Essa vida passageira

Anatomia da dor  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
0 ratings
· 7 views
Notes
Transcript
Introdução
O texto ao qual dedicaremos nossa atenção nessa noite se encontra no final do livro de Eclesiastes. Esse que é considerado por alguns estudiosos o livro mais mal-humorado da Escritura, se apresenta como as ponderações de um sábio que luta com as realidades da vida. Nos doze capítulos que compõem essa breve, mas profunda obra, o argumento central desenvolvido e em certa medida retomado aqui entre os capítulos 11-12 apresenta a natureza transitória da vida e a necessidade de viver sabiamente em um mundo no qual as únicas certezas são a morte e o juízo.
Contextualização
Durante esse mês de setembro temos olhado para a Escritura, buscando o direcionamento de Deus, afim de identificar princípios que nos auxiliem a enfrentar as dores e as misérias da vida ancorados na graça de Deus. Quando pensamos nesse tema - as dores e misérias da vida - nos deparamos com um elemento primordial: a morte. Entre todas as misérias que nascem do pecado, ela é a principal. Pensar e falar sobre o tema é algo delicado e desconfortável até mesmo entre os cristãos. Há inclusive muitos estudos científicos publicados que apontam para a existência de uma correlação significativa entre o medo da morte e níveis de ansiedade e casos de depressão. Algumas questões são importantes nesse ponto: Como viver diante da inevitabilidade da morte? Como desfrutar de felicidade real se temos a certeza de que todos morreremos? E talvez a maior e mais importante das questões: Se todos morreremos em algum momento, existe um significado para a vida? Minha intenção nessa noite é apresentar respostas bíblicas para esses dilemas.
Frase de transição
Diante das questões brevemente apresentadas, chamo agora a sua atenção para o tema da nossa reflexão nessa noite: Essa vida passageira. Essa mensagem foi estruturarada em três argumentos que nos conduzirão à algumas conclusões e algumas aplicações para que saibamos como desfrutar dessa vida passageira glorificando a Deus e nos alegrando com suas bênção.
1. A vida é passageira, o juízo divino é certo e por isso devemos desfrutar alegremente da vida como uma bênção de Deus - 11. 9-10
Há um ditado popular que diz o seguinte: a única certeza que temos na vida é a morte. Você pode se sentir desconfortável com isso. Você pode não gostar de falar sobre o assunto e até mesmo tentar evitá-lo. Mas há uma coisa sobre a morte que você, não pode fazer: ignorar sua realidade. Goste ou não a morte é uma certeza. É uma realidade inescapável nesse lado da eternidade, devido ao pecado:
Ezequiel 18.20 “A alma que pecar, essa morrerá (...)”
Como eu disse a pouco, existe uma correlação apontada, inclusive pela ciência, entre o medo da morte, pela ansiedade em relação à morte, e os quadros de transtornos de ansiedade e depressão. Pessoas que temem morrer, podem desenvolver em algum momento uma maior proprensão para quadros depressivos e ansiosos, que impactam negativamente a qualidade de vida, as impedindo, inclusive de encontrar paz, descanso e felicidade nas boas dádivas de Deus, que tornam essa vida mais feliz. O fato é que deixar de aproveitar a vida por medo da morte, deixar de desfrutar das bênçãos de Deus e de se alegrar com aquilo que há de bom no mundo, pelo simples fato de que sabemos que um dia vamos morrer é tão irracional quanto não aproveitar uma viagem de férias com a família, por saber que as férias não duram para sempre.
Embora a vida seja passageira, e o juízo de Deus sobre todos os homens seja certo, a vida deve ser desfrutada alegremente, pois ela é uma dádiva de Deus. Essa é a conclusão a que podemos chegar no final do cap. 11. Veja que Salomão, que admitimos como autor do livro - não nega o fato de que a transitoriedade da vida é uma realidade. No v.10 ele afirma que a juventude a primavera da vida são vaidade. Essa é uma maneira poética de dizer que a juventude e a própria vida em sua completude, passam. Elas tem um começo e um fim. Elas tem um tempo certo de duração. Tem prazo de validade. Mas isso não faz da vida algo sem valor, ou sem sentido. Pelo contrário. O senso de que a vida é fugaz, é transitória, nos ajuda a compreender a sua raridade, o seu valor e o fato de que ela deve ser desfrutada adequada e alegremente. Essa conclusão é embasada no fato de que o viver é apresentado aqui, nesse texto, a partir de uma linguagem deleitosa. Veja as ordens: Alegra-te; recerei-te; ande por caminhos que satisfazem o coração e agradem os olhos (v. 9); afaste o desgosto e remove da carne a dor (v.10). Todas essas ordens se estruturam como um brado eloquente do sábio, ensinando que “a vida presente deve ser alegre, tão agradável aos olhos como o sol nascente na luz do amanhecer”. A vida em todos os seus aspectos deve ser gozada.
