A fé que agrada de Deus
Cristianismo do dia-a-dia • Sermon • Submitted • Presented
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· 7 viewsEste sermão desafia a visão popular da fé como autoconfiança ou poder para obter desejos. Baseado em Marcos 9.23-24, ele revela que a fé agradável a Deus não é medida pela sua intensidade, mas pela sinceridade da confiança em Cristo, mesmo em meio à dúvida. O foco não está na nossa capacidade de crer, mas no poder de Deus para cuidar de nós. Somos encorajados a uma fé que busca a Deus em nossa fraqueza e que se expressa na oração contínua, cultivando um relacionamento com Ele.
Notes
Transcript
23 Ao que Jesus respondeu: — “Se o senhor pode”? Tudo é possível ao que crê. 24 E imediatamente o pai do menino exclamou: — Eu creio! Ajude-me na minha falta de fé!
Introdução
Introdução
Continuamos com nossa série de pregações “Cristianismo do Dia a Dia”, onde expomos textos bíblicos que tratam de grandes doutrinas da fé Cristã. E é justamente sobre fé que falaremos hoje.
O brasileiro é um povo que valoriza a fé, com mais de 90% da população se declarando crente em alguma religião, a maioria auto identificada como cristã (88%).
Como resultado, a palavra “fé” é lema para muitas declarações feitas por pessoas comuns e celebridades, declarações como "Minha fé em mim mesma é o que me levanta todo dia" ou "Minha fé é do tamanho do meu sonho" e "Minha fé é o meu superpoder secreto."
Mas celebridades e “sabedoria popular” são fontes pouco confiáveis. Se quisermos saber algo sobre o que é a fé, melhor ouvir o que o Senhor Jesus fala sobre fé. Mais seguro é entender o que a Bíblia diz sobre a fé, uma vez que ela mesma diz, em outro lugar, que “sem fé é impossível agradar a Deus.” (Hb 11.6).
Então, veremos que, mais que uma confiança cega em si mesmo, a fé que agrada a Deus é deixar Ele cuidar de nossa vida, mesmo quando temos dificuldade em acreditar que as coisas darão certo.
Vamos ao texto, mas primeiro um pouco de contexto.
Contexto
Contexto
Jesus havia saído para orar em um monte (Mc 9.2ss, cf. Lc 9.28ss) e lá, os discípulos presenciam Jesus transbordando sua glória divina de forma visível. Jesus desce do monte e, como já era uma pessoa muito conhecida, uma multidão vem atrás dele.
Contudo algo ocorreu de diferente: um homem disse para Jesus que pediu para os discípulos de Cristo expulsarem um demônio que atormentava seu filho, mas os discípulos não conseguiram. Neste momento, Jesus solta um lamento pela incredulidade dos discípulos, daquele pai e de todas as pessoas daquela geração (Mc 9.19).
Trazem o menino para Jesus e o demônio logo se manifesta, fazendo o menino cair e espumar. O pai fala que quando o demônio possui o menino, tenta matá-lo, jogando no fogo ou na água.
Você consegue imaginar essa cena? Consegue se por no lugar deste pai? Como você ficaria se, levando um filho ou alguém que você ama muito ao hospital, visse ele caindo no chão, passando mal? Você iria passar pela recepção, assinar uma papelada enquanto seu filho estivesse caído no chão? Ou você correria para a primeira pessoa vestida de branco, na esperança de que fosse um médico ou enfermeiro que pudesse socorrer seu filho?
Este pai faz o que a maioria de nós faríamos: mesmo sem crer muito, ele pede que Jesus faça alguma coisa. Qualquer coisa serve, desde que seu filho não permaneça assim. Ele diz:
Marcos 9.22 “... se o senhor pode fazer alguma coisa, tenha compaixão de nós e ajude-nos.”
Este é o clamor do coração de um pai. E como Jesus responde a este coração? Corrigindo o pensamento daquele pai para que ele vá na direção correta.
Exposição
Exposição
v.23 - Ao que Jesus respondeu: — “Se o senhor pode”? Tudo é possível ao que crê.
v.23 - Ao que Jesus respondeu: — “Se o senhor pode”? Tudo é possível ao que crê.
Aquele pai não tinha tanta esperança que Jesus pudesse resolver seu problema. Seu filho estava naquela situação há muito tempo. Como pai zeloso e amoroso, ele certamente já havia tentado de tudo um pouco e nem mesmo os discípulos do famoso Jesus puderam fazer alguma coisa. Você já ficou desanimado depois de tanto esperar uma mudança que nunca veio? Esse pai ficou.
Mas Jesus respondeu dizendo “Ei, o problema não sou eu. Se você veio até mim, fez a coisa certa, mas eu prefiro ajudar as pessoas que creem em mim.”
