Apocalipse 2.12-17

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O autor divino/humano direciona a igreja a contemplação de Cristo como justo juíz, que traz juízo sobre os que cedem e corrompem-se com o mundanismo, mas absolvição àqueles que conservam firmes o testemunho do evangelho, distanciando-se das armadilhas do sistema cultura-político anticristão.

Notes
Transcript

Apocalipse 2.12-17: Terceira carta: Resistência ao paganismo.

Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer…” (Ap 1.1).
Pr. Paulo U. Rodrigues
Recapitulação
Estrutura Anterior:
v.8 - Apresentação cristológica direcionada. v.9 - Problemática da igreja. v.10 - Incentivo. v.11 - Promessa de recompensa pela fidelidade. Objetivo: Conduzir a igreja à perseverança, mesmo diante da perseguição e tribulações, ainda que também sofrendo com escassez de recursos materiais, desfrutando, todavia, de riqueza espiritual.
Elucidação
Estrutura da seção:
v.12 - Apresentação cristológica direcionada. - Como já demonstrado, a apresentação de Cristo visa comunicar, de pronto, uma mensagem peculiar à igreja com quem se comunica particularmente, principalmente levando-se em consideração o que cada igreja está vivendo, positiva e/ou negativamente. Por exemplo, de acordo com sua apresentação:
a) Éfeso deveria saber da presença de Cristo no meio de sua igreja, e de seu governo sobre esta; b) Esmirna deveria enxergá-lo como o Vencedor sobre a morte, o Ressurreto senhor da história e circunstâncias; Assim, e por seu turno, c) Pérgamo deveria ver em Cristo o supremo e justo juíz, tanto para condenação (cf. v.16) quanto para absolvição (cf. v.17b ref. à pedrinha branca).
v. 13 - Problemática e situação da igreja (cf. Intr. padrão “Οἶδα” = conheço). - A notória repetição da expressão “Οἶδα”, novamente aponta para o caráter soberano e onisciente de Cristo no trato com seu povo, o que tanto aponta para sua ciência das circunstâncias de sofrimento e lutas que algumas das comunidades correspondentes enfrentam, quanto para sua supervisão quanto o modo como tem (ou não) testemunhado de seu nome; isto é, se têm sido fiéis ou não.
- “O lugar em que habitas” é o foco principal da recapitulação da situação vivida pela igreja, neste caso. O argumento é desenvolvido a partir de duas considerações:
1°) A ênfase dada ao fato de que Satanás reside naquela cidade (cf. v.13a,c). Diversas fontes demonstram o alto nível de paganismo e cultos idólatras em Pérgamo, por exemplo, a adoração ao ídolo Esculápio (ou Asclépio), cuja imagem representacional era de uma serpente, entalhada na moeda local; ou o templo dedicado a Zeus, também muito famoso na região, tendo em seu interior um trono, motivando, possivelmente, a referência de Cristo ao “trono” de Satanás (CRAIG, 2017, p. 863). Entretanto, levando em consideração o teor representacional/simbólico do livro de Apocalipse, no qual identifica o império romano como o grande instrumento de oposição à igreja, por sua imoralidade e paganismo, é mais tangível crer que a referência de Cristo a habitação de Satanás em Pérgamo, ocorra em razão de ter sido esta uma das primeiras cidades a adotarem o culto ao imperador, tendo construído um templo em sua homenagem, o que, por sua vez, explica o segundo ponto do verso. 2°) Em razão da cultura idolatra que girava em torno da adoração ao imperador, a oposição dos cristãos em aderir à tal prática, pode ter desencadeado uma onda de intensas perseguições que culminaram no martírio, sendo Antípas — provavelmente o primeiro ou mais marcante (em razão da violência de sua morte) — mártir morto em nome de sua fé.
