Lidando com as nossas emoções
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Texto base:
1 Eu te exaltarei, Senhor, pois tu me reergueste e não deixaste que os meus inimigos se divertissem à minha custa. 2 Senhor meu Deus, a ti clamei por socorro, e tu me curaste. 3 Senhor, tiraste-me da sepultura ; prestes a descer à cova, devolveste-me à vida. 4 Cantem louvores ao Senhor, vocês, os seus fiéis; louvem o seu santo nome. 5 Pois a sua ira só dura um instante, mas o seu favor dura a vida toda; o choro pode persistir uma noite, mas de manhã irrompe a alegria. 6 Quando me senti seguro, disse: Jamais serei abalado! 7 Senhor, com o teu favor, deste-me firmeza e estabilidade; mas, quando escondeste a tua face, fiquei aterrorizado. 8 A ti, Senhor, clamei, ao Senhor pedi misericórdia: 9 Se eu morrer , se eu descer à cova, que vantagem haverá? Acaso o pó te louvará? Proclamará a tua fidelidade? 10 Ouve, Senhor, e tem misericórdia de mim; Senhor, sê tu o meu auxílio. 11 Mudaste o meu pranto em dança, a minha veste de lamento em veste de alegria, 12 para que o meu coração cante louvores a ti e não se cale. Senhor, meu Deus, eu te darei graças para sempre.
Deus e as emoções
Deus e as emoções
Deus tem emoções? Essa é uma pergunta que pode parecer estranha à primeira vista, mas que se torna essencial quando falamos sobre o assunto. Afinal, se vamos falar sobre nossas emoções, precisamos começar pela fonte de tudo:Deus.
Quando lemos a bíblia aprendemos sobre um Deus que se alegra, se entristece, se ira, sente compaixão, entre outras emoções. No entanto, seria um erro considerarmos que as emoções de Deus são iguais as nossas.
Em primeiro lugar, quando lemos sobre emoções que são comuns aos seres humanos, mas que estão atreladas a Deus em algum texto bíblico, precisamos ter em mente que os escritores bíblicos recorrem a um recurso literário chamado antropopatismo, que é a atribuição de emoções e sentimentos humanos a Deus, para que possamos compreender suas reações e seu caráter.
Ou seja, é como um pai que, ao explicar algo difícil para seu filho de cinco anos, usa elementos e palavras que a criança conhece para que ela possa compreender o que está sendo ensinado. Assim, Deus faz a mesma coisa ao se revelar a nós através da sua Palavra.
Em segundo lugar, nossas emoções são marcadas pelo pecado e pela nossa limitação. Por exemplo, o amor que sentimos muitas vezes é falho, instável, condicionado às circunstâncias ou às nossas próprias vontades. É o nosso jeito limitado de amar, que cansa, se frustra ou se engana. Já o amor de Deus é completamente diferente: é puro, perfeito, sem interesse próprio, sem medida, sem limites. É um amor que não depende de circunstâncias nem de como reagimos; ele simplesmente é, porque reflete quem Deus é.
Vemos a diferença também quando a Bíblia fala sobre a ira. Algumas pessoas não compreendem por que somos advertidos a não nos irarmos e a não buscarmos vingança, enquanto devemos esperar pela vingança que vem de Deus. A explicação está justamente na diferença entre nossas emoções e as de Deus.
Quando sentimos raiva ou queremos nos vingar, nossas reações são muitas vezes exageradas, injustas e guiadas pelo pecado. Tentamos retribuir do nosso jeito, sempre segundo nossa perspectiva limitada, e quase nunca conseguimos agir de maneira realmente justa. Deus, por outro lado, não age assim. Ele não é movido por impulsos, frustrações ou egoísmo. A ira de Deus é perfeita, justa e totalmente alinhada com o Seu caráter. Ele age de acordo com quem Ele é, sempre com sabedoria, justiça e retidão.
Em terceiro lugar, precisamos lembrar que Deus é imutável. Diferente de nós, que muitas vezes mudamos de humor conforme a situação ou somos levados por impulsos e sentimentos passageiros, Deus permanece constante. Tudo o que Ele sente e faz está perfeitamente alinhado com seu caráter, com sua sabedoria e com a sua justiça. Não há surpresa, confusão ou instabilidade no coração de Deus; cada emoção reflete exatamente quem Ele é. Ou seja, enquanto nós podemos sentir compaixão por alguém hoje e amanhã nos irritarmos ou nos distanciarmos, Deus não. A compaixão dEle é constante, perfeita e fiel à sua natureza.