Já havia acontecido uma situação semelhante na cidade onde Jesus foi criado, Nazaré. Como o povo de lá o via simplesmente como “o filho do carpinteiro” (Mt 13:55) e não criam nele como “um profeta”, Jesus não pode fazer muitos milagres lá (Mc 6.4-6). O problema não estava no poder de Cristo, mas na incredulidade deles.
Jesus tem poder para mudar o mundo todo. Então, é só crer nele que podemos tudo, certo? Bom, é assim que pensam os pregadores da “Confissão positiva” ou “Teologia da Prosperidade”.
Baseados nesta passagem, eles diriam “A fé é a moeda do céu”, “Não aceite a derrota — profetize vitória!”, “Fale como quem já recebeu”, “Quem tem fé não vive de migalhas” e muitas outras frases enganosas, que nos fazem crer que conseguiremos qualquer coisa que desejamos apenas se nossa fé for suficientemente forte.
Esse tipo de pregação começou no Brasil na década de 70 com a Igreja Universal do Reino de Deus e se tornou tão popular que hoje muitas igrejas pregam esse tipo de coisa, mas é isso que Jesus quis dizer?
Bom, Ele disse “tudo o que possível ao que crê”. Se “tudo” (πάντα) significa “qualquer coisa”, a teologia da prosperidade está certa. Mas porque nós não vemos ninguém pedindo com fé para “voar”, ou para ser “imortal”, ou para que o câncer “deixe de existir no mundo todo”? Se posso pedir qualquer coisa com fé suficiente que acontecerá, então, tudo isso seria possível. Mas não vemos ninguém voando, sendo imortal e o câncer continua matando mais de 9,7 milhões de pessoas no mundo [1].
Jesus não está dizendo que “tudo o que você quiser é possível, se você crer”, mas que Ele tem poder para atender as necessidades daqueles que o amam.
Jesus também não diz “tudo é possível ao que crê muito”, mas “ao que crê” (πιστεύοντι) que é um verbo no particípio presente que, dá a ideia de alguém que acredita e continua acreditando. Cristo está se referindo não ao tamanho da fé da pessoa, mas a relação dela com Deus. Não a fé sozinha, mas confiar em Cristo independente das circunstâncias.
O foco não é a fé do crente, mas o poder de Cristo. Em outras palavras, “apenas creia em mim, que eu cuido de você”.
A fé que salva e sustenta o cristão não nasce de um esforço humano autônomo, mas é fruto da graça divina. Cristo, que nos chamou pela sua Palavra, é o iniciador e o aperfeiçoador dessa fé (Hb 12.2; Fp 1.29). Confiar em Jesus é uma resposta contínua à sua obra redentora revelada no evangelho — uma fé sustentada por Ele do começo ao fim.
E o próximo versículo deixa tudo isso mais claro.
v.24 - E imediatamente o pai do menino exclamou: “— Eu creio! Ajude-me na minha falta de fé!”
v.24 - E imediatamente o pai do menino exclamou: “— Eu creio! Ajude-me na minha falta de fé!”
Lembra que o menino estava caído e espumando pela boca no chão? Imagina a angústia do pai vendo isso enquanto Jesus está falando com ele… Sua situação era urgente, mas Jesus havia apontado para a realidade: o pai do menino tinha dificuldade de acreditar que Jesus podia fazer alguma coisa.
Até aqui, esse pai já havia acreditado em tanta coisa que não deu certo... Que mal faria acreditar em Jesus? Isto lembra quando Naamã, comandante do exército sírio se recusou em acreditar no profeta Eliseu, que disse que sua lepra seria curada se Naamã se lavasse sete vezes no rio Jordão. Um dos oficiais de Naamã lhe perguntou:
2Reis 5.13 “Então os seus oficiais se aproximaram e lhe disseram: — Meu pai, se o profeta tivesse dito alguma coisa difícil, por acaso o senhor não faria? Muito mais agora que ele apenas disse: ‘Lave-se e você ficará limpo.’”
Penso que é mais ou menos o que passa pela cabeça deste pai; “Eu estou desesperado… o que afinal eu tenho a perder? É melhor eu deixar meu filho nas mãos desse Jesus, mesmo que eu não acredite tanto assim que meu filho será curado.”
Neste momento, este pai abre o coração, e, como qualquer pessoa na situação dele, dá um grito (κράζω) desesperado e confuso: “eu creio que o senhor pode me ajudar, mas não tenho tanta fé assim. Me ajuda nisso também”.
Quantas vezes nós ficamos nessa mesma situação? Queremos que o Senhor atenda uma oração nossa. Cremos que Ele é poderoso para nos atender, mas ao mesmo tempo, duvidamos que a oração irá mudar alguma coisa.
