A grande diferença
Cristianismo do dia-a-dia • Sermon • Submitted • Presented
0 ratings
· 4 viewsEm 1 Coríntios 13, o apóstolo Paulo ensina que o amor cristão não é apenas um sentimento, mas uma decisão prática e superior a qualquer dom espiritual. Nesta mensagem da série "Cristianismo do Dia a Dia", aprendemos que, sem amor, nossas ações são vazias e sem sentido. Diferente dos dons passageiros, o amor é eterno. Somos desafiados a imitar a Cristo, escolhendo amar o próximo na igreja e nos conflitos diários, pois o verdadeiro amor sempre leva à ação.
Notes
Transcript
Introdução
Introdução
Continuamos com nossa série de pregações Cristianismo do Dia a Dia, série na qual apresentamos diversas doutrinas cristãs através da exposição de textos bíblicos que abordam essas doutrinas.
Hoje, trataremos de uma doutrina que causa bastante confusão, não porque os cristãos não a conheçam. De maneira geral, é bastante aceito que a doutrina do amor cristão é uma das características mais evidentemente cristãs, porque, afinal, são bem conhecidos textos bíblicos como “Deus é amor” (1Jo 4.8) e “Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu filho unigênito [...]” (Jo 3.16).
Contudo, o que é o amor? E consequentemente o que é amar? Segundo Luís Vaz de Camões, o amor “é um fogo que arde sem se ver, uma ferida que dói e não se sente” e, de maneira geral, as pessoas tendem a classificar o amor como uma espécie de sentimento intenso e contraditório.
Mas, e se o amor não for um sentimento? E se o amor, for a solução prática para todos os nossos conflitos pessoais? E, ainda melhor que isso, e o amor fosse justamente o caminho que Deus nos dá para nos tornarmos mais parecidos com Jesus Cristo?
Porém, antes de responder, um pouco de contexto.
A igreja de Corinto era um mistério. Por um lado, era uma comunidade de crentes problemáticos: eram divididos em panelinhas (1Co 1.10-17; 3.1-9), tinha irmão processando irmão (1Co 6.1-8), problemas morais sérios (1Co 5.1-13), e uma soberba terrível entre eles (1Co 4.6-8), dons que, em parte os tornavam mais arrogantes (1Co 14.18-19). Por outro lado, era uma igreja profundamente abençoada por Deus, de maneira que eles tinham muitos dons [habilidades] espirituais, como falar em línguas estranhas de forma sobrenatural e profecias (1Co 12.4-11; 14.1-5).
E é justamente quando o apóstolo Paulo começa a falar desses dons espirituais, de que os dons devem servir para a unidade e edificação da igreja, que ele diz que existe um caminho ainda melhor que os dons do Espírito (1Co 12.31b). Esse caminho é o amor, que é a solução para todos estes problemas e o alvo a ser perseguido por todas as igrejas, não só a de Corinto.
Veremos as quatro características do verdadeiro amor, que mostram que ele só pode vir de Deus e sempre nos leva a agir em favor do nosso próximo.
Exposição
Exposição
O amor cristão da sentido a todas as coisas
O amor cristão da sentido a todas as coisas
1Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine. 2Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei. 3E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, isso de nada me adiantará.
1Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine. 2Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei. 3E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, isso de nada me adiantará.
[Desenho: Desenhe um menino batendo com muita força em um gongo grande. Ao redor, coloque notas musicais "quebradas" ou rabiscos que representem barulho, ilustrando que fazer coisas sem amor é apenas ruído incômodo (1 Co 13.1)]
E a primeira característica deste amor é que é ele quem dá sentido a tudo o que fazemos, ou seja, sem o amor cristão, qualquer esforço nosso perde valor.
Os gregos tinham quatro palavras que poderiam ser traduzidas como “amor” [1], mas Paulo usa a palavra ἀγάπη (agápē, um amor de escolha) para se referir ao amor cristão. Desde que os judeus traduziram o Antigo Testamento para o grego (LXX), eles passaram a usar o “amor de escolha” para se referir ao amor da aliança entre Deus e seu povo (Dt 6.5).
Já no Novo Testamento, Paulo é o autor que mais usa essa palavra e sempre com esse significado elevado. E o que o apóstolo diz? Ele usa as situações que os coríntios valorizam, e cria situações exageradas para mostrar que o amor cristão é essencial.
Primeiro, os dons do Espírito: se os coríntios gostam do dom de falar em línguas estranhas (falar diversos idiomas), que eles saiba que, sem amor, falar é só barulho. Pode falar até idioma de anjo, que não terá sentido nenhum.
A natureza exata das línguas é debatida, mas seja idioma humano ou fala espiritual, Paulo enfatiza que sem amor é barulho vazio
Depois ele diz que o dom de profetizar (aqui, provavelmente no sentido de anunciar a palavra de Deus), os dons de sabedoria e conhecimento e até se a sua fé for tão forte que você mova montanhas, sem amor, você não vale nada.
