Fundamentos da Fé cristã - aula 7
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Aula 7 - EBVP
Aula 7 - EBVP
Introdução
Introdução
Jesus Cristo estabeleceu sua igreja antes de ascender aos céus (Mt 16:18; At 1:1–3) e disse que voltaria para buscar sua igreja (Jo 14:3; 1Ts 4:16–17). A salvação é individual no sentido prático da vida do indivíduo (Fp 2:12), mas na realidade, ela é coletiva porque não existe cristianismo sem igreja (Hb 10:24–25). Esse tema é tão importante que Jesus declarou que as portas do inferno não prevalecerão contra a IGREJA (Mt 16:18), o Apóstolo Paulo declarou que somos membros uns dos outros (Rm 12:4–5; Ef 4:25) – trazendo a ideia de vida comunitária – e também que devemos seguir a paz com todos e a santidade, sem a qual ninguém verá o Senhor (Hb 12:14). Em certo momento Jesus declarou que, se formos entregar uma oferta no altar e lembrarmos que um irmão tem algo contra nós, devemos correr e resolver a situação e só depois voltar e ofertar (Mt 5:23–24).
Infelizmente, devido a uma teologia triunfalista e baseada em textos isolados, muitos líderes ensinam que a salvação é individual no sentido absoluto e que Jesus voltará para buscar o indivíduo, utilizando a famosa frase “eu sou igreja” e criando doutrinas que não correspondem às doutrinas bíblicas (1Co 12:12–27; Ef 2:19–22). Por outro lado, temos uma teologia conhecida como supercessionismo, ou teologia da substituição, que trata a igreja como o novo Israel de Deus (Rm 9:6–8).
O fundamento dessa teologia são os sermões dos pais latinos da igreja como Ambrósio, Tertuliano e Cipriano de Cartago, que ensinavam que Israel rejeitou Jesus e por isso Deus os rejeitou, assumindo a igreja como seu povo (baseados em leituras de Mt 21:43 e Rm 11:20–22). Ainda nessa linha, temos a teologia de Agostinho de Hipona que ensina que a Igreja é o Reino de Deus (interpretação de Lc 17:21 e Mt 13:24–30) e que as hierarquias eclesiásticas são organizações e posições dentro deste Reino, portanto autoridade sobre outros de forma inquestionável. Vemos ecos dessa visão teológica em nossos dias com a ideia de pastores com autoridade absoluta e inquestionável (3Jo 9–10; 1Pe 5:2–3).
O objetivo desta aula é trazer a clareza do ensino bíblico sobre o que é a igreja e qual a nossa responsabilidade como igreja – todos os cristãos ao redor do mundo (Ef 4:1–16; At 2:42–47).
O que é a Igreja?
O que é a Igreja?
Igreja - ἐκκλησία (ekklēsía) - é uma palavra que aparece 114 vezes no Novo Testamento. O termo não é exclusivamente bíblico, mas emprestado do mundo sócio político greco-romano. No mundo greco-romano, a palavra ekklesía não tinha nada de “religioso”. Ela era o nome da assembleia de cidadãos livres (Atenas) convocados para discutir a vida da cidade, deliberar sobre leis, decidir guerras e exercer cidadania. Era o lugar onde vozes eram ouvidas, onde o pertencimento era confirmado e onde cada pessoa reconhecia seu papel dentro da pólis (cidade grega). Era uma convocação pública, um chamado para dentro da assembleia — não uma retirada para fora do mundo. Quando o Novo Testamento usa ekklesía para falar da comunidade de Jesus, ele está tomando emprestado esse imaginário forte: um povo reunido sob um chamado, cidadãos do Reino, gente que participa, discerne e vive sua fé de forma pública e encarnada no mundo.
Para o judeu do primeiro século, a palavra natural para descrever sua comunidade religiosa era sinagoga (synagōgē). A sinagoga era o local de ensino da Torá, de oração, de leitura das Escrituras e de preservação da identidade étnica de Israel em meio ao Império. Era o centro da vida judaica, o lugar onde Israel se lembrava de quem era e de quem Deus era. Porém, ela estava profundamente ligada à etnia, à tradição mosaica e ao pacto antigo. A sinagoga formava um povo marcado por sangue, genealogia, circuncisão e tradição. Ela era essencial para Israel, mas não era um espaço naturalmente preparado para acolher gentios, nem para expressar a nova realidade inaugurada pelo Messias.
