O Rei chega à Jerusalém (Marcos 11.1-11)

O Rei que se tornou servo: sermões no Evangelho de Marcos  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
0 ratings
· 13 views
Notes
Transcript
O Rei chega à Jerusalém (Marcos 11.1-11)

Introdução

Temos caminhado em nossas exposições em Marcos, nesta série “O Rei que se tornou servo”, e agora iniciamos a parte final do livro de Marcos. Percorremos 10 capítulos sobre o cotidiano do ministério de Jesus e passamos agora para 6 capítulos que tratarão da sua última semana. Estes seis capitulos podem ser divididos em 2 grandes seções. A primeira, do capítulo 11 ao 13, que revela a tensão entre Cristo e o templo em Jerusalém, revelando uma ruptura com o sistema religioso e sua liderança. Jesus entra de forma bem receptiva em Jerusalém, mas não é bem recebido no templo (Mt 21.10,11). Essa entrada triunfal será sucedida por indiferença, depois por oposição (Mc 11.28) e, por fim, por sua condenação e morte (Mc 14.63,64). É onde temos a segunda e última seção do livro, exatamente na porção do sofrimento, morte e ressurreição de Jesus (Mc 14.1-16.8).
O trecho de hoje apresenta o que se conhece como “domingo de ramos”. Marcos conecta com o início da semana da paixão, seja por estar dentro do tema do templo, como alguns estudiosos sugerem, seja por ser o domingo da semana da paixão. De qualquer forma, temos Jesus com sua plena consciência de Rei, cumprindo tudo que lhe estava proposto fazer. O Messias esperado está entrando na cidade. E ênfase do texto está precisamente nele como Rei (ordem, arautos, recepção com roupas e ramos, etc.). Ao mesmo tempo, a multidão não sabe quem, de fato, Jesus. A aclamação é de uma gritante vida curta, onde os que o recebem com “Hosana” em poucos dia, na sexta-feira, irão clamar por sua crucificação.
O texto diretamente nos leva a refletir sobre como vemos Jesus. Sobre se o temos de fato como Rei e sobre como nossas atitudes se conectam com a nossa compreensão sobre Ele.

Exposição

1. A preparação para a entrada em Jerusalém (1-6)

Temos Marcos nos trazendo novamente a Jerusalém - tudo o que fora relatado acerca do que aconteceria lá está se aproximando. Não é apenas uma aproximação geográfica, mas dos eventos da Paixão. Marcos, que poucas vezes menciona o nome de lugares, cita o Monte das Oliveiras, provavelmente como uma forma de associar o local a sua importância messiânica (Zc 14.4; Ez 11.23; 43.1-5), pois há profecias relacionando o local com o juízo final.
O texto nos diz que Jesus enviou dois dos seus discípulos para buscar um jumentinho. A figura do Rei é pela primeira vez trazida, visto que arautos costumavam ser enviados de dois em dois (Mc 6.7; 14.13). A missão é apresentada: “ide à aldeia que aí está diante de vós, achareis preso um jumentinho, o qual ainda ninguém montou, desprendei-o e trazei-o”. A descrição de Jesus remete à tradição de que um animal usado por Deus não tinha sido usados por outras pessoas (Nm 19.2; Dt 21.3; 1Sm 6.7). Isso o tornava adequado para um rei, visto que, conforme a Mishná, por exemplo, ninguém mais pode cavalgar o cavalo de um rei. Ou seja, havia uma ato messiânico consciente da parte de Jesus. Ele pretende entrar em Jerusalém como Rei de Israel e está arranjando tudo.
O texto continua com a demanda de Jesus: “Se alguém vos perguntar: por que fazeis isso? Respondei: O Senhor precisa dele e logo o mandará de volta para aqui”. Será que Jesus está mandando roubar um jumento? Precisamos entender bem o que está acontecendo. Jesus conhecia muito bem aquela região, o trajeto entre Betânia e Jerusalém, e talvez soubesse da existência de jumentinhos ou até mesmo que possuía seguidores naquela região. Estes, ao ouvirem que o Senhor Jesus quem solicitava, seriam solícitos em atender.
Mas precisamos observar que propósito de Marcos é destacar a pré-ciência divina de Jesus: ele sabia sobre a existência do jumentinho, de seu estado cerimonial, que estava preso, qual objeção poderia surgir e como os homens reagiriam a demanda do Senhor. Ademais, que reis - ou mesmo soldados romanos - tinham a prerrogativa de “confiscar” animais para uso pessoal (Mt 5.41), assim, outro ponto que enfatiza a figura de Jesus como rei na passagem. Isso tudo é reforçado pela continuação do texto que relata que tudo ocorreu exatamente como Jesus descreveu.
Algo que podemos mencionar, antes de ir para o próximo ponto é que, embora Jesus esteja plenamente consciente do que está se desenrolando, é provável que os discípulos jamais imaginassem que aquele jumentinho seria utilizado como meio de transporte para o Rei. Isso não se daria pela ausência das profecias ou de imagens do Antigo Testamento (Zc 9.9; Gn 49.11) mas pela constante falta de percepção dos discípulos.

