A identidade do Evangelho
Sermon • Submitted • Presented
0 ratings
· 7 viewsNotes
Transcript
Ilustração
Ilustração
No ano de 1508, Martinho Lutero, monge agostiniano, começou a lecionar Filosofia e depois de teologia na recém formada Universidade de Wittenberg. Nessa época ele era profundamente atormentado pela consciência do pecado e pela ideia da justiça de Deus. Ele via Deus como um juiz severo e temia nunca conseguir ser justo o suficiente para merecer a salvação. Por isso, submetia-se a jejuns rigorosos, longas confissões e práticas ascéticas, tentando alcançar a paz interior pela justiça das obras.
No prefácio de uma de suas obras, já espiritualmente maduro, Lutero se lembrou do passado dizendo: “Eu odiava essa expressão ‘justiça de Deus’... porque, segundo o uso e costume de todos os doutores, eu havia aprendido a entendê-la filosoficamente como a justiça pela qual Deus é justo e pune os injustos. Ainda que vivesse como monge irrepreensível, tinha a consciência inquieta diante de Deus.”
Tudo mudou quando, como professor de Bíblia, lecionando aulas sobre Romanos, ao se preparar estudando Rm. 1. 16-17, Lutero iluminado pelo Espírito Santo entendeu que a “justiça de Deus” mencionada por Paulo não era a justiça pela qual Deus nos pune, mas a justiça que Deus concede gratuitamente ao pecador pela fé em Cristo. Essa descoberta se tornou o coração da Reforma Protestante: a doutrina da justificação pela fé somente (sola fide). A partir daí, Lutero passou a pregar que a salvação é um dom gratuito de Deus, recebido não por méritos ou obras, mas pela fé no sacrifício redentor de Cristo.
Introdução
Introdução
Sempre que nos dispomos a pensar e a falar sobre um determinado assunto uma atividade preliminar de grande valor é a definição de termos. No texto em questão vemos o argumento de Paulo a respeito do poder e da justiça de Deus manifestos no contexto da salvação do homem no Evangelho. Uma vez que nós vivemos em um contexto marcado pelo esvaziamento e pela desconstrução de conceitos, valores e absolutos, é de fato muito importante que detenhamos nossa atenção inicial àquilo que a Escritura apresenta como o Evangelho.
É muito provável que você já tenha assimilado o conceito de Evangelho como a boa-nova da salvação. E esse conceito sintetiza de maneira satisfatória aquilo que o Evangelho é de fato. No entanto, é igualmente possível que munidos apenas dessa definição sintética nós não consigamos apreender as profundas nuanças dessa boa notícia dada por Deus. Com isso em mente, gostaria de direcionar você à consideração dessa boa notícia de uma forma um pouco mais profunda, como a mensagem fundamental da esperança e da salvação que foi providenciada por Deus na eternidade e que está enraizada na história e nos atos de redenção realizados por Deus, dos quais o foco central está nos eventos históricos do nascimento, da morte e da ressurreição de Jesus.
Em Romanos 1, o apóstolo Paulo faz uma eloquente defesa da graça, do poder e da justiça de Deus manifestos nessa mensagem de salvação. O Evangelho, segundo o apóstolo, revela o Cristo prometido nos tempos antigos pelos profetas, leva os homens a Deus por fé para que sejam contados entre os santos, quer judeus ou gentios. Dada a grandiosidade e a importância dessa mensagem, o apóstolo afirma não se envergonhar dessa mensagem. E de fato em sua vida é isso o que vemos. Não vergonha, mas apego, amor, zelo e disposição no anúncio da mensagem que transforma vidas e tem implicações eternas.
Frase de Transição
Frase de Transição
Considerando essas questões, convido você para que consideremos nessa noite, o texto lido a partir do tema: A identidade do Evangelho. Veremos brevemente as duas questões principais delineadas pelo apóstolo sobre a boa-nova da salvação.
