Abaixo contra a ansiedade
Anatomia da dor • Sermon • Submitted • Presented
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Contextualização
O limiar do Século XXI deixou em evidência uma grande preocupação nos campos da saúde pública, preocupação essa que não permaneceu restrita apenas aos hospitais e laboratórios farmacêuticos, mas invadiu também os consultórios de psicólogos, psiquiatras e de maneira especial os escritórios pastorais. Se nas décadas finais do Século XX e na primeira década do Século XXI o Ebola, a AIDS e algumas síndromes respiratórias foram as principais e mais preocupantes questões de saúde com as quais a humanidade teve de lidar, o avanço da Pós-Modernidade foi acompanhado pela proliferação de um mal mais sutil, silencioso e ainda assim extremamente perigoso, a ansiedade. Segundo relatórios de autoridades competentes, no ano de 2019 o Brasil foi enquadrado como o país mais ansioso do mundo. Na época, 9,3% dos brasileiros, cerca de 18,5 milhões de pessoas, eram clinicamente diagnosticados com ansiedade. Do ponto de vista médico, os transtornos de ansiedade estão relacionados quase que exclusivamente à fatores biológicos, como por exemplo, o desequilibrio bioquímico a nível cerebral, afetando por exemplo a produção e secreção de hormônios como a serotonina.
Embora seja indiscutível que alguns tipos de ansiedade tenham como causa primária fatores de caráter biológico, esse fatores não parecem ser exclusivos, de maneira que em muitos casos tais fatores podem não ser determinantes para os quadros de ansiedade. Logicamente a Escritura não é um livro sobre ciências, nem um tratado médico ou terapêutico. No entanto, cremos que como a Palavra de Deus, inspirada e autoritativa para a vida do homem ela é aplicável em todos os contextos, inclusive no que tange ao enfrentamento da ansiedade, que é exatamente o tema tratado no texto que acabamos de ler.
Mas antes de olharmos profundamente para ele, um lembrete se faz necessário: A ansiedade que está em vista aqui nesse texto não possui causa médica. Veremos que ela está associada à fragilidade da fé, por isso ela é tratada a partir das categorias que veremos a seguir. Não podemos esquecer, no entanto, que é sensato que pessoas busquem ajuda médica para problemas médicos. Assim, se você sofre com ansiedade e suspeita que a causa seja biológica, procure ajuda médica.
Frase de Transição
Frase de Transição
Dito isso chamo sua atenção para o tema da reflexão dessa noite: Abaixo contra a ansiedade. Abordaremos o texto em questão seguindo o fluxo natural dos argumentos elaborados pelo Senhor Jesus, que caminham no sentido de nos orientar para que não deixemos o nosso coração ser dominado pela preocupação ansiosa.
1. Não devemos viver ansiosos, pois, o Deus que dá a vida é poderoso para suprí-la em suas necessidades (v.25)
1. Não devemos viver ansiosos, pois, o Deus que dá a vida é poderoso para suprí-la em suas necessidades (v.25)
A série de argumentos contrários à ansiedade começa em associação a um assunto tratado anteriormente. Entre os v. 19-24, Jesus ensinou à multidão que o ouvia que o discípulo não deve ser apegado às riquezas, sob risco de idolatrá-las. Agora no v. 25, ele ensina que mesmo sem idolatrar, confiar ou amar demasiadamente o dinheiro o homem não precisa se atemorizar diante das incertezas e os cuidados necessários da vida. A ordem é clara: Não andeis ansiosos. A ansiedade figura aqui como a preocupação demasiada sobre os cuidados futuros da vida. Todos nós sabemos que o viver é cheio de cuidados. Todos precisamos de comida, bebida, roupas e demais mantimentos. Jesus as trás à tona. Diante da realidade das necessidades da vida, o argumento para que não vivamos ansiosos é apresentado pelo Senhor na contraposição entre uma coisa que é maior e mais importante, e outra que é menor e menos importante. Esse era um tipo de argumento conhecido na época, usado pelos rabinos. Cristo coloca lado a lado a vida e os cuidados da vida, para chamar a atenção para uma escala de valores. A pergunta no final do v.25 tem a finalidade de nos fazer pensar. A Escritura afirma claramente que Deus é aquele que dá a vida a todos (At. 17. 25). O que seria mais difícil, dar a vida ou sustentá-la? Logicamente dar a vida. Então diante disso podemos concluir que a vida em si é maior e mais importante do que os cuidados com ela. Portanto, o que Jesus intenta mostrar é que o Deus que é poderoso o suficiente para criar e sustentar a vida, também é poderoso e fiel para sustentá-la no suprimento das necessidades, e de fato Ele a sustenta como o bom Pastor (Sl. 23) que provê seu rebanho e o protege dos perigos. Por isso não precisamos temer. O argumento de Jesus nesse sentido ecoa, por exemplo, as palavras de louvor de Davi:
Salmo 37.25 “25 Fui moço e já, agora, sou velho, porém jamais vi o justo desamparado, nem a sua descendência a mendigar o pão.”
