Como a falta de fé deforma o coração - Parte 1
A fidelidade de Deus na redenção • Sermon • Submitted • Presented
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Recapitulação
Recapitulação
Na semana passada refletimos sobre o prólogo do livro de Rute que nos apresenta o drama inicial de uma família de Belém de Judá liderada por Elimeleque que devido a um contexto de fome migrou de Judá para uma terra estrangeira e pagã chamada Moabe. Nessa terra, Elimele e seus dois filhos morreram. Os filhos haviam se casado com mulheres moabitas, Orfa e Rute. O saldo da história até o v.5 é o de três mulheres viúvas e humanamente desamparadas, sendo uma delas idosa e estrangeira. Pela falta de confiança em Javé, a família da aliança viu sua história caminhar de mal à pior.
Antes de adentrar no texto dessa noite, dois breves comentários são necessários.
a) Há uma relação entre a história de Noemi e a história dos patriarcas
Deus havia prometido a Abraão que lhe daria uma terra por herança. O fato é que no decorrer da história narrada ainda em Gênesis, observamos algumas migrações devido à fome. Nesse contexto Deus agiu de forma que seu povo foi tanto preservado, quanto resgatado e levado de volta à sua terra. Quando o autor de Rute estabelece essa mesma dinâmica ele aponta para a continuidade da promessa de Deus para o seu povo, que não se limita apenas em uma restauração temporal e à nível geográfico e social, mas desembocará na redenção final e espiritual em Jesus. Se lembre que Rute, a moabita, que se torna parte do povo de Deus pela conversão aqui nesse capítulo é bisavó de Davi e consta, em Mt. 1, na genealogia de Jesus.
b) O desconhecimento de Deus e de sua aliança é extremamente perigoso
A falha tanto da família que encontramos aqui nesse livro está diretamente associada à falta de fé em Deus que não os permitia compreender tão bem quanto necessário os compromissos e as implicações da aliança. A história da redenção é estruturada na aliança e desconsiderar a aliança e suas implicações desconecta a própria história da ação redentora e soberana de Deus. O que as ações, principalmente de Noemi, no cap.1 demonstram é o desconhecimento do caráter e da aliança de Deus, que a conduz em uma derrocada para uma interpretação fragmentada e autônoma da vida, ignorando o governo e a provisão de Deus em cada um de seus aspectos. A redenção desse comportamento começa a ser delineada no retorno a Judá, que é de uma certa maneira o retorno, em arrependimento, ao Deus de Israel e encontra uma expressão importante, ainda que de maneira incipiente no comportamento de Rute, em sua conversão a Javé (Rt. 1. 16), quando ela renuncia tanto aos seus laços sociais pregressos, quanto à sua antiga religião idólatra e se submete ao senhorio do Deus de Israel em fidelidade.
Introdução
Introdução
Chegamos agora ao v.6, que introduz a primeira das quatro cenas do livro. Até o final do capítulo encontramos uma Noemi que está fragilizada por suas consequentes perdas e que decide retornar para Judá, sua terra. Se lembre que a situação desastrosa em que ela se encontra está enraizada nos eventos narrados no v.1 em que uma crise externa, a fome em Belém, revelou uma crise interna, a falta de fé no Deus da aliança. O tom geral dos v. 6-22 é de desilução, ilustrando bem como um coração deformado pela falta de fé enxerga a vida e responde frente as mais variadas demandas.
Frase de transição
Frase de transição
Isso posto, refletiremos doravante exatamente sobre o tema: Como a falta de fé deforma o coração. Como esse é um texto extenso, abordaremos hoje dois aspectos a respeito do tema proposto. Na próxima semana retornaremos ao texto para finalizar as duas análises restantes a esse respeito.
1. A falta de fé deturpa a relação com Deus em algo pragmático
1. A falta de fé deturpa a relação com Deus em algo pragmático
Rute 1.6 “6 Então, se dispôs ela com as suas noras e voltou da terra de Moabe, porquanto, nesta, ouviu que o Senhor se lembrara do seu povo, dando-lhe pão.”
