O Rei e o Templo (Mc 11.12-21)
O Rei que se tornou servo: sermões no Evangelho de Marcos • Sermon • Submitted • Presented
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O Rei e o Templo (Mc 11.12-21)
O Rei e o Templo (Mc 11.12-21)
Introdução
Introdução
Meus queridos irmãos, a passagem de hoje faz parte da primeira das duas últimas seções do livro de Marcos. Dos capítulos 11 ao 13, vemos as tensões crescentes entre Jesus e o Templo – um prenúncio das novas realidades que surgirão na nova aliança, firmada em Sua morte e ressurreição. A seção posterior, então, nos leva aos eventos da Paixão e da ressurreição de Nosso Senhor.
Essa porção é a continuidade natural do sermão passado, em que falamos da chegada triunfal de Jesus em Jerusalém. Ali, Ele é recebido como Rei – embora o povo não compreendesse plenamente a natureza de Seu reinado humilde e sacrificial. Seu destino era o Templo, e foi lá, onde Ele observou o que ocorria e não recebeu a mesma recepção calorosa da entrada da cidade, que inicia o contexto da nossa passagem de hoje. Terminaremos essa perícope na próxima semana, com lições sobre fé e oração.
Hoje, Marcos 11.12-21 nos ensina sobre o propósito verdadeiro do Templo e a frutificação esperada dos filhos de Deus. Estejam atentos e preparem seus corações: Jesus não veio para inspecionar, mas para confrontar e restaurar.
Exposição
Exposição
No dia seguinte – imediatamente após a entrada triunfal –, Jesus sai de Betânia com fome. Ele vê de longe uma figueira com folhas viçosas e se aproxima, esperando encontrar algo para saciar sua necessidade. Mas só há folhas: nada de frutos incipientes (os “págos” ou “paggim”, que aparecem antes dos figos maduros e formam-se antes das folhas) ou figos propriamente ditos.
Marcos nos informa que “não era tempo de figos”, complicando nossa interpretação. Não se trata de Jesus sendo rude com a planta, exigindo o impossível – não era um problema ecológico ou botânico (e, lendo Marcos até aqui, conhecemos o caráter de Jesus). A figueira, com suas folhas exuberantes, comunicava uma promessa falsa: “Espere fruto em mim!” Mas era vazia. Esse episódio é, então, parabólico (parábola encenada, cf. Victor de Antioquia, séc. V) e deveras estranho – o primeiro “milagre negativo” de Jesus –, apontando para uma lição profunda: não sobre árvores, mas sobre o Templo e as lideranças religiosas de Israel (Jr 24). Era comum o uso da figueira como símbolo de julgamento (Is 34.4; Jr 8.13; 29.17; Os 2.12; 9.10; Jl 1.7; Mq 7.1). Como em Oséias 9.10, ela simboliza o povo de Deus, que outrora era como uvas no deserto, mas agora oferece apenas decepção – uma aparência de vitalidade que mascara a esterilidade espiritual. Por isso, Marcos constrói o texto em “sanduíche”: figueira, templo, e de volta à figueira.
Com autoridade profética, Jesus declara: “Nunca mais coma alguém fruto de ti, para sempre!” Os discípulos ouvem, e o juízo é pronunciado. É um prenúncio simbólico do julgamento sobre o Templo, que aparenta vitalidade religiosa, mas carece de essência. Quando a figueira seca completamente, das raízes para cima – como veremos ao final e reforçaremos na próxima semana –, vemos o juízo total: não uma poda superficial, mas uma raiz podre exposta, ecoando as maldições da aliança em Deuteronômio 28 por desobediência. A figueira não era só estéril; era uma “árvore mentirosa”, como o pregador Rômulo Monteiro bem destaca – folhas como propaganda falsa, enganando o viajor faminto. Assim o Templo: rituais vistosos, mas coração distante de Deus (Jr 7.4). Jesus, o Rei inspecionador, revela isso para nos chamar à autenticidade – um chamado ao retorno à vocação espiritual.
Para entendermos essa conexão profunda, vejamos três temas que Marcos tece como um tapete: primeiro, aparência versus essência, nos versos 12-14 – Deus vê além das "folhas" e busca frutos de justiça em nossas vidas. Segundo, zelo pela santidade, nos versos 15-17 – o Templo deve ser oração inclusiva, não um mercado egoísta. Terceiro, confronto com a hipocrisia, nos versos 18-19 – o Rei incomoda os poderosos, mas atrai os humildes. Vejam: a figueira sem fruto “enquadra” o Templo como um espelho – ambos prometem, mas não entregam. E é isso que leva Jesus à ação...