É certo que um dia morreremos, mas em todos os outros nós viveremos. Veja que aqui a alegria não é “meramente permitida”, ela é ordenada. E viver alegremente, de maneira especial para o cristão, deve ser algo real, pois, a alegria é fruto do Espírito (Gl. 5. 22). É lógico que a alegria não é o fim principal da existência, e não deve ser buscada a qualquer custo ou vivida de qualquer forma. Há uma trava moral que dita os parâmetros do que é o viver alegremente de maneira digna: a certeza do juízo de Deus, v. 9: “sabe, porém, que de todas estas coisas Deus te pedirá contas”. O juízo de Deus, o momento em que compareceremos diante do Senhor para prestar contas de nossas ações é uma realidade, assim como a transitoriedade da vida. Mas esses fatos não devem nos impedir de viver e desfrutar a vida. Pelo contrário, são lembretes de que devemos desfrutar de todos os dias que o Senhor tem nos dado de uma maneira adequada, fazendo e buscando sempre aquilo que é bom aos olhos do Senhor. Podemos parafrasear aqui o ensino de Paulo
Aplicação: Você não deve viver ansioso ou entristecido diante da realidade da morte. O reconhecimento de que a vida é passageira e que um dia você terá de prestar contas a Deus deve motivá-lo a desfrutar da beleza da vida, reconhecendo que tudo aquilo que podemos experimentar de bom é uma boa dádiva. Se lembre que o amanhã deve permanecer em repouso, e que cada dia trás consigo os seus próprios cuidados e assim, desfrute alegremente da bênção da família, da companhia dos amigos, da vida compartilhada na igreja, sabendo que Deus será mais glorificado em nós à medida em que nos alegrarmos nele e nas suas bênçãos manifestas sobre nós.
2. Essa vida passageira é prolongada e enfraquecida ao mesmo tempo nos lembrando de nossa fragilidade - 12. 1-5a
Chegando ao cap. 12 percebemos que Salomão continua abordando a questão da transitoriedade da vida. Vemos retratados aqui uma sequência de quadros verbais nos quais Salomão se esforçou para ‘encontrar palavras agradáveis’ e ‘palavras de verdade’. E de fato, sob a inspiração de Deus, esse objetivo foi atingido com maestria. Enquanto as palavras agradáveis são expostas de forma poética entre os v. 2-6, as palavras de verdade nos encontram já o v.1 quando somos lembrados, que a mocidade, a primavera da vida, são passageiras e devem ser marcadas não apenas pela busca da felicidade, mas e principalmente pela busca do Senhor. A ordem agora é : Lembra-te do teu Criador. Essa é uma exortação para o agora e não para o depois. Tanto quanto mais os dias avançam, a vida enfraquece em sua fragilidade. O envelhecimento trás consigo um declínio inevitável que afeta a todos e a cada um de nós. Os dias maus - que para Salomão são os dias de angústia e calamidade - chegam, e se nesses dias o homem houver negligenciado a Deus, a capacidade de se alegrar será perdida e a velhice será marcada pelo desalento de um coração que geme reconhecendo a falta de prazer diante da vida.
A partir do v.2 agindo como um narrador que vê a vida em perspectiva, como se fosse mero espectador da existência humana, e ao mesmo tempo como um poeta que busca captar a beleza e as peculiaridades desse breve tempo que se prolonga entre a juventude e a morte, o Sábio nos leva a encarar mais uma vez o incômodo, mas incontestável fato de que somos mortais e que tanto quanto mais vivemos, mais nos enfraquecemos e mais nos aproximamos da morte. Está estabelecida aqui um tipo de antinomia existencial. Não há uma uma contradição formal entre o avançar da vida e a aproximação da morte, mas em face disso se estabelece uma tensão inevitável na condição humana, que nos desafia a encontrar sentido mesmo sem resolver a “contradição aparente”, de que quanto mais vivemos, mais frágeis nos tornamos e menos tempo temos antes que a morte nos encontre.
