Bem aventurados os pobres de espírito
A Doutrina da Vida Cristã (Sermão do Monte) • Sermon • Submitted • Presented
1 rating
· 17 viewsNotes
Transcript
Mateus 5.1–3 “1 Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e, como se assentasse,aproximaram-se os seus discípulos; 2 e ele passou a ensiná-los, dizendo: 3 Bem-aventuradosos humildes de espírito,porque deles é o reino dos céus.”
Questões introdutórias
Questões introdutórias
O Sermão do Monte é um discurso fundamental de Jesus, proferido em um monte próximo ao mar da Galileia, ainda no início do ministério público, ocasião em que Cristo se sentou em posição de autoridade, simbolicamente ecoando a tradição de Moisés recebendo a Torá no monte Sinai. Embora o sermão seja primariamente dirigido aos discípulos, as multidões também estavam presentes para ouvir aquilo que Jesus tinha a dizer. Nessa preleção Jesus fundamenta sua doutrina na interpretação da lei de Moisés, diferenciando-se dos mestres contemporâneos, e instrui os discípulos a reorientar seus objetivos, motivações e ações para um novo estilo de vida1. Reconhecendo que os discípulos são incapazes de cumprir completamente suas exigências por conta própria, Jesus oferece forças do mundo vindouro para capacitá-los. Os ensinos do Sermão do Monte não são um código moral simples, mas um desafio específico para os seguidores de Jesus, convidando-os a abraçar uma nova compreensão da vontade de Deus. A autoridade única de Jesus ao ensinar causou admiração nas multidões, sendo diferente dos mestres da lei.
A primeira seção desse sermão trata das bem-aventuranças, que estabelecem um ensinamento profundo e abrangente sobre a verdadeira felicidade. Na perspectiva do Sermão, a felicidade não é representada como um objetivo a ser alcançada, mas como a forma que se vive. Ela não é algo que possa ser comprada com dinheiro, antes é um presente que se recebe de Deus. Nessa seção, Jesus apresenta oito sinais principais da conduta e do caráter que todo cristão verdadeiro deve possuir. Esses sinais apontam para o fato de que a felicidade resulta de um correto relacionamento com Deus, consigo mesmo e com o próximo, o que estabelece então a necessidade de atitudes corretas que o homem deve desenvolver em relação a si, ao pecado, a Deus e ao mundo.
Frase de transição
Chamo agora sua atenção para o tema da reflexão de hoje: Bem aventurados os pobres de espírito. Olharemos para o texto buscando compreender o que é a humildade verdadeira, quem são os humildes, e porque eles são felizes.
1. A pobreza de espírito é a humildade que nasce do reconhecimento de si mesmo
Como já vimos, no Sermão do Monte Jesus apresenta a seus ouvintes o que é a verdadeira felicidade. Ele não a associa a objetivos alcançados, mas a um viver virtuoso que podemos concluir, é o que leva o homem a se relacionar de maneira adequada consigo, com o próximo e com Deus. Segundo o texto, aqueles que desenvolvem certas características sobre as quais Ele discorre são bem-aventurados, ou felizes, ou ainda mais que felizes.
O fato é que pensando no contexto geral de felicidade, Jesus começa sua argumentação de uma maneira que à luz da lógica humana não faz qualquer sentido, porque ele associa a felicidade real de maneira imediata à expressão “pobres de espírito”. E é preciso cuidado para que interpretemos corretamente aquilo que o Senhor está dizendo.
A palavra traduzida como pobres é ptochos e essa
Dicionário Teológico do Novo Testamento, Volumes I & II A. ptōchós no Mundo Grego
ptōchós se refere à pobreza total que leva as pessoas à mendicância.
Então a princípio a palavra pobres se refere a uma condição econônima tão desastrosa e que condiciona a pessoa a mendigar em busca das coisas mais básicas da vida. O fato é que Jesus não está falando de pobreza financeira. Segundo Ele são bem-aventurados os pobres de espírito, ou pobres em espírito. Quando faz essa associação Jesus:
Dicionário Teológico do Novo Testamento, Volumes I & II D. O NT > ptōchós, ptōcheía, ptōcheúō
remove a ênfase da esfera material para a espiritual.