Por vezes, talvez porque fomos ensinados a pensar conforme a teologia da prosperidade, pensamos que as coisas só dão errado em nossa vida porque não temos fé o suficiente. Ou, porque duvidamos de que Deus vai nos dar atenção, passamos a ter um relacionamento distante dele, porque achamos que Ele nunca nos ouve.
Ora nos culpamos (porque achamos que é nossa fé que resolve as coisas), ora culpamos Deus (porque achamos que Ele tem coisas mais importantes para fazer que nos ouvir).
Esse pai, resolveu arriscar ficar perto de Jesus, mesmo que sua fé fosse vacilante. E, quer saber? Essa “fé fraquinha” desse pai foi suficiente para alegrar a Jesus. No versículo seguinte vemos que Jesus atendeu àquele pai e curou o menino, mesmo com a fé pequenininha dele, porque não é o tamanho da nossa fé que move a mão de Deus, mas é o poder de Deus que motiva nossa fé.
Nós não somos o centro, mas Cristo é. A fé genuinamente cristã não é uma fé na nossa fé, mas uma confiança, ainda que imperfeita, em Jesus.
E o que isso tudo nos ensina?
Aplicações
Aplicações
1º. Deus espera de você uma fé sincera, não uma fé perfeita
Deus sabe que você é pó (Sl 103.13-14). Ele sabe que nem sempre seremos tão heroicos como gostaríamos e que nem sempre somos o melhor exemplo de fé (confiança em Jesus). Mas quem disse que Ele nos pede essa fé heroica para nos atender?
Ainda que uma fé mais forte e que se abale pouco seja um sinal de amadurecimento espiritual (cf. 2Co 5.7; Rm 4.20–21), ainda assim o Senhor não nos despreza em nossos momentos de vacilo.
O que Ele quer é que você confie o suficiente para estar com Ele. É no momento da falta de fé que mais devemos buscá-lo. É quando te falta fé que você está mais necessitado de estar com os irmãos em Cristo, de vir à Igreja cultuar, de ler a Bíblia e de orar. Esta é a fé que o agrada. Como está escrito:
Tiago 4.8a “Cheguem perto de Deus, e ele se chegará a vocês.”
E por falar em orar...
2º. Deus espera que sua fé te leve a orar
Sim. Fé e oração devem andar de mãos dadas.
No livro às Crônicas de Nárnia (de C. S. Lewis), na história “O sobrinho do mago”, o cavalo falante Pluma (que antes se chamava Morango) diz para o menino Digory que o leão Aslam (que representa Cristo nestas histórias) sabe o que eles precisam
“no entanto, eu tenho a impressão que ele prefere que lhe perguntem”
De fato, é isto que vemos na Bíblia: Deus sabe oque precisamos mesmo antes de orarmos (Mt 6.8), por isso Ele nos dá muitas coisas que nem pedimos, contudo Ele não é um mero realizador de desejos, mas alguém com quem devemos nos relacionar.
A oração é a nossa conversa com nosso melhor amigo, o Deus Triuno. Ele quer essa conversa e somente nos dará algumas das coisas que precisamos após passarmos um tempo com Ele (Mt 7.7; Tg 4.2) [2]
Conclusão
Conclusão
Eu conheci um rapaz que foi ensinado a basear a vida espiritual dele na força da fé que Ele tinha. Ele pensava que, como a fé dele em Deus era muito forte, ele tinha uma boa vida espiritual.
Um dia, num momento de fraqueza, acabou cometendo um pecado vergonhoso diante de muitas pessoas.
“Como eu pude fraquejar desse jeito”, ele pensava. Por vergonha, se afastou da igreja que frequentava e até hoje não consegue ir à igreja nenhuma. Ele me disse que precisa melhorar para voltar para Deus. Ele continua fazendo a relação dele com Deus depender da força da fé dele, uma fé que não é do tipo que agrada a Deus.
Como está sua relação com Deus?
Rogo ao Senhor Jesus Cristo que você não confie na força de sua fé, mas no poder de nosso Deus.
Rogo ao Senhor que você tenha fé o suficiente para continuar perto do Senhor, mesmo quando fraquejar.
Ele de fato tem poder para fortalecer o fraco, restaurar o abatido, socorrer o necessitado, mas o que é mais necessário, é estar com Ele.
[1] Dados de 2022. Global cancer statistics 2022: GLOBOCAN estimates of incidence and mortality worldwide for 36 cancers in 185 countries - Bray - 2024 - CA: A Cancer Journal for Clinicians. Volume74, Issue3. May/June 2024. Pages 229-263 - Wiley Online Library
[2] Trecho parcialmente inspirado por DITCHFIELD, C. Descubra Nárnia: Verdades em as Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis. Tradução: Hedy Maria Scheffer Silvado. 1.a edição ed. Curitiba, PR: Publicações Pão Diário, 2010. p. 41