2. Não devemos viver ansiosos, pois, o Deus que cuida das coisas mais simples da criação, certamente cuida dos seus filhos (v.26, 28-30)
2. Não devemos viver ansiosos, pois, o Deus que cuida das coisas mais simples da criação, certamente cuida dos seus filhos (v.26, 28-30)
O segundo argumento contra a ansiedade segue o mesmo padrão do primeiro. Vemos novamente o contraste entre alguns elementos, tendo em vista a demonstração de qual é o mais importante entre eles. Agora Jesus coloca lado a lado o homem, as aves do céu e os lírios do campo para estabelecer o mesmo tipo de argumentação vista no versículo anterior. Segundo a Escritura (Sl. 24. 1), ao Senhor pertence a terra e o que nela se contém. Cada pequena parte da criação, desde a menor ave, passando pelos lírios no campo, chegando ao homem - a coroa da criação - todas foram criadas para louvor da glória de Deus, receberam dele mesmo sua vida, e são preservadas por Ele. Deus se importa e cuida de toda a sua criação, mas é inegável o fato de que o cuidado de Deus com o ser humano é um cuidado superior. Deus nos fez a sua imagem e semelhança. Foi conosco que Ele estabeleceu sua aliança. E foi em nosso favor que Deus entregou seu Filho. E aqui nesse ponto podemos fazer a mesma pergunta que Paulo fez aos crentes de Roma: Romanos 8.32: “Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?” É certo que sim.
Considerando a forma que Jesus construiu o seu argumento, vemos que as perguntas dos v.26 e 28 possuem um caráter quase retórico. É lógico que a humanidade é muito mais valiosa que as aves dos céus, ou os lírios do campo. É claro que não devemos interpretar o texto de maneira incorreta, julgando que o argumento acerca das aves que são sustentadas, à despeito de não semearem e colherem, ou das flores que adornadas de beleza ímpar pelo Criador, ainda que não teçam vestes para si, abra qualquer precedente para a ociosidade e a preguiça. Definitivamente não. A questão em tela é que aves não semeiam, não colhem e não ajuntam nada em celeiros, assim como as flores não tecem e nem fiam, pois, vivem de acordo com a sua própria natureza, com sua própria condição. A despeito disso elas fazem aquilo que está ao seu alcance, aquilo que é de sua natureza. Olhando para esse fato, Jesus, nos lembra de que somos filhos de Deus. Portanto, devemos viver de maneira condizente com isso, ou seja, vivemos e fazermos aquilo que está ao nosso alcance - sobretudo no que tange ao trabalho e à boa gestão dos recursos que Deus nos dá - sem nos desesperamos com o amanhã, depositando nossa fé em Deus que é aquele que diuturnamente tem cuidado de nós. E certamente, Deus abençoará o trabalho de nossas mãos, e nos sustentará, pois, Ele tem poder para tal, e nos ama.