1. O Evangelho é a manifestação do poder salvador de Deus - v. 16
1. O Evangelho é a manifestação do poder salvador de Deus - v. 16
O texto que recebe nossa atenção nessa noite foi direcionado por Paulo aos crentes de Roma. Essa era uma cidade extraordinária com uma história rica e complexa. Capital da República Romana e do Império Romano, era a maior e mais influente cidade do mundo conhecido na época em que a epístola fora escrita, por volta de 57 d.C. A cidade em si era um cartaz da que demonstrava o poder do Império, que era no período a grande potência político-militar.
Os imperadores haviam conquistado nações e territórios. Impérios inteiros, como é o caso do Império Grego, haviam sucumbido diante de Roma. Mas, quão forte é, na verdade, a mão do homem? Quão longe pode chegar o braço estendido de governantes e generais? Se os Romanos se orgulhavam do poder e da força pelos quais haviam conquistado o mundo, Paulo estava agora em sua epístola, demonstrando que há um poder superior. Um poder que influencia não apenas a história temporal, mas que define a eternidade de todo homem. Categoricamente Paulo demonstrou em sua carta que o Evangelho de Deus, a mensagem proclamada por ele, é um poder superior, porquanto é o poder do próprio Deus.
Perceba que o apóstolo não associa o Evangelho a nenhum poder humano; portanto, o homem não pode ser sua medida. Da mesma forma o Evangelho e o poder por ele revelado não estão associados sequer ao magistério eclesiástico, portanto, Ele não é determinado, limitado ou condicionado por qualquer autoridade religiosa. O Evangelho e seu poder não estão ainda associados à eloquência daqueles que o pregam, visto que todo pregador, como afirma o próprio Paulo, é mero instrumento de Deus, agindo simplesmente como um carteiro que entrega aos homens uma mensagem que não fala nada a respeito dele mesmo. O Evangelho, segundo Paulo o anuncia aos romanos, é o poder de Deus. E nessa afirmação do apóstolo encontramos o eco de toda a Escritura que atesta a realidade de que Deus é de fato a fonte de todo o poder:
Salmo 147.5 “5 Grande é o Senhor nosso e mui poderoso...”
Apocalipse 19.6 “ Aleluia! Pois reina o Senhor, nosso Deus, o Todo-Poderoso.”
Portanto, o que Paulo tem em mente ao falar do Evangelho como poder de Deus é a intenção de demonstrar que no Evangelho o próprio Senhor revela a si como o Rei soberano que é capaz de fazer todas as coisas, aquele que no exercício do poder ilimitado determina tudo o que acontece; que levanta e depõem reis; que mata e faz viver; que criou tudo a partir do nada e sustenta todas as coisas fazendo com que tudo, absolutamente tudo, dependa dele, sem que Ele mesmo dependa de qualquer coisa. Mas a beleza e a grandiosidade desse texto reside no fato de que Paulo associa o poder de Deus revelado no Evangelho a algo mais especial: o destino eterno o homem em sua salvação.
Segundo o apóstolo explica, o Evangelho manifesta o poder de Deus para a salvação. E creio que você esteja de certa forma familiarizado com o conceito de salvação. Mas me deixe delinear esse conceito brevemente. Na teologia Paulina, e vemos isso de maneira muito clara nas epístolas direcionada a Romanos, Coríntios, Gálatas e Efésios, a salvação implica no resgate da culpa ( Ef. 1. 7); da purificação da imundície do pecado (Rm. 6. 6); da libertação da escravidão sob o pecado (Rm. 7. 24); da liberação do castigo da morte eterna (Ef. 2. 5-6). É por meio da salvação que homem se encontra justificado diante de Deus (Rm. 5. 1); desfruta de santa liberdade e comunhão com Deus (Rm. 6. 1; Gl. 5. 1; Ef. 2. 13), e aguarda o cumprimento da promessa da vida eterna (Cl. 3. 1-4). Em outras palavras, o Evangelho é o poder de Deus para salvação que emancipa o homem do maior mal e o coloca na posse do maior bem.
