Cantares de Salomão
Nuno R. Fernandes
Série Bíblica • Sermon • Submitted • Presented
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Leitura da Escrituras
Leitura da Escrituras
Song of Solomon 7:10–13 “Eu sou do meu amado, e ele me tem afeição. Vem, ó meu amado, saiamos ao campo, passemos as noites nas aldeias. Levantemo-nos de manhã para ir às vinhas, vejamos se florescem as vides, se se abre a flor, se já brotam as romeiras; ali te darei o meu grande amor. As mandrágoras dão cheiro, e às nossas portas há toda sorte de excelentes frutos, novos e velhos; ó amado meu, eu os guardei para ti.”
Introdução
Introdução
Cantares de Salomão é um livro único na bíblia, que tem desafiado pastores e teólogos ao longo dos séculos. O seu conteúdo, passa essencialmente por uma descrição na primeira pessoa do que é estar apaixonado, descrevendo em certo detalhe a atração fisica e o prazer sexual entre um homem (Salomão) e uma mulher (a sulamita), que se conhecem, casam e vivem o matrimónio.
A razão pela qual este livro tem sido um desafio, prende-se com a estrutura algo disconexa do texto, por um lado (Com pelo menos 3 intervinientes nesta “peça” - Salomão, Sulamita e as filhas de jerusalém), e dúvidas quanto à forma de interpretar o amor ardente registado. Ao longo dos séculos eruditos foram propondo diferentes formas de abordar este livro, certamente desconfortáveis com a linguagem explicitamente sexual em muitos momentos.
Muitos tentaram ver o livro como uma grande alegoria representando o amor de Deus para com Israel, ou o amor de Cristo pela Igreja, em que cada detalhe tem um significado espiritual. É esta abordagem que interpreta a “Rosa de Sarom, o lírio dos vales” (So2:1) como Cristo. O problema desta abordagem é que ficamos com muitos textos sensuais em que se torna difícil conjugar estas ideias (Song of Solomon 1:13 “O meu amado é para mim um ramalhete de mirra; morará entre os meus seios.” ).
Por vezes a explicação correta para um texto bíblico é mesmo a mais simples: Cantares de Salomão pode ser considerado como um conjunto de poemas de amor, mais ou menos estruturados em forma de drama teatral, que visam descrever, e até celebrar, o amor, o romance, a atração fisica e sexual entre um homem e uma mulher no contexto do matrimónio, com alguns momentos de medos e preocupações próprios da natureza do amor entre um casal. Nesta abordagem, a “Rosa de Sarom, o lírio dos vales” (So2:1) é a Sulamita, nas suas próprias palavras, aos que o noivo (Salomão) responde “Qual o lírio entre os espinhos, tal é a meu amor entre as filhas.” (So:2:2).
Tendo já definido do que trata Cantares de Salomão, podemos questionar qual é o valor objetivo deste livro para a teologia e pensamento cristão?
Este livro contribui para duas ideias muito importantes: A visão correta do Sexo no contexto bíblico e a visão correta da sexualidade da mulher no contexto do casamento:
1. O sexo no contexto bíblico
1. O sexo no contexto bíblico
O cristianismo tem uma longa tradição de associar os desejos sexuais com o pecado. Muitos teólogos cristãos foram fortemente influenciados por um conceito da filosofia grega conhecida como dualismo. O Dualismo cujo proponente mais influente foi Platão, é o entendimento de que toda a realidade pode ser dividida em duas partes: o mundo espiritual e o mundo físico. Estes dois mundos são completamente separados, e enquanto o espiritual é santo e puro, o físico é degradado e pecaminoso. Embora a igreja tivesse rejeitado formalmente o dualismo como heresia, a filosofia continuou a exercer uma forte influência sobre o pensamento dos crentes. Agostinho de Hipona, um dos pensadores cristãos mais influentes de todos os tempos, acreditava que o desejo sexual era o resultado direto do pecado original.
Ele alegava que a concupiscência, ou desejo sexual não está sob o controle da vontade e da mente, mas do maligno. Agostinho ensinou que a procriação era a única razão justificável para o sexo e que o desejo sexual, mesmo entre um casal, era pecado.
Em nossos dias, a sexualidade é muitas vezes levada ao extremo oposto e vista como tendo pouco valor ou importância. A difusão da pornografia, promove a suposição de que o desejo sexual é simplesmente um impulso mecânico, como a fome ou stress, e não tem nenhuma componente espiritual. A atração da pornografia é a mentira de nós podermos ter a gratificação sexual sem o compromisso, dum relacionamento.