- Apensar da forte perseguição, Pérgamo “conserva o meu nome e não negaste a minha fé”, mantendo de alguma forma o testemunho de Cristo vivo naquela cidade.
vv. 14-15 - Denúncia do pecado e represália. - “Tenho, todavia, contra ti…”. A denúncia feita por Cristo quanto ao pecado da igreja de Pérgamo, por outro lado, esclarece que há problemas na igreja que podem comprometer esse testemunho, sendo o apelo cultural/político ao paganismo, uma tentação forte e presente no meio da igreja. - A figura de Balaão é evocada como sendo o instrumento didático comunicativo da realidade daquela igreja em relação a seu testemunho. Toda a saga dos capítulos 22 à 25 do Livro de Números é emblemática, e retrata a tentativa pagã de opor-se ao povo de Deus. Entretanto, um recorte específico é feito por Cristo para retratar a problemática da igreja de Pérgamo. Segundo o oráculo do Senhor, em Pérgamo havia
“[…] os que sustentam a doutrina de Balaão, o qual ensinava Balaque a armar ciladas diantes dos filhos de Israel para comerem coisas sacrificadas aos ídolos” (v.14b).
Todo a trama aponta para a nulidade das investidas de Balaão de amaldiçoar o povo de Israel, exceto quanto, a estratégia do falso profeta consistiu em corromper os filhos de Israel através da prostituição jungida à prática da idolatria e paganismo. Em Pérgamo, segundo Cristo, alguns haviam se rendido ao apelo cultural idolatra e estavam minando a fidelidade daquela igreja à Cristo, comprometendo seu testemunho. Segundo Beale:
O nome de Balaão tornou-se um emblema para falsos mestre que, por ganho financeiro, procuravam influenciar o povo de Deus a se envolver em práticas ímpias (Dt 23.4; Ne 13.2; 2Pe 2.15; Jd 11). A ligação espiritual entre a narrativa do AT e a igreja de Pérgamo é o apoio dada a essas práticas. Os falsos mestres argumentavam que os cristãos podiam ter relações mais estreitas com a cultura, as instituições e as religiões pagãs do que João julgava próprio (BEALE, 2017, p. 61).
- Ligado a isso, o verso 15 ressalta que, além do flerte com a cultura pagã, os nicolaítas faziam-se presentes como sendo parte dos incentivadores de que a igreja cedesse à mescla com a cosmovisão mundana. Diferente de Éfeso, que apesar de seu abandono do primeiro amor, odiava a obra dos nicolaítas (cf. v.6), Pérgamo os estava tolerando.
v.16 - Exortação ao arrependimento. - Peculiarmente, a exortação de Cristo a que a igreja arrependa-se, direciona juízo “contra eles” (v.16b), isto é, contra os que sustentam a doutrina de Balaão e contra os nicolaítas dentro da igreja. A síntese é a de que a igreja, ao contemplar o juízo que viria sobre os falsos mestres, deveria entender como estando sendo julgada juntamente com eles. De modo análogo, Balaão, tendo sido ameaçado por um anjo armado de espada, foi executado por ela (cf. Nm 31.8), e muitos dentre o povo de Israel, que cederam às suas sutilezas, também caíram à espada (cf. Nm 25.9). Apesar da sentença referir-se aos falsos mestres que convidavam a igreja de Cristo à prostituição com o mundo e seu/sua paganismo/imoralidade, os cristão deveriam perceber que tal ameaça também era válida para si.
- “Pelejarei com a espada da minha boca”. O complemento da exortação retoma a visão inicial desenvolvida. Cristo, como juíz, está pronto para julgar e executar os que incitam seu povo (assim como este mesmo) à imoralidade e paganismo. A tônica judicial usada por Cristo deve fazer com que a igreja perceba que, ainda que autoridades mundanas devam ser respeitadas como instaladas em seus postos pelo Senhor (cf. Rm 13.1), o único digno de obediência irrestrita é o próprio Senhor da igreja. Ainda que o clamor cultural corrupto seja forte, partindo inclusive do Estado, Cristo é que deve receber da igreja fidelidade, pois “antes importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29) . v.17 - Promessa de recompensa pela fidelidade.