Se colocamos os v. 1 e 6 desse primeiro capítulo lado a lado, conseguimos estabelecer, muito claramente, a conclusão de que o coração de Elimeleque, assim como o de Noemi, estava no lugar errado. A fé, a confiança, a estabilidade estavam depositadas nas provisões temporais, nas coisas da terra. E isso os levou a considerar a aliança com Deus de forma pragmática.
Nesse contexto, podemos definir essa tendência pragmática, a partir das ações das pessoas mencionadas no livro, como o tipo de abordagem da aliança de Deus que prioriza a funcionalidade desse relacionamento pactual para vida. Me deixe explicar isso de outra forma: tanto no v.1, quanto no v. 6 Deus foi reduzido ao posto de um “técnico funcional”. Ele não foi nem reconhecido, nem tratado como o Deus com quem Israel estava aliançado em compromisso. Dessa forma a validade da relação com Deus foi avaliada por sua utilidade imediata. Veja, se no v.1, Deus não dá o pão, então, partir para Moabe é a decisão lógica e natural, pois, esse compromisso religioso não parece ter qualquer utilidade. Da mesma forma no v.6, quando Deus dá pão, parece ser o momento oportuno para o retorno, pois, agora sim Ele parece fazer algo que pode ser considerado útil para a vida.
E antes que você comece a criticar duramente Elimeleque e sua família, observe que essa avaliação pragmática da aliança com Deus não está restrita apenas ao Antigo Israel. Há muitos crentes que diuturnamente frequentam os cultos, que recebem mensalmente a administração sacramental, que até lêem as Escrituras e oram com certa frequência, mas que fazem tudo isso não porque consideram a fidelidade ao Senhor como algo importante, nem porque estão atentos e conscientes à respeito das responsabilidades no que tange aos compromissos da aliança, pelo contrário, essas pessoas até cumprem de uma certa forma suas obrigações eclesiasticas, talvez até observem em alguma medida as disciplinas espirituais, mas o fazem de maneira pragmática, avaliando a utilidade imediata e os benefícios que podem surgir de uma pretensa “vida piedosa”, seja mediante o agir de Deus, seja no louvor dos homens. Embora a manifestação dos sintomas do pragmatismo no presente, seja diferente daquela que vimos no passado, como no caso de Elimeleque e Noemi, o problema que está na raíz da questão é o mesmo: a fragilidade ou a falta de fé que leva pessoas a considerarem sua relação com Deus de maneira errada.
E há um grave problema aqui. Nesse tipo de relacionamento Deus não é visto como Senhor, Ele não ocupa o trono da história, não é aquele que administra o pacto. Antes é visto como o meio para atingir um fim. E se para uma pessoa Deus está nesse lugar, e é tratado nessas categorias, ele não apenas pode, mas é “descartado”, abandonado ou trocado quando as circunstâncias se apresentam de maneira tal que sua ação na história não parece ter utilidade, ou não trás os benefícios imaginados e desejados. Esse é o tipo de relacionamento religioso ilustrado por um clichê gospel que usamos com frequência. Noemi, juntamente com seu marido e filhos, representavam bem aquelas pessoas que dizemos: “querem as bênçãos de Deus, mas não querem o Deus que as abençoa”.
O coração que pela falta ou pela fragilidade da fé não conhece tão bem quanto deveria o Deus com quem está em aliança, e que por consequência não entende os os compromissos e implicações dessa relação pactual, seja em sua abrangência pessoal ou cósmica, se torna gradativamente deformado e vê a degradação do pacto em algo meramente pragmático. Nesse tipo de relação religiosa Deus passa a ser “adorado” ou “desejado” tendo em vista sua utilidade para os fins que o homem busca, na maioria das vezes, de maneira imediata. Além disso nesse tipo de relação pragmática, a primazia não é de Deus, mas do homem. A agenda que importa não é a Deus é a do homem, aquele que é servido não é Deus, mas o homem. Dessa maneira, não apenas a aliança é descartada, mas o próprio Deus o é, a depender de quão útil, benéfica e necessária uma pessoa julga ser o agir divino.
2. A falta de fé impede o coração de perceber e valorizar a bondade
2. A falta de fé impede o coração de perceber e valorizar a bondade
Rute 1.13 “... Porque, por vossa causa, a mim me amarga o ter o Senhor descarregado contra mim a sua mão.”
