Uma anatomia da dor
Anatomia da dor • Sermon • Submitted • Presented
0 ratings
· 9 viewsNotes
Transcript
Introdução
Introdução
Chegamos hoje ao final da minissérie de exposições, na qual vasculhamos as Escrituras buscando princípios que nos auxiliem a viver a vida debaixo do sol, enfrentando as dores e misérias oriundas do pecado, ancorados na graça de Deus. Nessa última exposição olharemos novamente para o Antigo Testamento, no texto de Isaías no qual encontramos o último cântico do Servo Sofredor, Jesus. Faremos isso, pois, não há como pensar em uma análise profunda sobre as dores enfrentadas pelo homem sem que olhemos para Cristo, visto que por seu muito sofrer foi Ele considerado como homem de dores e alguém que sabe o que é padecer. Nesse texto o profeta, cerca de 700 anos antes do nascimento de Jesus, retrata as dores e as misérias que o Redentor suportou em seu próprio corpo, em uma decisão voluntária de sofrer por aqueles a quem tendo amado, amou até o fim, até as últimas consequências, assumindo não apenas o papel de sacerdote os representando diante de Deus, mas também tomando o lugar do próprio sacrifício, retirando o pecado do mundo, para a justificação dos eleitos do Senhor, desde toda a eternidade.
Frase de transição
Frase de transição
Considerando o texto lido, pensaremos nessa noite sobre o tema: A anatomia da dor. Caminharemos nas palavras relatadas por Isaías, abordando-as a partir de três ênfases que estabelecem os tipos de dores às quais Jesus esteve exposto, e finalmente o resultado de seu sofrimento vicário.
1. Cristo sofreu as dores da humilhação e da rejeição publica - v. 1-4
1. Cristo sofreu as dores da humilhação e da rejeição publica - v. 1-4
Isaías apresenta o quadro da dor e do sofrimento vividos pelo Senhor de maneira muito clara e profunda. A humilhação e a rejeição pública que o Salvador enfrentou durante sua vida são relatados exatamente aqui, nos versos iniciais. Humilhação e rejeição o acompanharam desde o seu nascimento. O profeta afirma que Ele nasceu e viveu sob o olhar cuidadoso e sob a provisão de Deus, pois, esteve sempre como vemos no v.2 “perante Ele”. Isso no entanto não implicou em que fosse livrado dos sofrimentos, posto que as amargas calamidades do viver humano constituíam parte da missão que lhe fora proposta.
A dor da humilhação sofrida por Jesus fica evidente, no texto, na descrição tanto do tratamento quanto do julgamento que foram dispensados a Ele. Veja que embora a profecia fale primordialmente sobre o pecado de Israel ao rejeitar o Cristo, a denúncia contra a rejeição do Redentor aplicável é aos homens em geral. A humilhação aqui, reside no fato de que Jesus foi visto, considerado e tratado como alguém fisicamente repulsivo, sem brilho, sem atributos que à vista dos outros chamasse atenção. A rejeição, por seu turno, é tanto uma consequência, quanto a coroação dessa condição humilhada na qual se encontrava Jesus em seu ministério terreno. A Escritura afirma que o homem vê de uma forma diferente daquela que Deus vê, se limitando ao exterior (1Sm. 16. 7) e como o texto nos faz saber que exteriormente não havia em Jesus atributos desejáveis, por consequência Ele foi rejeitado. Esse tratamento aponta para o profundo desrespeito com o qual o Senhor foi tratado. É possível imaginar a dimensão do sofrimento oriundo desse tipo de tratamento. Jan Ridderbos, ministro e professor de teologia reformado holandês comentando esse texto ensina que há uma ênfase especial na afirmação de que Jesus foi o mais rejeitado entre os homens. Segundo ele a idéia transmitida pelo texto é que Jesus era tratado no limite da humanidade, visto como o último entre os homens, a fronteira entre o que é humano e o que não é. Não é de se espantar que no final do v.3 Ele seja considerado tão desrespeitosamente, como um homem de quem não se faz caso, a quem não se presta reverência, por quem outras pessoas não cultivam qualquer admiração. Ele que veio ao mundo por amor ao seu povo sofreu as dores da humilhação e da rejeição.
