O Deus que Cumpre Suas Promessas

Cristiano Gaspar
Igreja em Movimento  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
0 ratings
· 6 views
Notes
Transcript

Introdução

Atos dos Apóstolos 13.13–15 NAA
13 E, navegando de Pafos, Paulo e seus companheiros viajaram a Perge da Panfília. João, porém, deixando-os, voltou para Jerusalém. 14 Mas eles, saindo de Perge, chegaram a Antioquia da Pisídia. No sábado, entraram na sinagoga e sentaram-se. 15 Depois da leitura da Lei e dos Profetas, os chefes da sinagoga mandaram dizer-lhes: — Irmãos, se vocês têm alguma palavra de consolo para o povo, falem.
Você já viveu aquela sensação de que a estrada planejada mudou subitamente? Foi assim com a primeira viagem missionária. Depois de um começo vibrante em Chipre, Lucas registra um detalhe seco e desconfortável: “João [Marcos] os deixou e voltou para Jerusalém” (At 13.13). Merida observa que a Escritura não explica a razão; as hipóteses mais prováveis passam por medo ou saudade, e o ponto é que a equipe foi “abalada por um conflito relacional”, ainda que mais tarde Deus restaure Marcos à utilidade no ministério. O resultado imediato, porém, é um revés no time missionário. Mesmo assim, Paulo e Barnabé não param; seguem adiante para a Antioquia da Pisídia (13.14).
Essa subida até Antioquia não foi simbólica; foi física, longa e perigosa. A rota através da Via Sebaste era “em grande parte morro acima, por mais de 100 milhas”, numa região de interior marcada por rios, bandoleiros e altitude — uma jornada sem glamour, só obediência com poeira nas sandálias.
Chegando lá, o cenário é a sinagoga. Havia leitura das Escrituras e, com visitantes judeus de credenciais como as de Paulo, era natural o convite a uma “palavra de exortação” (13.15). O ambiente, comenta Keener, favorecia que alguém treinado em Jerusalém fosse convidado à exposição do dia, em continuidade às leituras — e foi exatamente assim que Paulo se levantou para falar.
É nesse pulpito improvisado, nascido de uma sequência de dificuldades, que ouvimos o primeiro sermão longo de Paulo em Atos. Merida sublinha que, aqui, Paulo sustenta o mesmo grande tema que ecoará em Gálatas: “justificação pela fé” (13.38–39), e organiza o discurso de modo a ligar a história de Israel ao cumprimento em Cristo e à aplicação pessoal do evangelho. Em termos de estrutura, o sermão caminha da revisão da história teocêntrica (13.16–25) para a proclamação da morte e ressurreição de Jesus (13.26–37) e culmina na oferta de perdão e justificação (13.38–41).
Note como isso conversa com o nosso momento. O texto não romantiza a missão. Há cansaço, abandono, caminho duro. Mas, por trás, há uma mão fiel. O que parecia um capítulo de crise torna-se o cenário em que Paulo remonta a história desde os patriarcas até Davi para afirmar: Deus é o sujeito dos verbos. Ele escolhe, tira do Egito, suporta no deserto, dá a terra, estabelece juízes e reis — e, no clímax, traz Jesus, o Salvador prometido (13.23). É “um sermão saturado de Escritura, centrado em Deus e exaltador de Cristo”, no qual a iniciativa divina atravessa a narrativa: “Deus não faz aleatório; cumpre seus propósitos na história.”
Nossa tarefa, então, é ouvir Paulo como quem coloca a própria vida sob essa mesma história. Porque este não é apenas um resumo do passado; é um convite no presente. A promessa cumprida em Jesus não termina na biografia de Israel: ela desemboca naquilo que a Lei nunca pôde realizar — perdão e justificação “por meio dele… a todo o que crê” (13.38–39). É isso que enche de sentido nossas perdas e nossas subidas íngremes: a fidelidade de Deus na história alcança pecadores reais hoje.
Com esse pano de fundo, seguiremos em três movimentos, na cadência do próprio sermão de Paulo: (1) Deus é o Senhor da História (13.16–25), (2) Cristo é o clímax da promessa (13.26–37) e (3) graça é o resultado para nós (13.38–39). O objetivo é simples e profundo: ler o texto, explicar o texto e aplicar o texto, de modo que a nossa história seja reencaixada na grande história que Deus está cumprindo em Cristo.

