O Rei que dá vista aos cegos (Mc 10.46-52)

O Rei que se tornou servo: sermões no Evangelho de Marcos  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
0 ratings
· 8 views
Notes
Transcript
Título: O Rei que dá vista aos cegos (Mc 10.46-52)

Introdução

Queridos irmãos, temos diante de nós um texto bastante importante na construção do Evangelho de Marcos. Jesus está em direção à Jerusalém, onde ocorrerá a sua paixão e, no caminho, Ele passa por Jericó, uma cidade a cerca de um dia de caminhada de Jerusalém. E como você deve imaginar, para quem está escrevendo “boas novas de Jesus Cristo, Filho de Deus”, a seleção dos acontecimentos anteriores a sua morte e ressureição é uma tarefa difícil. Provavelmente Jesus fez muitos milagres enquanto se dirigia a cruz, mas Marcos faz questão de inserir esse relato. Se nos esquecermos do episódio da figueira infrutífera (Marcos 11.12-14) e da cura da orelha de Malco (Lucas 22.49-51), é o último milagre anterior a sua morte e ressurreição. Com certeza é o último grande milagre público e de cura realizado por Jesus e registrado antes de entrar na cidade para enfrentar Sua Paixão e Morte.
Outra coisa que é interessante notar é que essa porção de Marcos, em que vários episódios destacam o custo do discipulado, inicia e termina com episódios relacionados à cegueira. Diante disso, é inevitável que pensemos que Marcos quis ensinar aos seus leitores - o que nos inclui - que precisamos aprender a ver. Na primeira cena, que muitas coisas veremos processualmente na caminhada com Cristo; na segunda, que precisamos ter nossos olhos abertos para ver Cristo pela fé e o seguirmos.

Exposição

1. O cego Bartimeu (46-47)

Temos aqui uma cena comum no Evangelho de Marcos: Jesus em atividade, saindo de Jericó com os seus discípulos e seguido por numerosa multidão. Na cena entra um homem chamado “Bartimeu, cego mendigo, filho de Timeu, [que] estava sentado à veira do caminho”.
Em primeiro lugar, é importante mencionar que o cego é nomeado. Ele não é apenas “um homem”, ou “o cego de Jericó”, ou um “jovem mendigo” [em contrasto com “o jovem rico”], mas Bartimeu, filho de Timeu. Isso pode, de fato, indicar que Marcos quer traçar um contraste com o jovem rico, mas parece mais provável que Bartimeu se tornou um discípulo conhecido na época em que o evangelho de Marcos foi escrito. Isso enriquece a narrativa por destacar alguém socialmente marginalizado naquela época e dar testemunho de um servo do Senhor.
Por falar em socialmente marginalizado, ser cego e mendigo era quase que uma coisa indissociável para a época. Cegos tinham uma situação de vida ainda mais complicada na sociedade do que nos dias de hoje. Ainda que em meio a muitos desafios, há um atenção maior atualmente do que naquela época, em que as pessoas eram qualificadas pelo que poderiam fazer e criar. Se você não pudesse empunhar alguma ferramenta ou uma espada você não servia para muita coisa. Uma pessoa com deficiência, assim, facilmente se tornava alguém em situação de mendicância.
O texto nos diz ainda que ele estava sentado à beira do caminho, como era comum, principalmente em períodos de peregrinação religiosa. Esse era especialmente o caso: muitos judeus estavam se deslocando para as festividades do período de Páscoa em Jerusalém. Nesses grandes deslocamentos, esperava-se que as pessoas estivessem mais solidárias ao pedintes, fazendo com que mendigos se colocassem em pontos de passagem.
Naquela altura, a fama de Jesus era bem difundida. Timeu já havia ouvido falar dEle e provavelmente já tinha feito planos para um possível encontro - “e se um dia eu me encontrar com ele?”. É interessante que Jesus é chamado “o Nazareno” - não sabemos claramente a razão, mas parece que Marcos quer reforçar que a compreensão que o cego tem de Jesus é genuína.
O cego entende Jesus como “Filho de Davi”. Ou seja, ele nutre expectativas messiânicas em relação a Jesus. Alguns estudiosos afirmam que seria apenas uma forma de judeus se identificarem (“Oi, filho de Davi”), mas não parece ser o caso aqui. Aquele Jesus não é apenas o nazareno, é o prometido Filho de Davi. Claramente, ele contrasta com os discípulos, que vem numa série de incompreensões sobre Jesus e seu ministério.
No clamor ele insere seu pedido. Irmãos, o que se espera receber de alguém está intimamente ligado às expectativas que temos de determinada pessoa. Não esperamos sair do consultório médico com um capuccino italiano, mas com alguns encaminhamentos e talvez um atestado. No caso, ele espera compaixão e cura vindos do Filho de Davi. E aqui temos um ponto importante: ele pede compaixão. Ele não pede primeiro cura, nem mesmo dinheiro ou recursos (uma nova capa, por exemplo).

