(1Co 14:20-25)

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1Coríntios 14.20 “Irmãos, não sejais meninos no juízo; na malícia, sim, sede crianças; quanto ao juízo, sede homens amadurecidos.”
Há duas características das crianças: uma é a disposição para se alegrar com ninharias ou para fazer uma avaliação errada das coisas; a outra é a relativa inocência. Há uma grande diferença em relação a tudo o que é mau entre uma criança pequena e um homem adulto. O apóstolo desejava que os coríntios deixassem de lado a primeira dessas características. Ele desejava que cultivassem a segunda. Eles tinham demonstrado uma disposição infantil ao valorizar o dom das línguas acima de dons mais úteis e ao usá-lo quando não servia para nenhum propósito bom.
1Coríntios 14.21 “Na lei está escrito: Falarei a este povo por homens de outras línguas e por lábios de outros povos, e nem assim me ouvirão, diz o Senhor.”
Os judeus recusaram-se a ouvir os profetas falando a sua própria língua, e Deus ameaçou trazer sobre eles um povo cuja língua eles não poderiam entender. Isso foi um julgamento. A partir disso, os coríntios poderiam aprender que não era um sinal da graça divina ter professores cuja língua eles não podiam entender. Eles estavam transformando uma bênção em maldição. O dom das línguas foi concebido, entre outras coisas, para facilitar a propagação do evangelho, permitindo aos cristãos dirigir-se a pessoas de várias nações, cada uma na sua própria língua. Usado para esse fim, era uma bênção; mas empregá-lo para se exibir, dirigindo-se àqueles que não compreendiam a língua empregada, era transformá-lo numa maldição.
Essa era a grande ameaça na Antiga Aliança - que o povo fosse dominado por outros povos. A língua então caracterizava o juízo - eles não entenderiam aqueles que o dominariam. Houve um período sombrio na história da Igreja, foi o período chamado idade média - em que a Palavra foi ocultada o povo, e uma nova língua foi autoriza como língua oficial da igreja, e como a tradução sagrada da Bíblia. A Palavra não poderia ser lida senão em latim. A homilia era feita em latim. Os cânticos eram em latim. O povo estava proibido de ler a bíblia, de entender a Bíblia. Isso é uma maldição. A igreja evangélica hoje, muito pouco espiritual, o contrário do que se diz, mas cheia sim de emocionalismo, tem como grande característica de espiritualidade o falar em uma língua incompreensível. Isso não é espiritualidade, não é uma bênção.
1Coríntios 14.22 “De sorte que as línguas constituem um sinal não para os crentes, mas para os incrédulos; mas a profecia não é para os incrédulos, e sim para os que creem.”
Paulo afirma então que as línguas eram um sinal. O. Palmer Robertson explica que as línguas eram um sinal que apontava para uma mudança dramática na direção do procedimento de Deus para operar mundo.
Apesar de as línguas não ocorrerem no AT, o AT profetizava algo a respeito das línguas.
O. Palmer Robertson: “As línguas são mencionadas explicitamente no Velho Testamento não menos do que três vezes. Três diferentes autores em três diferentes livros do VT explicitamente profetizam sobre as línguas. Em cada caso, as Escrituras veterotestamentárias indicam que as línguas são um sinal de maldição pactual para Israel. Com esta citação de Isaías 28, Paulo põe o falar em línguas no contexto da história da redenção. O profeta perguntara: ‘Ora, a quem ensinará ele [Deus] o conhecimento? E a quem fará entender a mensagem?’ (Is 28:9a). Então o profeta responde à sua própria pergunta: ‘aos desmamados, e aos arrancados dos seios’ (Is28:9b).”
“Se você não ouvir a clara palavra de Deus em sua língua materna, então Deus lhe falará através de um idioma estrangeiro. Ele lhe falará para que ouça palavras da forma como crianças ouvem a conversação dos adultos. Se você pretende agir como criancinha, então Deus lhe falará como se você fosse criancinha.”
Deuteronômio 28.49 “O Senhor levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra virá, como o voo impetuoso da águia, nação cuja língua não entenderás;”
As línguas servem como um sinal de que o juízo chegou para Israel. A ameaça de maldições pactuais deve cumprir-se, porque Israel fracassará em dar ouvidos à Palavra de Deus.”
Jeremias 5.15 “Eis que trago sobre ti uma nação de longe, ó casa de Israel, diz o Senhor; nação robusta, nação antiga, nação cuja língua ignoras; e não entendes o que ela fala.”