E a essa altura duas questões devem ser levantadas: Quem necessita de salvação? E, a quem é oferecida a salvação? A resposta para essas duas perguntas é uma só: todos os homens. Todo homem necessita de salvação por um motivo apresentado pelo próprio Paulo:
Romanos 3.23 “23 pois todos pecaram e carecem da glória de Deus,”
Como essa é a maior carência de todo e qualquer homem, o Evangelho da Salvação deve ser pregado indistintamente a todo e a qualquer homem, pois, a salvação não é uma bênção restrita, nem um benefício tribal. Paulo atesta que a salvação é para judeu e também para o grego, ou seja, ela é para todos os homens, independentemente de sua raça, nacionalidade, idade, sexo, condição social, grau de educação ou cultura, o Evangelho apresenta o chamado da graça salvadora.
Diante do poder de Deus que manifesto no Evangelho, que chama os homens para que sejam salvos, uma coisa apenas é necessária: Fé! A salvação é para todo aquele que crê. Pois, a todos quantos recebem a Cristo pela fé, é concedido o privilégio de serem aceitos e recebidos como filhos amados de Deus (Jo. 1. 12).
2. O Evangelho é a comunicação da justiça que opera pela fé - v. 17
2. O Evangelho é a comunicação da justiça que opera pela fé - v. 17
Na continuidade da exposição à respeito daquilo que de fato é o Evangelho, o apóstolo Paulo, no v.17, apresenta uma segunda nuança que funciona tanto como a explicação, quanto como a confirmação de que essa mensagem oriunda de Deus é o seu próprio poder manifesto para a salvação. O que Paulo faz aqui é estabelecer uma relação entre justiça e salvação. E para nós, a essa altura, é importante compreender como ambas se comunicam.
Para falicitar nossa compreensão, quero tomar emprestadas as palavras de João Calvino, que comentando o texto dessa epístola estabelece a seguinte explicação:
Romanos Versículos 16 a 17
Para que o homem seja salvo é necessário primeiro que ele esteja em uma posição de justiça, na qual se encontre reconciliado com Deus e tenha a condição de tomar posse da vida, que consiste exclusivamente no fato de Deus o amar e se tornar favorável a ele. A justiça é necessária, pois, não o amará a não ser que seja justo, posto que em sua Santidade o Senhor odeia a injustiça. Dessa forma, o Evangelho é essencial para a salvação, pois, em nenhuma outra parte o Senhor comunicou a sua justiça que é a única que livra o homem da morte.
Então ao associar a justiça e salvação o apóstolo Paulo estabelece uma lógica argumentativa que faz com que seu ensino se desenvolva organicamente em um movimento que parte da causa e caminha para o efeito. Nessa estrutura a justiça é a causa, e a salvação é o efeito. Em outras palavras, a justiça de Deus revelada no Evangelho é a base e a razão pela qual a salvação do homem é concretizada.
Quando olhamos para o texto grego nos deparamos com a palavra δικαιοσύνη (dikaiosyne), traduzida como justiça, que indica um estado jurídico que satisfaz as exigências morais do caráter de Deus. Uma vez que o padrão da justiça é o próprio Deus, que é Santo e perfeito, concluímos que para que o homem seja salvo se faz necessária a comunicação de uma justiça igualmente santa e perfeita, que não pode ser nenhuma outra se não a do próprio Deus. E talvez a essa altura você se pergunte: Que justiça é essa, e como o Evangelho a revela para a salvação do homem? E a resposta para essa questão não se apresenta como um conceito, mas como uma pessoa.