Essa pequena afirmação de Noemi, ilustra muito bem o tom de desalento e desesperança que estabelecem o sentimento de vazio no qual essa mulher se encontra e que tal como a deturpação da aliança com Deus, tem sua origem na falta ou na fragilidade da fé.
Quando o homem não entende os compromissos da aliança, quando não compreende o fato de que Deus é o Senhor, o provedor, o sustentador, o restaurador de seu povo, aquele que guia a história e a conduz para um fim glorioso , então tudo deixa de possuir um sentido real, a agenda redentora e os atos salvadores de Deus deixam de ocupar o lugar de destaque na história, e os nossos próprio dramas e dilemas pessoais ocupam o lugar central da vida e são considerados como os parâmetros que definem se estamos contentes ou descontentes, se somos felizes ou infelizes, se os nossos corações são cheios de gratidão ou ingratidão.
As questões pessoais e pontuais da nossa existência são importantes. Mas elas fazem parte de um quadro maior, um quadro em que Deus está agindo de maneira redentora, cumprindo a promessa feita Abraão (Gn. 12. 3). Quando o coração é deformado pela falta de fé e perde isso de vista, se torna difícil encontrar o sentido real da própria vida. Nesse cenário as alegrias se tornam fúteis, as tragédias são vistas apenas como uma sucessão de eventos ruins que acontecem ao acaso, sem qualquer controle, e toda essa intrincada trama de eventos faz a vida caminhar de mal à pior. Um coração que entende a vida a partir dessas categorias e ignora o governos soberano e providencial de Deus perde a capacidade de reconhecer e valorizar a bondade.
Aqui em Rute a manifestação da bondade nos apresenta ao conceito hebraico de חֶ֫סֶד (ḥéṣed), que em linhas gerais denota os sentidos de benevolência, bondade amorosa, firmeza e lealdade pactual. Essa bondade é tanto de Deus para com o homem, quanto do homem para com o homem, nesse último caso, a bondade entre semelhantes é um reflexo da bondade do próprio Senhor. E em Rute esse é um conceito importante, pois, a bondade suaviza o sofrimento e a maldade do contexto histórico no qual a história se desenvolve. O fato é que quando olhamos cuidadosamente para toda a primeira cena do livro, aqui no capítulo 1, encontramos uma Noemi que não consegue nem perceber e nem valorizar a bondade, pois, seu coração se encontra deformado pela falta e pela fragilidade da fé. Talvez você, assim como Noemi, não consiga considerar ou mesmo identificar as manifestações da bondade no texto, mas olhe para a história com cuidado e você concluirá que חֶ֫סֶד (ḥéṣed), bondade, está mais presente do que poderíamos, à primeira vista, imaginar.
Entenda, a apresentação de Noemi a partir dessa perspectiva negativa, pelo menos no primeiro capítulo do livro, não tem a intenção de minimizar ou menosprezar seu sofrimento. De maneira nenhuma. A situação era difícil sim, mas a bondade de Deus, tanto em sua ação direta, quanto em concorrência com atores humanos em favor de Noemi está presente. Foi a bondade de Deus que sustentou Noemi, ainda que em meio a dificuldades, em uma terra estrangeira por 10 anos. A situação de Judá foi transformada motivando Noemi ao retorno pela bondade de Deus. Foi a bondade do Senhor que prolongou e preservou Noemi, dando a ela uma sorte diferente da que tiveram seu marido e seus filhos. Foi a bondade do Senhor que permitiu que Noemi enfrentasse o luto por suas perdas acompanhada de duas noras, que a julgar pela caracterização do texto e pelas palavras da própria Noemi (v.8), lhe foram leais e a amaram de maneira profunda e verdadeira, estando dispostas a sacrificar seu próprio futuro e a possibilidade de restaurar sua felicidade em um novo casamento, no altar do serviço prestado a ela. Mas o fato é que Noemi não percebe. Como sua fé no Senhor é frágil, o seu coração se encontra deformado e sua visão visão da vida, por consequência disso, é pessimista. A expressão audível de seu coração, demonstrando exatamente isso, irrompe em duras acusações contra Deus nos v. 13, 20, 21. E de fato, Deus como agente soberano sobre a história é de fato aquele que pesa a mão em juízo contra os homens diante dos seus pecados. Embora o texto não afirme conclusivamente que as tragédias que Noemi enfrentou fossem manifestação do juízo de Deus, o fato é que em sua soberania o Senhor é sim aquele que faz pessoas viverem, assim como é Ele que faz pessoas morrerem, e não há problema nisso, Deus é soberano. Como diz a Escritura o mundo e os que nele habitam são propriedade de Deus e o próprio Deus escreveu e determinou todos os dias de vida, do primeiro ao último de cada ser humano que já existiu ou existirá. O problema de Noemi nesse ponto, é que seu coração cansado das aflições, mas principalmente deformado pela fragilidade da fé, não consegue perceber que mesmo em meio aos problemas Deus e é bom e manifesta o seu חֶ֫סֶד (ḥéṣed), a sua benevolência em favor do homem.