Então o objetivo de Paulo é mostrar que, assim como enviar estrangeiros entre os hebreus era um sinal do descontentamento de Deus, falar em línguas estrangeiras nas assembleias cristãs seria uma maldição e não uma bênção. O significado é que, quando um povo é desobediente, Deus envia-lhe mestres que eles não conseguem compreender; quando são obedientes, Ele envia-lhes profetas que falam a sua própria língua. Então falar numa língua que aqueles que ouvem não compreendem é a causa do mal; enquanto que falar de forma compreensível é a fonte do bem.
É preciso lembrar que não é do dom das línguas que o apóstolo fala, mas de falar às pessoas numa língua que elas não compreendem. E, portanto, essa interpretação não implica qualquer menosprezo ao dom em questão. Quando usado corretamente, ou seja, quando empregado para se dirigir àqueles para quem a língua usada era inteligível, era profecia. Falar em línguas, num sentido, era uma graça e uma bênção; noutro sentido, era uma loucura e uma maldição.
Atos dos Apóstolos 2.1–13 “Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar; de repente, veio do céu um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam assentados. E apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo, e pousou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem. Ora, estavam habitando em Jerusalém judeus, homens piedosos, vindos de todas as nações debaixo do céu. Quando, pois, se fez ouvir aquela voz, afluiu a multidão, que se possuiu de perplexidade, porquanto cada um os ouvia falar na sua própria língua. Estavam, pois, atônitos e se admiravam, dizendo: Vede! Não são, porventura, galileus todos esses que aí estão falando? E como os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna? Somos partos, medos, elamitas e os naturais da Mesopotâmia, Judeia, Capadócia, Ponto e Ásia, da Frígia, da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia, nas imediações de Cirene, e romanos que aqui residem, tanto judeus como prosélitos, cretenses e arábios. Como os ouvimos falar em nossas próprias línguas as grandezas de Deus? Todos, atônitos e perplexos, interpelavam uns aos outros: Que quer isto dizer? Outros, porém, zombando, diziam: Estão embriagados!”
O que esse acontecimento significa pra nós? Porque Lucas está registrando isso? Lucas, aqui em Atos 2, está mostrando o início da Igreja do NT como um Templo dos últimos dias - o lugar onde o Espírito Santo, Deus, agora habita. Perceba que o texto diz que o som veio do céu. A teofania, aquela manifestação sobrenatural, visível de Deus, com barulho, e fogo, veio do céu. Então a ideia é que o Templo de Deus, a habitação de Deus, está descendo sobre a igreja. Esse novo Templo dos últimos dias, é superior ao Templo da Antiga Aliança, do Antigo Testamento, de onde Deus saiu:
Ezequiel 10.18–19 “Então, saiu a glória do Senhor da entrada da casa e parou sobre os querubins. Os querubins levantaram as suas asas e se elevaram da terra à minha vista, quando saíram acompanhados pelas rodas; pararam à entrada da porta oriental da Casa do Senhor, e a glória do Deus de Israel estava no alto, sobre eles.”
Ezequiel 11.22–23 “Então, os querubins elevaram as suas asas, e as rodas os acompanhavam; e a glória do Deus de Israel estava no alto, sobre eles. A glória do Senhor subiu do meio da cidade e se pôs sobre o monte que está ao oriente da cidade.”
Então devemos entender que Lucas em Atos2, no Pentecostes, está explicando que um novo templo está sendo construído, e que essa é a continuação da obra de Cristo, por meio do Espírito. Jesus veio, morreu e ressuscitou, e quando subiu para o céu derramou o Espírito Santo sobre a Igreja, construído assim um novo local da sua habitação.
Agora é muito importante entendermos o simbolismo dessa manifestação. Era o som vindo do céu, como de um vento impetuoso, e línguas como de fogo. Isso é uma teofania que lembra as aparições de Deus no AT. Deus se manifestava nessas teofanias com som de trovão e na forma de fogo. No Monte Sinai acontece algo muito parecido. Quando Deus aparece pela primeira vez ao povo numa aparição visível, foi no Sinai, e lá havia o som, trovões, o terremoto, a fumaça e o fogo. Resumindo, o que temos ali e aqui em Pentecostes era a fala em meio ao fogo. Era o som, a língua e o fogo.
