A feira das vaidades

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Introdução
Eclesiastes é um dos livros mais interessantes das Escrituras. Esse é um livro escrito para o povo de Deus, no qual Salomão emprega uma perspectiva que em nossos dias chamamos de apologética. Ele realiza uma defesa da fé nos ensinando que não há um verdadeiro sentido e nem uma alegria real na vida debaixo do sol. Aqui em Eclesiastes debaixo do sol significa a vida no âmbito da criação à parte de Deus. Salomão escreve da perspectiva de um homem que retira Deus da equação e parte em busca de sentido para a existência, mas percebe que o dinheiro, que as posses, as realizações e até mesmo a sabedoria e a alegria são paliativos que o homem natural procura para se anestesiar diante da falta de sentido que há na vida distante de Deus.
Aqui nesse texto sobre o qual refletiremos Salomão descortina algumas das principais buscas do ser humano e mostra o quão ineficazes são a alegria, o luxo e as realizações na tarefa de preencher o vazio existencial do coração humano na busca pelo sentido para sua própria vida.
Frase de Transição
Logo, a partir do texto de Salomão refletiremos nessa noite sobre o tema A feira das vaidades. Minha proposta é apresentar duas faces da vaidade que podem consumir o tempo e a vitalidade do homem, mas que não são capazes de preencher o vazio de seu coração. Assim em primeiro lugar Salomão nos apresenta:
1.  A vaidade da alegria (v. 1-3)
A intenção básica de Salomão em Eclesiastes é demonstrar que uma vida de contentamento só é possível mediante um relacionamento adequado com Deus. Em outras palavras, Salomão busca ensinar que o temor do Senhor é a chave para uma vida significativa em um mundo que é, em tudo mais, desprovido de sentido. Para atingir esse objetivo e transmitir esse ensino à Israel, Salomão descreve a  experiência de um mestre que busca pelo sentido da vida e o preenchimento de seu vazio existencial nas coisas comuns debaixo do sol. No entanto, ao final de sua jornada ele percebe que tudo nesse mundo é vaidade, pois, tudo o que se pode experimentar tem um caráter transitório. Isso não quer dizer que as bênçãos e as alegrias da vida não devam ser desfrutadas, elas devem, no entanto, elas por si mesmas não dão sentido à vida.
Na primeira parte do capítulo 2, Salomão apresenta então uma espécie de Feira das Vaidades que é tão atual hoje, como era nos seus dias. E a primeira vaidade exposta por ele aqui é a alegria. Veja como a felicidade, a alegria, o contentamento ocupam um lugar de destaque nas nossas vidas. A alegria e a felicidade são anseios do coração. São sentimentos que muitas pessoas desejam alcançar na tentativa de suprir o vazio existencial do coração que está distante de Deus e assim encontrar significado para a própria existência.  Salomão, milhares de anos atrás já falara sobre isso.
Ele descreve de forma poética a perspectiva da tentativa de gozar os prazeres da vida. No v. 1 vemos uma disposição do coração a fim de encontrar a natureza da felicidade. O processo descrito aqui é interessante e muito comum para nós. Provavelmente você já se pegou pensando em algo, ponderando e planejando mentalmente algumas decisões. É exatamente o que Salomão está fazendo, ele diz a si mesmo, ao seu próprio coração, que provaria qual é a natureza da alegria, a fim de que seu coração gozasse, ou, visse e entendesse o que poderia na vida trazer algum prazer ou contentamento.  A palavra traduzida como alegria aqui tem o sentido de uma alegria sensorial, ou seja, algo que atue sobre os nossos sentidos e gere satisfação.
Salomão apresenta um homem que em seu coração está disposto a buscar os festejos e as celebrações que tragam a felicidade e que de alguma maneira preencham o vazio existencial que grita pela necessidade de um sentido na própria existência. E essa busca é tão atual hoje como era nos dias de Salomão. Quantas pessoas nós conhecemos, ou talvez até mesmo nós, vivemos à espera do próximo evento, da próxima festa, da próxima sexta feira no vislumbre de um final de semana agitado, das reuniões com os amigos.
O problema é que se acreditamos que o sentido da vida será encontrado nessas alegrias transitórias que são em sua maioria frutos de paraísos artificiais, então na realidade nossa vida nunca terá sentido. Essa busca é na verdade infrutífera e gera frustração, porque a conclusão a que chega Salomão no v.2 é que o riso e a alegria são vaidades. Para ele buscar o contentamento nas alegrias e prazeres da terra é como correr atrás do vento, porque as alegrias, o riso, a felicidade são coisas transitórias e o nosso coração possui anseios eternos.
Na vida debaixo do sol o homem não encontra a alegria duradoura porque a verdadeira alegria, aquela que permanece, aquela que pode ser chamada de felicidade real só é encontrada junto ao Senhor, pois como diz o salmista (cf. Sl. 28. 7) é em Deus que o nosso coração exulta de alegria. Em Deus temos real alegria, porque Ele mesmo dá sentido à nossa vida, quando nos faz seus filhos por meio de Jesus. É em nosso relacionamento com o Senhor que encontramos a satisfação de todas as nossas necessidades. É nele que a nossa vida é ressignificada e recebe um sentido real. E é nele que entendemos o que é alegria real ao perceber que somos feitos filhos de Deus.
