O retrato da verdadeira conversão

A fidelidade de Deus na redenção  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
0 ratings
· 6 views
Notes
Transcript
Introdução
O texto que acabamos de ler, nos mostra uma conversão inesperada. Rute, uma mulher moabita, ao se dispor para seguir com sua sogra para a terra de Israel, demostra não apenas uma fidelidade humana e familiar, a reordenadação plena de sua vida é sobretudo uma demonstração de fé e fidelidade ao Deus de Israel, sob a tutela do qual ela está pronta para se entregar. Para além disso, o que há de mais importante nessa narrativa é a fidelidade do próprio Deus conduzindo a história rumo ao cumprimento de sua promessa promovendo eventos que teriam impacto direto na redenção da humanidade, ao chamar para sua aliança a mulher da qual descenderia o próprio Messias.
Frase de transição
Com base no texto lido, nessa noite nos dedicaremos ao tema: “O retrato de uma conversão verdadeira”. Ele será desenvolvido brevemente a partir de dois argumentos fundamentais:
1. A conversão verdadeira promove uma mudança radical de vida
A primeira cena do livro de Rute possui duas personagens que contrastam entre si. De um lado encontramos Noemi que, embora seja uma mulher da aliança, se encontra amargurada devido às perdas consecutivas que teve de enfrentar. Do outro lado nos deparamos agora nos v.16-17 com Rute, uma mulher moabita que se mostrará não apenas uma conversa, mas um instrumento improvável usado por Deus no grande drama da salvação.
O contexto em que esse diálogo que mostra a conversão de Rute ocorre é o do retorno de Noemi para Judá, viagem na qual Rute, juntamente com sua cunhada Orfa, decidem acompanhá-la. Diante da insistência de Noemi, Orfa optou por permanecer em Moabe. Rute, por outro lado, demonstrou a firme decisão de seguir rumo à Belém. É interessante notar que o retorno a Judá não é um mero deslocamento geográfico, Noemi estava voltando para terra prometida, estava voltando para o seu Deus, estava voltando para o lugar da adoração. E quando Rute se dispõe a ir com ela, as implicações para sua vida são as mesmas implicações relativas à Noemi, inclusive as implicações de cunho religioso. No caso de Rute, no entanto, a ideia de “voltar ou ir para Judá” implica religiosamente em sua conversão ao Deus de Israel.
Essa ideia fica mais claramente delineada quando olhamos tanto para o Antigo, quanto para o Novo Testamento e percebemos que:

Tanto as palavras hebraicas como as gregas que geralmente se traduzem como“conversão” nas Escrituras têm o sentido de “voltar” ou “retornar”.

Perceba que para Noemi o retorno para Judá implicava em certa medida o arrependimento de haver abandonado a herança dada por Deus, enquanto para Rute, a ida à Judá, estabelecia a reorientação de sua vida, em todos os seus aspectos, e isso é justamente aquilo que chamamos de conversão. Se, porventura, você não estiver familiarizado com esse conceito, considere a definição dada por Herman Bavinck:
Entenda que é exatamente esse tipo de transformação que Rute viveu ao abandonar Moabe e se dirigir para Judá. A mudança experimentada por ela trouxe implicações em todos os aspectos de sua vida. Ela deixou sua própria terra, para viver na terra do povo escolhido de Deus; ela deixou o seu próprio povo, para se tornar parte do povo de Deus, ela deixou a adoração à Quemos, divindade cultuada pelos moabitas para se submeter em fidelidade ao Deus de Israel. Veja que há dois elementos claros aqui: a) uma decisão interna, que estabelece a mudança da mente pela qual Rute em algum momento decidiu não ficar em Moabe, não adorar a Quemos e se submeter ao Deus de Israel; b) uma expressão externa da mudança interna, quando ela de fato deixa tudo para trás, e se direciona a uma nova vida que contempla inclusive uma nova inclinação ético-religiosa. E isso é conversão.
Na Escritura encontramos muitos textos que nos apresentam esse paradigma. Dois dos mais claros são:
Isaías 55.7 “7 Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo, os seus pensamentos; converta-se ao Senhor, que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar.”
2Coríntios 5.17 “17 E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura ; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas.”