- Após outra expressão padronizada pela comunicação epistolar de Cristo à sua igreja (i.e. v.17a “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas”), chamando os verdadeiros crentes a oitiva de suas palavras, um contrabalanço é feito exatamente levando em consideração a construção da figura cristológica de contornos judiciais. Dois elementos da promessa em razão da fidelidade são estruturados:
I) “Ao vencedor, dar-lhe-ei do maná escondido” (v.17b). O maná fornecido por Deus ao povo, durante sua peregrinação pelo deserto, apontava para o Cristo que viria (Jo 6.30-35. Assim, a recompensa dos crentes em Pérgamo, por seu testemunho fiel e sua obediência a Cristo, fugindo da idolatria e paganismo proliferados e incentivados em seu tempo e resistindo os que queriam fazê-los ceder a tais tentações, seria ter comunhão com o verdadeiro Pão da Vida. Ao invés de se alimentarem das comidas sacrificadas aos ídolos, participando dos manjares passageiros dos idolatras, os crentes são chamados a aguardarem (ref. “escondido”, oculto, i.e, por ser revelado) o momento em que entrarão para as Bodas do Cordeiro (cf. 19.9). II) “… Lhe darei uma pedrinha branca, e sobre essa pedrinha escrito um nome novo”. O segundo elemento da promessa é remetido a partir de duas figuras que reforçam os aspectos jurídicos da carta à Pérgamo. A respeito da pedrinha branca, Keener explica que “o corpo de jurados [na época] utilizava pedras negras na hora de votar a condenação de um réu e pedras brancas para inocentá-lo” (KEENER, 2017, p. 863). Nesse sentido, assim como os falsos mestres e os infiéis, receberiam de Cristo a sentença condenatória, os fiéis em Pérgamo teriam sua sentença de absolvição de juízo assegurada, sendo publicada pelo próprio Senhor por ocasião de seu retorno. Anexo a isso, o recebimento de um nome novo, garante uma nova identidade; no caso, a identidade redimida conquistada por Cristo, ou como asserta Beale: “O recebimento desse nome pelos cristãos em 2.17, representa a sua recompensa final de estarem consumadamente identificados com Cristo no seu Reino e sob sua soberana autoridade” (BEALE, 2017, p. 64).
A igreja em Pérgamo, mantendo-se fiel a Cristo, mesmo em meio aos sutis e encantadores convites mundanos a quem corrompam-se, como fizeram os filhos de Israel, com a imoralidade e paganismo, teria sua condição de absolvida do tribunal de Cristo publicada, tomando parte na recompensa destinada aos eleitos de Deus, em plena comunhão com ele.
Síntese principiológica
Cristo, em seu papel de justo juíz, dirige-se à sua igreja demonstrando sua glória para que, através da compreensão de tal revelação, sua igreja fosse instada a resistir aos clamores culturais e políticos de seu tempo, intensificados pelo apelo de falsos mestres, que os conclamavam, por interesses escusos (tal como Balaão), à imoralidade e paganismo.
Conservar o nome do Senhor Jesus, sendo sua testemunha, seu fiel, como foi Antipas, no meio de uma cultura corrompida é um imperativo do qual a igreja não pode se furtar, sem negociar seu dever nesse mundo, trazendo assim desonra ao nome de Cristo e atraindo, por essa razão, juízo para si. Esse, certamente, pode ser um fator amedrontador: ver irmãos nossos sofrendo sanções ou penalidades (até com a vida) por não se dobrarem diante do mundo. Nada obstante, não podemos amar tanto nossa vida e tê-la como tão preciosa, ao ponto de, não querendo ser alvos do desprezo do sistema anticristão mundial, negociarmos nossa fé, nos prostituindo com os que, em nosso tempo, sustentam a doutrina de Balaão, armando ciladas para nós, nos diversos campos da cultura (música, estilos de vida, economia, etc).
O reto juíz publicará o resultado de nossa jornada de resistência aos apelos pagãos e imorais de nosso tempo: a absolvição pela demonstração de nossa nova realidade, consumada por Cristo Jesus, que reverteu a sentença condenatória que estava sobre nós, afastando de nós sua espada, convidando-nos a desfrutarmos do da comunhão com ele, sendo ele o maná que, por ora, está oculto, mas que haverá de ser manifestado, quando de seu magnífico retorno.