2. Cristo sofreu as dores das misérias humanas - v. 3-7
2. Cristo sofreu as dores das misérias humanas - v. 3-7
Para além da humilhação e da rejeição, que certamente provocaram um sofrimento profundo, principalmente nos aspectos emocional e psíquico de Jesus, visto que Ele é um ser humano tal como nós, à exceção do pecado, o Senhor sofreu também fisicamente de uma maneira profunda as dores e as misérias que já sabemos, mas veremos novamente nesse texto, tem como sua causa principal o pecado.
A questão das dores e sofrimentos físicos experimentados por Jesus é introduzida no v.3 com a expressão “homem de dores e que sabe o que é padecer”. Essa afirmação indica de forma abrangente o sofrimento humano, estabelecendo o fato de que Cristo não apenas esteve sujeito, mas de fato enfrentou tanto as doenças que se abatem normalmente sobre os homens em geral, como também teve de lidar com as consequências desse adoecimento, demonstrado sobretudo no processo gradual de enfraquecimento do corpo. Esse sofrimento físico específico é descrito, de maneira pormenorizada entre os v. 4-10 em uma progressão que contempla a degradação do corpo e a morte, que embora no caso de Jesus não tenha como causa o envelhecimento, ainda assim é demonstrada como uma das misérias sofridas pela a humanidade caída. Considerando isso quero direcionar sua atenção nesse ponto para duas perspectivas distintas, que contemplam a causa do sofrimento de Jesus e a tensão teológica na demonstração desse sofrimento.
A causa do sofrimento: Sabemos que toda a miséria e toda a dor que a humanidade sofre está relacionada a punição de Deus contra o pecado. Sendo Jesus o nosso representante, então, o seu sofrimento está associado à justiça de Deus contra os pecados daqueles a quem Cristo representa. Duas expressões apontam para essa ação judicial de Deus. A primeira delas no v.4, quando Jesus é chamado de “ferido de Deus” e a segunda no v.6, quando Isaías nos faz saber que o “SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade de todos nós”. Ambas afirmações denotam que foi o próprio Deus que fez com que os sofrimentos e misérias humanos se abatessem de maneira intensa sobre Jesus. Dessa forma fica claro que Cristo sofreu as dores e misérias físicas se submentendo passivamente à lei de Deus, visto que os sofrimentos transitórios são uma antecipação da execução final da pena de morte declarada em Gn. 2. 17 em face do pecado. Ou seja, ainda que não tivesse pecado, Jesus se submeteu à maldição da lei, levando sobre si os nossos pecados.
A tensão teológica no sofrimento de Jesus: Há uma tensão claramente estabelecida entre os v. 4-6, que fica visível no contraste entre as palavras ele/nossas. Veja que no v.4 as enfermidades e dores são nossas; no v.5 as iniquidades são nossas e o castigo era nosso por merecimento; no v.6 aqueles que andavam desviados e em iniquidades éramos nós. Todas essas coisas são a causa do sofrimento que o homem experimenta e para cada uma delas a resposta divina foi a submissão de Cristo as sofrendo em nosso lugar. Isso fica evidente quando percebemos novamente no v.4 que as enfermidades e dores, Jesus as carregou; no v. 5 Ele finalmente leva sobre si as iniquidades, com o peso de sua culpa e com o seu devido castigo para que fôssemos sarados da enfermidade do pecado e estivéssemos assim em paz com Deus.
Todos esses fatos são chocantes. Sabemos que o pecado é a raíz do sofrimento humano. Israel no passado entendia isso e esse povo, o povo que Deus escolhera e por quem Jesus se encarnou, julgou erroneamente que Cristo sofria por seus próprios pecados, o vendo então como ferido de Deus e oprimido. O que lhes escapava aos olhos e ao coração, no entanto, foi que Jesus sofreu não por pecados que tenha cometido, mas pelo pecado do homem. Ainda que não merecesse, Ele escolheu sofrer, em obediência ao propósito Redentor do Pai e por amor a nós. Ele não foi obrigado, mas escolheu levar sobre si todas essas coisas. Ele sofreu as misérias humanas em sua vida, para que pela fé nele, como vemos finalmente descortinado no NT, aqueles que nEle crerem não padeçam essas mesmas misérias pela eternidade.