Curiosamente, essa semana meu vizinho falou de seu pé de laranja: passou mais de um ano aparentando que daria boas laranjas – mas demorou a frutificar. Quando ele foi olhar as raízes, elas estavam estragadas. [] Imaginem uma loja na rua principal: fachada reluzente, vitrines cheias de promessas – “Venha e compre o melhor!” Mas ao entrar, prateleiras vazias, nada para levar. É frustrante, não? Assim era a figueira: folhas como propaganda, mas zero substância. E o Templo? Mesma história – um “mercado espiritual” que consumia, mas não nutria. Jesus, faminto por fruto genuíno, não podia ignorar: ao invés de ver adoradores, viu apenas comerciantes da fé.
Logo em seguida, eles chegam a Jerusalém. Jesus entra no Templo e explode em ação: expulsa os que vendiam e compravam, derruba as mesas dos cambistas e as cadeiras dos vendedores de pombas (o único sacrifício acessível aos pobres, conforme Levítico 1.14; 5.7). Ele até impede que alguém carregue mercadorias/utensílios pelo Templo – o que poderia ser entendido até como os animais para o sacrifício, uma imagem bastante impactante. Por quê? Os cambistas trocavam moedas estrangeiras pela moeda do Templo (o siclo de Tiro, o mais próximo do siclo hebraico, Ex 30.13-16), e o povo comprava animais para sacrifícios ali mesmo – em vez de trazê-los de casa (Dt 14.24-27; Ed 7.17). Imagine os preços inflacionados! Esse "bazar" de animais “certificados” sob o controle dos sacerdotes; o câmbio com ágio de 4 a 8%. O átrio dos gentios, projetado para oração de todas as nações (1Rs 8.41), virara um antro de exploração, bloqueando o acesso dos estrangeiros e dos humildes ao encontro com Deus.
Jesus cita as Escrituras para ensinar a multidão: “Não está escrito: ‘A minha casa será chamada casa de oração para todas as nações’? (Is 56.7); Mas vós a tendes feito covil de ladrões (revolucionário; nacionalismo religioso, cf. Josefo)!” (Jr 7.11). O propósito fora subvertido: de benção universal para serviço egoísta. O problema não era o comércio em si, mas o desvirtuamento do Templo. Jesus não encontra adoradores, mas ladrões! Jeremias 7 denuncia esse mesmo pecado – um templo cheio de rituais, mas vazio de justiça e misericórdia. Embora os que exploram os pobres pensem se proteger no templo, Deus o destruirá (Jr 7.3-15). Jesus não só expulsa ladrões; interrompe uma vocação perdida: o Templo deveria abençoar nações (Gn 12:3), mas o Sinédrio explorava gentios. E o ciclo histórico de Israel reflete isso: do esplendor de Salomão em 988 a.C., partindo para o exílio em 586 a.C., da glória do segundo templo em 515 a.C. (Zorobabel) e profanado por Antíoco em 165 a.C., e agora expandido por Herodes, mas corrompido novamente. O templo sempre espelhou o coração da nação: construção para adoração, apostasia no culto, juízo.
Aqui, é crucial recordar a teologia do Templo. O tabernáculo e, depois, o Templo eram o local onde Deus Se manifestava no meio de Seu povo (Êx 25; 1Rs 8). Mas Ezequiel profetizou que a glória de Deus saíra dali por causa da corrupção (Ez 10-11). Agora, Jesus – a encarnação da glória divina – retorna para julgar e romper com esse sistema. Ele não destrói o edifício, mas anuncia uma nova era: Ele mesmo é o Templo definitivo (Jo 2.19-21), formando um povo universal, habitado por Deus. O véu se rasgou.
Esse confronto, somado aos meninos clamando "Hosana ao Filho de Davi!" no Templo logo após a purificação e as curas (Mt 21.14-15), acirra os ânimos. Os escribas e principais sacerdotes, temendo perder o controle, buscam ocasião para matá-Lo. Mas a multidão? Está admirada com Sua doutrina. À tarde, Jesus sai da cidade – deixando o eco de Sua purificação reverberar.