1. Deus é o Senhor da História (Atos 13:16–25)

Antes de explicar, lemos o início do sermão de Paulo:
Atos dos Apóstolos 13.16–25 NAA
16 Paulo, levantando-se e fazendo com a mão sinal de silêncio, disse: — Israelitas e todos vocês que temem a Deus, escutem! 17 O Deus do povo de Israel escolheu os nossos pais e exaltou o povo durante a sua peregrinação na terra do Egito, de onde os tirou com braço poderoso. 18 Suportou os maus costumes do povo durante uns quarenta anos no deserto. 19 E, havendo destruído sete nações em Canaã, deu essas terras como herança ao seu povo. 20 Tudo isso levou cerca de quatrocentos e cinquenta anos. Depois disso, lhes deu juízes, até o profeta Samuel. 21 Então eles pediram um rei, e Deus lhes deu Saul, filho de Quis, da tribo de Benjamim, e isto durante quarenta anos. 22 E, tendo tirado Saul, levantou-lhes o rei Davi, do qual também, dando testemunho, disse: “Achei Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará toda a minha vontade.” 23 Da descendência deste, conforme a promessa, Deus trouxe a Israel o Salvador, que é Jesus. 24 Antes da manifestação dele, João pregou um batismo de arrependimento a todo o povo de Israel. 25 Quando João estava completando a sua carreira, disse: “Quem vocês pensam que sou? Não sou aquele que vocês esperam. Mas depois de mim vem aquele de cujos pés não sou digno de desamarrar as sandálias.”

A. Um sermão centrado em Deus

Tony Merida observa que o primeiro movimento do sermão de Paulo é profundamente teocêntrico. Em apenas nove versículos, Deus é o sujeito de praticamente todas as ações: Ele escolheu, exaltou, tirou, suportou, destruiu, deu, levantou, removeu e trouxe. Israel é o receptor da história; Deus é o protagonista.
Essa escolha literária não é casual. Paulo está diante de uma plateia acostumada a ver a si mesma como o centro da narrativa — o povo eleito, o portador da aliança, o guardião da Lei. Mas agora ele realinha a lente: “Vocês não são o enredo principal; Deus é.” Merida comenta: “A ênfase de Paulo é pastoral e teológica — o Senhor é o autor da história, o centro da redenção e o cumprimento das promessas.”
Em um mundo que constantemente tenta colocar o homem no centro, esse é um lembrete desconfortável e libertador: a história da Bíblia — e a nossa — é sobre Deus. Tiramos Deus do centro, e a narrativa se desintegra.

B. Um Deus que escolhe

“O Deus deste povo de Israel escolheu nossos pais…”
A história da salvação começa com uma escolha, não com um mérito. Abraão não saiu de Ur porque era um visionário religioso, mas porque foi chamado por graça soberana.
Antes que houvesse fé, houve vocação. Antes que houvesse obediência, houve promessa.
O mesmo padrão se repete até hoje: nossa história com Deus não começa com o nosso movimento em direção a Ele, mas com o movimento dEle em direção a nós.
Aplicação: Essa é uma verdade que humilha o orgulho e sustenta a fé. Você não está aqui porque foi mais sensível à voz de Deus, mas porque Deus foi misericordiosamente insistente com você.

C. Um Deus que liberta

“…e com braço levantado os tirou do Egito.”
O Êxodo é o grande paradigma da libertação no Antigo Testamento. “Braço levantado” é imagem de poder e intervenção.
Paulo quer que os ouvintes percebam que o mesmo Deus que libertou Israel da escravidão física é o que liberta, em Cristo, da escravidão espiritual. O Êxodo foi o primeiro evangelho em forma de sombra — a cruz é o Êxodo definitivo.
Aplicação: Quantas vezes o cristão é liberto por Cristo, mas vive como se ainda estivesse no Egito? Perdoado, mas preso à culpa. Livre, mas escravo da lembrança. O evangelho não apenas abre o mar; ele conduz até a terra prometida.

