Ser Igreja é viver na expectativa do Grande Encontro
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Expectativas...
Expectativas...
Acredito que todos nós, que compramos coisas pela internet, compartilhamos de um sentimento um tanto quanto universal: a ansiedade pela entrega do produto. Embora tenhamos um prazo dado pelo site em que efetuamos a compra, ainda assim ficamos ansiosos a ponto de conferirmos sempre que possível as atualizações de entrega.
Seja um lanche, a “roupinha da Shein”, uma gestante e seu bebê ou qualquer outra coisa, a espera mexe com a gente. E quanto mais importante é aquilo que estamos aguardando, maior é a expectativa.
Assim deveria ser com a igreja. No entanto, o atual cenário é catastrófico. Hoje a segunda vinda de Cristo interessa apenas àqueles que são curiosos. As pregações mal falam sobre Cristo e quem dirá sobre sua vinda. Grande parte dos cristãos estão preocupados com coisas terrenas e passageiras e não possuem vontade de saber da vida eterna.
Porém, essa deveria ser uma marca que nos diferencia completamente do mundo: a nossa expectativa com relação a volta de Cristo. E por esse motivo, esse é o último sermão da nossa série sobre “o que é ser igreja...”.
Texto base:
1 Amados, esta é agora a segunda carta que lhes escrevo. Em ambas quero despertar com estas lembranças a sua mente sincera para que vocês se recordem 2 das palavras proferidas no passado pelos santos profetas, e do mandamento de nosso Senhor e Salvador que os apóstolos de vocês lhes ensinaram. 3 Antes de tudo saibam que, nos últimos dias, surgirão escarnecedores zombando e seguindo suas próprias paixões. 4 Eles dirão: “O que houve com a promessa da sua vinda? Desde que os antepassados morreram, tudo continua como desde o princípio da criação”. 5 Mas eles deliberadamente se esquecem de que há muito tempo, pela palavra de Deus, existem céus e terra, esta formada da água e pela água. 6 E pela água o mundo daquele tempo foi submerso e destruído. 7 Pela mesma palavra os céus e a terra que agora existem estão reservados para o fogo, guardados para o dia do juízo e para a destruição dos ímpios. 8 Não se esqueçam disto, amados: para o Senhor um dia é como mil anos, e mil anos como um dia. 9 O Senhor não demora em cumprir a sua promessa, como julgam alguns. Ao contrário, ele é paciente com vocês, não querendo que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento. 10 O dia do Senhor, porém, virá como ladrão. Os céus desaparecerão com um grande estrondo, os elementos serão desfeitos pelo calor, e a terra, e tudo o que nela há, será desnudada. 11 Visto que tudo será assim desfeito, que tipo de pessoas é necessário que vocês sejam? Vivam de maneira santa e piedosa, 12 esperando o dia de Deus e apressando a sua vinda. Naquele dia os céus serão desfeitos pelo fogo, e os elementos se derreterão pelo calor.13 Todavia, de acordo com a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, onde habita a justiça. 14 Portanto, amados, enquanto esperam estas coisas, empenhem-se para serem encontrados por ele em paz, imaculados e inculpáveis. 15 Tenham em mente que a paciência de nosso Senhor significa salvação, como também o nosso amado irmão Paulo lhes escreveu, com a sabedoria que Deus lhe deu. 16 Ele escreve da mesma forma em todas as suas cartas, falando nelas destes assuntos. Suas cartas contêm algumas coisas difíceis de entender, as quais os ignorantes e instáveis torcem, como também o fazem com as demais Escrituras, para a própria destruição deles. 17 Portanto, amados, sabendo disso, guardem-se para que não sejam levados pelo erro dos que não têm princípios morais, nem percam a sua firmeza e caiam. 18 Cresçam, porém, na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória, agora e para sempre! Amém.
Uma resposta aos escarnecedores
Uma resposta aos escarnecedores
Pedro se dirige a dois grupos nesse último capítulo da sua segunda carta: aos cristãos e a um grupo de falsos mestres. No início capítulo, ele se dirige a esses falsos mestres como escarnecedores. Ou seja, pessoas que tratam com zombarias e desprezo aquilo que deveria ser levado a sério, nesse caso, a segunda vinda de Cristo. Eles diziam:
4 Eles dirão: “O que houve com a promessa da sua vinda? Desde que os antepassados morreram, tudo continua como desde o princípio da criação”.
De maneira resumida eles: (1)Desprezavam a promessa do retorno que próprio Cristo fez; (2) Menosprezavam a fé daqueles que já morreram no Senhor; (3) E ignoravam tudo aquilo que Deus fez no decorrer das eras.
