3 João
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Transcript
“Não tenho maior alegria do que esta, a de ouvir que meus filhos andam na verdade.” 3Jo 4
Em sua primeira e segunda epístolas, João expressa sua oposição aos ensinamentos heréticos. Em sua última epístola, porém, João escreve uma carta de recomendação sobre um irmão, Demétrio, que precisa de apoio em sua viagem missionária. Registra o bom testemunho de Gaio e o adverte sobre o caráter perverso de Diótrefes, exorta-o que não se associe a suas más obras e deixa claro que tratará desse tema pessoalmente em breve.
Introdução
Data:
Final do século I. (90-95 d.C.)
Autoria:
Apóstolo João – O presbítero.
Destinatário:
Gaio– Carta pessoal.
Da mesma forma que em 2Jo 1, “o presbítero” que escreve a Gaio (3Jo 1) nos oculta o seu próprio nome. Mas não há dúvida de que se trata da mesma pessoa, identificada como sendo o apóstolo João pela Igreja cristã de todos os tempos (ver as Introduções a 1 e 2João). Possivelmente, tenha remetido esta carta de Éfeso, no final do primeiro século.
Contexto Histórico
História Eclesiástica – Livro III Caps XIX e XX - Sobre a perseguição de Domiciano.
(Final do Séc III)
1. O próprio Domiciano deu ordem de executar os membros da família de Davi, e uma antiga tradição diz que alguns hereges acusaram os descendentes de Judas — que era irmão do Salvador segundo a carne —, com o pretexto de que eram da família de Davi e parentes do próprio Cristo. Isto é o que declara Hegesipo quando diz textualmente:
“Da família do Senhor viviam ainda os netos de Judas, seu irmão segundo a carne, aos quais delataram por serem da família de Davi. O evocatus conduziu-os à presença do césar Domiciano, porque este, assim como Herodes, temia a vinda de Cristo.
2. Perguntou-lhes se descendiam de Davi; eles o admitiram. Perguntou-lhes então quantas propriedades tinham ou de quanto dinheiro dispunham, e eles disseram que ambos não possuíam mais do que nove mil denários, metade de cada um, e ainda assim afirmaram que não o possuíam em metal, mas que era a avaliação de apenas trinta e nove pletros de terra, cujos impostos pagavam e que eles mesmos cultivavam para viver.”
3. Então mostraram suas mãos e juntaram como testemunho de seu trabalho pessoal a dureza de seus corpos e os calos que haviam se formado em suas próprias mãos pelo trabalho contínuo.
4. Perguntados acerca de Cristo e de seu reino: que reino era este e onde e quando se manifestaria, deram como explicação que não era deste mundo nem terreno, mas celeste e angélico e que se dará no final dos tempos; então Ele virá com toda sua glória e julgará os vivos e os mortos e dará a cada um segundo suas obras.
5. Ante estas respostas, Domiciano não os condenou a nada, mas inclusive desprezou-os como gente vulgar. Deixou-os livres e por decreto fez cessar a perseguição contra a Igreja.
6. Os que haviam sido postos em liberdade estiveram à frente das igrejas tanto por terem dado testemunho como por serem da família do Senhor, e retornada a paz, viveram até Trajano.
. . .
9. Foi então que o apóstolo João, voltando de seu desterro na ilha, retirou-se para viver em Éfeso, segundo relata a tradição de nossos antigos.
Livro III Cap XXIII
[Relato sobre o apóstolo João]
1. Por este tempo (final Sec I) vivia ainda na Ásia o mesmo a quem Jesus amou, o apóstolo e evangelista João, e ali continuava regendo as igrejas depois de regressar do desterro na ilha, depois da morte de Domiciano.
2. Que João permanecia em vida por este tempo é suficientemente confirmado por duas testemunhas. Estas, representantes da ortodoxia da Igreja, são bem dignas de fé, tratando-se de homens como Irineu e Clemente de Alexandria.