Aplicações
1. A igreja deve contemplar Cristo, também a partir de seu papel como juíz que, a partir de seu julgamento, conclama sua igreja a purificar-se e manter-se fiel, não cedendo ao apelo cultural pagão e idólatra de um mundo caído e avesso ao SENHOR. O julgamento divino é anunciado pela revelação da presença daquele que tem a espada afiada de dois gumes; espada que está pronta para pelejar contra os que armam ciladas ao povo de Deus, buscando encaminhá-lo à contaminação com a imoralidade e idolatria. Nada obstante, esse sentenciamento deve conduzir a igreja de Cristo à observação de como tem procedido: se não tem tolerado em seu meio os que sustentam a doutrina de Balaão, fazendo-nos crer que a cosmovisão do mundo pode ser absorvida em alguma medida por nós, principalmente naquelas áreas que nos são tentadoras ou convenientes (vida familiar, sexualidade, objetivos e realizações pessoais etc).
Segundo Grant Osborne:

O sincretismo […] é comum hoje em dia. As pessoas não veem problema em adotar, por exemplo, doutrinas bíblicas sobre Cristo e a salvação e também aceitar coisas como aborto ou homossexualidade, embora a Bíblia seja clara sobre essas questões. Ou podem ser em parte cristãs e em parte seculares em seus estilos de vida. A Palavra de Deus é inflexível contra estas coisas.

Precisamos aprender que a cosmovisão cristã é completa, e abrange todas as áreas de nossa vida, de modo que toda ela esteja aos pés de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. NÃO É POSSÍVEL MESCLAR A FÉ CRISTÃ COM QUALQUER TIPO DE IDEOLOGIA OU COMPORTAMENTO MUNDANO que governe nosso modo de ver as coisas. Ou a lente com a qual enxergamos o mundo é a palavra de Deus e a fé em Cristo, ou estaremos submetendo Cristo ao imperadores desse mundo, onde Satanás tem seu trono. Não podemos servir a dois senhores. Por outro lado, se resistirmos firmes a tentação de ceder as ciladas dos Balaques desse mundo, não precisaremos sujeitar nossa vida à opinião de quem reverencia a corrupção moral e idolatria, pois nossa sentença já foi lavrada, e aguardamos que Cristo Jesus apenas a publique, nos dando a pedrinha de absolvição e a declaração de que seu nome está sobre nós e que pertencemos a ele.
O justo juíz já tem seu veredicto estabelecido e não o mudará: o vencedor haverá de comungar com ele, recebendo vida eterna daquele que, diferente do maná que o povo comeu no deserto e que foi incapaz de livrá-los da morte, é o Pão Vivo que desceu do céu, e veio para nos dar vida e vida em abundância.
2. Isso não nos exime de enfretarmos a oposição do mundo, no qual o deus desse século estabeleceu seu trono (como dito). A igreja deve conservar o nome do Senhor Jesus, ainda que precisemo seguir o exemplo de Antipas, sendo testemunhas de Cristo e seus fiéis.
Novamente o Senhor da igreja lembra a esta de que segui-lo terá um custo. Esmirna recebeu o oráculo de que estavam enfrentando perseguições, e que o cenário se agravaria num futuro próximo (cf. v.10). Com Pérgamo não seria diferente; se fosse fiel, continuaria tendo de suportar a oposição dos que se venderam, como Balaão, à tentativa diabólica de corromper a igreja.
É inevitável que vejamos nessas palavras a advertência de que ao nos mantermos firmes a Cristo, renunciando o mundo e suas propostas imorais e pagãs, haveremos de sofrer. Por questões de conforto ou pelo temor de não sermos alvos de represália, talvez nos vejamos tentados a ceder aqui ou ali em nosso compromisso com Cristo. Essa é uma escolha que precisamos fazer: cairemos nas armadilhas de Balaque, abraçando a satisfação dos galanteios mundanos, ou proclamaremos que embora vivamos num mundo cujo sistema político e cultural é o trono de Satanás, o Reino pertence ao SENHOR e seu Cristo?
Conclusão
O juízo iminente de Cristo resguarda o mesmo teor duplo de sua apresentação em 1.16: A igreja contempla em Jesus aquele que traz punição aos que fazem seu povo caminhar como o mundo, em seus costumes e modo de pensar reprovável, algo que trará pesar também a própria igreja, caso não se purifique, conduzindo ao arrependimento os que a tais práticas cedem. Mas também, no Cristo glorificado, o povo de Deus tem aquele que os absolve e convoca à festa santa, sem banquetes oferecidos a ídolos, mas sim, às Bodas do Cordeiro, quando receberão o novo nome que indica a realidade de sua identificação com o Salvador.
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