3. Cristo sofreu a dor e a miséria da morte - v. 8-9
3. Cristo sofreu a dor e a miséria da morte - v. 8-9
O sofrimento de Jesus, parte constante de seu ministério substitutivo escalou até as últimas consequências, sendo coroado com a morte. Quando olhamos de maneira sistemática para o conteúdo das Escrituras, chegamos à conclusão de que padecer a morte era um ponto fundamental, para que Jesus fosse de fato o nosso substituto. Nesse sentido, antes de adentrar ao texto, quero recorrer aqui ao pensamento de um dos mais reconhecidos e citados teólogos dos últimos séculos, o neerlandês Louis Berkhof, quando diz o seguinte:
Systematic Theology 4. The Necessity of the Two Natures in Christ
Desde que o homem pecou, era necessário que a penalidade (ou seja a maldição proferida contra o pecado) fosse suportada pelo homem. Além disso, o pagamento da penalidade envolvia sofrimento de corpo e alma, tal como somente o homem é capaz de suportar. Era necessário que Cristo assumisse a natureza humana, não apenas com todas as suas propriedades essenciais, mas também com todas as enfermidades às quais está sujeita após a queda, e assim descesse às profundezas da degradação à qual o homem havia caído, o que contempla claramente não apenas possibilidade de morrer, mas a própria morte em si.
E quando olhamos para o texto, vemos Deus anunciando Cristo haveria de sofrer a morte, pois é ela a pena final decretada contra o pecado e ainda que por si só Cristo não tivesse pecado, Deus o fez pecado em nosso lugar (2Co. 5. 21). Fato é que, a partir do v.8 a interpretação do texto fica claramente mais difícil. Não atentaremos aqui para cada uma das questões postas, senão para aquelas que estão associadas ao fato de que olhando para o futuro, Isaías prediz que Cristo teria de padecer a morte. Observe que no v.8 o servo sofredor é apresentado como que em uma corte de juízo que enfim o fez ser “cortado da terra dos viventes”. A ideia transmitida no versículo, é de alguém que comparece em um tribunal e recebe então a sentença de morte. Novamente no v.9 vemos uma indicação à respeito da morte de Jesus, na afirmação de que ao Redentor foi designada a sepultura. Aqui vemos um novo contraste. Uma sepultura foi estabelecida para ele com os perversos, contudo ele esteve com o rico em sua morte. A interpretação aqui é particularmente difícil, mas teólogos reformados muito respeitados compreendem o texto da seguinte forma: os perversos são aquelas pessoas tão más que eram consideradas como merecedoras de um sepultamento desonroso, o que no Antigo Oriente era um destino terrível. Esse era o plano de Israel para Jesus. Contudo, por providencia divina, o plano dos adversários falhou e Jesus em sua morte esteve como que entre os ricos, visto que foi sepultado com honra, inclusive em um túmulo distinto. Todavia, o fato para o qual atentamos agora é que Jesus, inegavelmente padeceu a morte, que é a miséria final de todos aqueles que vivem. Ele morreu não porque merecia o sofrimento, mas porque nos amou e escolheu se entregar por nós.
Então, quando chegamos a esse ponto do texto, percebemos de fato, que é impossível estabelecer qualquer análise sobre as dores e os sofrimentos humanos, sem olhar para Jesus, visto que de maneira extensa e intensa Ele mesmo experimentou as dores e as misérias da humanidade como parte de seu ministério substitutivo.
Transição para a conclusão e aplicações
Se parássemos por aqui a história estaria incompleta. Até esse ponto fizemos uma análise profunda sobre a anatomia da dor e do sofrimento de Jesus. Resta agora responder uma pergunta, que nos direciona tanto para a conclusão, quanto para a aplicação dessa mensagem às nossas vidas, pensando sobre como podemos enfrentar as dores e as misérias ancorados na graça. E a questão a qual me refiro é: Por que motivo e para qual finalidade Jesus se submeteu a tão profundas dores e misérias?
