Sem título Sermão (38)
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Transcript
O formato de TIMELINE, que é a rolagem contínua das redes sociais, não foi adotado a toa. É uma forma simples, quase automática, que mistura conteúdos gerando curiosidade no usuário. Algo pode não ser interessante, mas nos vemos presos para descobrir se o próximo é algo que nos interessará. Com essa ação somos expostos a algo que chamo de cultura do esquecimento, que é a facilidade de esquecermos o que descartamos, no afã de viver logo outra experiência.
Assim, um favor dura poucos segundos na memória, pois logo estamos ávidos pelo próximo capítulo nas nossas relações, e assim seguimos esquecendo dos favores e não sendo gratos como deveríamos ser.
Gratidão não é apenas dizer “obrigado” e rolar a tela para outra seção da vida. Obrigado quer dizer literalmente “estou ligado a você por esse favor”. Gratidão deveria nos prender uns aos outros, nos fazer valorizar quem nos favoreceu. Olhando por esse ângulo, vemos que não temos exercitado de forma correta a gratidão, mas temos sido superficiais nesse quesito, tendo mais evidente em nós a ingratidão.
A gratidão verdadeira gera compromisso, respeito, aliança com quem te favoreceu. Você tem estado ligado aos pais, vizinhos, amigos, irmãos, instituições, igreja, pastores e acima de tudo a Deus? Você é grato?
Deus nos guarda, sustenta, perdoa, guia, supre e nós rolamos a tela, esquecendo rapidamente o benefício e exigindo o próximo. A narrativa do esquecimento de 90% de leprosos curados por Jesus é o retrato fiel da ingratidão que ronda nossa vida. Vamos acompanhar essa narrativa confrontadora em Lc17.11-18.
P1 – Dez imundos leprosos necessitavam de cura
De caminho para Jerusalém, passava Jesus pelo meio de Samaria e da Galileia.
Jesus estava em uma região marcada por sérias divergências. Samaritanos não se relacionavam com judeus, e judeus evitavam samaritanos. No entanto, ali havia um grupo de dez leprosos.
Ao entrar numa aldeia, saíram-lhe ao encontro dez leprosos,
A lepra era uma sentença de exclusão da família, do convívio social, do culto e da dignidade humana. A dor e aflição daquele estado terrível coloca todos, judeus e samaritanos, no mesmo nível, pois pelo menos um deles era samaritano.
e prostrou-se com o rosto em terra aos pés de Jesus, agradecendo-lhe; e este era samaritano.
Naquele grupo não havia rivalidades, porque a necessidade comum os unia.
Vivendo à margem da sociedade, restritos ao isolamento e à vergonha, avistaram Jesus à distância, como a Lei exigia, e gritaram por misericórdia.
Ao entrar numa aldeia, saíram-lhe ao encontro dez leprosos, que ficaram de longe e lhe gritaram, dizendo: Jesus, Mestre, compadece-te de nós!
O desespero era profundo, e a esperança por um fio. Mas, ao verem Jesus, reconhecem nEle uma possibilidade real de transformação e clamaram alto pela ajuda daquele que julgaram ser capaz de curá-los. ERAM IMPUROS, EXCLUÍDOS, SEM ESPERANÇA e estavam diante da esperança das nações.
P2 – Nós, imundos pecadores, necessitamos de salvação
Assim como Jesus caminhava numa região de tensões, nós habitamos um mundo fragmentado por divergências políticas, religiosas, teológicas e filosóficas. Nossa geração é de pessoas distantes umas das outras pelo simples fato de terem pensamentos divergentes.
O mais terrível das semelhanças com o texto é que somos leprosos espirituais, piores do que os do texto, porque eles reconheciam seu estado de miséria, desejavam cura, clamaram por cura, e nós não.
Os leprosos do texto, mesmo com diferenças étnicas, uniram-se pela dor, e nós, mesmo igualmente pecadores, vivemos em guerra uns com os outros.
Os leprosos do texto sentiam a perda da convivência cerimonial, e muitos de nós perdemos a convivência cerimonial com Deus e a comunhão com a Igreja, e isso muitas vezes não nos produz indignação ou clamor por socorro. Muitos encaram com naturalidade o fato de não congregar.