3. Não devemos viver ansiosos, pois, a ansiedade é infrutífera, até mesmo para pequenos resultados (v. 27)
3. Não devemos viver ansiosos, pois, a ansiedade é infrutífera, até mesmo para pequenos resultados (v. 27)
A ansiedade, geralmente, se manifesta como uma preocupação exagerada em relação ao futuro e aos cuidados da vida. Pessoas muito ansiosas deixam de viver o presente e se antecipam o amanhã com seus problemas. Geralmente essas pessoas sofrem e se sentem frustradas, pois, mesmo em face de todas as suas preocupações, são confrontadas com a realidade de que não detém o controle de muitas das circunstâncias que são inerentes à vida desse lado da eternidade. Nesse cenário, toda a ansiedade do mundo é infrutífera, pois, não pode produzir se quer pequenos resultados. E Jesus põem essa questão em tela de maneira interessante, falando sobre a duração da vida, que sem dúvida é um assunto que interessa a todos nós. A morte é inevitável, pois, figura como maldição contra o pecado. Então, no mundo pós queda, a vida tem prazo de validade. Segundo Moisés (Sl. 90.10) em geral a vida dura setenta ou oitenta anos sendo marcada por grande cansaço, tanto quando avança. O sábio por sua vez conclui que há tempo para nascer e tempo para morrer (Ecl. 3. 2). Mas a despeito disso, à despeito da certeza que temos da inevitabilidade da morte, é comum encontrar pessoas que se preocupam demasiadamente com ela. O Senhor Jesus mostra o quanto esse tipo de preocupação é infrutífera. Segundo ele, por mais ansioso que esteja ninguém consegue acrescentar um côvado à sua existência. O côvado é uma medida de comprimento, equivalente a 45cm. Logicamente o que Cristo tem em mente aqui não é a impossibilidade de alguém aumentar 45cm à sua estatura. O sentido é figurado. O que o Senhor tensiona nos ensinar é que uma pessoa pode se preocupar até a morte, mas não conseguirá com sua ansiedade e com suas preocupações evitar a morte, ou aumentar a extensão de sua vida em nenhuma medida, nem mesmo por 1 minuto. Somos confrontados com a realidade de que todos os nossos dias foram escritos e determinados pelo Senhor (Sl. 139. 16). Desde o nosso nascimento, até a nossa morte. Cada uma das batidas do nosso coração foram contadas precisamente, de maneira que não precisamos nos preocupar demasiadamente com a morte, pois, ela não é nada mais que uma serva do Senhor. E só nos atingirá, quando Ele mesmo permitir. Assim se ansiedade não pode evitar a morte, ou prolongar a vida, qual a razão de nos preocuparmos demasiadamente?
4. Não devemos viver ansiosos, pois, Deus conhece nossas necessidades perfeitamente (v. 31-32)
A parte final do v.30, deixa claro qual é a origem do tipo de preocupação ansiosa sobre a qual Jesus está falando. A falta de fé. Mais uma vez quero deixar claro que nem todo tipo de ansiedade possui causas espirituais diretas. Existem si quadros de ansiedade causados por fatores físicos e biológicos. Mas o tipo de preocupação ansiosa do qual Jesus está falando é outro, e está claramente anconrado na fragilidade ou na falta de fé em Deus. Todos os argumentos de Jesus deixam essa questão muito clara. Mas o quarto argumento é especial nesse sentido. Jesus mais uma vez ordena, como faz no v.25, que os seus discipulos não se inquietem. O verbo “inquietar” é o mesmo verbo “andeis ansiosos” do v.25. Segundo Jesus as preocupações demasiadas são típicas dos gentios, ou seja, daqueles que não fazem parte do povo de Deus. E há um motivo claro para isso: Eles não tem o conhecimento de algo muito importante, que nós temos: Como filhos, temos a plena certeza de que o nosso Pai Celestial sabe de tudo o que nós precisamos. Então se somos diferentes daqueles que não conhecem o Senhor, nossa vida deve essencialmente seguir um rumo diferente da vida deles. Se aqueles que não são filhos de Deus se preocupam demasiadamente com os cuidados da vida, pois, não contam com as promessas do Altíssimo, nós, que temos a certeza de que somos filhos amados do Pai, por meio da adoção em Cristo, não devemos nos preocupar com coisas materiais e nem deixar que elas se constituam no objeto de um desejo consumidor que domine o nosso coração. Pelo contrário devemos confiar e não ter medo. Devemos descansar na certeza de que o Senhor que nos deu a vida, sabe de tudo aquilo que é necessário para o nosso sustento, antes mesmos que pensemos em pedir a Ele tais coisas. Mas a bondade de Deus não para por aí. O Senhor sabe o que necessitamos, mas e não apenas isso, Ele mesmo nos provê de tais coisas. Veja as palavras do próprio Senhor Jesus nesse sentido:
Mateus 7.11 “11 Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhe pedirem?”