Conclusão
O coração do homem foi feito para Deus, então nada diferente de Deus consegue lhe garantir satisfação, sentido e significado. Quando falta fé ao homem, a vida começa a ser vista de maneira fragmentada, pois, se perde de vista o elemento central que confere coerência e coesão para a vida. Um coração a quem falta fé ou que possui uma fé vacilante corre o risco de se tornar gradativamente deformado não conseguindo, portanto, se relacionar com Deus de maneira correta e por consequência se torna incapaz de reconhecer e desfrutar da bondade manifesta pelo Senhor sobre cada aspecto da vida. Esses forma erros importantes na conduta de Noemi, para os quais você deve estar atento, afim de evitá-los.
Aplicações
Quero fazer duas aplicações ao seu coração. Mas antes de apresentar a você aquilo que o texto sagrado exige como resposta, quero fazer algumas perguntas. E quero pedir que você considere seriamente essas questões, para avaliar, se há erros que precisam ser consertados.
Ao olhar para a sua relação com Deus, você pode dizer que se mantém fiel quando falta o pão, ou os problemas, são a justificativa que você espera para se afastar? Em seus dias, você busca o Senhor pelo que Ele é, ou apenas pelo que Ele pode te dar? Considerando essas questões à luz do que aprendemos até aqui você precisa aprender a enxergar a aliança de Deus não como um contrato de benefícios, mas como um relacionamento de fidelidade. Sua relação com Senhor, tal como a relação entre pai e filho, não deve ser baseada no interesse, mas em um amor profundo, verdadeiro e leal. Se você for um crente pragmático, certamente você se distanciará na crise; mas se você for um crente confiante na soberania de Deus, você certamente amadurecerá no exercício da fé em meio às dificuldades.
Finalmente, ao olhar para a sua relação com Deus, você diria que é uma pessoa que reconhece a bondade do Senhor em todo o tempo? Você consegue perceber que irmãos que oram em seu favor, amigos que oferecem a destra de companheirismo, são instrumentos que manifestam a benevolência de Deus em sua vida?
Entenda que a bondade do Senhor é manisfesta sobre você a todo o tempo em sua manutenção, dando o sustento, em sua preservação, protegendo dos perigos. Às vezes, em situações especiais Deus age sobrenaturalmente. Ele mesmo pode alterar de maneira miraculosa os caminhos e as circunstâncias da vida, trazendo o livramento, a provisão, a cura. Mas em geral, no nosso tempo, Deus age no ordinário, naquilo que é natural. A sua bondade é manifesta nas coisas simples da vida. Na manutenção da saúde que te permite trabalhar, na provisão do salário que você recebe ao fim do mês, na iluminação dos médicos que você consulta e que prescrevem tratamentos corretos, na presença confortadora de um amigo em momentos de dificuldade. Você precisa aprender a discernir a bondade de Deus manifesta em seu favor, seja por meios sobrenaturais, seja por meios naturais por intermédio da vida e das ações de pessoas que caminham ao nosso lado, a fim de que tenhamos um coração grato que longe de toda amargura glorifique ao Senhor e se satisfaça nEle.