Tem uma passagem do profeta Isaías, logo depois de Isaías 28, no capítulo 30, que usa a exata expressão “línguas como de fogo”. Vamos entender ali o que significa isso:
Isaías 30.27–30 “Eis o nome do Senhor vem de longe, ardendo na sua ira, no meio de espessas nuvens; os seus lábios estão cheios de indignação, e a sua língua é como fogo devorador. A sua respiração é como a torrente que transborda e chega até ao pescoço, para peneirar as nações com peneira de destruição; um freio de fazer errar estará nos queixos dos povos. Um cântico haverá entre vós, como na noite em que se celebra festa santa; e alegria de coração, como a daquele que sai ao som da flauta para ir ao monte do Senhor, à Rocha de Israel. O Senhor fará ouvir a sua voz majestosa e fará ver o golpe do seu braço, que desce com indignação de ira, no meio de chamas devoradoras, de chuvas torrenciais, de tempestades e de pedra de saraiva.”
Beale: “Essa passagem se refere a Deus ‘descendo’, muito provavelmente de seu templo celestial, o que é reforçado pela observação de que esse templo está situado em um lugar distante (‘o Senhor vem de longe’); além disso, Deus aparece na ‘densa fumaça… sua língua é como um fogo consumidor’, e sua respiração (ruah = Espírito) é como o ribeiro transbordante na labareda de um fogo consumidor’; e ‘o Senhor fará ouvir a sua voz de autoridade’.
Percebam que a passagem fala sobre a ira de Deus, que é executada pela sua língua, sua voz, sua respiração - sua Palavra!
Nós podemos facilmente entender, irmãos, que as línguas sobre o povo em Pentecostes, Atos 2, são uma expressão do Juízo de Deus, mas do juízo de Deus sobre quem?
Robertson: “As línguas funcionam como um sinal na história da redenção indicando que Deus está fazendo uma mudança. [...] Deus estava indicando que não mais falaria um único idioma a um único povo. Pelo menos, desde o tempo de Moisés, ele falou um só idioma a um só povo. Mas agora, através do dom de línguas no Pentecostes, Deus indica que pretende falar em muitos idiomas a muitos povos. Ele falará em todos os idiomas do mundo, a todos os povos da terra. [...] Em contrapartida as línguas significavam um juízo distintivo para Israel. Jesus fala desse mesmo juízo, quando diz: ‘Portanto eu vos digo que vos será tirado o reino de Deus, e será dado a um povo que dê os seus frutos’ (Mt21:43).”
Os gentios tanto quanto os judeus tiveram a oportunidade de entender em sua própria língua que também eles estavam sendo convidados a participar do Reino de Cristo. As línguas ilustraram dramaticamente o caráter universal do cristianismo. Deus não mais limitava a um só povo. [...] Através do dom de línguas Deus tornou óbvio a todos que ele já deixou de falar um só idioma ao mundo e passou a falar todos os idiomas do mundo a todos os povos do mundo.”
1Coríntios 14.23–25 “Se, pois, toda a igreja se reunir no mesmo lugar, e todos se puserem a falar em outras línguas, no caso de entrarem indoutos ou incrédulos, não dirão, porventura, que estais loucos? Porém, se todos profetizarem, e entrar algum incrédulo ou indouto, é ele por todos convencido e por todos julgado; tornam-se-lhe manifestos os segredos do coração, e, assim, prostrando-se com a face em terra, adorará a Deus, testemunhando que Deus está, de fato, no meio de vós.”
Então a conclusão de Paulo é muito prática, porque se um indouto, quer dizer, alguém que não conhece a língua, e um incrédulo, que não crê na Palavra, entra na igreja e vê, não apenas uma língua que ele não entende, mas várias pessoas falando em diferentes línguas, eles não vão concluir que vocês estão loucos?
Mas se todos profetizarem, ou seja, se houver interpretação, se houver compreensão, se o grego ouvir o evangelho em grego, e o espanhol em espanhol, então não haverá transformação? Edificação? Consolação? Exortação? Nas palavras de Paulo, essas pessoas seriam convencidas. Convencidas de quê?