O verdadeiro exemplo
O verdadeiro exemplo
É diante dessa grande diferença que muitas pessoas encontram dificuldades para lidar com suas emoções. Afinal, parece que estamos quebrados. Nosso amor, pode ser egoísta. Nossa alegria, pode ser mero orgulho. Nossa tristeza, às vezes se transforma em amargura e ressentimento. Sem contar nossa raiva, que nos leva a agir com impulsividade.
A verdade é que esse sentimento sempre esteve presente na mente das pessoas. Um exemplo disso é que, logo no primeiro século, o cristianismo teve de lidar com uma seita que surgia de uma compreensão errada tanto do mundo espiritual quanto do mundo físico: o gnosticismo.
De forma resumida, os gnósticos acreditavam que o mundo material era mau ou corrompido, enquanto o mundo espiritual era bom e puro. Para eles, a vida e as emoções humanas estavam muitas vezes ligadas ao pecado ou à decadência. Logo, o corpo funcionava como uma prisão para a alma.
Diante dessa visão, surgiam dois extremos em meio a essa seita: alguns seguiam um caminho ascético (Cl 02.20-23), buscando negar os desejos e as emoções do corpo como forma de “purificação”, enquanto outros se entregavam à libertinagem (2Pe 02.19), acreditando que, sendo o mundo material mau, nada do que fizessem teria consequências espirituais.
A igreja do primeiro século teve de lidar com essas ideias logo em seus primeiros anos. Como resultado, o que encontramos no Novo Testamento, e especialmente nos Evangelhos, não são apenas uma espécie de biografia sobre a vida de Jesus, mas também textos que serviram para contestar essas falsas crenças e para nos ensinar como deveríamos viver nesse mundo.
Por esse motivo que os evangelistas não tiveram receio algum de demonstrar e afirmar tanto a divindade de Cristo, como a sua humanidade. Evangelistas como Lucas e João fizeram questão de registrar não apenas os ensinamentos e milagres de Jesus, como também suas reações emocionais, mostrando que o próprio Filho de Deus experimentou sentimentos humanos de forma plena e verdadeira. Por exemplo:
Compaixão – Sensível ao sofrimento das pessoas, como no caso da viúva de Naim (Lucas 07.13);
Luto / Empatia – Chorou pela morte de Lázaro, mostrando dor e empatia genuína (João 11.35);
Tristeza – Entristeceu-se profundamente por Jerusalém, lamentando a rejeição do povo (Mateus 23.37; Lucas 19.41);
Alegria – Exultou ao ver a obra de Deus se manifestando nos discípulos (Lucas 10.21);
Indignação / Ira – Reagiu à dureza do coração e à injustiça no templo (Marcos 03.05);
Angústia / Aflição – Sentiu profundo peso diante do sofrimento e da cruz (Mateus 26.37-38);
Amor – Amou os discípulos e as pessoas sem medida, mesmo sabendo do sofrimento que enfrentaria (João 13.01).
Nem Pedro, nem Paulo, nem Abraão, nem Davi, mas sim Jesus. Esse é o exemplo perfeito de como deveríamos ser e agir segundo a ótica de Deus.Em Jesus não vemos apenas a imagem do Deus invisível, como escreve Paulo em Colossenses 01.15, mas também vemos a humanidade como ela deveria ser. Ele é o último Adão, como Paulo afirma em 1Coríntios 15.45. Cristo é o cabeça da nova criação.
Às vezes, alguns de nós imaginam como seria a vida e o que faríamos se não fosse o pecado do primeiro homem e da primeira mulher. O ponto é que, tirando a caricatura de que estaríamos nus em um jardim, a Bíblia não deixa de nos mostrar como seria essa realidade. E isso é visto em Cristo Jesus.
Nele vemos amor sem egoísmo, alegria sem orgulho, tristeza sem amargura e até mesmo a ira sem pecado. Cada emoção de Jesus reflete a vontade do Pai. É como se, ao olhar para Ele, tivéssemos um vislumbre daquilo que Adão deveria ter sido e de como nós deveríamos ser.
O nosso problema
O nosso problema
No entanto, eis aqui nosso problema: não somos como Jesus.Nossas emoções não são apenas diferentes quando comparamos a Deus na eternidade, mas diferentes quando comparamos ao Deus encarnado. Afinal, ainda lutamos contra o pecado. Carregamos marcas que afetam não apenas nossas escolhas, mas também nossas emoções.
A ansiedade nos consome quando tentamos controlar o que está além do nosso alcance. A gratidão é uma máscara que esconde um coração cheio de insatisfação e reclamação. E até mesmo a compaixão, que poderia ser uma expressão sincera de amor, muitas vezes vem acompanhada de vaidade, como se ajudássemos apenas para provar a nós mesmos ou aos outros que somos bons.