5. Não devemos viver ansiosos, antes devemos buscar o reino de Deus, pois, o Senhor acrescenta a provisão necessária aqueles que o buscam (v. 33)
Até esse ponto Jesus já apresentou argumentos muito convincentes que mostram não apenas a insensatez da ansiosa preocupação com os cuidados da vida, mas também evidenciam a falta de produtividade das preocupações. A questão que se levanta nesse ponto é: Se não devemos nos preoupar com os cuidados e com as coisas básicas da vida, então, com o que devemos nos preocupar? E a resposta é: com nada. Se cremos na bondade de Deus, se cremos que como Pai bondoso Ele mesmo nos provê daquilo que é necessário para nossas vida, então devemos encontrar descanso para nossas almas nEle. Uma vez que descansamos nEle, podemos então nos dedicar a algo superior. E o mandamento de Jesus no v.33 nos direciona para isso. Em vez de gastar o nosso tempo com preocupações infrutíferas, devemos nos dedicar a buscar o Reino e a justiça de Deus. Mas o que é isso? Buscar o Reino e a justiça de Deus é uma expressão que sintetiza o estilo de vida do verdadeiro cristão. Colocando isso em termos mais simples, devemos nos preocupar não com as coisas da terra, antes, com fé nas promessas de Deus devemos viver em fervente oração, divulgando a mensagem da salvação, e com o coração movido de gratidão a Deus realizar as boas obras que Ele planejou para que andássemos nelas, com objetivo de beneficiar aqueles que estão à nossa volta e glorificar o nome de Deus, reconhecendo o Senhor como Rei sobre nossos corações e nos esforçando para que ele seja reconhecido como rei em todas as esferas da vida. O mandamento é seguido por uma promessa que contribui para o fim da ansiedade: todas as coisas são acrescentadas aqueles que se dedicam à busca do Reino e da justiça de Deus. Que coisas são essas? Todas aquelas sobre as quais Jesus já falou anteriormente. Então como cristãos, devemos reconhecer que fomos chamados para a dedicação a coisas superiores, às coisas do nosso verdadeiro país, o céu. E embora necessitemos das provisões temporais, não apenas podemos, mas devemos voltar nossa atenção para o Reino e a justiça de Deus, pois, juntamente a todas as outras bênçãos que tem nos dado, Deus acrescentará também a provisão temporal, cuidando para que tenhamos sim a comida, a bebida, o vestuário, pois, como Pai bondoso, Ele verdadeiramente supre e abençoa aqueles que lhe são fiéis.
Conclusão
Em um certo grau as preocupações com a vida são legítimas. Devemos dedicar alguma atenção e alguns esforços na organização dos nossos negócios, da nossa vida financeira, do futuro dos nossos filhos, no cuidado com a saúde. Não há nada de errado em se planejar financeiramente, em investir em algum tipo de previdêcia pensando na velhice, em se alimentar bem e se exercitar para evitar doenças. Não há problemas em fazer planos para o futuro e trabalhar tendo em vista a realização desses planos. É preciso, no entanto, que tenhamos cuidado e sensibilidade para compreender que existe uma linha muito tênue que separa a boa preocupação de uma preocupação ansiosa e pecaminosa. Devemos entender que não é a nossa preocupação que garante o nosso sustento, assim como a preocupação também não nos garante um amanhã, nem tão pouco poderá prolongar nossa vida. Pensar no amanhã é normal, no entanto, há algo do que não podemos esquecer. Veja o que Jesus nos ensina no v.34. Encher-se de ansiedade pelo dia de amanhã é sempre um mal. Jesus insta conosco no fim de sua argumentação, nos lembrando que a vida acontece de fato no hoje. Esse é o tempo que nos foi dado. Devemos viver esse dia, observando o mandamento do v. 33, buscando o reino e a justiça. Devido à desordem cósmica causada pelo pecado, como vimos na semana passada, o hoje já nos apresenta muitos desafios e muitos problemas com os quais temos de lidar. Então por que antecipar o amanhã? A graça de Deus foi derramada sobre nossas vidas hoje. As misericórdias do Senhor foram renovadas sobre nós hoje. Buscamos o fortalecimento no Senhor e na força do seu poder a cada dia. Deixemos, portanto, o amanhã em repouso. Quando o amanhã chegar ele se tornará o hoje, e aí será a hora de lidar com aquilo que surgir, com suas alegrias ou com suas tristezas. O amanhã terá os seus próprios cuidados, e certamente amanhã Deus renovará as nossas forças. Até lá, nos alegremos e confiemos na bondade do Senhor. Hoje é o dia que fez, nos alegremos e nos regozijemos nele.