Charles Bridges: Ela ficaria convencida da verdade do que ouviu; convencida do pecado, da justiça e do juízo, João 16:8; convencida de que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo, Atos 9:20, 22; e que é fiel e digna de toda aceitação a palavra de que Jesus Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores, 1 Timóteo 1:15. Ele é julgado por todos, isto é, examinado, investigado (ἀνακρίνεται); pois a palavra de Deus é um discernidor (κριτικός) dos pensamentos e intenções do coração, Hebreus 4:12. O resultado desse exame minucioso é que os segredos do seu coração são manifestados; isto é, são revelados a ele mesmo. O seu verdadeiro caráter e estado moral, em relação aos quais ele antes era ignorante, são-lhe revelados. O efeito disso é humildade, contrição, autocondenação e volta para Deus. Nessa condição de pecador convencido que foi levado ao conhecimento de si mesmo, caindo com o rosto em terra, ele adorará a Deus. O primeiro passo na religião é a humilhação total; tal convicção de pecado, isto é, de culpa e poluição, que levará à autocondenação e à autoaversão, e à renúncia completa de toda a dependência da nossa própria justiça e força. Quando a alma é assim humilhada, Deus revela-se, mais cedo ou mais tarde, em misericórdia, manifestando-se como reconciliado em Jesus Cristo; e então nós o adoramos. Isso expressa reverência, amor e confiança. É o retorno da alma ao favor e à comunhão de Deus. Quem teve tal experiência não pode guardá-la para si mesmo. O apóstolo, portanto, descreve o convertido como declarando, isto é, proclamando em voz alta que Deus está em nosso meio de verdade. «Com o coração se crê para a justiça, e com a boca se confessa para a salvação», Romanos 10:10. O que se reconhece é que Deus está em ti, ou seja, que o cristianismo é divino; que os cristãos não são fanáticos iludidos, mas os verdadeiros filhos de Deus, nos quais ele habita pelo seu Espírito.
Palmer Robertson: “A assembleia de cristãos não deve repousar satisfeita com a manifestação do dom de línguas, o sinal de juízo destinado aos incrédulos. Se o incrédulo deverá ser convencido de que é um pecador, os oradores no seio da assembleia devem avançar das línguas para a profecia (1Co14:4). Então, os segredos de seu coração virão a lume, ele se prostrará e adorará a Deus e perceberá a presença de Deus no meio de seu povo (1Co14:25). É a profecia, e não as línguas, que finalmente transformará os incrédulos em crentes (1Co14:22b). [...] Até que Cristo volte em glória, a ‘mais firme palavra profética’ encontrada na Escritura serve à igreja como o instrumento divino para convencer e converter os pecadores (2Pe1:19).”
Irmãos, os judeus até hoje entendem que o hebraico é a língua que o próprio Deus fala. Para eles o Antigo Testamento só pode ser realmente lido em hebraico. Então Jesus veio, e seus apóstolos completaram a Bíblia com o NT em grego coinê, a língua do povo. O Catolicismo Romano então oficializou a língua do império como a língua de Deus, o latim como a língua sarada na qual a bíblia deveria ser lida e ouvida. Mas aí veio a Reforma Protestante, e a Palavra de Deus foi traduzida para o alemão, inglês, francês etc. As pregação passaram a ser na língua do povo. A Pregação era chamada pelos Reformado de Vox Dei, a Voz de Deus, não por ser uma nova revelação, uma profecia literal, mas porque, quando estava em harmonia com a Escritura, era o próprio Deus falando ao seu povo.
Hoje há Escritura foi e continua sendo traduzida para muitas línguas, e continua sendo o livro mais vendido do mundo. Mas eu vejo a igreja brasileira, e há tão pouca leitura da Escritura. E nas igrejas há tanto grito e tantas línguas estranhas, mas tão pouca pregação expositiva. A Bíblia é colocada de lado na igreja evangélica. Precisamos voltar às Escrituras!
Robertson:“As línguas são um sinal, um sinal que não mais é necessário. Aliás, em seus dias elas também serviram ao propósito de ser um método de revelação. Pois as línguas interpretadas eram equivalentes a profecia. Eram as próprias palavras de Deus que, quando corretamente entendidas, podiam edificar a igreja. Mas assim como a igreja não mais necessita de um sinal que estabeleça seu caráter todo-abrangente, assim tampouco a igreja necessita da revelação da nova verdade divina que as línguas puderam fornecer. Nem mais necessária é a palavra profética, visto que a plenitude da palavra profética tem sido preservada na Escritura. Tampouco a igreja necessita do pseudoprofetismo nem das pseudolínguas. Não necessita de nenhum desvio da cristalina declaração do mistério divino que agora é revelado em toda sua plenitude. A única coisa de que a igreja e o mundo necessitam hoje é a da fiel proclamação da Palavra de Deus a nós legada desde os tempos de outrora.”
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