(A perícope continua até o v. 26, com a figueira seca e lições de fé, mas não teríamos tempo para explorá-la satisfatoriamente hoje. Na próxima, veremos como a fé verdadeira move montes!)
Aplicações
Aplicações
1. Jesus é o Nosso Templo Verdadeiro.
1. Jesus é o Nosso Templo Verdadeiro.
Não há encontro autêntico com Deus sem Cristo. Ele é a porta de acesso ao Pai (Jo 14.6). Sem Ele, nossos "templos" – rituais ou esforços – são vazios. Pergunte-se: Minha vida gira em torno de Jesus, ou de tradições que O substituem? Como os líderes de Israel, naquele momento, confiavam em sua herança religiosa sem fruto genuíno, evite uma fé de “folhas” – examine se seu zelo é com conhecimento (Rm 10:2), produzindo obediência real.
2. Nossos Sacrifícios e Sacerdócio em Cristo.
2. Nossos Sacrifícios e Sacerdócio em Cristo.
Jesus é nosso Sumo Sacerdote eterno (Hb 4.14-16). Não há sacrifício aceitável a Deus sem Jesus Cristo. Ao tempo que não oferecemos mais animais, mas vidas rendidas (Rm 12.1). Deixe que Ele purifique o "mercado" em seu coração – egoísmo, divisões ou formalismos que bloqueiam a oração verdadeira. Lembre-se: o problema não era Roma para Israel, mas a corrupção no culto; assim, a reforma em nossas vidas começa no altar da adoração, não nas circunstâncias externas. Como o Pr. Rômulo alerta, corrupção no Templo começou na perda de vocação – finanças viram sintoma quando esquecemos Gn 12. Pergunte: Minhas escolhas financeiras servem a nações ou só a mim? (Mt 6:1-4). Imagine o templo como um hospital que vira shopping: ele perde o propósito de curar. Deixe Jesus restaurar seu coração para ser lugar de cura e oração.
3. Somos o Templo de Deus Hoje – e Um Dia, Habitaremos Nele.
3. Somos o Templo de Deus Hoje – e Um Dia, Habitaremos Nele.
Pela união com Jesus, somos habitação do Espírito (1Co 3.16; 6.19). Mas as Escrituras prometem o inverso: um novo céu e terra onde habitamos plenamente em Deus (Ap 21.3). Isso nos impulsiona a viver como “casa de oração para todas as nações” – inclusivos, frutíferos e missionais. Israel falhou como testemunho global, transformando o átrio dos gentios em barreira; não repita isso – seja o povo que atrai o mundo com frutos de justiça e misericórdia, como Jesus ensinou: “Pelos frutos os conhecereis” (Mt 7.16-20). Somos templo habitado (1Co 3.16), mas a presença de Deus se manifesta na comunidade (1Co 14.25) – não isolados, mas unidos para atrair nações. Um dia, habitaremos Nele plenamente (Ap 21.3), sem véus ou mercados.
4. Evite Ser uma Figueira Infrutífera.
4. Evite Ser uma Figueira Infrutífera.
Árvores assim consomem solo e água, mas não produzem. Deus as corta para o bem do jardim (Lc 13.6-9; Jo 15.2). Não sejamos religião de folhas – aparência sem essência. Sejamos bençãos para as nações: frutos de justiça, amor e testemunho que atraem o mundo a Cristo. Como o zelo de Jesus ecoa o de Lutero derrubando as indulgências – um homem confrontando o sistema corrompido –, permita que o Espírito desperte em você um zelo santo que confronte a hipocrisia interna e externa, começando pela pureza do seu próprio culto.
Conclusão e Chamado
Conclusão e Chamado
Irmãos, o Rei inspecionou Seu Templo e encontrou folhas falsas. Mas Ele não veio só para julgar – veio para nos tornar o Templo vivo! E o que acontece quando o juízo cai? Na próxima semana, veremos a figueira seca e a lição: "Tende fé em Deus" (v. 22). Como essa fé move montes de hipocrisia e desenvolve orações perdoadoras Hoje, convido você: Deixe Jesus derrubar o que é falso em sua vida. Ore: "Senhor, purifica-me para frutificar." E saia daqui como uma figueira verdadeira, cheia de fruto para outros, inclusive as nações. Amém.
SDG