2. A entrada de Jesus em Jerusalém (7-11)

Falamos sobre o Antigo Testamento e é exatamente ele quem enriquece nossa leitura desse texto. Os discípulos preparam o jumentinho para a montaria e o povo recebe Jesus nas ruas da cidade. Uma multidão - Jesus era muito conhecido, especialmente pelos galileus que peregrinavam para as festividades da Páscoa - andava com Jesus e muitos estendiam suas vestes e outros ramos no caminho. Claramente não é apenas uma forma de receber peregrinos na cidade santa. Está ocorrendo algo como uma homenagem a um rei (2Rs 9.13; o livro apócrifo de Macabeus demonstra que balançar ramos era homenagem a soberanos, 1Mc 13.51; 2Mc 10.7). Zacarias 9.9 afirma: “Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém: eis aí te vem o teu Rei, justo e salvador, humilde, montado em jumento, num jumentinho, cria de jumenta”. Sabemos ainda que adornar com ramos fazia parte da adoração festiva do Salmo 118.27.
A continuação do texto diz que a multidão saúda Jesus clamando: “Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito o reino que vem, o reino de Davi, nosso pai! Hosana, nas maiores alturas!”, citando o Sl 118.25,26. “Hosana” significa “salve”, “salva-nos agora”. Expressões ligadas à expectativa de que o descendente de Davi - ou os descendentes - voltariam a reinar (Is 9.7; 11.1; Jr 23.5,6). Davi é o pai não somente no sentido de dinastia, mas também de “libertador” (Is 9.6; 2Rs 13.14). No entanto, naquela época, a expressão tinha ganhado uma conotação de ação de graças, um tipo de interjeição, e era muito utilizada para recepcionar os peregrinos, principalmente naquele ambiente de festa, de reencontro, com a cidade cheia e hospitaleira.
Os salmos 113-118 (seção Hallel) eram geralmente cantados na época da Páscoa, estando frescas na memória do povo. A esperança da restauração do reino davídico era intensificada na época da Páscoa - e talvez por isso eles acrescentem “reino de Davi” a citação do salmo. Lembremos que a Páscoa lembrava o povo da libertação no Egito. Ou seja, não seria forçoso entender que as multidões viam Jesus como o provável Messias e que viam ali alguma esperança na libertação de Israel de Roma.
Porém, essa visão messiânica deles não é tão convicta - tanto que os soldados não viram ali nenhum tipo de ameaça. Verdade é que essa expectativa de libertação foi tão sutil ao ponto de não entrar na acusação posterior contra Jesus por parte das autoridades judaicas. Por isso, precisamos pensar bem sobre algo: temos uma leitura desse texto a partir de uma compreensão cristã posterior, o que nos faz ter uma visão mais otimista da cena. Aquilo que é tratado muitas vezes como uma entrada triunfal, na verdade, é a recepção festiva de uma multidão equivocada.
Jesus é visto como alguém de destaque - e mesmo que entendam que Ele é o Messias, o Rei de Deus, não sabem o que o Messias fará. Talvez eles queriam que Ele trouxesse o reino agora e atacasse seus inimigos (os romanos), mas eles não queriam um Salvador que os confrontasse em seu pecado. Há uma “cristocidência” entre a preparação de Jesus em entrar como Rei e ser recebido como rei, ao ponto de não impedir a aclamação do povo, rompendo o “silêncio messiânico”, mas a aclamação do povo é de uma gritante vida curta, onde os que o recebem com “Hosana” em poucos dia, na sexta-feira, irão clamar por sua crucificação.
O texto encerra de uma forma surpreendente - talvez até “negativamente” surpreendente para quem não conhece o final da narrativa. Jesus chega a Jerusalém - no templo, e observa tudo. E a multidão? Onde está? Ela some. É um total anticlímax. A multidão com certeza não sabe quem ele de fato é. Ele observa o templo, mas o templo não o observa. Ele não é reconhecido. Nenhum líder religioso o saúda. No centro da fé de Israel ele está só. Por fim, Ele saiu para Betânia com os doze.