2. A fé insistente de Bartimeu (48-50)

Eu acho muito curioso como Marcos descreve os acontecimentos. Essas cenas da multidão atrapalhando não são raras. Aqui temos as pessoas impedindo Bartimeu - e, embora não sejam mencionados diretamente, provavelmente os discípulos também estejam entre eles. É como se pensassem “Jesus não tem tempo pra esse tipo de coisa”.
Sabe no sermão sobre as crianças, em que os discípulos pensaram que Jesus não tinha tempo para elas enquanto caminhava para sua morte? Aqui as pessoas pensam que Jesus não tem tempo para pobres enquanto carrega o peso da paixão nas coisas. “Cale-se”, “pare com isso!”, “Jesus não tem tempo pra essas coisas”, “pare de importunar o Mestre”, “você não tem nada para dar a Jesus”. Ali Bartimeu não era apenas um cego mendigo. Era alguém impedido, calado.
Mas ele é insistente. Ninguém impedirá aquele homem de ir a Cristo. A sua fé o impulsiona àquilo que é condizente na sua compreensão sobre Jesus: “Filho de Davi, tem misericórdia de mim!” (Hebreus 11.6 “De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam”). Essa conexão entre fé e insistência não é nova em Marcos: nos lembramos de Jairo, da mulher sírio-fenícia, do amigos do paralítico, do pai do jovem endemoniado. E Jesus para e manda chamá-lo. Aquele que era impedido agora tem uma boa nova: “tem bom ânimo, levanta-se, Ele te chama”.
Sua resposta não pode ser mais comovente e cativante. Ele se levanta e deixa sua capa de lado - e uma capa era um artigo indispensável naquela época, especialmente para um mendigo. Ele salta tal qual uma criança que é convidada para um passeio na praça ou quando ouve que ganhará um presente e foi ter com Jesus.

3. A pergunta de Jesus e a resposta de Bartimeu (51-52)

Jesus lhe pergunta: “que queres que eu faça?”. Não é ele quem pede diretamente - é Jesus quem o inquire. Jesus sonda os desejos do coração. Ele responde: “Mestre, que eu torne a ver”. Aquilo que talvez ele tenha ensaiado por tanto tempo, chegou. Ele pode pedir àquele que pode realizar (Is 42.7). O texto nos mostra que ele perdeu a visão em algum momento da vida. Vale lembrar que na pregação passada Jesus perguntou a mesma coisa a Tiago e João e eles pediram que, na glória, se assentassem um à direita e outra à esquerda de Jesus. Parece que eles também deveriam ter pedido para “tornar a ver”.
A resposta de Jesus é curiosa. Provavelmente qualquer um aqui que já leu grande parte da bíblia ou ouviu alguns sermões sobre os milagres de Jesus já deve ter ouvido o Mestre dizer “a tua fé te salvou”. E temos agora essas palavras aqui em Marcos com Jesus dizendo “vai, a tua fé te salvou”. A palavra para salvação tanto indica cura como é a mesma utilizada para salvação mesmo. Não há, portanto, separação entre cura e salvação aqui. Aquele que chegou com fé ao Filho, e com fé “no” Filho, saiu curado e salvo. Ele imediatamente tornou a ver. Aquele dia mudou radicalmente a vida de Bartimeu.
A conexão final entre os acontecimentos novamente nos chama a atenção: aquele que voltou a ver passou a seguir Jesus. Usando como exemplo as palavras de Fanny Crosby, ao responder a um homem que lamentava sua cegueira, ela respondeu: quando eu chegar ao Céu, a primeira face que meus olhos verão e que se alegrará com a minha vista será a do meu bendito Salvador, Jesus!". Esse homem teve esse privilégio!

