Mateus 7.1-6

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Título: “Cuide de si, cuide do outro” (?)
Texto bíblico: Mateus 7.1-6
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Introdução
Para muitos, incluindo cristãos, o mero mencionar do julgamento de Deus traz determinada noção de incômodo. As pessoas acham difícil pensar em Deus enquanto Pai e Juiz, simultaneamente. Certamente imaginam que Ele deverá ser um ou outro.
Mas, ninguém que seja instruído nas Escrituras e sensível ao seu ensino deveria cair nessa falta dicotomia. Aquele que chegou à presença do próprio Deus por meio da leitura das Escrituras jamais duvidaria de que ambos os aspectos do caráter de Deus andam de mãos dadas.
Deus é tanto Pai quanto Juiz.
Para o descrente isso é terrível. E porque? Bom, como alguém já disse:
para o descrente “ao rejeitar o julgamento de Deus em sua vida, o incrédulo também rejeito o privilégio de tê-lo como Pai” e “ao rejeitar a graça paterna de Deus, ele o encontra como Juiz”.
Mas para o filho de Deus, “conhecer a Deus enquanto Pai transforma a forma de vê-lo como Juiz, e o conhecimento de Deus como Juiz o enche de admiração por também ser Pai”.
Essa é uma das maravilhas que desfrutamos por sermos filhos de Deus. Ao passo que estarmos conscientes que o Senhor é Juiz, nos ensina a sermos misericordiosos e amáveis com os que nos cercam.
Bom, mas o Jesus nos apresenta no texto, que envolve essa verdade? Principalmente envolvendo nossa vida como filho de Deus e a prática da piedade entre os que nos cercam?
Bom, Jesus está dizendo que o julgamento de Deus sobre nossa vida será baseado sobre nossa vida, e em como nosso coração se expressa em pensamentos e ações com relação aos outros. Por isso Jesus nos adverte: “Não julgueis”.
Essas palavras estão entre as mais mal-interpretadas das Escrituras, não é mesmo? Quantas vezes você não ouviu, quando alguém comenta sobre uma situação e condena o mal. “Não julgueis”, você já deve ter escutado. O que parece parafrasear a seguinte ideia: “Nunca diga que algo está errado. Não lhe cabe julgar”.
Você consegue perceber o resultado dessa afirmação?
Agir assim leva à conclusão lógica de tratar o bem e o mal da mesma forma e ser indiferente a distinções morais. No fim das coisas o que será bom e mau?
Percebe que pensar assim vai diretamente na contra mão do restante da Escritura? Especialmente com o ensino de Jesus nesta seção do Sermão?
Como assim pastor?!
Leia novamente o versículo 6:
“Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis ante os porcos as vossas pérolas, para que não as pisem com os pés e, voltando-se, vos dilacerem”.
Consegue perceber o que Jesus está falando aqui? Ele fala de homens e mulheres que espiritualmente se comportam como cães e porcos. Estes precisam ser identificados e tratados de maneira apropriada. Isso requer determinado tipo de julgamento? Claro que sim.
Mas, afinal de contas, o que Jesus quer dizer no versículo 1, quando declara:
“Não julgueis, para que não sejais julgados”?
A resposta para a pergunta o que ele quer dizer, encontra-se na ilustração nessa perícope, que se encontra nos versículos 3-4:
“Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão, e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho? Como você pode dizer ao seu irmão: ‘Deixe-me tirar o cisco do seu olho’, quando há uma viga no seu?” (NVI).
Parafraseando as palavras de Jesus:
“Você vê aquele homem?”, Jesus pergunta. “Ele tem uma trave de madeira nos olhos! Mas o que é que ele está fazendo? Ouça-o! “Meu amigo”, o homem está dizendo, “vejo que há uma partícula de poeira no seu olho. Deixe-me tirá-la para você”.
Responda, isso não é ridículo?
O que há de errado com esse homem? Ele está procurando por pecados em outras pessoas, dilacerando-os assim que os encontra, ainda que seja um só. Ele está tão absorto nesse propósito que não enxerga que seus próprios pecados são muito maiores do que qualquer coisa que veja na vida do próximo.
Seu pecado o dominou tão profundamente que este homem tornou-se cego à própria iniquidade. Sensível ao pecado dos outros, ele está insensível ao pecado em seu próprio coração.
Você já testemunhou essa atitude na vida de alguém? Talvez na sua própria? Bom, talvez não desse modo, mas doutra forma, tal como um mecanismo de defesa. Quando por exemplo, mesmo sendo sensível às próprias falhas, basta alguém aponta-las e já atacamos o pecado do outro.
Nesse caso há sensibilidade ao próprio pecado, mas um tipo de sensibilidade que os teólogos chamam de sensibilidade culpada. Esta após tornar-se um hábito, toma a sua vida e então está feito o seu estilo de vida.
Como disse Fergurson:
“Isso, diz Jesus, é a desgraça derradeira do hipócrita. Ele arroga-se uma posição em que esconde dos outros e de si mesmo a verdadeira natureza de seu próprio pecado e culpa. Mas agora ele confunde a encenação com a realidade. Engana-se ele ao pensar que se tornou o que, certa vez, sabia que somente poderia fingir ser — melhor do que os outros.”
O fato de ter descoberto pecaminosidade em seu coração, meus irmãos, ao invés de amolecer seu coração, apenas o endurece ainda mais.
Este espírito de censura revela ter um sintoma comum, ele costuma se manifestar com ira contra alguma injustiça. Não se engane. É correto opor-se a toda injustiça com que nos deparamos. Mas acessos intensos e repentinos de emoção podem, às vezes, ser sinal de sensibilidade pessoal, mas não moral e espiritual.
Lembra da reação de Davi quando Natã lhe fornece uma ilustração óbvia do que estava diante dele como num espelho? Ele se enfureceu. Mas não percebeu que ele estava olhando para si mesmo (2Samuel 12.1-7).
Vejam, não estou insinuando que o ato por si de enfurecer-se contra a injustiça seja hipocrisia. Quem conhece os corações? Somente o Senhor. Mas há algo em comum com o ensinamento de Jesus aqui e o caso de Davi. A saber: o ato de manifestar sentimentos intensos pelo pecado do próximo, ao passo que não lidamos do mesmo modo com o nosso próprio pecado, é hipocrisia.
Por isso alguém já disse:
“O coração que provou da graça e do perdão de Deus sempre será cuidadoso em julgar os outros. Ele já viu a si mesmo merecendo o julgamento e a condenação do Senhor, mas, ainda assim, em vez de experimentar Sua ira ardente, experimentou Sua infinita misericórdia.” Sinclair Ferguson, O Sermão do Monte, trad. Elmer Pires, 1a edição (São Paulo: Editora Trinitas, 2019), 217.
Esta é uma verdade que aprendemos no texto:
Devemos julgar o próximo? Sim. Mas com cuidado e misericórdia.
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