É então que Pedro começa a responder:
Em primeiro lugar, ele faz questão de lembrar o quão fiel e poderosa é a Palavra de Deus, afinal, pela sua Palavra, Deus criou todas as coisas.
Em segundo lugar, esse mesmo Deus que criou o mundo com o poder de sua Palavra, já julgou no passado a terra e a limpou com as águas do dilúvio, e não somente isso, também prometeu não destruir a terra com água no futuro (Gn 09.15), mas sim com fogo. Ou seja, as coisas não “continuam como desde o princípio da criação” assim como os escarnecedores diziam, e por conta da fidelidade de Deus e do poder de sua Palavra, a terra pode aguardar um novo julgamento da parte do Senhor.
E por último, em terceiro lugar, Pedro trata da “aparente demora da vinda de Cristo” e nos dá dois motivos para isso acontecer: o primeiro motivo é que o tempo de Deus não é igual ao nosso. Não estamos falando do mesmo calendário. Não podemos cronometrar o tempo de Deus e desejarmos que Ele siga a nossa agenda. O segundo motivo é que a “aparente demora da vinda de Cristo” também se dá por conta da paciência e longanimidade do Senhor Deus em aguardar que todos os seus eleitos no decorrer dos tempos sejam alcançados, se arrependam e se voltem para Ele.
É nesse ponto do sermão que precisamos prestar atenção em algo importante em nosso texto. Pedro por três vezes fala a respeito de um futuro de caos e destruição (v. 07;10;12). Por certo, as cenas descritas nesses textos não passaram na cabeça dos melhores cineastas e roteiristas de Hollywood, por exemplo: céus e terra sendo desfeitos, os elementos derreterão por conta do calor, toda obra das mãos dos homens será destruída, os impérios e reinos serão reduzidos ao pó, os céus passarão e a terra será desnudada. E então chegamos ao v. 11.
Então, o que devemos fazer?
Então, o que devemos fazer?
Diante de um cenário de caos e de completa destruição, o que devemos fazer? Quando temos a certeza de que as coisas irão de mal a pior, qual deve ser a nossa atitude? Pedro deixa de falar aos escarnecedores e então se dirige aos cristãos.
Nesse ponto do seu argumento somos chamados a fazer algo. Porém, émais do que uma mera execução. É mais do que o realizar uma simples tarefa. Diante desse cenário de devastação Deus espera que sejamos um tipo de pessoa (v.11). É nesse ponto que entra a nossa identidade como igreja. É aqui que precisamos ser alguém. Agora, que tipo de pessoa devemos ser? O apóstolo elenca algumas características:
1º — Vivam de maneira santa e piedosa (v.11b)
1º — Vivam de maneira santa e piedosa (v.11b)
Quando eu leio esse versículo a primeira coisa que me chama atenção no chamado a todos nós é o “Vivam...”. Afinal, é muito fácil continuar a caminhada quando sabemos que boas coisas nos esperam. É mais tranquilo viver o hoje, quando temos a certeza de que coisas melhores acontecerão no futuro. No entanto, o inverso também é verdade. Saber que daqui a algum tempo, algo de ruim vai acontecer segundo as nossas previsões, é desmotivador. Só de imaginarmos algo mau em nosso futuro, já pensamos em desistir.
Diante de uma previsão ruim, ou nesse caso, diante da certeza de destruição, aquilo que Pedro nos orienta é vivermos! Ele não fala para desistirmos. Nem tão pouco fala para sobrevivermos. Aquilo que deve ser a nossa marca como Igreja de Cristo. O tipo de pessoa que devemos ser, não é alguém que desiste, mas é alguém que resiste. Alguém incansável. Alguém imparável.
No entanto, não somos convidados a viver qualquer tipo de vida, mas somos chamados a viver de maneira santa e piedosa.
Conforme chegamos ao fim de todas as coisas, não podemos negociar nossos valores com o mundo. Não podemos barganhar e abrir exceções para sermos aliviados pela falsa paz que o mundo nos oferece. Devemos viver uma vida separada da podridão que nos rodeia. Viver uma vida separada do pecado e do mundo, e devotada a Deus.
O cristão deve ser a antítese do mundo. Não deixamos de viver pois nos convertemos a Cristo e esperamos a sua volta. Ainda não deixamos esse mundo. É necessário — e esse é o termo que Pedro usa — sermos o tipo de pessoa que vive, mas vive uma vida separada e totalmente entregue ao Senhor.