A justiça de Deus revelada no Evangelho para a nossa salvação é Jesus Cristo. Mais uma vez, quando Paulo fala sobre a justiça, usando a palavra δικαιοσύνη (dikaiosyne), ele alude à adequação àquele padrão moral perfeito estabelecido por Deus, e Cristo é aquele que se encarnando viveu perfeitamente adequado ao padrão moral de Deus, em plena justiça. Mas não apenas isso. Cristo não só viveu de maneira perfeita satisfazendo as exigências morais do caráter de Deus, mas ele também se submeteu espontâneamente à punição exigida em face da transgressão do padrão moral estabelecido na santa lei de Deus, ainda que ele mesmo não a tivesse transgredido. Vemos o próprio Paulo atestanto isso na segunda epístola destinada à igreja em Corinto:
2Coríntios 5.21 “21 Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus.”
A questão agora é: Como a justiça de Deus manifesta pelo Evangelho opera na vida do homem para a salvação? Quando olhamos para o texto percebemos claramente que há um elemento fundamental que é comum à justiça e à salvação. Esse elemento é a fé. Na primeira cláusula (v.16) a salvação é para todo o que crê. Na segunda cláusula (v.17), a justiça de Deus é comunicada pela fé, de maneira que o justo vive pela fé. Deus comunica a sua justiça no Evangelho, mostrando não apenas a miséria e a incapacidade moral e espiritual do homem, mas apresentando Cristo, que executa plenamente sua justiça, tanto na vida da quanto na morte, trabalhando como o mediador entre Deus e o homem, solucionando o grande dilema da humanidade. A justiça de Cristo opera no coração para a salvação por meio da fé. Ou seja, quando o homem se aproxima de Cristo pela fé, em confiança e sujeição absoluta, o próprio Deus credita os méritos de Jesus ao homem e o declara justo, para que possa então viver justamente diante de seu Senhor. Paulo finaliza seu argumento, realizando uma citação do profeta Habacuque: O justo viverá pela fé. Para Paulo não restavam dúvidas de que a fonte da vida plena, tanto no presente, quanto na eternidade, não é outra se não a fé que leva o homem em confiança, dependência e submissão total a Deus, por meio de Cristo, o eterno e suficiente redentor.
Aplicação: Talvez assim como Lutero no passado, você ainda tenha dúvidas quanto a salvação e esteja inquieto por isso. Talvez você acredite erroneamente que está muito longe para ser alcançado pela graça de Deus, ou que os seus pecados sejam grandes demais, até ao ponto de sobrepujar o poder de Deus. Pode ser no, entanto, que você esteja em um outro extremo e confie demais em suas habilidades, em seus próprios méritos e qualidades, e acredite que de alguma forma, por algo que você faça ou tenha feito, a sua salvação está garantida. Saiba que em qualquer um desses casos você está errado. Não há nada que você possa fazer, para garantir sua salvação. Mas também não há nada que você tenha que realizar para ser salvo. Da mesma forma não há um lugar tão distante em que você possa estar no qual Deus não possa te alcançar, assim como não há transgressão tão imunda que impeça o coração de ser purificado pelo sangue de Cristo. Saiba que todo o trabalho que é necessário para sua salvação já foi realizado. Você não precisa e não deve confiar em sua justiça própria, em suas qualidades, em sua performance. O que você precisa é apenas de Fé! É necessário apenas crer. E talvez você se pergunte: O que é crer? Como crer? Crer é confiar, é encontrar segurança, é se reclinar nos braços de Cristo, é se render a ele em dependência e submissão, é descansar na certeza de que em Jesus os pecados são perdoados, o escrito de dívida cancelado e que por meio dele o próprio Deus recebe a você, como está, com seus medos, com suas falhas e temores, como um filho amado. É isso tudo o que é necessário. Crer é rogar a misericórdia, elevando as mãos vazias a Deus, o doador de todo bem. Nenhum homem tem naturalmente a fé necessária para isso. A boa notícia é que a fé é dom de Deus, do início ao fim. Peça a fé ao Senhor, para que sua vida seja submetida a Ele, afim de que em seu coração atue plenamente o poder para sua salvação e alegria eterna.