O conceito de pobreza está associado à miséria, à necessidade, à incapacidade, à fraqueza. E dificilmente uma pessoa que é realmente pobre ao ponto de mendigar para obter aquilo que é básico para a vida não reconhece essa condição de necessidade e miséria. Esse tipo de condição, geralmente, oblitera todo o orgulho de uma pessoa e a conduz, mesmo que a força a uma disposição de humilde reconhecimento a respeito de sua própria miserabilidade. Quando Jesus remove a ênfase da esfera material para a espiritual ele nos conduz à conclusão de que a pobreza de espírito é exatamente a humildade do coração que reconhece a sua própria miséria, incapacidade e desgraça espiritual, que está intrinsicamente associada à morte espiritual e a condenação sob o pecado. Essa condição deplorável do homem é constante e amplamente atestada pela Escritura:
Salmo 51.5 “5 Eu nasci na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe.”
Romanos 3.10–12 “10 como está escrito: Não há justo, nem um sequer, 11 não há quem entenda, não há quem busque a Deus; 12 todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer.”
Considerando isso, percebemos que a pobreza de espírito ou em espírito não é um ato de humilhação do homem, pois, para que o homem pudesse se humilhar ele precisaria primeiro ser provido de glória para então se despir dela, o que não é o caso. A pobreza de espírito diz respeito ao reconhecimento daquilo que o homem é. Algo muito parecido com o que vemos na afirmação de Paulo a respeito de sua própria condição:
Romanos 7.24 “24 Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?”
2. Os humildes são aqueles que não se apegam a si, mas buscam a Deus
2. Os humildes são aqueles que não se apegam a si, mas buscam a Deus
Uma vez que já compreendemos o conceito que Jesus tem em mente aqui e vimos que a pobreza em espírito é o humilde reconhecimento da miséria espiritual, então é possível estabelecer o caráter daqueles que podem ser considerados pobres em espírito ou humildes, se você preferir.
E os traços do caráter dessas pessoas que são pobres em espírito, mas segundo o texto, são mais do que felizes, contrariam toda a lógica humana. Há certos tipos de comportamento que ilustram bem essa condição:
Humildes são aqueles que reconhecem sua própria condição de miséria e portanto não se orgulham de si mesmos. Existem muitas pessoas que tem uma aparência de humildade, mas que na verdade não são humildes, pois, ainda não reconheceram sua miséria. Acreditam que são bons, até melhores que os outros. Acham que não precisam de graça ou misericórdia e por isso se orgulham daquilo que julgam ser, daquilo que sabem fazer, e até mesmo dos pecados que cometem. O destino desses é a ruína (Sl. 101. 5; Pv. 16. 18). Em contrapartida, os humildes reconhecem suas debilidade e deixam de lado todo o orgulho, porque entendem que sua miséria espiritual, suas fraquezas e sua total inabilidade, não deixam qualquer espaço para a altivez . Em vez de olhar para si, ele olha para o Senhor:
Jeremias 9.23–24 “23 Assim diz o Senhor: Não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem o forte, na sua força, nem o rico, nas suas riquezas; 24 mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o Senhor.”
Humildes são aqueles que reconhecem sua própria condição de miséria e incapacidade portanto não confiam em si mesmos. É natural que em alguma medida confiemos em nossas habilidades. Por exemplo, aqueles que sabem dirigir, em geral se sentem seguros e confiantes para fazer uma viagem, por exemplo. O mesmo se aplica aos ofícios que aprendemos. O médico se sente seguro em fazer uma cirurgia, o advogado em defender seu cliente, o músico em executar uma peça musical. E nesse ponto, não há problema. Agora, nenhum homem deveria confiar em si mesmo do ponto de vista espiritual, porque espiritualmente todo homem já nasce morto. Portanto, verdadeiramente humildes são aqueles que reconhecem sua miséria espiritual, sabem que são incapazes de qualquer bem moral e principalmente são incapazes de obter a vida por seus próprios méritos. Esse é exatamente o tipo de reconhecimento que vemos em homens como Davi e Paulo (Sl. 51. 5; Rm. 7. 24).