3. O primeiro deles, Irineu, escreve textualmente em alguma parte do livro II de sua obra Contra as heresias como segue:
“E todos os presbíteros que na Ásia estão relacionados com João, o discípulo do Senhor, dão testemunho de que João o transmitiu, porque ainda viveu com eles até os tempos de Trajano.”
4. E no livro III da mesma obra manifesta o mesmo com estas palavras: “Mas também a igreja de Éfeso, por ter sido fundada por Paulo e porque nela viveu João até os tempos de Trajano, é um testemunho veraz da tradição dos apóstolos.”
O que era o gnosticismo?
O termo vem do grego gnosis (γνῶσις), que significa “conhecimento”. Eles misturavam elementos do cristianismo, da filosofia platônica e de religiões orientais, criando um sincretismo que se infiltrou nas igrejas.
Suas principais ideias
a) Dualismo radical
O espírito é bom; a matéria é má.
Portanto, o Deus criador (do Antigo Testamento) era visto como um deus inferior ou mesmo maligno — o demiurgo.
O verdadeiro Deus era um ser supremo, totalmente distante do mundo material.
b) Cristo como “emanado” espiritual
Negavam a encarnação real de Cristo.
Para eles, Jesus não teve corpo físico verdadeiro (doutrina chamada docetismo), pois seria impossível Deus se unir à matéria, considerada impura.
Assim, a cruz e a ressurreição eram vistos apenas como símbolos espirituais, não eventos históricos.
c) Salvação por conhecimento secreto
A salvação era alcançada não pela fé na graça de Deus, mas pelo acesso à “gnose” — um entendimento místico sobre sua origem divina e libertação do corpo.
Negavam, portanto, a soteriologia apostólica, baseada em Cristo crucificado e ressurreto.
As ameaças à doutrina apostólica
O gnosticismo foi talvez o primeiro grande desafio teológico da Igreja.
Eis as doutrinas fundamentais que ele ameaçava:
a) A doutrina da encarnação
“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (João 1:14).
Os gnósticos negavam que o Filho de Deus realmente se fez homem. Isso destruía a base da redenção, pois se Cristo não assumiu nossa natureza, Ele não poderia morrer por nossos pecados(Hebreus 2:14-17).
João combate isso diretamente em suas cartas:
“Todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus” (1João 4:2).
b) A doutrina da salvação pela graça
A salvação gnóstica era elitista e intelectual — reservada aos “espirituais”.
Isso negava o evangelho que anuncia:
“Pela graça sois salvos, mediante a fé — e isto não vem de vós; é dom de Deus” (Efésios 2:8-9).
c) A autoridade da revelação apostólica
Os gnósticos afirmavam possuir revelações superiores às Escrituras e aos ensinos dos apóstolos, o que minava a autoridade da Palavra.
A Igreja respondeu reafirmando o cânon apostólico — as Escrituras inspiradas como única fonte de revelação (Sola Scriptura).
d) A criação e a bondade do mundo material
Ao chamar a matéria de má, o gnosticismo negava a bondade da criação (Gênesis 1:31) e o senhorio de Deus sobre todas as coisas.
Isso criava uma espiritualidade “desencarnada”, que desprezava o corpo e o mundo físico, o oposto da esperança cristã da ressurreição do corpo.
A resposta da Igreja
Homens como Irineu de Lião, Justino Mártir e Tertuliano combateram o gnosticismo com três fundamentos:
A Regra da Fé — resumo doutrinário do ensino apostólico, que mais tarde deu origem aos credos.
O Cânon das Escrituras — reconhecimento dos escritos inspirados, para preservar a verdade.
A sucessão apostólica — autoridade dos bispos e presbíteros fiéis à doutrina dos apóstolos.
Irineu resumiu bem o problema:
“O erro deles é antigo como a serpente que prometeu conhecimento e deu morte.”
(Contra as Heresias, I, 30)
Aplicação para hoje
O gnosticismo nunca desapareceu totalmente.
Ele reaparece em formas modernas de espiritualidade que:
desprezam o corpo e a criação,
exaltam o “conhecimento interior” acima da revelação bíblica,
relativizam a pessoa histórica de Jesus.