É verdade que as nossas emoções não são pecados em si mesmas. Mas também não surgem isoladas do pecado que habita em nós. Assim como toda a nossa vida, nossos sentimentos são tocados pela queda. Charles Spurgeon disse certa vez:
“Há pecado até na nossa santidade, há incredulidade na nossa fé; há ódio no nosso próprio amor; há lama da serpente na mais bela flor do nosso jardim”
Isso significa que, por mais sinceros que possamos ser, nossas emoções ainda carregam distorções. Por isso é tão perigoso sermos guiados pelos nossos sentimentos.
O que precisamos? Precisamos que toda a nossa vida, e principalmente nossas emoções, sejam redimidas em Cristo. Isso não significa fingir sentimentos ou forçar atitudes. Ter as nossas emoções redimidas em nosso Senhor não quer dizer que vamos nos esforçar praticando algo artificial até que isso se torne normal em nossas vidas. Não é uma questão de simular o amor, a alegria ou a compaixão. Também não é uma questão de ignorarmos os nossos sentimentos e as nossas emoções, tentando reprimi-los.
Ter as nossas emoções redimidas é um fruto que o próprio Espírito de Deus produz em nossas vidas. Ou seja, é algo que deve ser natural a todo aquele que pertence a Deus e que anda pelo Espírito. É isso que Paulo fala em Gálatas 05.24-25:
24 Os que pertencem a Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e os seus desejos. 25 Se vivemos pelo Espírito, andemos também pelo Espírito.
Pode parecer óbvio ou até banal para algumas pessoas, mas a nossa necessidade de Deus vai muito além de sermos dignos de estar na eternidade com Ele. Essa necessidade também é prática, é cotidiana: precisamos de Deus para aprendermos a viver a vida aqui e agora de maneira verdadeira.
Quando nós não ignoramos os nossos sentimentos e lidamos com eles de forma honesta, percebemos que eles apontam para algo maior — para a necessidade de alguém que venha nos redimir; nos ajudar em meio a nossa confusão.
A verdadeira alegria, a verdadeira paz, paciência real, a verdadeira bondade e domínio próprio não surgem simplesmente de esforço humano. Sentimentos, emoções e atitudes assim só podem ser cultivados através de um trabalho interno do Espírito Santo em nossas vidas. Isso não significa que o acompanhamento clínico, aconselhamento pastoral ou ajuda profissional não tenha valor — muito pelo contrário. A questão é que todo auxílio terreno, a parte do trabalho de Deus em nós, acaba se tornando um longo caminho que dificilmente resolverá a verdadeira questão.
O problema da depressão, da ansiedade e do estresse tem como raiz o mesmo problema da falta de amor, da impaciência, da falta de domínio próprio e da ausência de bondade. O problema está em buscarmos resolver essas questões sozinhos ou esperar por uma resolução unicamente humana.
Para nós cristãos, devemos ter a certeza de que é Deus quem deu sabedoria aos homens para tratar de nossas mazelas nesse mundo. Ir a um psicólogo ou psiquiatra, tomar algum tipo de medicação prescrita, participar e tomar conselhos com pessoas maduras, são coisas que o próprio Deus nos concedeu para nosso auxílio. Porém, devemos recorrer a essas coisas sem esquecermos do essencial. Ou seja, precisamos, mais do que tudo, da atuação do Espírito Santo de Deus gerando em nossas vidas o fruto, ou seja, as consequências de vivermos para Ele e por intermédio dEle.
Isso não quer dizer que não enfrentaremos crises emocionais. Também não quer dizer que não passaremos por momentos angustiantes em nossas vidas.Essas coisas experimentaremos enquanto Cristo não nos buscar. No entanto, devemos ter em mente as palavras do salmista e crer que a dor não é para sempre.
Portanto, não devemos desprezar ou ignorar nossas emoções pois Deus não faz isso conosco. Também não devemos tentar controlá-las sozinhos, pois é Ele que se coloca à disposição em nos ajudar e de estar ao nosso lado. Como cristãos, e tratando-se das nossas emoções, devemos reconhecer a cada uma e trazer todas elas diante de Deus, para que assim o Espírito Santo trabalhe em nosso coração e nos ensine a viver de verdade nesse mundo.
Que Deus tenha misericórdia de nós. Amém!
Sermão exposto no dia: 11 de setembro de 2025
Local: Igreja Vivendo em Amor (Mandaqui-Noite)
Por Alex Amaral
Soli Deo Gloria