O argumento de Salomão foi cuidadosamente elaborado e estruturado de duas maneiras. A primeira delas abre e fecha a seção. Salomão escreve sem metáforas, direta e claramente falando com pesar da velhice e da morte. De maneira categórica ele aponta para os dias finais da vida, em muitos casos marcados pelas dores e pelo enfraquecimento gradativo, que levam o coração a dizer: Não tenho prazer (v.1). Ao considerar a morte ele relembra a maldição de Deus, proferida ainda no Eden, nas duras palavras direcionadas à Adão: Ao pó você retornará (v.7). Entre esses dois extremos textuais, o que se vê é uma profusão de imagens, que apontam para a realidade inconteste de que debaixo do sol, a nossa vida é prolongada e enfraquecida ao mesmo tempo. Essas imagens foram construídas cuidadosa e poeticamente colocando lado a lado o aumento e a fragilização ineitável do viver. Como um expectador, Salomão usa como paralelo para a deterioração do corpo, o processo de desgaste provocado pelo tempo em uma casa. Se você observar o texto, perceberá que entre os v. 2-6 há há uma sequência relativamente extensa de metáforas. O que melhor pdemos fazer é buscar sua significação em um quadro completo, pois, embora algumas alusões sejam claras e específicas, outras não são. A partir dessas alusões claras, como veremos, concluímos que somos finitos e frágeis.
Tomando a imagem gerada pelo próprio Salomão, o que temos em tela é que assim como uma casa tem a sua estrutura danifica e enfraquecida pelo tempo, assim também o homem, à medida em que sua vida é prolongada, também sofre um irreversível e inescapável processo de envelhecimento. Os guardas da casa começam a tremer, pois, ficamos mais fracos (v.3). Os dentes começam a cair e encontrar alegria na comida e na bebiba se torna mais difícil (v.3). Os olhos perdem sua acuidade (v.3). O sono é perturbado e desperto pela mínima perturbação (v.4), o que parece estabelecer um paradoxo, pois, quando acordados começamos a ter dificuldade para ouvir e apreciar a música, por exemplo (v. 4). Tal como a amendoeira embranquecida na floração, os nossos cabelos se tornam grisalhos. E todas essas coisas ocorrem por um motivo: caminhamos todos rumo à casa eterna. A progressão da vida, acompanhada pelo enfraquecimento do corpo, nos lembram da nossa finitude, nos confrontam com a realidade de que tudo é passageiro.
Aplicação: Para muitas pessoas a realidade de que o prolongar da vida trás consigo alguns problemas e algumas dificuldades é visto com pesar e tristeza. A inevitabilidade do envelhecimento e do enfraquecimento gradativo do corpo que culminam com a morte, é um dos fatores que geram ansiedade e depressão em muitas pessoas. Mas a vida não precisa ser vivida dessa forma. A velhice pode ser ditosa e de fato é para aqueles que consideram atentamente a ordem do v.1, e se lembram do seu Criador. A consciência de todo esse processo de enfraquecimento, o fato de sabermos que a morte é uma realidade inescapável, é um lembrete que serve para nos despertar do engano da autossuficiência. A sabedoria popular ensina que o tempo resolve tudo, quando na verdade ele consome tudo. Então se buscamos sentido e significado para a vida, esse sentido e esse significado não estão no tempo, mas naquele que está fora e acima do tempo: Deus. A realidade de que a vida se prolonga e enfraquece ao mesmo tempo deve também nos levar a considerar o fato de que não temos o controle sobre tudo. O envelhecimento é a evidência de que não estamos no comando de muitas daquelas coisas que acreditamos estar. Quanto mais o tempo avança, mais percebemos a nossa limitação. Para algumas pessoas isso é humilhante, mas há uma outra forma de considerar isso. A nossa falta de controle sobre muitas das questões do presente, é um convite para que encntremos o sentido real da vida na Eternidade. Debaixo do sol o envelhecimento, as dores, as misérias do pecado e a morte são tensões que não resolvidas plenamente. Tentando uma linguagem parecida com a de Salomão, podemos dizer, que a solução está acima do sol, pois, nAquele que está acima de todas as coisas, naquele que habita a eternidade, é nEle que encontramos sentido, vida e paz. A resposta e a solução de Deus para a vida que se prolonga e se enfraquece, e que encontra o seu limite natural na morte, é a a vida eterna em Cristo Jesus.
3. Essa vida passageira encontra seu limite natural na morte que é inevitável - v. 5d-8
A eloquente argumentação do sábio, que nesse capítulo se chama Pregador, começa a encontrar o seu clímax na parte final do v.5. Ele apresenta agora um outro fato incontestável: todo o processo de enfraquecimento do corpo e da vida, que para algumas pessoas é longo, tem um motivo. Não é sem razão que com o passar do tempo os braços perdem suas forças, as pernas sua firmeza, os olhos a sua acuidade e o homem sua autonomia. O motivo para que isso aconteça é apenas um: quanto mais os anos avançam na vida, mais próximo o homem está de seu destino físico, a morte. Como já vimos em outras ocasiões, a morte no mundo pós-queda é a maldição com a qual o homem é punido por sua transgressão. Ela se apresenta primeiramente como o processo claramente descrito nos versos anteriores, pois, viver é também se desgastar, se enfraquecer e morrer um pouco a cada dia. Mas ao fim da vida ela se mostra com sua face mais triste e severa, estabelecendo assim o limite da vida natural. Um último suspiro. Um último olhar. As últimas palavras. A ultima batida do coração. E então, as funções cessam. Tudo o que vivo nasce, e tudo o que um dia nasceu, inevitavelmente morre.
