O Rei e o Jovem Rico: O Custo Radical do Discipulado (Marcos 10.17-31)

O Rei que se tornou servo: sermões no Evangelho de Marcos  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
0 ratings
· 9 views
Notes
Transcript
O Rei e o Jovem Rico: O Custo Radical do Discipulado (Marcos 10.17-31)

Introdução

Queridos irmãos, em nossa jornada pela série "O Rei que se tornou Servo", temos sido confrontados com o alto custo do discipulado. Vimos que ser discípulo de Jesus exige negação de si mesmo, disposição de seguir a Jesus mesmo em face da morte, a valorização adequada daquilo que é valioso para Deus (ex. casamento) e uma mentalidade de dependência e senso de gratidão sincera (ex. crianças).
Hoje, a narrativa de Marcos nos apresenta uma cena de profundo contraste que revela o verdadeiro preço de seguir o Rei. Jesus acabou de receber as crianças — os socialmente insignificantes e sem valor. Agora, Ele se encontra com o Jovem Rico, alguém que representa a autossuficiência, a posição e a aprovação social.
Este encontro, definido como um "contrato de alto risco" ou o convite ao "pior prejuízo", confronta a lógica humana de mérito e sucesso, demonstrando que o discipulado não se negocia e que a salvação é absolutamente impossível por meios humanos.

Exposição

1. A pergunta do jovem rico (17-20)

O relato do Jovem Rico deve ser lido em conexão direta com a passagem anterior sobre as crianças. Temos revelado um contraste social fundamental para o entendimento do Reino de Deus:
De um lado, a Criança, um ser socialmente desprezado e que representa a completa falta e a necessidade no primeiro século.
De outro lado, o Jovem Rico, alguém de posição social e religiosa, abençoado e aprovado socialmente (um ótimo partido; alguém bom pro “marketing da igreja”).
Enquanto a criança, o socialmente "insignificante", é acolhida e se torna modelo para o Reino, o rico, o socialmente "aprovado", é barrado.
Esse contraste antecipa a conclusão do texto: "muitos primeiros serão os últimos, e os últimos, os primeiros".
O versículo 17 nos mostra que o Jovem Rico se comporta com reverência e iniciativa, correndo e ajoelhando-se diante de Jesus, e faz uma pergunta legítima: “Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?”. Não precisamos julgar de imediato a postura do jovem como hipocrisia, como se fosse falso ou dissimulado. A pergunta dele é bastante válida e pertinente. Faz parte da visão de mundo de muitos da época. Traz uma dúvida plausível e que requer a instrução do Mestre. Lembremos que Marcos, exclusivamente, relata que “Jesus olhou para ele e o amou”, o que pode sugerir uma genuína intenção do jovem.

2. A resposta de Jesus e o teste da idolatria (18-22)

Aqui vemos uma dimensão da divindade de Cristo. Ele sonda as intenções. Embora a dúvida seja sincera, não significa que não esteja contaminada de más compreensões e pressupostos incorretos. E Jesus o corrige. Parece que a colocação do moço “bom Mestre” evocava uma resposta casual como “bom jovem”. Mas Jesus aponta que somente Deus é bom. Não é uma negação de sua divindade - isso seria uma contradição de outros momentos e palavras de Cristo. É uma colocação adequada para aquele momento de que ninguém deveria se ver como bom aos seus próprio olhos a ponto de merecer herdar a vida eterna (pergunta inicial).
Jesus, então, lista os mandamentos da segunda tábua da Lei (relativos ao próximo), omitindo os quatro primeiros (relacionados a Deus). Jesus, ao colocar os mandamentos, não intenta reforçar uma teologia de salvação pelas obras. Não é “sabe o caminho para a salvação? É só cumprir os mandamentos”. É uma colocação proposital para encaminhar o pensamento a uma conclusão esperada - que veremos em breve.
O jovem responde com uma lista de obediência moral: “Mestre, a tudo isso tenho obedecido desde a minha adolescência” (a conclusão certa não chegou - será mesmo que ele obedece a tudo? Ou será que ele tem uma visão pequena das exigências da Lei?). Essa é a resposta do religioso moralmente aprovado que foca em suas obras.
Jesus, ao amar o jovem, revela o que está faltando. É o teste da idolatria. A ausência de mandamentos relacionados a Deus na lista anterior indica o problema (Rm 3.20; 7.7-25; Gl 3.19-23) - ele ama mais as riquezas do que o fundamentalmente o próprio Deus. Há uma ironia implícita nas palavras de Jesus: o homem que “tem” ouve que “falta”. Em seguida, o comando radical — “Vá, venda tudo o que você possui e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois venha e siga-me” — este não é um discurso para todos (lembremos os exemplos de Zaqueu e outros ricos na Escritura), mas um teste específico para este jovem. Jesus não o convida a ser pobre, mas a segui-lO. O problema central não era a riqueza em si, mas o que ela significava: os valores do jovem, sua autoconfiança e sua autodependência. Ao exigir o abandono da riqueza, Jesus toca no Deus do Jovem Rico. A riqueza se tornou o seu ídolo.
Por fim, o jovem rejeita o convite: “ficou abatido e afastou-se triste, porque tinha muitas riquezas”. É um momento de tristeza em que alguém diante da Vida Eterna escolhe as riquezas.
Tim Keller diz que o convite de Jesus é como: “Quero que você imagine a sua vida sem o dinheiro que possui. Quero que imagine que não possui nenhum tostão. Não tem mais herança, patrimônio, servos nem imóveis - imagine que perdeu tudo isso. Tudo o que tem é a mim. Acha que consegue viver assim? Quando Jesus desafiou o jovem rico a abrir mão de sua fortuna, esse jovem começou a angustiar-se, pois o dinheiro era para ele o que o Pai era para Jesus. Era o cerne da sua identidade [...] [era] como perder aquela tênue sensação de que ele tinha conseguido acobertar sua mancha.” (A Cruz do Rei).
Ele estava disposto a tudo, menos a abrir mão de suas riquezas e, principalmente, de sua confiança nelas. Esse trecho faz com que a cena seja uma das mais tristes do Novo Testamento.