Aplicações

1. Cuidado com a Adoração Falsa

Queridos, uma má compreensão sobre Jesus gera uma adoração falsa. A multidão tinha percepções erradas sobre Jesus, achando que ele se tratava de um Rei e Messias que não correspondia ao que Ele se propôs a ser: o Rei Redentor.
A multidão queria um rei para atacar seus inimigos e satisfazer seus desejos carnais (o reino agora, a prosperidade). Eles não queriam um Salvador que os condenasse por seus pecados. Quando Jesus os denunciou como corruptos e pecadores, eles O odiaram.
Você precisa se perguntar por que você segue Jesus? Você "coroa" Jesus pelos motivos errados? Por exemplo, quando as pessoas vêm a Ele para obter o que querem (cura, sucesso, prosperidade) e não para serem salvas do que realmente precisam (pecado, morte e julgamento).
Meus irmãos, uma percepção equivocada de Jesus, por mais que pareça sincera de início, se revelará como uma rejeição radical d'Ele. Se Jesus não lhes entregasse o que queriam, Ele era descartado. É por isso que, poucos dias depois, a mesma multidão gritou: "Crucifica-O! Crucifica-O!"
Teste sua Confissão: Será que nossas atitudes são condizentes com o que confessamos sobre Jesus? Se Ele for seu Senhor e Salvador, você não vem a Cristo com suas exigências e seus desejos carnais. Você vem a Ele falido, vazio e quebrado, pedindo que Ele o resgate do pecado e da morte. Ele não dará o que sua carne deseja, mas dará bênçãos que você jamais poderia imaginar, alegrias indescritível pela graça em Cristo Jesus.

2. Um Reino Diferente, Um Rei Diferente

Me lembro que essa foi uma frase que trouxemos no início dessa série e ela volta aqui com toda a carga de efeito, pois é muito gritante o Messias entrar em Jerusalém montado em um jumentinho.
Este Rei é diferente. Jesus não veio com um exército armado, mas "em paz". Quem poderia imaginar o Messias chegando num jumentinho, ao invés de com cavalos de guerra?
A profecia de Zacarias (Zc 9.9) estabelece um profundo contraste com a majestade esperada por qualquer ser humano. Ele tinha a intenção de se revelar como o Rei de Israel, e a forma como construiu essa expectativa messiânica foi como um Rei montado humildemente sobre um jumentinho.
E o mais interessante: a sua humildade não é apenas devida ao animal, mas ao Seu próprio caráter (Mt 11.28-29: Ele é manso e humilde de coração). Este é o nosso Rei!

3. O Rei Que Veio Vencer o Pecado

A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém está indelevelmente ligada à Cruz.
O que chama a atenção na passagem que lemos não é apenas o que acontece (a aclamação), mas o que não acontece (Ele não assume o trono político, não convoca um exército). O verdadeiro propósito da vinda de Jesus não era político, mas redentor.
O nosso relato é do Rei que vem, mas que ao mesmo tempo é o sacrifício pelo pecado. É assim que o Rei libertará o Seu povo. Por isso, Ele vem “em paz”.
Ele vem para lidar com a verdadeira necessidade da humanidade: não estar livre de Roma, mas livre do pecado, da culpa e do Diabo (Mc 10.45; 14.24).
Os leitores de Marcos sabem que Jesus entra em Jerusalém com a expectativa de que Ele morra, conforme o decreto de Deus, como resgate pelo pecado. Ele vencerá, mas vencerá também o pecado e a morte!
Ele usa o jumentinho agora para ser o Cordeiro Sacrificial, mas usará o cavalo branco em Sua Segunda Vinda (Ap 19) para reinar como Juiz e Senhor. Este é o nosso Rei!
SDG
Related Media
See more
Related Sermons
See more
Earn an accredited degree from Redemption Seminary with Logos.