D. Um Deus que suporta

“E suportou-lhes os maus costumes por cerca de quarenta anos no deserto.”
A tradução pode ser lida como “carregou-os” — o verbo implica paciência ativa. Deus não apenas tolera o povo; Ele o sustenta. Como um pai que leva o filho nos ombros, Deus carrega Israel mesmo quando o filho se rebela.
Merida destaca que esse versículo, tão breve, é uma das demonstrações mais ricas da longanimidade divina. Ele mostra que a fidelidade de Deus não depende da perfeição do povo.
Aplicação: Quando você tropeça, Deus não cruza os braços; Ele estende os ombros. O deserto revela que a graça não é uma ideia — é uma presença. Ele te leva quando você não pode andar.

E. Um Deus que conduz e provê

“Destruiu sete nações... deu-lhes a terra... deu-lhes juízes... pediram um rei, e Deus lhes deu Saul... depois levantou Davi.”
Paulo resume séculos de história em poucas linhas, como quem pinta com traços largos a fidelidade de Deus diante da infidelidade humana. Até o pedido errado do povo — “dá-nos um rei” — é absorvido no plano divino. Deus usa até a rebeldia de Israel como cenário para a vinda do verdadeiro Rei.
Keener nota que o discurso de Paulo tem um ritmo pedagógico: o povo erra, mas Deus reorienta. O erro humano nunca desvia a direção da promessa.
Aplicação: Você consegue lembrar de momentos em que suas decisões erradas se tornaram instrumentos da graça? O Deus que governa o curso da história também redime o curso das nossas falhas.

F. Um Deus que cumpre

“Da descendência deste, conforme a promessa, Deus trouxe a Israel um Salvador, Jesus.”
Aqui o discurso atinge o clímax do primeiro movimento. A sequência verbal muda de tempo: “trouxe” — não mais “dará”. A promessa é agora fato. O Deus da história entrou na história.
Tudo o que começou em Abraão e foi afirmado em Davi encontra cumprimento em Jesus. A história de Israel não é um fim em si; é o palco para o evangelho.
Merida resume: “Paulo não está inventando uma nova religião; ele está mostrando que a antiga encontrou seu cumprimento.”
Aplicação: Se Deus cumpriu a promessa maior — a vinda do Salvador —, Ele não falhará nas menores. O Cristo que veio é a prova de que cada palavra de Deus é sim e amém.

G. Síntese pastoral

O primeiro bloco do sermão de Paulo revela um padrão divino: Deus age, o homem responde; Deus promete, o homem falha; Deus cumpre, o homem é salvo.
Toda a narrativa de Israel é a história de um Deus que não desiste de cumprir o que prometeu. Paulo está lembrando à sinagoga — e a nós — que a fidelidade de Deus é o fundamento da missão.
Aquele que sustentou o povo no deserto e guiou Davi ao trono é o mesmo que agora chama pecadores à salvação em Cristo. A história é dEle; nós somos personagens coadjuvantes na trama da redenção.

Transição

Depois de relembrar como Deus conduziu a história até Davi, Paulo conduz os ouvintes ao ápice dessa história — o cumprimento das promessas em Cristo. Se no primeiro movimento vemos o Deus que conduz a história, agora veremos o Deus que entra na história. O foco muda da promessa feita para a promessa cumprida: Jesus, o Salvador que confirma que a fidelidade de Deus não é apenas passada — é presente e viva.