Aplicações

1. Precisamos desenvolver uma visão clara sobre a pessoa de Jesus.
“Filho de Davi”, o cego clama. A confissão do título de Cristo estava conectado ao que ele esperava do “Filho de Davi”. Pedro, por exemplo, havia dito “tu és o Cristo”, mas ele não compreendia que “ser o Cristo” envolvia morrer e ressuscitar. Suas palavras sobre Jesus não correspondiam ao que Ele viria fazer. Já o cego, entendia que ser o Filho de Davi envolvia ser aquele que tem poder para curar cegos. Veja bem, não é que o cego tinha uma crença vaga de que Deus pode fazer todas as coisas, mas que Jesus era o Cristo e, portanto, faria aquilo que era profetizado ser a obra do Cristo, e isso envolvia curar os cegos (Is 42.7; Sl 146.8). Uma visão clara de Jesus calibrará nossos corações conforme as expectativas corretas acerca de quem Ele é e do que Ele faz. Será que você vê Jesus pequeno como as igrejas da prosperidade? Será que você vê Jesus apenas como um terapeuta; ou um guru; ou um coach? Será que você olha pra ele com desconfiança ou como alguém que tem pode apenas para consertar a sua vida?
2. Precisamos aprender sobre uma fé insistente - não teimosa.
Primeiro, entender que confissão positiva é paganismo. Ela expõe nossa vontade de sermos deuses e criar por nossas palavras. Ela engana fazendo pensar que prepotência é fé - que o futuro é estabelecido por nossos desejos do agora. Segundo, que teimosia é insistir naquilo que obviamente não é a vontade de Deus - não é pois esta fundamentado em algo de motivação pecaminosa, ou que eventualmente nos afastará de Deus, ou que nutre nossos desejos egoístas (imagine Tiago e João insistindo no seu pedido egoista?). Terceiro, que insistir é a expressão em súplica da confiança no poder e no caráter de Deus. Insistirmos naquilo que é coerente com o caráter de Deus, que redunda em glória para Ele e que firma nossos passos em seguí-lo. Lembre-se de Bartimeu. Nada o impediria de chegar a Jesus. Ela tinha ouvido falar de Jesus e confiou. Ele o buscou. De fato, todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo
3. Precisamos aprender a ver a Cristo.
Aprender a ver é a grande lição dessas duas cenas da porção que expomos no livro de Marcos. Precisamos ver melhor a Cristo e precisamos ver melhor aquilo que Ele tem feito. Ele é o Filho de Deus que tem tempo para mendigos como você e eu. Sua compaixão não é comum. Ele é aquele que exerce misericórdia aos que clamam a Ele. Ele é aquele que salva por livre graça. Ele é a expressão encarnada da misericórdia de Deus em não nos dar aquilo que merecemos, mas nos dar perdão de pecados e abrir os nossos olhos para a fé. Ele é aquele que morreu para nos dar vida quando ainda éramos pecadores. Ele é aquele que nos pôs no seu caminho para o seguirmos.
4. Precisamos aprender a ver o que Cristo tem feito.
Queridos, tem coisas sobre o Reino de Deus que não vemos não porque não estão acontecendo, mas porque estamos cegos. No culto, contemplamos a beleza de Deus através da Palavra cantada, orada, anunciada e aplicada às nossas vidas. Você tem visto? Na igreja, Deus tem dirigido seu povo pela exposição fiel das Escrituras, ensinado seu povo a como adorá-lo, feito casais crescerem, pessoas chegarem à fé, jovens a lutarem suas batalhas, pessoas a encontrarem descanso e conforto em Cristo. Você tem visto? No mundo, Deus tem criado para si o povo da eternidade e que aguarda a sua segunda vinda. Você tem visto? Que Deus abra os seus olhos!
SDG
Related Media
See more
Related Sermons
See more
Earn an accredited degree from Redemption Seminary with Logos.