Por fim, se deixar o amor de lado, não servirá de nada ser muito generoso ou se sacrificar pelos outros ou por Deus [2].
Ok, se não adianta agir sem amor, então nossas atitudes tem pouco a ver com o amor? De maneira nenhuma, pois...
O amor cristão leva à ação
O amor cristão leva à ação
4O amor é paciente e bondoso. O amor não arde em ciúmes, não se envaidece, não é orgulhoso, 5não se conduz de forma inconveniente, não busca os seus interesses, não se irrita, não se ressente do mal. 6O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. 7O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
4O amor é paciente e bondoso. O amor não arde em ciúmes, não se envaidece, não é orgulhoso, 5não se conduz de forma inconveniente, não busca os seus interesses, não se irrita, não se ressente do mal. 6O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade. 7O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
[Desenho: Desenhe uma fila com alguns bonecos esperando. O boneco do "Amor" está calmo e sorrindo, deixando outro passar na frente dele (não busca seus interesses), enquanto outro boneco está bravo olhando o relógio]
No português é difícil perceber o que Paulo está fazendo aqui, porque nossas bíblias traduzem os verbos gregos (ações) por adjetivos (qualidades). Então, para nós parece que ele está falando das qualidades do amor, mas, na verdade, Paulo está falando daquilo que o amor cristão faz.
E o apóstolo usa quinze verbos, quinze ações para definir o amor. A lista é grande demais para explorarmos cada parte em uma única pregação, mas podemos destacar alguns pontos:
O amor é paciente / age se apacienta: A palavra que é traduzida como “paciente” (μακροθυμέω, no presente) fala sobre um tipo de paciência extrema, muito intensa. Não é como aguentar por um tempo alguma pessoa chata, sendo mais parecido com resistir infinitamente à tentação de revidar um inimigo cruel, mesmo tendo o poder para fazê-lo. É uma paciência imensa, heroica mesmo. E o que é ainda mais útil para nós: essa palavra sempre se refere à paciência com relação a pessoas, não a circunstâncias. Só alguém transformado pelo Espírito de Deus pode amar assim.
O amor é bondoso / faz o bem: A ideia é que aquele que ama como Deus, toma a iniciativa de fazer o bem, não importando quem. Não é meramente sobre pensar bem dos outros, mas de ativamente buscar fazer coisas boas para os outros, algo tão contrário ao “pensar em nós mesmos primeiro” pregado em nosso tempo. Isso nos lembra o que disse Jesus em Mateus 7.12: “— Portanto, tudo o que vocês querem que os outros façam a vocês, façam também vocês a eles; porque esta é a Lei e os Profetas.” [4]
O amor tudo sofre, crê, espera, suporta: substitua a palavra “tudo” pela palavra “sempre” e você entenderá o que está escrito aqui. O amor não só age, ele age de maneira inabalável. O amor segundo Deus é uma decisão firme, não um mero sentimento que pode mudar dependendo das circunstâncias.
Os coríntios tinham dificuldade em permanecer unidos, em resolver suas diferenças de maneira pacífica, entre outros pecados. Eles se vangloriavam de profetizar, falar em outras línguas e de sua sabedoria sobrenatural, mas não faziam o mais básico, que era amar.
Depois de mostrar como o amor age, Paulo mostra por que ele é o caminho mais excelente: sua permanência.
O amor cristão é superior aos dons
O amor cristão é superior aos dons
8O amor jamais acaba. Havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará. 9Pois o nosso conhecimento é incompleto e a nossa profecia é incompleta. 10Mas, quando vier o que é completo, então o que é incompleto será aniquilado.
8O amor jamais acaba. Havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará. 9Pois o nosso conhecimento é incompleto e a nossa profecia é incompleta. 10Mas, quando vier o que é completo, então o que é incompleto será aniquilado.
11Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino. 12Porque agora vemos como num espelho, de forma obscura; depois veremos face a face. Agora meu conhecimento é incompleto; depois conhecerei como também sou conhecido.
11Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino. 12Porque agora vemos como num espelho, de forma obscura; depois veremos face a face. Agora meu conhecimento é incompleto; depois conhecerei como também sou conhecido.
[Desenho: Divida a folha ao meio. No lado esquerdo, desenhe um boneco "palito" bem simples e torto em uma folha de papel, com o título "Agora" (nosso conhecimento incompleto). No lado direito, desenhe uma pessoa real, bem detalhada e sorrindo, com o título "Depois" (o que é perfeito).]
Porque o amor não falha, não acaba.
Em comparação, Paulo diz que os dons que o Espírito Santo dá à igreja são muito bons e necessários para nos ajudar a crescer como pessoas, mas eles passam. As profecias, as línguas e o conhecimento que podemos obter sobrenaturalmente, são coisas incompletas, que têm sentido apenas até a volta de Cristo. Haverá um momento que ninguém precisará nos ensinar sobre Jesus, porque o veremos face-a-face.
O apóstolo usa duas metáforas para explicar isso.