2. Cristo é o Clímax da Promessa (Atos 13:26–37)

Paulo continua seu sermão dizendo: Atos 13.26-37
Atos dos Apóstolos 13.26–37 NAA
26 — Irmãos, descendência de Abraão e todos vocês que temem a Deus, a nós foi enviada a palavra desta salvação. 27 Pois os moradores e as autoridades de Jerusalém, não conhecendo Jesus nem as palavras dos profetas que são lidas todos os sábados, cumpriram as profecias, quando condenaram Jesus. 28 E, embora não achassem nenhuma causa de morte, pediram a Pilatos que ele fosse morto. 29 Depois de cumprirem tudo o que estava escrito a respeito dele, tirando-o do madeiro, puseram-no em um túmulo. 30 Mas Deus o ressuscitou dentre os mortos, 31 e durante muitos dias ele foi visto pelos que o tinham acompanhado da Galileia para Jerusalém, os quais são agora as suas testemunhas diante do povo. 32 E nós anunciamos a vocês o evangelho da promessa feita aos nossos pais, 33 como Deus a cumpriu plenamente a nós, seus filhos, ressuscitando Jesus, como também está escrito no Salmo número dois: “Você é meu Filho; hoje eu gerei você.” 34 — E quanto ao fato de que o ressuscitaria dentre os mortos para que jamais voltasse à corrupção, Deus o expressou desta maneira: “E cumprirei a favor de vocês as santas e fiéis promessas feitas a Davi.” 35 — Por isso, também diz em outro Salmo: “Não permitirás que o teu Santo veja corrupção.” 36 — Porque tendo Davi, no seu tempo, servido conforme o plano de Deus, morreu, foi sepultado ao lado de seus pais e viu corrupção. 37 Porém aquele a quem Deus ressuscitou não viu corrupção.

A. A promessa feita agora se cumpre (vv.26–27)

Paulo muda o foco da história passada para o presente. Até aqui ele falou sobre o que Deus fez; agora ele fala sobre o que Deus está fazendo. O Deus que escolheu e libertou o povo é o mesmo que enviou a salvação agora.
Mas essa boa notícia vem acompanhada de uma ironia trágica: os próprios líderes religiosos, que liam os profetas todo sábado, cumpriram as profecias sem percebê-lo, condenando o Messias que aguardavam.
Tony Merida comenta:
“A tragédia dos líderes judeus foi conhecer as Escrituras e, ainda assim, perder o Cristo das Escrituras.”
É possível, então, conhecer o texto e não conhecer o Autor. A familiaridade religiosa pode nos anestesiar para a presença de Deus.
Aplicação: Não é suficiente manusear a Bíblia; é preciso que a Bíblia nos manuseie. Não basta falar sobre Cristo; é necessário se render a Ele.

B. A cruz: o plano de Deus se cumprindo (vv.28–29)

“E, se bem que não acharam nele motivo algum de morte, pediram a Pilatos que o matasse... e cumpriram tudo o que dele estava escrito.”
Paulo enfatiza que a crucificação de Jesus não foi um acidente, mas a execução do plano soberano de Deus. Os governantes judeus agiram por ignorância; Deus agiu por amor. Enquanto os homens viam tragédia, Deus via redenção.
A cruz é o ponto onde o juízo e a graça se encontram. O que parecia a derrota do Messias foi, na verdade, a vitória do Cordeiro.
Aplicação: Quando a providência parecer dura, lembre-se da cruz. Aquele que dirigiu o caos da crucificação pode transformar qualquer dor em parte do Seu plano. A cruz é o lembrete permanente de que o fracasso humano nunca frustra os propósitos divinos.

C. A ressurreição: o selo da promessa (vv.30–37)

“Mas Deus o ressuscitou dentre os mortos.”
Essas palavras são o eixo da fé cristã. A ressurreição é o “amém” de Deus sobre a obra de Cristo. Ela confirma que Jesus é o verdadeiro Filho de Davi e o cumprimento de todas as promessas.
Para demonstrar isso, Paulo cita três passagens do Antigo Testamento:
Salmo 2:7 – “Tu és meu Filho; eu hoje te gerei.” → Afirma a entronização de Cristo como Rei.
Isaías 55:3 – “Dar-vos-ei as santas e fiéis bênçãos prometidas a Davi.” → Mostra que as bênçãos da aliança davídica são confirmadas na ressurreição.
Salmo 16:10 – “Não permitirás que o teu Santo veja corrupção.” → Davi morreu e viu corrupção; Cristo ressuscitou e venceu a morte.
Merida resume assim:
“A ressurreição é a prova final da fidelidade de Deus. O túmulo vazio é a confirmação de que todas as promessas divinas são ‘sim’ em Cristo.”
Aplicação: Se Deus foi fiel ao ressuscitar Seu Filho, Ele continuará fiel a cada promessa feita aos Seus filhos. A ressurreição é a prova de que Deus cumpre até o que parece impossível.