2º — Esperando o dia de Deus (v.12a)
2º — Esperando o dia de Deus (v.12a)
Embora possa parecer redundante quando falamos sobre a segunda vinda de Cristo, Pedro aqui nos chama a vivermos com aqueles que esperam. No entanto, essa espera não é ociosa, mas sim, uma espera operante. E Pedro aprofunda a maneira como devemos esperar de modo ativo no v. 14:
14 Portanto, amados, enquanto esperam estas coisas, empenhem-se para serem encontrados por ele em paz, imaculados e inculpáveis.
Primeiramente, enquanto esperamos devemos estar empenhados. Devemos nos esforçar. Não estamos tratando de uma espera passiva que somente aguarda a vinda de Cristo com os braços cruzados. Pedro nos chama a esperar pelo Senhor nos empenhando.
Agora, por qual motivo devemos nos empenhar? A resposta do nosso texto é que precisamos ser encontrados por Jesus, naquele grande dia, em paz, imaculados e inculpáveis.
Preste atenção: em um mundo que respira guerras e mais rumores de guerras, o cristão é aquele que enquanto espera o seu Senhor, se empenha para manter a paz. Paulo e o escritor de Hebreus também nos dizem isso: “Esforçai-vos para viver em paz com todas as pessoas” (Rm 12.18; Hb 12.14).
Ao mesmo tempo que esperamos e nos empenhamos para sermos encontrados em paz — conosco, com os outros e com Deus —, também devemos nos esforçar para sermos encontramos sem manchas, ou seja, sem estarmos contaminados com esse mundo e sem culpa alguma. O Salmista diz: “Lava-me de toda a minha culpa e purifica-me do meu pecado. Pois eu mesmo reconheço as minhas transgressões, e o meu pecado sempre me persegue.” (Sl 51.02-03). Ser encontrado sem culpa é viver um relacionamento contínuo e sincero com Deus, onde somos constantemente lavados e purificados por conta dos nossos pecados e da culpa que brota deles.
Enquanto esperamos, devemos nos esforçar para sermos encontrados em paz, sem manchas e sem culpa alguma.
3º — Apressando a sua vinda (v.12a)
3º — Apressando a sua vinda (v.12a)
Aqui, nesse ponto, encontramos uma boa questão: Afinal, se o tempo é de Deus, se Ele sabe o dia e a hora, se somos nós que não sabemos. Então, como podemos apressar algo que não depende de nós? Aqui retornamos a um mistério incrivelmente maravilhoso que já vimos em um desses domingos da nossa série: o fato de Deus governar e ter o controle de tudo nas suas mãos e ainda assim, de alguma forma nos chamar para participar do que Ele está fazendo. Mas, a pergunta ainda fica: como apressando a sua vinda de Jesus?
Em primeiro lugar, como seus discípulos, cabe a nós termos um espírito de intensa e contínua oração que clama “Venha o teu Reino”.Jesus nos ensinou a orar assim. E não somente a oração dominical nos mostra que nossas orações fazem parte dos planos de Deus para o retorno de seu filho, como em Ap 05.08 e Ap 08.03-04, as orações dos santos sempre estão sendo ajuntadas nos céus e contribuindo — de forma misteriosa — para a manifestação de algum desdobrar do plano divino. Ao orarmos nossas orações não manifestam apenas nossas petições referentes a essa terra, mas nossas orações contribuem para apressarmos a vinda do nosso Senhor.
Em segundo lugar, precisamos voltar alguns versículos atrás e lembrar o porquê “aparentemente Cristo tem demorado”, e Pedro nesse ponto é bem claro:
9 O Senhor não demora em cumprir a sua promessa, como julgam alguns. Ao contrário, ele é paciente com vocês, não querendo que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento.
Parte do fato da vinda de Cristo “demorar” se dá pois Deus tem aguardado o arrependimento de todos os seus eleitos de todo o mundo e de todas as eras. Agora, se Cristo ainda não voltou, quer dizer que existem pessoas que precisam ser alcançadas pela pregação do evangelho, e então se arrependerem e serem contadas na família de Deus.
Pregar e anunciar o Evangelho a toda criatura não somente é o cumprimento da ordem de Jesus de irmos por todo o mundo (Mt 28.19), como também é o meio que a igreja possui de apressar a volta de Jesus.
Em outras palavras, quando negligenciamos a pregação das Boas Novas, não estamos sendo desobedientes a ordenança de Jesus apenas, como também estamos tratando com pouquíssimo interesse o seu regresso. Falar que amamos a segunda vinda de Jesus e que desejamos que Ele volte sem proclamar sua Palavra é hipocrisia. Afinal, essas duas coisas nunca podem ser desassociadas.