Os leprosos do texto estavam privados de um abraço em família, já que viviam isolados. Muitos de nós perdemos relacionamentos familiares por falta de perdão, amor, prioridade e isso não nos machuca.
Nossa alma está leprosa pelo pecado, mas raramente gritamos por cura, ao contrário, queremos nos lambuzar ainda mais. A impureza que carregamos não é apenas física, mas espiritual. E não há dinheiro, poder ou prazer que cure a lepra da alma. A cura vem da mesma pessoa a quem aqueles homens clamaram: Jesus.
Só Ele pode limpar a sujidade do nosso coração.
P3 – Jesus, limpo e saudável, se envolveu com a impureza dos leprosos e curou
Ao ouvir o clamor, Jesus não os toca. Ele lhes dá uma ordem:
Ao vê-los, disse-lhes Jesus: Ide e mostrai-vos aos sacerdotes. Aconteceu que, indo eles, foram purificados.
E isso é extraordinário porque, segundo a Lei, só se apresentava ao sacerdote quem já estava curado. Jesus, então, os convida a exercitar a fé que enxerga antes de ver, que obedece antes de experimentar. Eles caminham sem mudança aparente, mas obedecem. A fé obedece à Palavra antes de ver o milagre. E no caminho, Deus age.
Ao vê-los, disse-lhes Jesus: Ide e mostrai-vos aos sacerdotes. Aconteceu que, indo eles, foram purificados.
A cura acontece enquanto obedecem. As feridas se fecham, a pele se restaura, e a esperança renasce. Agora podiam abraçar suas famílias, voltar ao convívio social, participar do culto — tudo de volta!
No entanto, nove seguem o caminho natural de, pelo que se vê, ir ao sacerdote humano. Mas um reconhece que o verdadeiro sacerdote está mais perto do que imagina.
Um dos dez, vendo que fora curado, voltou, dando glória a Deus em alta voz, e prostrou-se com o rosto em terra aos pés de Jesus, agradecendo-lhe; e este era samaritano.
Ele volta a Jesus — não apenas para cumprir um rito, mas para adorar aquele que não apenas atesta o milagre, mas o produz. Apenas um retorna para AGRADECER, para se mostrar obrigado a um compromisso com aquele que o favoreceu. Isso é gratidão verdadeira!
O espanto de Jesus ecoa através dos séculos:
Então, Jesus lhe perguntou: Não eram dez os que foram curados? Onde estão os nove?
A ingratidão humana surpreende o coração de Jesus.
P4 – Jesus curou a doença do corpo de todos e a alma do que demonstrou gratidão
A verdadeira cura que Jesus oferece não termina no corpo — começa na alma.
Não houve, porventura, quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro? E disse-lhe: Levanta-te e vai; a tua fé te salvou.
Os dez receberam graça comum; apenas o surpreendente Samaritano recebeu graça salvadora. A diferença não está na pele restaurada, mas no coração transformado. Quando Cristo cura a alma, Ele gera gratidão.
Quantos de nós estamos aparentemente bem, sem sinais de lepra na pele, mas com o coração totalmente tomado pela lepra do pecado, caminhando por um abismo de ingratidão que não reconhece o tudo que Deus já realizou. Querem seguir em frente, quando Jesus aguarda uma conversão de rota. Ao invés de seguir para se apresentar ao sacerdote humano, a atitude correta seria voltar e se apresentar cheio de gratidão ao Sumo Sacerdote de nossas vidas, Jesus de Nazaré. A gratidão verdadeira é a que volta para o Benfeitor.
O samaritano entendeu que o maior presente não era a pele restaurada, mas o Cristo restaurador. Ele volta, se prostra, glorifica a Deus e recebe de Jesus a declaração que nenhum dos outros ouviu:
“A tua fé te salvou.”
A cura do corpo devolveu dez homens à sociedade, mas a cura da alma devolveu uma alma para Deus.
Hoje, Cristo continua chamando leprosos espirituais. Todos recebem diariamente o cuidado providencial de Deus: vida, força, alimento, proteção, família. Mas poucos retornam em gratidão. A pergunta de Jesus continua ecoando: “Onde estão os outros nove?”