3. A pergunta dos discípulos: A Impossibilidade Humana (23-27a)

Diante do Jovem Rico que se afasta, Jesus se volta aos discípulos e diz: “Como é difícil aos ricos entrar no reino dos céus”. Os ricos levantaram as sobrancelhas. Os discípulos ficaram confusos. Ele usa a hipérbole que denota impossibilidade: “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus”. Os discípulos se assombraram.
Os discípulos, ainda presos à mentalidade de que a riqueza era sinal de bênção de Deus e salvação garantida, ficam perplexos e perguntam: “Nesse caso, quem pode ser salvo?”. Além de um tipo de teologia da prosperidade, persiste no entendimento deles algum tipo de teologia da retribuição ou de salvação pelas obras. Se alguém moralmente correto e próspero não pode ser salvo, quem poderá? A resposta de Jesus é precisa: ninguém!

4. A resposta de Jesus: A Impossibilidade Humana e a Soberania de Deus (27b-31)

A resposta de Jesus é a chave teológica do texto:
“Para o homem é impossível”: Em outras palavras, ninguém pode ser salvo. Nem o rico, nem o pobre, nem o moralmente aprovado.
“mas para Deus não; todas as coisas são possíveis para Deus”: A salvação é um ato soberano e gracioso de Deus.
Pedro, então, se destaca ao dizer: “Nós deixamos tudo para te seguir”. Os discípulos perguntam sobre o próprio prejuízo: “Escuta, e nós, que deixamos tudo para te seguir, como é que fica a nossa vida? Somos o oposto do jovem rico”. Jesus o consola, não com a promessa de coisas, mas de relacionamentos. Jesus promete que eles receberão cem vezes mais já no tempo presente e também a vida eterna na era futura. Ganhar 100 vezes mais irmãos, mães, filhos, com perseguições. Deus nos abençoa inclusive com a perseguição, que ajuda a entender o valor certo da vida. A verdadeira bênção vem com o risco. A declaração final sobre os últimos serem os primeiros revela o espírito revolucionário dos valores do Reino de Deus.

Aplicações

Seguir a Jesus Envolve Abandonos: Seguir a Cristo exige a disponibilidade de abandonar coisas boas, como empregos ou relacionamentos, em prol da proximidade com Jesus. É um abandono com benefícios, pois sabemos para onde estamos indo. Na conversão, Jesus é o substituto do que abandonamos e a prioridade de nossas vidas. Tamanha verdade que Jesus não nos convida a ser pobres, mas a seguí-lO. Essa é a ponderação: posição, saldo bancário, ou uma vida moral aprovada não têm valor diante do convite de seguir a Cristo. Ele mesmo se apresenta como substituto para qualquer ídolo (inclusive a riqueza). O que realmente domina o coração — o dinheiro, as posses, o status — deve ser substituído por Cristo, que é a razão de maior valor. Veja que para aquele jovem o custo para ele de seguir a Jesus era muito alto. Ele estava inicialmente disposto a muito - humilhar-se, reconhecer Jesus como mestre, ser ensinado. Mas abandonar tudo por Cristo não. O que nos custa muito?
O Amor de Jesus Revela Nossas Faltas: Jesus nos ama, mas Seu amor não é apenas para consolo; Ele aponta o que nos falta. Bendito o amor que nos confronta diante de nossos pecados e idolatrias. Ser amado por Jesus significa estar pronto para ouvir que precisamos parar de depender de nós mesmos, do nosso status, dinheiro, ou de qualquer outra fonte de satisfação que não seja Ele. De ouvir que, para sermos salvos tudo nos falta. Que não entramos no Reino por termos coisas, mas por reconhecermos que não temos nada (como as crianças das mensagens anteriores). Você não é salvo por ser um bom partido, por ser filho de família cristã, por ser assíduo nos eventos da igreja - ou até mesmo por ser assíduo na igreja, ler a bíblia ou exercer um cargo de liderança. O amor de Jesus nos revela que somente nele reside a possibilidade de nossa salvação.
A Explicação é “Mas Deus”. Alguém uma vez falou que deveríamos ser gratos pelos “mas” de Deus. No texto de hoje temos um destes. A salvação é impossível para qualquer pessoa (“ninguém pode ser salvo”). Mas não para Deus, porque para Deus tudo é possível. O fato de amarmos a Deus, desejarmos as verdades eternas e estarmos aqui é porque “mas Deus” (vejamos Efésios 2.1-10) — com Sua graça, amor e soberania — nos escolheu e nos deu vida. A gratidão deve ser a resposta.
Deus nos dá com generosidade mais do que abandonamos. Jesus desafia os discípulos a olharem para o lado. Vocês perderam mães, olha para o lado e conta quantas vocês têm. Deixaram irmãos e família? Contem quantos irmãos vocês têm agora? Deixaram campos? Onde você quer dormir essa semana? Tem casas para revezar o ano todo. Aquele que abriu mão de tudo que possuía, Jesus, apresenta a generosidade que acompanha aqueles que o seguem. E não é só isso - é paz, alegria, mansidão, domínio próprio, etc… - já no presente. Claro, acompanhado de perseguição, para não pensarmos que nosso lar é aqui.
SDG
Related Media
See more
Related Sermons
See more
Earn an accredited degree from Redemption Seminary with Logos.