na consciência, pelo poder do Espírito.229
Por amor, diz Paulo: “Cristo se entregou por mim”. A expiação tem sua fonte no amor de Cristo. Ele morreu por nós por amor. “Por mim” é muito enfático. Não é suficiente contemplar a Cristo como aquele que morreu pela salvação do mundo, se não experimentarmos as consequências dessa morte e não formos capacitados a reivindicá-la como a sua própria morte.230
Nossa união com Cristo é a base para a justificação, a santificação e qualquer outro aspecto da obra salvadora de Deus. Para entendermos nossa salvação, devemos primeiro entender o que significa estarmos unidos com Cristo. Sobre essa doutrina, Martyn Lloyd-Jones escreveu,
De fato, temos união com Cristo e nele. Você não pode ter lido o Novo Testamento, nem mesmo de forma superficial, sem que tenha notado essa frase sendo repetida constantemente – “em Cristo” – “em Cristo Jesus”. Os apóstolos a repetem e é uma das declarações mais importantes e gloriosas do reino inteiro e entre todas as verdades. Significa que estamos juntos com o Senhor Jesus Cristo; tornamo-nos parte dele. Estamos nele. Pertencemos a ele. Somos membros de seu corpo. E o ensinamento é que Deus nos considera como tais; isso, é claro, significa que agora, nesse relacionamento, somos coparticipantes de tudo que é verdade para o próprio Senhor Jesus Cristo.1
“Assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo” (
Paulo não quer dizer que sua individualidade única desapareceu. Ele continua a viver a vida “no corpo” ou, talvez melhor, “na carne” (ἐν σαρκί). Mesmo aqui, quando a palavra σάρξ tem o sentido mais neutro de corpo, ela frequentemente (como provavelmente acontece aqui) retém um sentido de fraqueza ou limitação. Esta presente era má é dominada pelo pecado e pela carne, e embora em Cristo os crentes tenham sido libertados de seu poder (1:4), eles ainda vivem em um mundo onde esses poderes estão ativos. Então Paulo vive “pela fé no Filho de Deus”. A fé não é apenas a base de nossa justificação, mas o meio pelo qual os crentes continuam a viver a vida cristã. Enquanto antes Paulo falava de fé em Cristo (2:16), aqui é fé no Filho de Deus. A mudança nos títulos de Jesus provavelmente antecipa o argumento de Paulo em 3:1–5:1 de que, por meio de Jesus, o Filho de Deus, os crentes se tornam não apenas filhos de Abraão, mas também filhos de Deus.
πρόσωπον -ου, ὁ; (prosōpon), SUBS. face; aparência. Equivalente hebraico: פָּנֶה (314). Equivalente aramaico: אֲנַף (2).
Uso do Substantivo
1. presença ⇔ face — a presença ou a proximidade de alguém compreendido em termos do rosto; com a implicação de estar perante ou em sua frente. Tópicos Relacionados: Generosidade; Vanguarda; Face; Presença; Presente; Prestar atenção; Presença de Deus.
Frequentemente, os cristãos deixam de defender a verdade do evangelho porque não querem perder a aprovação dos ricos ou poderosos. Em outras circunstâncias, não queremos perturbar relacionamentos e, por isso, comprometemos o evangelho em vez de confrontar amigos ou familiares. A confrontação de Paulo com Pedro nos diz que, não importa quem seja a pessoa — amigo, familiar ou inimigo — e não importa quão influente alguém possa ser, nossa lealdade deve ser sempre a Cristo e ao seu evangelho.
Não era que Pedro e Paulo tivessem uma divergência doutrinária, como os judaizantes podem ter sugerido (e como muitos estudiosos modernos afirmam); era que a conduta de Pedro era inconsistente com seus princípios, como Paulo explica nos versículos 15–21. Primeiro, Paulo aponta que ele e Pedro, juntamente com todos os outros cristãos judeus, ao depositarem sua fé em Jesus Cristo, reconheceram que a lei judaica era incapaz de torná-los justos perante Deus (15–16).
Ainda hoje vários cristãos repetem o erro de Pedro. Eles se recusam a ter comunhão com cristãos professos, exceto se esses cristãos tenham sido batizados de uma maneira específica, tenham sido confirmados por certas autoridades eclesiásticas, sua pele tenha uma cor particular, ou eles pertençam a uma classe social (geralmente a mais alta) e assim por diante.
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AUTOAVALIAÇÃO
Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas! Tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo.