Quando Jesus decide dizer “edificarei a minha ekklesía”, Ele faz um movimento ousado. Ele não usa a palavra que carregava milênios da história judaica, mas escolhe um termo civil do mundo helenístico. Por quê? Porque Jesus estava inaugurando algo novo: um povo que não seria definido por etnia, sangue ou linhagem, mas pela fé. Um povo que uniria judeus e gentios, formando uma nova humanidade (Ef 2:14-15). Se Ele tivesse dito “minha sinagoga”, estaria preservando uma identidade exclusivamente judaica. Ao dizer ekklesía, Ele aponta para um povo aberto, convocado pelo Rei, reunido sob um novo pacto, inserido no mundo, mas pertencente ao Reino. A palavra quebra muros, derruba barreiras e anuncia um povo que nasce não da carne, mas do Espírito.
A escolha do termo ekklesía transforma radicalmente nosso entendimento da Igreja. Não somos uma instituição, um prédio ou um grupo isolado do mundo. Somos um povo convocado por Cristo para viver sob a ética do Reino dentro da história. Somos cidadãos do céu que atuam na terra. Somos a assembleia do Rei, chamada para discernir, testemunhar, servir, reconciliar e manifestar a nova humanidade que Cristo está formando. A ekklesía é a expressão visível do Reino de Deus no tempo presente — não como poder político, mas como comunidade transformadora. Isso nos lembra que nosso papel não é fugir do mundo, mas entrar nele com a luz do Reino; não é nos esconder, mas manifestar o caráter de Cristo. A Igreja é o povo convocado para tornar visível, aqui e agora, aquilo que Deus já decidiu eternamente.
2. A família de Deus
2. A família de Deus
A igreja é chamada de “corpo de Cristo” e também “família de Deus”, onde segundo Paulo somos membros uns dos outros (Rm 12:5; Ef 2:19). Isso significa que Deus não nos chamou para vivermos uma fé solitária, mas para caminharmos juntos como filhos e filhas que pertencem ao mesmo Pai. E Paulo chama essa realidade de “mistério revelado”: algo que estava oculto nas gerações anteriores, mas agora foi manifestado — que Deus estava criando, em Cristo, um único povo formado por judeus e gentios (Ef 3:3–6; Cl 1:26–27). A igreja não é uma ideia humana; é um ato divino. É Deus formando uma família onde cada pessoa carrega valor, cada história importa e cada irmão é parte da obra que Ele está construindo.
Paulo aprofunda essa verdade usando a imagem do corpo de Cristo. Ele afirma que somos “um só corpo em Cristo e membros uns dos outros” (Rm 12:5), revelando que essa unidade não é simbólica — é espiritual. O corpo não vive com membros isolados; ele só existe quando cada parte se conecta às outras. E esse é exatamente o “mistério” que Paulo explica aos efésios: Cristo quebrou o muro de separação e fez dos diferentes um só corpo (Ef 2:14–16). Assim, ser igreja é viver essa interdependência. Não somos peças soltas, mas membros vivos do mesmo organismo, sustentados por Cristo, a cabeça, e chamados a cuidar uns dos outros com amor.
Jesus também preparou seus discípulos para essa vida comunitária. Ele ensinou o perdão mútuo (Mt 18:21–22), a reconciliação antes da oferta (Mt 5:23–24), a humildade das crianças como modelo (Mt 18:3–4) e a necessidade de tratar o irmão como parte essencial da fé. Ele revelou que a fé não floresce no isolamento, mas na convivência. E, quando Paulo fala do “mistério de Cristo”, ele deixa claro que o evangelho não cria indivíduos espirituais soltos, mas um povo unido pelo Espírito (Ef 3:4–6). Ou seja, a ética do Reino é vivida dentro de relacionamentos: perdoando, servindo, acolhendo e construindo a paz.
Por isso, compreender a igreja como família de Deus é entender que qualquer expressão de cristianismo sem relacionamento não é igreja. Igreja não é evento, não é prédio, não é consumo espiritual. É família. É corpo. É comunhão. É o “mistério revelado” de Deus: pessoas tão diferentes reunidas pelo Espírito para manifestar o caráter de Cristo juntas. Fora dessa realidade, pode haver reunião, culto, transmissão ao vivo ou programação — mas não há igreja. A igreja existe onde há vínculo, cuidado, perdão e amor prático. Somos família porque Deus nos adotou; somos corpo porque Cristo nos uniu; e permanecemos juntos porque o Espírito opera em nós aquilo que jamais conseguiríamos por nossas próprias forças.
3. Serviço e ministério
3. Serviço e ministério
Dentro do corpo de Cristo, cada cristão possui uma posição, um ministério e um serviço. A palavra “ministério” vem do grego diakonía, que significa literalmente serviço, atendimento, cuidado prático — e não um título de prestígio. No Novo Testamento, de apóstolos a irmãos simples, todos são chamados de diáconos, servos de Cristo e servos uns dos outros (Mc 10:43–45; 1Co 3:5). Isso significa que não existe posição de superioridade no Reino; existe apenas diferença de função dentro do mesmo corpo. O serviço é a linguagem da maturidade cristã, porque é através dele que o amor se torna visível e o caráter de Cristo é formado.