A resposta está estabelecida claramente nos v. 10-12. No v. 10 há uma afirmação difícil: “Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar”. Precisamos de cuidado aqui. Isaías não está sob nenhuma perspectiva insinuando que Deus tenha se alegrado no sofrimento do Filho, não. A ideia aqui é que Deus se agradou do resultado do sofrimento de Jesus, que foi coroado aqui com o ato de “dar a alma como oferta pelo pecado”, em uma alusão à sua morte substitutiva na cruz. Mas que resultado foi esse? O vemos no v.11 o Servo, que embora tenha sido contado como que entre os transgressores, é na verdade Justo, e também justificou a muitos. De maneira mais clara, no v.12, Deus revela por meio do profeta, que Cristo, derramaria sua alma na morte, intercedendo e levando sobre si os pecados de muitos, que aqui é uma referência aos eleitos do Senhor desde toda a eternidade. Portanto, a suma, dos versículos finais do texto, aponta para o fato de que Jesus se submeteu às dores e as misérias mais profundas da humanidade, incluindo a morte, para nos representar perfeitamente diante de Deus, garantindo nossa justificação. Ele sofreu e morreu em nosso lugar, para que nEle, nós tenhamos vida e paz.
Aplicações
Aplicações
Talvez você pense que está sofrendo sozinho, que as dores e os problemas são pesados demais, ou chegue até a pensar que Deus te esqueceu. Saiba que poucas coisas poderiam estar tão distantes da realidade quanto isso. Deus não apenas sabe de todas as nossas dores e misérias. Ele enviou seu Filho para que nascido de mulher, sob a lei, e se submetendo à maldição da lei, para que Ele sofresse todas as dores e misérias às quais estamos expostos, afim de que por meio dEle, de sua justiça perfeita, fôssemos libertos da condenação e do infortúnio de sofrer com dores e misérias eternas. Jesus, o Servo Justo e Sofredor, sofreu como um de nós para que por meio de sua morte possamos viver. Em face disso, devemos nos alegrar e descansar, mesmo em meio aos problemas, certos de que o Senhor conhece as nossas aflições e dores e nos sustenta em todas elas, nos fazendo mais que vencedores em Cristo.
As dores e misérias da vida não são eventos aleatórios e fora de controle. Pelo contrário. Eles são as consequências naturais do pecado. E é importante que saibamos que embora estejamos em Cristo, não recebemos de Deus qualquer promessa ou garantia de que não sofreremos nessa vida. Na realidade o natural, e portanto, aquilo que se espera é que se nos tornamos parecidos com Cristo, soframos de maneira parecida com a que Ele sofreu. Perceba que como afirma o próprio texto de Isaías, ainda que estivesse o tempo todo diante do Pai, Jesus sofreu profundamente. Quando olhamos para a história do povo de Deus percebemos que a fibra do sofrimento é um elemento presente na formação de seu caráter. Quando Jesus sofreu as dores e misérias que estão descritas nesse e em outros textos Ele nos representava diante de Deus, levando sobre si os nossos pecados e se submetendo à condenação que era nossa. Ao morrer a morte, que também, era nossa Ele garantiu nossa justificação, selando assim a promessa da vida eterna. Diante desse fato podemos enfrentar as dores e sofrimentos dessa vida com esperança e bom ânimo, na certeza de que tudo o que há de ruim nesse mundo devido ao pecado, cada dor, cada tristeza, cada ansiedade, cada miséria, tudo isso é apenas por enquanto. Todas essas coisas terão fim, e não precisaremos sofrê-las em pouco tempo. Quando estivermos com Jesus todas elas serão substituídas por alegria e paz eternas. Até lá se é necessário sofrer, soframos ancorados na graça, confiando que em Cristo a vitória eterna, que produz efeitos no futuro, mas também agora já está garantida. Toda dor é por enquanto. Toda tristeza é por enquanto. Mas a vitória sobre o pecado e a morte, e a bem-aventurança na presença de Deus, essas sim são Eternas, nunca terão fim.