Enquanto Agostinho via o desejo sexual como um pecado capital, intimamente associado com a queda, as sociedades seculares hoje, muitas vezes, procuram esvaziar a sexualidade humana do seu conteúdo relacional e espiritual, tornando-o sem valor real ou significado.
Em sentido contrário, a Bíblia fala de maneira uniforme da coisa boa que é a sexualidade e da virtude do desfrutar a gratificação sexual dentro dos parâmetros do casamento. Gn 2:20-25 estabelece tanto a instituição do casamento como a união física e espiritual daí resultante. Paulo também ensina que o casamento é uma boa dádiva de Deus (1Ti 4:3-5 ) e que ambos, marido e mulher têm a obrigação de satisfazer as necessidades sexuais do seu cônjuge (1Co 7:3-5). Paulo ensina também que mesmo o sexo praticado com uma prostituta, é um acto sexual profundamente relacional, e tem uma componente espiritual, de modo que "...o que se une à meretriz, faz-se um corpo com ela? Porque, como foi dito, os dois serão uma só carne." (1Co 6:16) .
Cantares é um hino à sexualidade, pela positiva, demonstrando que o relacionamento intimo entre um casal, no contexto do matrimónio, é desejável, prazeroso, quando desfrutado num relacionamento de exclusividade:
Song of Solomon 2:16 “O meu amado é meu, e eu sou dele; ele apascenta o seu rebanho entre os lírios.”
Song of Solomon 6:3 “Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu; ele se alimenta entre os lírios.”
2. A sexualidade da mulher no contexto do casamento
2. A sexualidade da mulher no contexto do casamento
Na cultura tradicional indiana (mas não só), ainda hoje, entende-se a mulher sob a autoridade do homem na sua sociedade, incluindo o seu pai, os seus irmãos, os líderes do sexo masculino na comunidade, e o seu marido. Os casamentos são arranjados, e as meninas podem ser dadas em casamento ainda numa idade precoce. O dever da mulher é produzir filhos e satisfazer as necessidades sexuais do seu marido.
No entanto, não é assumido que a mulher tenha também o direito de ter as suas próprias necessidades sexuais satisfeitas pelo seu marido (daí a mutilação genital feminina ser uma trágica realidade em muitas culturas). Muitas culturas vêem as mulheres como fonte de impureza, tentação e desejo ilícito, levando a grandes injustiças em que a mulher é socialmente muito mais penalizada por comportamentos sexuais ilícitos do que o homem (Exemplo da mulher adultera - John 8:1-11).
Ao longo dos séculos, ensino conservador até mesmo o ensino conservador cristão veio a exigir que a mulher subjugue as suas próprias necessidades e desejos e entregue o seu corpo aos desejos, por vezes caprichosos, de seu marido.
Contra esta corrente, Cantares de Salomão questiona esse papel secundário da mulher nas relações sexuais. Cantares de Salomão desafia a noção de que de alguma forma é impróprio para as esposas desfrutarem do mesmo prazer e satisfação de seus maridos, do dom de Deus da sexualidade. A mulher em Cantares certamente, não se encaixa nessa interpretação tradicional do papel das mulheres no casamento. Veja-se que a personagem central deste livro é uma mulher. O livro celebra o desejo sexual e o seu gozo para o seu próprio bem, sem sugerir que a procriação é o objetivo principal para a sexualidade. A mulher não pede a permissão do pai nem do irmão e procura ativamente o seu amado. Ela tem prazer tanto na sua beleza como na sua apreciação de sua própria beleza. Em suma, o Cântico dos Cânticos celebra o prazer da mulher e a plena participação na sexualidade em igualdade de condições com o marido. Isto nos convida a pensar sobre as maneiras como cada cultura interpreta e incorpora tais ensinamentos em ideias e valores culturais mais amplos sobre a sexualidade.
Conclusão
Conclusão
A Bíblia em geral e, Paulo em particular, esclarecem que Deus quer que a relação sexual entre um casal seja um dos encontros mais profundamente espirituais de que somos capazes cá deste lado do céu. O facto de que a nossa pecaminosidade pode esvaziar o sexo deste conteúdo espiritual, mesmo no contexto do matrimónio, não altera em nada esta verdade.
O Cântico dos Cânticos insiste que devemos reavaliar as nossas noções de sexo, entendendo-o como sendo algo de bom criado por Deus. Desafia-nos a criticar os nossos valores culturais e os papéis que esses valores atribuem aos homens e especialmente às mulheres no casamento.
Toda a bíblia é apta para ensinar!