Nossa maior — e única — expectativa
Nossa maior — e única — expectativa
Uma das principais marcas, e aquilo que nos distingue como igreja, é vivermos em uma realidade de espera e cumprimento. Afinal, cremos que o prometido de Deus já veio em um momento e lugar na história. Muitas das coisas que Deus prometeu e falou pelos seus profetas se cumpriram na primeira vinda de Cristo. No entanto, como igreja, ainda esperamos o cumprimento pleno de todas as profecias.
Esse deveria ser o nosso maior anseio. Esse deveria ser o nosso maior desejo. No entanto, como nós, a Igreja de Cristo, temos nos comportado em nossos dias? Será que somos esse tipo de pessoa que o apóstolo Pedro fala em sua segunda carta? Ou estamos longe demais de toda e qualquer definição que nós ouvimos no decorrer dessa série, e principalmente no sermão de hoje?
C.S. Lewis, famoso autor de “As Crônicas de Nárnia”, escreveu em seu livro “Cristianismo Puro e simples” o seguinte:
“Quem investiga os registros da história descobre que os cristãos que fizeram mais pelo mundo presente foram justamente aqueles que mais pensaram no porvir.”
E mais:
“Desde que os cristãos deixaram de pensar amplamente no mundo vindouro, tornaram-se ineficazes neste mundo.”
Lotamos nossas agendas com os nossos eventos, nossas conferências e os nossos congressos. Nos ocupamos todos os dias com o nosso trabalho e os nossos afazeres. Temos as nossas responsabilidades e as nossas obrigações. Só que, em meio a tudo isso, riscamos dos nossos calendários que, um dia, nos encontraremos com Cristo.
Sonhamos com o dia em que teremos uma quantia absurda de dinheiro. Sonhamos com o dia em que teremos o resultado positivo do médico. Sonhamos com a faculdade, sonhamos com a casa e com o carro próprio. E tudo isso não seria um grande problema.
Sonhamos com uma sociedade justa, sem desigualdade. Sonhamos com políticos honestos e que trabalham pelo bem do povo. Sonhamos com um tratamento justo e amável entre os homens. E tudo isso não é o grande problema.
O grande problema é que esperamos a resolução de todas essas coisas aqui, nesse mundo caído e passageiro. O problema é que esquecemos que a verdadeira justiça virá com Cristo. Esquecemos que cura para nossa maior doença ocorrerá plenamente na eternidade. Esquecemos que a verdadeira riqueza é conhecer o Senhor e ser conhecido por Ele durante toda a vida eterna.
O mundo nos promete muitas coisas e nos faz criar expectativas naquilo que ele não pode cumprir. Como igreja somos chamados a viver segundo uma outra lógica. Somos chamados a esperarmos por algo muito maior, algo que não pode ser comprado, conquistado ou construído por mãos humanas. Como igreja somos despertados e convidados a sonharmos e esperarmos pelo Glorioso retorno do nosso Senhor Jesus Cristo.
Um dia, nossos olhos acostumados a enxergar a maldade deste mundo verão a justiça perfeita do Senhor. Um dia, nossos ouvidos, cansados de tantas notícias ruins, ouvirão a voz do Noivo chamando pelo seu povo. Um dia, nossos pés, que caminham em ruas marcadas por violência e desigualdade, pisarão nas ruas da cidade santa, onde não há mais dor, choro ou lágrimas.
Um dia veremos a Ele. Veremos o Cristo glorificado, não mais humilhado, mas exaltado sobre todas as coisas. Veremos Aquele que carregou nossos pecados, agora vindo como o Rei que governa sobre céus e terra. Veremos aquele dia em que toda língua confessará e todo joelho se dobrará diante dEle.
Por isso, meus irmãos, que o nosso maior sonho não seja uma simples caneta que assina um contrato, mas o nosso nome escrito no livro da vida. Que não seja um número crescente na conta bancária, mas o galardão que Ele promete aos seus fiéis. Que não sejam os aplausos dos homens, mas ouvir:
21 “O senhor respondeu: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Você foi fiel no pouco, eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor!’
Que vivamos como aqueles que não possuem expectativa maior nesse mundo do que essa: ver o Senhor face a face. Isso é ser igreja!
Que Deus tenha misericórdia de nós. Amém!
Sermão exposto no dia: 07 de setembro de 2025
Local: Igreja Vivendo em Amor (Mandaqui-Noite)
Por Alex Amaral
Soli Deo Gloria