Temos, portanto, que a conversão verdadeira não é apenas um sentimento religioso momentâneo, mas uma mudança profunda de direção, um novo ponto de partida que começa no interior, quando o coração se volta para Deus, e desemboca no exterior, em uma nova vida ética, moral e religiosa. Dessa forma vemos que ao se dispor para deixar Moabe, juntamente com seu passado, Rute não estava apenas expressando lealdade a Noemi, mas e principalmente, ela estava em fé, se rendendo ao senhorio do Deus de Israel. Sua fé poderia até ser considerada imatura, mas não era sob nenhuma perspectiva abstrata. Ela se manifestou em decisão e compromisso, ações que de fato testificam as implicações da conversão verdadeira.
2. A conversão verdadeira promove uma mudança radical na lealdade do coração
A vida humana é estabelecida sobre alguns pilares que conferem sentido à existência e estabelecem o sentimento de pertencimento. Entre esses pilares há grande destaque para a identidade nacional, família e religião. Quando olhamos para o texto em questão percebemos no relato da conversão de Rute que a mudança radical em sua vida ocorreu não apenas pelo abandono de antigos princípios éticos, morais, sociais e religiosos, mas e mais importante, pelo estabelecimento de novas lealdades fundamentadas na reorientação abrangente da vida. Esse processo é importante, pois, a conversão se apresenta em duas perspectivas, uma negativa e outra positiva.
Na perspectiva negativa a conversão verdadeira leva o homem regenerado - aquele que pela fé se submete ao senhorio de Deus - a abandonar velhos hábitos, princípios e valores. E ainda que isso seja muito importante, o abandono do velho estilo de vida não é o quadro completo. É necessário não apenas deixar o velho homem para trás. É preciso que o velho seja substituído pelo novo, o errado pelo certo, o pecaminoso pelo santo. E é no vão dessa necessidade que a dimensão positiva da conversão é vista direcionando o homem para amar a Deus supremamente dando a Ele o lugar de preeminência em todas as dimensões da vida. É isso o que vemos na conversão de Rute e aquilo que Paulo vai apresentar no epístola aos Efésios (Ef. 4. 22-24) como o despir do velho homem e o revestir do novo, que ocorre no câmbio de desejos corrompidos pelo pecado, por uma vida de justiça e santidade provenientes da verdade. E no texto, as lealdades de Rute se encontram justamente nesse processo de reordenação.
Identidade : a identidade de Rute foi radicalmente redefinida. A disposição para seguir rumo à Judá é um ato de fé. Pela fé em Deus ela rompeu os laços com sua antiga origem, deixando seu povo para reconhecer Israel como seu novo povo. Ela não mais se identifica com a idólatra Moabe, mas com Israel, o povo exclusivo de Deus. O que se tem em vista aqui é a ilustração do fato que a conversão verdadeira desliga o homem da cidadania deste mundo e concede a ele uma nova pátria. Conquanto esteja no mundo, o verdadeiro convertido não mais pertence ao mundo. Dessa forma o abandono de Moabe e a entrada em Israel, na vida de Rute, ilustra a aquilo que ocorre espiritualmente na conversão, quando o homem é retirado do domínio do império das trevas e transportado para o Reino de Deus.
Família: Ao deixar Moabe, Rute abandonou a possibilidade aventada por Noemi de que ele voltasse para a casa de sua mãe. Esse retorno representaria uma volta não apenas ao lar materno, mas também às tradições familiares e aos laços culturais que certamente influenciavam suas escolhas. A conversão frequentemente exige esse tipo de rompimento em alguma medida. Entenda que não se trata de um rompimento de amor, mas de prioridade. O próprio Senhor Jesus afirmaria isso (Mt. 10. 37). Nenhuma relação terrena pode ser considerada mais importante que a relação com Deus. A lealdade suprema do verdadeiro convertido é ao Senhor e todas as demais afeições se ordenam sob essa nova submissão.
Religião: Por fim, a transformação que é mais claramente vista, na vida de Rute - assim como em todo verdadeiro convertido - se estabelece na dimensão religiosa. A declaração de Rute é firme e categórica nesse sentido: “o teu Deus é o meu Deus.” E aqui está o cerne da conversão: um novo objeto de fé, um novo centro de adoração. O relato bíblico se refere à Moabe como o povo de Quemos. Isso ocorre porque o deus nacional de Moabe era Quemos, a quem os pagãos sacrificavam seus filhos no fogo. Agora, nos relatos dos v. 16-17 Rute, pela fé, abandona sua antiga religião. A idolatria foi substituida pela fidelidade, na mesma medida em que a confiança no falso deus Quemos foi substituída pela entrega total a Javé, o Deus verdadeiro. Essa não é uma mudança meramente intelectual, mas afetiva e volitiva, uma vez que o coração regenerado não apenas crê que no Senhor como o único e verdadeiro Deus, mas também passa amá-lo, a segui-lo e a confiar somente nele.