Primeiro, ilustrando que o conhecimento e outros dons que podemos manifestar aqui são, por assim dizer, a infância da nossa relação com Deus e com o próximo. Você tem memórias de coisas que pareciam maiores ou mais gostosas na sua infância, mas que, ao ver ou experimentar na vida adulta, você achou muito diferente? Como crianças, compreendemos as coisas com limitações.
A outra metáfora é a do espelho. O que experimentamos de Deus hoje é como uma imagem turvada de um espelho. Contudo não é o espelho de vidro com uma camada de prata que você está acostumado. Paulo está se referindo aos espelhos da época dele, que eram feitos de metais muito polidos (geralmente bronze, mas também outros metais mais ou menos nobres, a depender do status social). Mesmo nos espelhos mais polidos, havia certa distorção na forma ou na cor da imagem refletida.
Hoje as coisas são assim, mas haverá um tempo (na volta de Cristo), que tudo ficará muito mais claro para os que são conhecidos por Deus (conhecidos = estão em aliança com Deus).
Mas com o amor não é assim.
O amor cristão permanece eternamente
O amor cristão permanece eternamente
13Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior deles é o amor.
13Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior deles é o amor.
[Desenho: Desenhe três velas. Duas estão pequenas, quase acabando (Fé e Esperança, que cumpriram seu papel), e a vela do meio (Amor) está alta, forte e brilhando muito, indicando que ela nunca se apaga.]
Já vimos que o amor permanece para sempre. O amor é tão superior que, na verdade, ele é maior que outras duas virtudes que todo cristão precisa ter: fé e esperança.
Entenda… Veja o que diz o autor aos Hebreus:
Hebreus 11.1 “Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se veem.”
Quando Cristo retornar, a fé não será mais necessária, porque o veremos; a esperança não será necessária por que o que esperamos chegou.
O amor reflete o próprio caráter de Deus, “pois Deus é amor” (1Jo 4.8). Nós já vivenciamos o amor verdadeiro (porque ele é o amor de Deus), mas ainda não o vivenciamos plenamente. Na volta de Cristo, o experimentaremos plenamente.
Aplicações
Aplicações
E o que podemos aprender com isso?
Primeiro, que a igreja é o primeiro lugar para exercitarmos o amor de Deus.
É aqui que aprofundamos nossos relacionamentos e, por isso, temos mais oportunidades de exercer a bondade, paciência, humildade, perdão, a justiça e a verdade. Pense: por quem da igreja posso orar hoje? A qual irmão posso ajudar essa semana? Há alguém que preciso perdoar na igreja?
Segundo, haverá conflitos na vida, mas Deus já nos deu a solução: o Amor.
Igrejas pequenas ou grandes, famílias, redes sociais, são formadas por pecadores redimidos e não-redimidos. Nós, infelizmente, cometeremos pecados contra outros, mas também seremos vítimas dos pecados deles. Não ignore os pecados/problemas que há aqui, mas foque na solução, no amor de Deus.
Terceiro, independente das circunstâncias, decida amar como Cristo.
Emoções são úteis, mas o amor cristão não é uma emoção e, sim, uma decisão. Haverão situações na vida que tornarão difícil agir com amor. Também não foi fácil para Jesus nos amar, mas Ele escolheu amar até na cruz (Fp 2.8).
O que nos faz mais parecidos com Cristo, não são nossas habilidades, nem a força da nossa fé, mas o amor que Deus nos capacita a ter pelo próximo.
Conclusão
Conclusão
E você? Tem amado de verdade?
Um famoso escritor cristão chamado Max Lucado, em seu livro “Um amor que vale a pena”, propõe um teste do amor:
Leia 1Co 13.4-7, mas substitua a palavra amor pelo seu nome. Não parece muito verdadeiro, né? Mas agora faça o mesmo exercício, mas colocando o nome Jesus no lugar da palavra amor. Agora o texto faz todo sentido.[5]
Se você é discípulo de Cristo, então deseja ser como seu mestre. E 1Co 13 te mostra como você pode, na prática, imitar a Jesus, tendo amor um tipo de amor pelo próximo que só pode vir dele.
_____________________________________________________________
[1] ἀγάπη (agápē) → amor de escolha, divino; φιλία (philía) → amor de amizade; ἔρως (érōs) → amor apaixonado, romântico/sexual; στοργή (storgḗ) → amor familiar, ternura instintiva.
[2] há a possibilidade de neste trecho a leitura seja “
[3] Paciência referente às circunstância é ὑπομονή (Ex.: Rm 5.3).
[4] A “Regra de ouro”. Não confundir com a “Regra de prata” de Confúcio, escrita cerca de 500 anos antes. Confúcio formulou “Não imponha aos outros aquilo que você mesmo não deseja”, que é uma regra de reciprocidade como a de Jesus, mas em tom negativo e muito mais fácil de aplicar, pois exige somente não fazer o mal, enquanto Jesus diz ser necessário a ativamente buscar o bem do próximo - uma ética muito mais elevada e difícil.
[5] Li há muitos anos e não recordo a edição/página para registrar a citação.