– 2 Coríntios 5.17–18
Quando se trata de adoção, a mensagem explícita que recebemos é esta: Eu, como cristão, entendo a mim mesmo? Eu sei qual é minha verdadeira identidade? Meu verdadeiro destino? Eu sou filho de Deus. Deus é meu Pai e o céu é o meu lar. A cada dia, estou um dia mais perto. Meu Salvador é meu irmão e todo cristão também é meu irmão. Diga isto para si mesmo todos os dias. Que estas sejam as suas primeiras palavras de manhã e as últimas à noite, quando estiver no trânsito e a qualquer hora que sua mente estiver livre. Peça a Deus que você seja capaz de viver como alguém que sabe que esta é uma verdade absoluta e completa. Este é o segredo (para uma vida feliz? – sim, certamente, mas temos algo muito mais elevado e profundo a dizer). Este é o segredo do cristão para viver uma vida cristã, uma vida que honra a Deus, e estes são os aspectos que realmente importam. Que este segredo possa se tornar plenamente seu e plenamente meu.
Pois, com zelo cristão, é lícito a um Apóstolo, pastor ou pregador repreender severamente o povo confiado aos seus cuidados; e tais repreensões são tanto paternais quanto piedosas.
MANHÃ, 19 DE OUTUBRO
“…crianças em Cristo…” 1 CORÍNTIOS 3:1
Cristão, você está lamentando por ser tão fraco na vida espiritual, por sua fé ser tão pequena e seu amor tão frágil? Alegre-se, pois você tem motivo para gratidão. Lembre-se de que em algumas coisas você se iguala ao cristão mais maduro. Você foi tão comprado com o sangue quanto ele. Você é um filho de Deus adotado como qualquer outro cristão. Um bebê é tão verdadeiramente filho de seus pais como o homem crescido. Você é completamente justificado, pois a sua justificação não se trata de níveis: sua pequena fé o purificou por completo. Você tem tanto direito às coisas preciosas da aliança como os cristãos mais desenvolvidos, pois o seu direito às misericórdias da aliança não está em seu crescimento, mas na aliança em si; e sua fé em Jesus não é a medida, mas o indício de sua herança nele. Você é tão rico como o mais rico, se não na alegria, contudo, em posse verdadeira. A menor estrela que cintila está no céu, o raio de luz mais débil tem afinidade com a grande esfera do dia. No registro familiar da glória, o pequeno e o grande têm seus nomes escritos com a mesma caneta. Você é tão precioso para o coração de seu Pai como o maior da família. Jesus é tão compassivo! Você é como um pavio que fumega. Alguém mais áspero diria: “Apague este pavio fumegante, pois enche o ambiente com um odor ofensivo!”, mas Ele não apagará o pavio que fumega. Você é como uma cana quebrada e qualquer outra mão menos gentil do que a mão do Músico-chefe se lançaria sobre você e o jogaria fora, mas Ele nunca esmagará a cana quebrada. Em lugar de se abater por aquilo que você é, triunfe em Cristo. Não sou insignificante em Israel? Contudo, em Cristo fui feito para assentar-me em lugares celestiais. Sou pobre na fé? Entretanto, em Jesus sou herdeiro de todas as coisas. Ainda que “em nada possa gloriar-me e confesse minha vaidade”, se a raiz de toda a questão estiver em mim, me alegrarei no Senhor e me gloriarei no Deus da minha salvação.
Portanto, as Escrituras nos ensinam claramente que há uma união vital entre Cristo e seu povo; que eles têm uma união comum análoga à que existe entre a videira e seus ramos e entre a cabeça e os membros do corpo. O crente é verdadeiramente participante da vida de Cristo. Esta grande verdade é apresentada sob outro aspecto. O Pai, o Filho e o Espírito Santo são um só Deus. Daí, em todo o lugar onde o Pai esteja, ali está o Filho, e onde está o Filho, está o Espírito. Portanto, se Cristo habita no crente, o Pai o faz, e bem assim o Espírito. Como resposta à pergunta dos discípulos: “Disse Judas, não o Iscariotes: Donde procede, Senhor, que estás para manifestar-te a nós e não ao mundo? Respondeu Jesus: Se alguém me ama, guardará minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada” (
Escolhidos em Cristo
Como diz Paulo, Deus nos escolheu “em Cristo”, isto é, para sermos salvos pela mediação de Cristo e em união com sua pessoa (
Depois que as roupas velhas e imundas tiverem sido descartadas, é hora de nos vestirmos com o “novo eu” (4.24), quando tomarmos nosso lugar na nova humanidade possibilitada pela nova criação de Cristo (2.10,15). Quando a velha natureza foi crucificada com Cristo e nossas mentes foram renovadas, tornamo-nos uma nova criatura (
Aqui temos a essência da vida cristã: tudo que temos e somos está relacionado à nossa união com Cristo. Neste ponto, de modo especial, seguimos o raciocínio de Calvino: “Em primeiro lugar, devemo-nos lembrar de que a obra da redenção de Cristo de nada nos aproveita enquanto não estivermos unidos a ele, enquanto ele não estiver em nós”.11 Afirmou corretamente, que é necessário que Cristo habite em nós para que compartilhe conosco o que recebeu do Pai. Ele conclui: “O Espírito Santo é o elo pelo qual Cristo nos vincula efetivamente a si”.12 Em outro lugar, declara: “Sabemos que nosso bem, nossa alegria e repouso é estar unido ao Filho de Deus”.13
De fato, é impossível falar de qualquer bênção da vida cristã sem que tenhamos em mente que estamos unidos a Cristo; aliás, a vida cristã é, em essência, estar em Cristo; nele somos o que somos, encontrando no seu Espírito, que em nós habita, a nossa identificação de filhos de Deus (
Os resultados de morrer com Cristo são essenciais para a vida cristã: “Eu não vivo mais, mas Cristo vive em mim”. A primeira cláusula poderia ser traduzida por: “o eu [o ego] não vive mais”. Esse “eu” está ligado ao “velho eu” (“velho homem”, KJV), e há um duplo significado no conceito. Primeiro, o antigo eu é a humanidade em Adão (
QUAL É O SEU NOME?