D. Davi apontava para Cristo (vv.36–37)

“Davi, tendo servido ao propósito de Deus em sua geração, adormeceu e viu a corrupção; mas aquele a quem Deus ressuscitou não viu a corrupção.”
Paulo termina essa seção com contraste intencional. Davi foi um servo fiel, mas mortal. Cristo é o Rei eterno, incorruptível. Davi apontava para Cristo, mas não era o Cristo.
Assim, o que Paulo faz é costurar a história de Israel para mostrar que o Antigo Testamento é uma estrada que converge em Jesus. Tudo o que era sombra encontra substância Nele. Tudo o que era promessa ganha rosto e carne.
Aplicação: Se Davi serviu aos propósitos de Deus e descansou, Cristo continua servindo — ressuscitado e reinando. Não há salvação em outro nome porque não há outro Rei vivo.

Síntese do ponto

Paulo apresenta o evangelho como o cumprimento histórico da promessa divina. Ele não está anunciando uma nova fé, mas o desfecho da antiga. O Deus que agiu na história de Israel agora age na história da humanidade.
O centro do cristianismo não é um sistema de valores, mas um evento real: a morte e a ressurreição de Cristo. E é esse evento que torna possível a mensagem que Paulo proclamará a seguir — a boa notícia do perdão e da justificação pela fé.

Transição

Até aqui, Paulo mostrou que Deus conduziu e cumpriu a história. Agora ele chega à aplicação suprema: o que tudo isso significa para quem ouve. O evangelho não é apenas uma história a ser admirada, mas uma graça a ser recebida. Por isso, no clímax do sermão, Paulo declara que a história de Deus é, em última instância, uma história de graça.

3. A História de Deus é uma História de Graça (Atos 13:38–39)

Atos dos Apóstolos 13.38–39 NAA
38 Portanto, meus irmãos, saibam que é por meio de Jesus que a remissão dos pecados é anunciada a vocês; 39 e, por meio dele, todo o que crê é justificado de todas as coisas das quais vocês não puderam ser justificados pela lei de Moisés.
Depois de recontar a história de Israel e apontar Cristo como o cumprimento de todas as promessas, Paulo chega ao ápice do sermão. Até aqui, ele demonstrou quem Deus é e o que Deus fez; agora ele proclama o que Deus oferece. O clímax do evangelho não é apenas informativo, é transformador.

A. O perdão que liberta (v.38)

A palavra usada por Lucas para “anunciar” (katangéllō) tem o tom de uma proclamação oficial. Paulo não está oferecendo uma sugestão espiritual, mas declarando um decreto real: o perdão foi anunciado. Não é algo que o homem conquista, é algo que Deus proclama.
Tony Merida destaca que o evangelho não é um conselho a ser seguido, mas uma notícia a ser crida. “A palavra central do evangelho”, ele diz, “não é ‘tente’, é ‘feito’.” A cruz não é uma metáfora sobre segundas chances; é a sentença divina de que a culpa foi removida.
Aqueles que se lembram do Êxodo e do deserto entendem o eco: o mesmo Deus que libertou Israel do Egito agora liberta o ser humano da escravidão do pecado. O perdão é a libertação final.
Aplicação: Quantos ainda vivem tentando pagar uma dívida que já foi quitada? A graça não é um crédito parcial; é a quitação total. O evangelho anuncia o fim da culpa, não apenas o alívio da consciência.