Salomão continua a descrever o fato de que a vida encontra seu limite na morte, ainda de maneira poética. E pensando em uma última aplicação, quero inverter a ordem em que analisaremos os versículos dessa última seção. Deixemos os v. 5 e 7 para o final e vejamos a princípio o v.6. Nesse versículo encontramos as metáforas mais obscuras do capítulo, pois, não não há no texto associações claras como vemos no v.3, em que os braços são retratados como “homens fortes”. Apesar disso o contexto em que essas metáforas estão inseridas, ou seja, o último argumento no livro sobre a transitoriedade da vida, e especificamente a seção que fala de maneira específica da morte, nos permite concluir que todas essas imagens apontam para a degradação final do corpo nos momentos que antecedem a morte. Todo o processo demonstrado desde o v.2, chega agora ao seu ápice. Depois da dissolução que caminha lado a lado com o progresso da vida efetuar o seu dano, a execução da maldição proferida aos nossos pais em face do pecado ocorre.
E então diante disso, podemos colocar os v. 5 e 7 em perspectiva, contemplando a seguinte realidade: vais á casa eterna, e o pó volta à terra, como o era, e o espírito volta a Deus, que o deu. A morte é apresentada como o limite da vida natural. Ela é tanto o processo que enfraquece o corpo de maneira gradativa, como a execução propriamente dita da maldição contra o pecado. E essa essa realidade exposta como tal por Salomão funciona como um eco daquilo que encontramos na narrativa da queda em Gênesis:
Gênesis 3.19 :“19 No suor do rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, pois dela foste formado; porque tu és pó e ao pó tornarás.”
Mas a morte não é apenas a cessação dos sinais vitais, ou do funcionamento biológico do corpo. Segundo podemos ver no texto, que a morte funciona como uma ponte pela qual atravessamos para o outro lado da eternidade. Enquanto o corpo que é feito de terra volta a terra o espírito, tão logo uma pessoa dê o seu último suspiro, torna a Deus. E essa não é uma afirmação meramente poética, é a expressão da confiança naquilo que Deus disse sobre a vida. O Senhor Jesus na cruz, demonstrando essa confiança entregou sua vida dizendo ao Pai: “nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc. 23. 46). Estevão, ao ser martirizado também clamou: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito” (At. 7. 59). Na morte, deixamos a vida física, porque como diz o sábio no v. 8, debaixo do sol tudo é vaidade, tudo é passageiro. O corpo, depositado no pó do qual foi tomado, continuará se degradando, até que se desfaça completamente, mas tão certo quanto o ar que respiramos, é o fato que ao fechar os nossos olhos estaremos de maneira pessoal e consciente na presença do Senhor.
Aplicação: Perceba que Salomão não discute de maneira profunda a condição do homem após a morte. Ele apenas deixa claro que todo homem terá de comparecer diante do Senhor. Nesse ponto há uma aplicação a ser feita e ela precisa ser dividida em duas partes. A primeira delas, nos apresenta uma visão deleitosa do futuro, e nos ajuda a viver contentes em Deus, mesmo em face das misérias do pecado e da própria morte. Sabemos que Cristo venceu a morte e com isso garantiu também a nossa vitória final sobre ela. Dessa forma podemos sim viver com alegria, mesmo sabendo que um dia iremos morrer, pois, quando a nossa hora de enfrentar a morte chegar, não precisaremos temer, pois, ela será por assim dizer, a última parada antes da estação da eternidade. A morte é uma maldição pelo pecado, sim! Mas Cristo já venceu o pecado e a morte. Então, se temos vivido esse vida, observando o princípio elementar do v.1, buscando o Criador, a hora da morte não é um desalento, pelo contrário, é essa a hora em que nos vemos livres desse corpo de pecado, dessa existência marcada por dores e sofrimentos, e damos entrada, fiados em Cristo, à uma eternidade feliz. Por outro lado, e essa é a segunda parte da aplicação, a morte reprensenta também um grande perigo para aqueles que vivem sem o conhecimento de Deus. Que desperdício é morrer sem desfrutar a vida como uma benção de Deus e sem conhecer o seu propósito. Morrer sem conhecer o Criador, é para o homem, a maior das desventuras, que pavimenta o caminho para a pior das tragédias: a eternidade sem Deus. A realidade da morte nos lembra da necessidade que temos de um Salvador. E essa necessidade é para agora, antes que o fio de prata se arrebente.
Related Media
See more
Related Sermons
See more
Earn an accredited degree from Redemption Seminary with Logos.