Dessa forma vemos em Rute uma mundança radical na vida exterior e na lealdade do coração.
Conclusão
O relato da conversão de Rute é um retrato vívido da graça soberana de Deus, que chama para si pessoas improváveis, com histórias distintas, e as recebe em seu próprio povo. Embora Rute esteja em grande ênfase no texto, Deus é o personagem principal. Ele age no invisível manifestando graça, fazendo com que a fé verdadeira opere no coração e convertendo os homens a si. A verdadeira conversão é uma obra de Deus que transforma não apenas o comportamento, mas as lealdades mais profundas do coração. Pela graça, estrangeiros e peregrinos são incluídos na aliança, inimigos são reconciliados e elevados à posição de filhos, aqueles que estavam longe são chamados para perto. Assim como fez no passado, Deus faz hoje, e por meio de Jesus, Ele continua chamando, resgatando, convertendo e recebendo pessoas em seu Reino. Toda verdadeira conversão, seja no passado, seja no presente, se mostra como uma mudança radical de lealdade: da velha natureza, para a nova; do mundo, para o povo de Deus, da idolatria e da falsa religião, para o Deus vivo.
Aplicações
A verdadeira conversão deve ser acompanhada de uma mudança radical no estilo de vida. A conversão não é parcial e nela não existe meio termo, não existe tentativa. Ou você é convertido ao Senhor, ou não é. Não há possibilidade de coexistência entre o velho e o novo homem. Sabemos que em todo o tempo pessoas são salvas pela graça. As decisões de Rute no texto são a expressão visível da graça invisível de Deus, que age no coração chamando pessoas para si. Quando essa graça alcança alguém, tudo muda — o coração, as prioridades, os valores, o modo de viver. Rute deixou Moabe, e com ele deixou para trás suas antigas seguranças, seus deuses e sua identidade. Assim também, você precisa deixar para trás o seu passado, seus valores, sua idolatria, seu antigo estilo de vida, para viver uma nova vida em fidelidade ao Senhor. Se você diz que foi convertido, mas ainda vive apegado ao velho mundo, examine-se à luz da Palavra. Entenda que o Evangelho não reforma o homem natural — ele o recria. A verdadeira conversão faz nascer um novo ser, com um novo modo de pensar, um novo amor por Deus e por sua vontade. A conversão deve desembocar em um novo sentido de vida que leva o homem a se submeter em fidelidade a Deus. O que você era no passado precisa ser deixado no passado. Porque, em Deus, tudo se faz novo.
A conversão verdadeira deve ser acompanhada pela mudança na lealdade do coração. Ela não é apenas uma mudança de comportamento, mas uma revolução no centro do ser — uma reorientação das lealdades. Quando Deus converte o pecador, Ele não apenas limpa a superfície da vida; Ele muda a direção do coração, substitui as lealdades desordenadas pela fidelidade a Deus. Como verdadeiro convertido você deve ser um representante do Reino de Deus, não um cidadão do mundo; como verdadeiro convertido você deve amar a Deus sobre todas as coisas e reordenar todos os seus afetos sob a soberania dEle; como verdadeiro convertido você deve se submeter ao Senhor em fidelidade e adoração verdadeira e constante. Essas considerações isso nos levam a uma pergunta pessoal e inevitável: em quem está a lealdade do seu coração? Ainda que estejamos na igreja, podemos permanecer presos a velhos laços — à cultura, à família, às paixões, ao orgulho. Mas a conversão verdadeira reflete em um rompimento com o passado, com as nossas antigas lealdades, e no estabelecedimento de compromisso definitivo com Deus. Portanto, querido irmão, sua fé deve ser traduzida em novas lealdades. Que a identidade, os afetos e a adoração do seu coração sejam continuamente moldados pela graça que o alcançou. Que o mundo saiba — por meio de suas palavras e atitudes — que você já não pertence a Moabe, mas a Deus. E caso você ainda não faça parte desse povo, saiba que a mesma graça que chamou e resgatou Rute, está disponível hoje àquele que crê em Cristo. Creia no Senhor e receba nEle essa graça para a restauração e salvação de sua vida.
Related Media
See more
Related Sermons
See more
Earn an accredited degree from Redemption Seminary with Logos.