B. A justificação que transforma (v.39)

“...e de tudo o que, pela lei de Moisés, não puderam ser justificados, por ele é justificado todo aquele que crê.”
Aqui Paulo introduz, pela primeira vez em Atos, a doutrina que se tornará o coração de sua teologia: a justificação pela fé. O perdão remove a culpa, mas a justificação concede um novo status. O juiz não apenas diz: “você está livre”; ele declara: “você é justo”.
A Lei de Moisés era boa, mas impotente para justificar. Ela podia mostrar o pecado, mas não podia removê-lo. Cristo faz o que a Lei não pôde fazer: ele cumpre e substitui.
Tim Keller explica: “Ser justificado é ser mais do que perdoado; é ser tratado como se tivesse vivido a vida perfeita de Cristo.”
Paulo estabelece um contraste entre duas formas de se aproximar de Deus:
Pela lei, tentando merecer o favor.
Pela fé, recebendo o favor já conquistado por Cristo.
A primeira produz orgulho e culpa; a segunda produz liberdade e gratidão.
Aplicação: Quantos vivem cansados tentando se justificar diante de Deus — seja pela moralidade, pela produtividade ministerial ou pela comparação com outros? O evangelho oferece descanso. A cruz é o tribunal onde a justiça de Deus e o amor de Deus se encontraram, e o veredito sobre o crente é irrevogável: “justo”.

C. A abrangência da graça (v.39b)

“Por ele é justificado todo aquele que crê.”
Paulo encerra o sermão com a palavra mais inclusiva e mais radical do evangelho: todo. Não “os bons”, nem “os judeus”, nem “os religiosos”. A promessa é universal em alcance, mas exclusiva no caminho — somente por Cristo.
Essa é a nota final da música da graça: todos podem vir, mas só podem vir pela fé. Merida escreve: “A palavra ‘todo’ é o estandarte do evangelho. Ninguém está fora do alcance da graça, e ninguém está acima da necessidade dela.”
Aplicação: A cruz nivela o chão. O moralista e o marginal estão lado a lado diante do mesmo Salvador. Não há méritos que garantam, nem pecados que desqualifiquem. Há apenas fé em Cristo, e essa fé nos insere na história que Deus está escrevendo.

Síntese do ponto

Toda a longa história da redenção chega a esse momento. O Deus que escolheu Abraão, libertou Israel e ressuscitou a Cristo agora anuncia graça a todo aquele que crê. É como se Paulo dissesse: “A fidelidade de Deus na história agora se torna a sua salvação pessoal.” O evangelho é o ponto em que a soberania de Deus encontra a necessidade humana.

Conclusão — A história de Deus e a nossa história

Se o sermão terminasse aqui, já teríamos o resumo do cristianismo: Deus fiel, Cristo ressuscitado, graça oferecida. Mas Lucas mostra que a história continua. Nos versículos seguintes (13:42–52), o evangelho será recebido com fé por alguns e rejeitado por outros. E isso sempre acontece. O mesmo sol que derrete a cera endurece o barro. O evangelho que justifica também confronta.
Mas, antes de chegar à reação da multidão, vale parar no coração da mensagem: o que Paulo anunciou em Antioquia da Pisídia é o mesmo que a igreja anuncia hoje — o Deus que cumpre promessas na história agora cumpre sua promessa em Cristo.
A história que começou na criação e foi ferida pela queda encontra redenção na cruz e caminha para a restauração final. O evangelho é a metanarrativa da fidelidade de Deus atravessando o tempo.
Na criação, Deus fez o homem à sua imagem.
Na queda, o homem tentou viver a própria história sem Deus.
Na redenção, Deus entrou na história para resgatar o homem.
E na restauração, Deus fará novas todas as coisas.
Atos 13 está no centro dessa trama: o ponto em que o Autor entra na própria história para escrever o capítulo que nenhum outro personagem poderia escrever.
Cristiano, aqui está o fio condutor que fecha o sermão: A fidelidade de Deus não é apenas uma ideia para ser admirada, mas uma realidade para ser experimentada. O mesmo Deus que escolheu, libertou, suportou e cumpriu, agora justifica e transforma. A cruz não foi o fim; foi a assinatura de Deus embaixo da promessa: “Eu sou o Senhor da história.”
Então, quando o plano da vida parecer sair do controle, lembre-se: Deus continua no controle do plano. O Deus de Paulo é o mesmo Deus de hoje. E o mesmo evangelho que salvou pecadores em Antioquia é o que reescreve a nossa história — não por mérito, mas por graça.
Related Media
See more
Related Sermons
See more
Earn an accredited degree from Redemption Seminary with Logos.