No âmago da membresia da igreja está a ideia de identidade. A membresia da igreja diz respeito a unir os nossos nomes individuais ao nome de Cristo, por meio da união de nossos nomes com os nomes das pessoas do povo de Cristo. É dessa maneira coletiva que ele se identifica conosco como indivíduos, e nós, com ele. Outras facetas da membresia, como a prestação de contas e a segurança, surgem, portanto, dessa ideia básica. Eu, por exemplo, sendo filho, presto contas ao meu pai porque ele se identifica comigo como sendo dele.
O nome de uma pessoa estabelece a sua identidade e a distingue dos outros. Desde o jardim da infância até o final do ensino médio, meus professores começavam cada ano acadêmico com uma lista de chamada. Quais nomes pertenciam a quais rostos? Quando Deus une uma pessoa a ele mesmo, ele dá a ela uma nova identidade, um novo nome, porque essa pessoa é uma nova criatura. A pessoa nasce de novo. Em vários lugares das Escrituras, Deus até mesmo muda os nomes de determinados indivíduos para ilustrar a nova identidade que ele dá a todo o seu povo — o de Abrão para Abraão, o de Jacó para Israel, o de Simão para Pedro, o de Saulo para Paulo, ou o de todos nós hoje, em certo sentido, para cristão1.
Mas ele não dá simplesmente uma nova identidade pessoal aos convertidos; ele os convida para uma família, um corpo, uma comunidade em aliança no amor santo. Ele dá a eles uma nova identidade coletiva e pública. Quando uma família adota uma criança, a criança recebe o nome da família; o nome compartilhado pelo pai, pela mãe, pela irmã e pelo irmão. O mesmo se dá na conversão e adoção do cristão. Deus nos adota como indivíduos numa família, porque ele pretende se identificar não apenas com você ou comigo, mas com toda uma família de filhos.
A nossa identidade pessoal não só está associada à nossa identidade coletiva, como também a nossa membresia coletiva afirma publicamente a nossa nova identidade pessoal. Quando a raça humana exclama: “Quem aqui pertence a Deus?”, a igreja está autorizada a responder: “Nós pertencemos”, o que por sua vez proporciona a cada membro o privilégio de dizer: “Eu pertenço.” A cerimônia de renomeação é um acontecimento familiar em meio a muitas testemunhas — “Nós o batizamos em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (
A nova identidade em Cristo “está sendo renovada no conhecimento, à imagem de seu criador”. Há muito a ser descoberto aqui. A força contínua do “ser renovado” nos alerta para o fato de ser um processo e não uma obra finalizada. Nossa natureza se torna nova, mas ainda devemos trabalhar de forma contínua e crescer lentamente nos efeitos da renovação. Isto é fundamental. Fomos feitos pessoas completamente novas, mas é preciso o restante de nossa existência para nos reorientarmos no caminho de Cristo. O crescimento espiritual é um processo para toda a vida. O texto de
O cristão é cidadão do céu. Há uma segunda esfera em que ele vive: “em Cristo”. Todas as bênçãos recebidas são em Cristo. A ideia aparece não menos de doze vezes nos primeiros catorze versículos dessa epístola. Os crentes são fiéis em Cristo (1.1), escolhidos nele (1.4), recebem a graça nele (1.6), têm a redenção nele (1.7), são feitos herança nele (1.11), são selados nele (1.13) e assim por diante.29 Foulkes tem razão quando diz que a vida do cristão está erguida acima das coisas passageiras. Ele está no mundo, mas também está no céu, pois não é limitado pelas coisas materiais que se dissipam. Vida, neste instante, se é vida em Cristo, é nas regiões celestes.30
Essa participação do crente na vida de Cristo, de modo que o próprio crente diz com o Apóstolo: “Logo, já não sou eu quem vive, mas é Cristo que vive em mim” (
Pela fé, o crente é unido a Cristo; tudo o que pertence a Cristo é transferido para o crente, e tudo o que pertencia ao crente é transferido para Cristo. A este respeito, a morte de Cristo, sua crucificação, torna-se a morte do crente. Portanto, através da morte de Cristo, o crente é libertado das exigências e da maldição da lei. É por isso que Paulo diz que foi crucificado com Cristo. No entanto, observe como Paulo continua dizendo que Cristo agora vive nele. Em outras palavras, foi o poder residente do Espírito Santo que capacitou Paulo a viver pela fé em Cristo, e não seus próprios esforços para merecer a justificação pela obediência.