Quando chegamos ao v.3 vemos Salomão explica de maneira mais minuciosa as afirmações dos v. 1-2. Aqui nesse verso ele nos fala a respeito da entrega ao vinho como um artifício para encontrar a alegria. No contexto correto e em uma utilização correta o vinho simbolizava a alegria e a fartura. No entanto, o mesmo vinho é capaz de tornar o homem ébrio e sem controle de si. Esse mesmo vinho conduz o homem da embriaguez para a libertinagem, para a ira, para a discórdia que são reconhecidamente obras da carne como ensina Paulo aos Gálatas (cf. Gl. 5. 19-21). O vinho no entanto, é apenas um dos prazeres à disposição do homem, que funciona como uma tentativa, uma válvula de escape para ignorar as grandes questões e dilemas que o coração distante de Deus. O vinho pode muito bem ser substituído pela comida, por outras bebidas, por outros prazeres mundanos, porque na verdade, todos e cada um dos prazeres sensoriais que o homem experimenta podem funcionar como uma fuga deliberada da realidade que parece não fazer sentido. São coisas com as quais o homem tenta se alegrar e acaba fazendo delas o centro de sua existência.
Esse estilo de vida, construído na entrega aos prazeres é o que conduz o homem à loucura. Salomão utiliza a palavra hebraica Siklut (sirlut) para indicar justamente esse aspecto da loucura nas ações humanas. Nesse contexto a loucura não está relacionada à nenhuma debilidade de raciocínio. Aqui ela possui uma carga moral, portanto, pode ser entendida como o comportamento insensato. E isso faz todo sentido, pois, uma vez que o homem se entrega aos prazeres, esses mesmos prazeres se tornam ídolos e o homem se torna escravo desses ídolos. E deixar-se escravizar por ídolos é insensatez.
No contexto desses três primeiros versículos Salomão nos apresenta um homem que se entregou à frivolidade dos prazeres mais diversos. Essa entrega tinha como objetivo encontrar algum valor duradouro, algum sentido ou alguma alegria perpétua nessa vida. No entanto a sua conclusão foi muito diferente do esperado, e foi declarada de antemão no v. 1. O alegria proporcionada pelos prazeres e por uma vida frívola, é vaidade, é correr atrás do vento.
Agora a partir do v.4 Salomão nos apresenta uma segunda face da Feira das Vaidades. Ele se dispõem agora a nos ensinar sobre:
2. A vaidade das conquistas e realizações humanas – v. 4-11
Há alguns anos eu conversava com os jovens da igreja que eu servia à época como obreiro sobre esse mesmo tema e como ilustração utilizei o trecho de uma música de um cantor brasileiro muito conhecido chamado Raul Seixas. Em uma música chamada Ouro de Tolo ele sem qualquer intenção ilustra de maneira muito clara o que Salomão se propõe a nos ensinar aqui, entre os v.4-9. E eu gostaria de retomar essa ilustração lendo um pedacinho da letra dessa música:
“Ah! Eu devia estar sorrindo e orgulhoso por ter finalmente vencido na vida mas eu acho isso uma grande piada e um tanto quanto perigosa. Eu devia estar contente por ter conseguido tudo o que eu quis, mas confesso abestalhado que eu estou decepcionado.  Porque foi tão fácil conseguir e agora eu me pergunto "E daí?" Eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar e eu não posso ficar aí parado”.
O lamento desse homem é o mesmo lamento apresentado por Salomão ao constatar que não é apenas a alegria como um fim em si mesma que se mostra como algo infrutífero e sem sentido. Agora, entre os v. 4-11 ele conclui que todas as posses, todos os empreendimentos humanos, todas as conquistas também são vaidade.
Assim como ocorre com o v. 3, a porção do v. 4-11 é uma explicação minuciosa do v.1. Salomão apresenta um homem que buscou o sentido da vida em suas conquistas e realizações, mas não encontrou algo perene, que justificasse ou desse sentido à sua própria existência, lhe conferindo um valor real. Conforme o relato do texto bíblico Salomão edificou para si casas, plantou vinhas, cultivou pomares, fez açudes, possuiu milhares de servos e servas. O gado ele o tinha em abundância. A prata e o ouro ele os recebia às toneladas. Tudo isso, todas essas conquistas são demonstrações de poder, são indicativos de um elevado status social. Alguém que possuísse todas essas coisas na sociedade da época, certamente era considerado um homem de prestígio, honra e nobreza. Ele possuía muitas coisas, mas o que suas posses e realizações diziam a respeito dele? Seu poder era grande, mas como ele se sentia diante disso? A despeito de todas as suas grandiosas realizações, apesar de todas as suas posses, Salomão não encontrava sentido para a vida nessas coisas.