Humildes são aqueles que reconhecem sua própria condição de miséria e buscam a provisão de suas necessidades em Deus. Finalmente a verdadeira humildade está associada à busca pela provisão das necessidades no lugar certo. Humildes são aqueles que reconhecendo sua miséria e incapacidade, se lançam diante daquele que pode provê-los daquilo que tanto necessitam. Eles não se orgulham, porque sabem que são desprovidos de glória. Eles não confiam em si mesmos, pois, sabem que não podem fazer nada do ponto de vista espiritual. Eles não esperam nada de si, mas buscam tudo em Deus (Lc. 7. 37-38; Lc. 18. 13-14)
Dessa feita, os pobres em espírito são aqueles que estão plenamente conscientes, totalmente convencidos de sua miséria, de suas fraquezas, de suas necessidades e tirando os olhos de si mesmos, deixando de contemplar sua pretença força ou sabedoria, buscam tudo o que necessitam em Deus.
3. Os humildes são felizes pois receberam a promessa e tem a certeza da vida eterna
Ao final do versículo, concluindo o argumento Jesus expõem o motivo pelo qual os pobres de espírito, aqueles que são verdadeiramente humildes, são considerados felizes.
Como vimos de antemão essas pessoas mencionadas aqui, sob esse conceito, representam uma profunda condição espiritual caracterizada pelo reconhecimento de sua própria miséria e, em decorrência disso, sua total dependência de Deus. Então, plenamente convencidos de sua pobreza espiritual, tendo o seu orgulho quebrado, eles se voltam a Deus, reconhecendo que Ele é o único que pode suprí-los de todas as coisas, inclusive de salvação. Esse é o tipo de disposição é aquilo que se espera do homem e que agrada ao Senhor:
Salmo 51.17 “17 Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus.”
Isaías 55.6 “6 Buscai o Senhor enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto.”
Eles são felizes, pois, uma vez que não se deixam cegar por um orgulho vão; dado a fato de que não confiam em si e não esperam nada de si mesmos, eles se achegam ao Senhor com fé e total dependência, clamando como o públicano que orava dizendo “sê propício a mim pecador”. O reconhecimento da miséria espiritual precede o reconhecimento da necessidade e um Salvador, de Cristo. E o Espírito Santo que atua dando nova vida ao homem para que possa reconhecer sua conição miserável, continua em atuação o levando até Cristo, para que pela fé possa ser salvo, pois, todo aquele que com fé se achega a Jesus, não é por Ele desprezado.
João 6.37 “37 Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora.”
E então uma vez que eles depositam no Senhor a sua esperança, os humildes, os pobres de espírito encontram uma fonte e bênçãos sem fim, mas mas do que isso, eles encontram em Cristo a segurança e a provisão daquilo que necessitam. Os humildes permanecem pobres de espírito, mas em Cristo são feitos participantes da riqueza da graça. Confiando e esperando no Senhor eles recebem a promessa e a certeza da vida eterna no Reino de Deus longe de toda lágrima e toda dor, em uma eternidade feliz.
Efésios 1.7 “7 no qual temos a redenção, pelo seu sangue, a remissão dos pecados, segundo a riqueza da sua graça,”
Romanos 8.35–39 “35 Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? 37 Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. 38 Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir (...) nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.”
Apocalipse 21.4 “4 E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram.”
Conclusão
O cristão verdadeiro deve ser alguém humilde, que não confia em si mesmo, não se orgulha de sua própria condição, e não espera nada em si mesmo, mas em Deus, pois, reconhece a sua condição miserável longe do Senhor. Esses, e somente esses, podem ter a certeza da vida eterna, pois, confiando e buscando ao Senhor com fé, são recebidos como parte da família de Deus.
Aplicação
O Evangelho Maltrapilho Capítulo Quatro: Auréolas Tortas
Você deve se empenhar para crescer no Espírito de Jesus Cristo, pois, quanto mais próximo dele mais pobre o homem se torna, no sentido que com maior facilidade ele percebe que tudo nesta vida é um presente. Com o coração humilde a tonalidade fundamental da sua vida deve ser ação de graças humilde e jubilosa em todo o tempo, em reconhecimento às boas dádivas dadas por Deus a você. A consciência da pobreza e da inépcia espiritual, supridas em Cristo, deve leva-lo a se regozijar na dádiva de ter sido chamado das trevas para a maravilhosa luz e transportados ao reino do Filho amado de Deus.