A união com Cristo em sua crucificação também implica união em sua ressurreição.
Quando Paulo diz que não vive mais, ele quer dizer que não é mais ele quem dirige e controla sua vida. O velho Paulo, que orientava sua vida em torno da observância meticulosa da lei mosaica e da promoção da distinção nítida entre judeus e gentios, não vive mais. Em vez disso, Jesus Cristo é quem dirige, anima e controla a vida de Paulo. O Jesus Cristo ressurreto habita dentro de Paulo, pelo Espírito Santo, para capacitar Paulo a viver como Deus o chama a viver.
Pela fé (veja abaixo), o crente é unido a Cristo, o último Adão e o primogênito da nova criação. A morte e ressurreição de Jesus foram o fim da velha criação e o início da nova criação. Tudo o que definia uma pessoa antes da conversão agora é subsumido sob a identidade mais fundamental de ser uma nova criação em Cristo.
Nossa união com Cristo é tão profunda que, no momento em que somos unidos a ele pela fé, morremos para nossa antiga maneira de viver e somos ressuscitados para uma nova maneira de viver, capacitada pelo Cristo ressuscitado através do seu Espírito que habita em nós.
Mas é Cristo que vive em mim. Isto explica o que significa “viver para Deus”. Paulo não vivia mediante a sua própria vida; era animado pelo poder secreto de Cristo. Assim, pode ser dito que Cristo vivia e crescia nele. Porque, como a alma energiza o corpo, também Cristo transmite vida a seus membros. Eis uma afirmação notável: os crentes vivem fora de si mesmos (fideles extra se vivere), ou seja, vivem em Cristo. Isso só pode acontecer se mantiverem genuína e verdadeira comunhão com Ele (veram cum ipso et substantialem communicationem). Cristo vive em nós de duas maneiras: uma consiste em governar-nos por meio de seu Espírito e dirigir todas as nossas ações; a outra, em tornar-nos participantes de sua justiça, de modo que, embora nada possamos fazer por nós mesmos, somos aceitos aos olhos de Deus. A primeira se relaciona à regeneração; a segunda, à justificação pela livre graça. Este é o sentido em que entendo esta passagem. Mas, se alguém achar melhor aplicá-la a ambas as maneiras, concordarei de boa vontade.
A vida, pois, que obtemos pela fé, não é visível aos olhos, mas é percebida interiormente, na consciência, pelo poder do Espírito. Assim, a vida no corpo não impede que desfrutemos, pela fé, a vida celestial. “E nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus” [
porquanto é a união da fé. A humilde confiança em Cristo é o canal pelo qual Paulo recebe a força de que necessita para enfrentar a cada desafio (
2:20 O crente é identificado com Cristo em sua morte. Ele não foi o único crucificado no Calvário, mas eu também. Nele, eu fui crucificado. Isso representa meu fim como pecador aos olhos de Deus. Significa meu fim como uma pessoa procurando merecer ou ganhar a salvação por méritos próprios. Representa meu fim como filho de Adão, como um homem debaixo da condenação da lei, como meu velho eu não regenerado. O meu velho e mau “eu” foi crucificado; não há mais demandas sobre minha vida diária. Isso é verdade quanto ao meu parecer perante Deus, e deveria ser verdade quanto ao meu comportamento.
O crente não cessa de viver como personalidade ou indivíduo. Contudo, quem é visto por Deus como morto não é o mesmo que vive. Vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim. O Salvador não morreu por mim a fim de eu poder continuar a viver como bem entendo. Ele morreu por mim para que ele pudesse viver sua vida em mim. A vida que agora vivo neste corpo, vivo-a na fé no Filho de Deus. Fé significa confiança, ou dependência. O cristão vive dependendo continuamente de Cristo, submetendo-se a ele, deixando Cristo viver sua vida nele.
Assim, o guia da vida do crente é Cristo, e não a lei. Não é uma questão de esforço, mas de confiança. Ele vive uma vida santa não por medo de ser punido, mas por amor ao Filho de Deus, o qual o amou e se entregou a si mesmo por ele.