Caso vivesse em nossos dias provavelmente Salomão estamparia as capas das revistas mais badaladas. Certamente ele frequentaria os restaurantes mais caros. Logicamente seria cogitado e convidado para os maiores e mais prestigiados círculos da sociedade. No entanto, como todos esses versos são explicações minuciosas do v.1 a conclusão é que a riqueza, juntamente com todos os prazeres temporais que ela pode trazer são nada, é vento que passa e não torna a passar. É alegria passageira que ao final do dia dá lugar à tristeza e ao vazio. E isso acontece, por que há uma realidade inerente às posses e as riquezas que o homem, por mais descrente que seja não pode negar. O apóstolo Paulo (cf. 1Tm. 6. 7) nos ensina algo valioso quando diz: “Porque nada temos trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele”. Essa é uma realidade que o mais descrente dos homens não pode negar. Assim, se as riquezas e as realizações são vistas como um fim em si mesmas elas se tornam meras vaidades, pois, as riquezas e as conquistas não podem suprir a necessidade que nosso coração possui de Deus.
No v. 10 Salomão estabelece um tipo de sumário que resume tudo aquilo que já foi explicado até aqui ao afirmar que não se privou de nenhum dos prazeres e das supostas alegrias que os prazeres terrenos poderiam oferecer, no entanto, longe de qualquer realização real, longe de preencher o vazio de sua existência que clamava por significado, Salomão percebeu que todas essas coisas são como correr atrás do vento. São vaidade. Não possuem, se desfrutadas como um fim em si mesmas elas não darão significado à vida, e elas mesmas perderão o seu sentido.
E nós precisamos trazer essa mensagem para os nossos dias. Podemos confrontar as perspectivas de Salomão com a pregação de Jesus no célebre Sermão do monte. Segundo o relato de Mateus 6(cf. Mt. 6. 25-33) Jesus nos ensina que não precisamos gastar a nossa vida buscando suprir as nossas próprias necessidades porque nós recebemos do Senhor aquilo que precisamos. Da mesma forma o próprio Cristo ainda segundo Mateus (cf. Mt. 6. 20-22) nos exorta para que não ajuntemos tesouros na terra onde os ladrões podem roubar e onde a traça e a ferrugem podem corroê-los, antes devemos ajuntar tesouros no céu. Essas exortações, nos fazem concluir que posses, realizações e conquistas, embora sejam de alguma forma importantes, devem estar em seu próprio lugar e em si mesmas elas não trazem uma satisfação real. Todos os prazeres oferecidos pelo mundo são passageiros e no fim das contas as coisas da terra não podem preencher um coração que foi feito para encontrar significado em Deus. Assim o que os prazeres e as realizações humanas fazem é apresentar ao homem uma falsa esperança de felicidade e contentamento nesse mundo, algo que não é possível. Vivemos em um mundo caído, marcado pelo pecado. Nessa vida terrena a esperança é limitada. A vida dissoluta, desregrada, a vida marcada pela frivolidade, pela busca dos prazeres de uma forma desenfreada é uma tentativa frustrada e infrutífera de encontrar significado para a existência na própria existência. Todas essas coisas são mercadorias da grande Feira das Vaidades, que podem até ser compradas e desfrutadas, mas nunca preencherão o vazio do coração que só pode ser preenchido por Jesus.
Conclusão
Assim como Salomão à nossa própria maneira temos também uma Feira das Vaidades. As mercadorias disponíveis para a venda na nossa feira não são diferentes. Alegria,casas, terras, negócios, riquezas, sexo. Todas essas coisas trazem consigo a promessa dos prazeres e a esperança do contentamento. Salomão desfrutou de todas essas coisas que caso estivessem no lugar correto, e não na centralidade da vida, seriam bençãos dadivosas do Senhor que poderiam tornar a vida mais feliz. No entanto, Salomão fez de todas essas coisas ídolos, e no final de sua vida ele encontrava-se escravizado por muitas delas. Para Salomão as conquistas, as riquezas, a alegria e as realizações se tornaram fins em si mesmas. Todas essas coisas eram uma fuga da realidade. Uma tentativa de encontrar sentido na existência, no entanto, todas e cada uma delas se tornam meras vaidades, coisas inúteis com as quais ele gastou o seu tempo e das quais não colheu qualquer proveito, apenas decepção e frustração. Olhando para a vida distante de Deus, Salomão conclui que tudo é vaidade. Assim se você deseja uma vida cheia de significado e sentido, não busque esse sentido em nenhum outro lugar que não seja aos pés de Cristo.
Aplicação
As alegrias da vida, as realizações e as conquistas não devem se tornar um fim em si mesmas. Tudo isso são benção que o Senhor nos dá, mas que devemos deixar em seu devido lugar. Devemos nos alegrar com elas, mas reconhecer que elas são dádivas de Deus e utilizá-las como instrumentos que nos aproximam do Senhor.
Não devemos buscar o contentamento eterno em nada que seja terreno. Devemos antes buscar o significado e o sentido para nossa existência em uma vida de submissão, entrega e devoção a Deus, fazendo do nosso relacionamento com Ele o ponto mais importante de nossa vida e o lugar a partir do qual nós organizamos e coordenamos toda a nossa existência.
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