Paulo ensina que o Espírito Santo distribui dons espirituais e dons de serviço “conforme quer” (1Co 12:11) e para um propósito muito claro: “o bem comum” (1Co 12:7). Deus não dá dons para desempenho individual, mas para edificação do corpo (Ef 4:11–12). Por isso, o apóstolo diz que cada membro deve servir na área em que Deus o colocou, e deve fazê-lo com alegria e responsabilidade (Rm 12:6–8). Há quem ensine, há quem sirva, quem contribua, quem administre, quem exerça misericórdia — mas tudo isso é obra do mesmo Espírito em membros diferentes do mesmo corpo. Não existe “cristão sem função”; existe cristão que ainda não descobriu sua função.
Paulo reforça essa verdade quando compara a igreja a um corpo em que “o olho não pode dizer à mão: não preciso de ti” (1Co 12:21). Ele acrescenta que os membros que parecem “menos importantes” são, na verdade, os mais necessários (1Co 12:22–23). Isso destrói qualquer hierarquia de valor e nos lembra que, no corpo de Cristo, não existe serviço pequeno quando é feito com fidelidade. A maturidade espiritual não aparece em quem deseja posição, mas em quem serve com contentamento onde Deus o colocou. Paulo mesmo diz: “Cada um permaneça na vocação em que foi chamado” (1Co 7:20). O cristão maduro é aquele que se alegra no lugar que Cristo lhe deu no corpo, porque entende que seu serviço vem do Senhor e é para o Senhor (Cl 3:23–24). E como vimos anteriormente, negligenciar esse chamado não é algo neutro.
Tiago afirma de forma direta: “Aquele que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado” (Tg 4:17). Esse é o pecado de omissão, tão grave quanto o pecado de ação. Quando um cristão esconde seu dom, deixa de servir, vive isolado ou reduz a vida cristã ao consumo de conteúdos espirituais, ele fere o corpo e entristece o Espírito. O serviço é parte essencial da vocação da ekklesía, porque somos uma família viva e um corpo conectado. Servir não é opcional: é expressão da ética do Reino, fruto do Espírito e responsabilidade diante da comunidade que Deus nos confiou.
Em resumo, ministério é serviço, e servir é amar. Deus nos chamou, Deus nos capacitou e Deus nos colocou no corpo — e o cristão maduro abraça esse chamado com alegria. Onde há dom sendo exercido, há vida; onde há serviço, há saúde; e onde cada membro faz a sua parte, Cristo é visto no meio da igreja.
Conclusão
Conclusão
A igreja é um presente de Cristo para o mundo e a expressão viva do Reino na história. Ela é a ekklesía, o povo convocado pelo Rei; é a família de Deus, formada pela graça; e é o corpo de Cristo, onde cada membro tem valor, função e responsabilidade. A vida cristã não é um caminho de isolamento, mas de comunhão. Não fomos chamados para viver sozinhos, mas para caminhar juntos, servindo, perdoando, edificando e manifestando o caráter de Cristo uns aos outros.
A maturidade espiritual aparece quando reconhecemos o lugar que Deus nos deu no corpo e o exercemos com alegria, sabendo que nossos dons existem para o bem comum. Onde há comunidade verdadeira, serviço sincero e amor prático, ali Cristo é visto e glorificado. Essa é a igreja — e essa é a responsabilidade de cada um de nós.
Texto para memorização
Texto para memorização
“Assim nós, embora muitos, somos um só corpo em Cristo, e membros uns dos outros. Romanos 12:5
Exercício de Fixação
Exercício de Fixação
Explique por que a salvação, embora seja experimentada de forma individual, é essencialmente coletiva segundo o ensino de Jesus e dos apóstolos.
(Baseie-se nos textos como Hb 10:24–25; Mt 5:23–24; Rm 12:4–5.)
2. O que significa o termo ekklesía no contexto greco-romano, e por que Jesus escolheu essa palavra em vez de “sinagoga”?
(Relacione com a ideia de convocação, nova humanidade e acesso de judeus e gentios.)
3. O que Paulo chama de “mistério revelado”, e como isso se relaciona com a identidade da igreja como família de Deus?
(Use Ef 3:3–6; Cl 1:26–27.)
4. Segundo o ensino de Paulo, qual é a relação entre os dons espirituais e o serviço dentro do corpo de Cristo?
(Explique com base em 1Co 12:7, 11; Ef 4:11–12; Rm 12:6–8.)
5. Por que a negligência do serviço cristão é considerada pecado de omissão?
(Baseie-se em Tg 4:17 e no conceito de responsabilidade dentro da família e do corpo de Cristo.)