Portanto, o cristão precisa conhecer as Escrituras e viver uma fé encarnada, que une verdade, amor e prática (3João 1:3-4).
Sugestões bíblicas para meditar:
Colossenses 2:8–10 — contra a “filosofia vã” que nega a suficiência de Cristo.
1João 1:1–3 — a realidade da encarnação.
Judas 3 — “batalhai pela fé que uma vez foi entregue aos santos.”
3 João, uma carta pessoal
O presbítero ao amado Gaio; 3Jo 1
Testemunho de uma alma rica em Deus; 3Jo 2-3
A alegria do apóstolo com seus discípulos fieis; 3Jo 4
A fidelidade de Gaio como hospitaleiro dos enviados apostólicos; 3Jo 5-7
A obra da igreja é multiforme, devemos ser cooperadores da verdade. 3Jo 8
Como na epístola anterior, o remetente é o “velho”. Ao apresentar-se assim também a um indivíduo, é inevitável concluir que se trata de um relacionamento amplamente conhecido e reconhecido. De forma alguma cabe pensar aqui na definição de um cargo de “presbítero”.
O destinatário é certo “Gaio”, do qual não podemos conseguir nenhuma informação mais específica além do que consta na presente carta. O nome é recorrente demais. Ele consta quatro vezes no NT: At 19:29; 20:4; Rm 16:23; 1Co 1:14. O destinatário da presente carta está afetuosamente ligado a João, sendo chamado de “o amado”.
Duas realidades – Mal X Bem – Diótrefes X Gaio
Diótrefesrebelde, gosta da primazia; 3Jo 9
Obras malignas: maledicência, hostilidade e violência; 3Jo 10
Quem pratica o bem (ἀγαθοποιέω) procede de Deus; 3Jo 11
Recomendação sobre Demétrio, provável portador da carta. 3Jo 12
O verbo ἀγαθοποιέω significa literalmente “fazer o bem”, “agir beneficamente” ou “praticar boas obras”. É composto de ἀγαθός (bom, virtuoso) e ποιέω(fazer, agir).
No uso neotestamentário, descreve ações morais que refletem a vontade de Deus, geralmente em contraste com a prática do mal (κακοποιέω).
Denota não apenas um ato benéfico isolado, mas uma disposição constante de agir com bondade e justiça, refletindo a natureza divina (cf. 1Pe 2.15, 20; 3.17).
(“Pois assim é a vontade de Deus: que, praticando o bem, façais emudecer a ignorância dos homens insensatos” – 1Pe 2.15).
Uso no Texto Bíblico
No Novo Testamento
O verbo ocorre principalmente nas epístolas petrinas:
1Pe 2.15, 20; 3.6, 17; 4.19 — onde o autor exorta os crentes a “sofrerem por fazer o bem”, refletindo a vida justa de Cristo.
Lc 6.9, 33, 35 — Jesus usa o verbo em contraste com “fazer o mal” (κακοποιεῖν), ensinando que o verdadeiro bem é aquele que se manifesta mesmo para com os inimigos.
Na Septuaginta
O termo traduz frequentemente o hebraico עָשָׂה־טוֹב, ASAH TOV especialmente em Salmos (cf. Sl37.3, 27) e Provérbios, com o sentido de agir moralmente e conforme a justiça divina. Assim, ele conecta o ethos veterotestamentário de justiça com a ética cristã prática do Novo Testamento.
Simbolismo
ἀγαθοποιέω transcende o simples ato de bondade humana: representa a participação do crente na bondade divina. Fazer o bem é tornar-se um reflexo do caráter de Deus, o “Sumo Bem” (cf. Mc 10.18).
Implicações Teológicas
A prática do bem é apresentada como expressão da fé genuína e instrumento de testemunho. Segundo Kittel, a ação ética de “fazer o bem” é um ato de adoração, pois manifesta a santidade de Deus no mundo. Ela expressa o princípio cristão de responder ao mal com o bem (Rm 12.21).
