A fidelidade de Deus na redenção

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Introdução
Chegamos à terceira cena do livro de Rute. Somos novamente conduzidos ao cenário íntimo e, agora, esperançoso de duas mulheres que, em meio à uma série de tragédias familiares, aprendem na prática o que é depender de Deus. A história continua a avançar e a essa altura há uma pergunta que clama por uma resposta: Noemi e Rute encontrarão o descanso e a proteção da qual precisam? No início da resolução desse grande dilema, o texto nos revela, com ainda mais nitidez do que vimos até agora, a mão fiel, soberana e bondosa do Senhor guiando cada detalhe, utilizando meios ordinários e pessoas comuns para cumprir Seus propósitos, que muitas vezes são extraordinários. Como veremos nesta noite, a mesma fidelidade que preservou e resgatou uma família em Belém, hoje sustenta a redenção de todos os que pertencem a Deus e se achegam à Ele por meio de Cristo, o resgatador por excelência, a encarnação da fidelidade que não falha, que não muda e que continua a ser manifesta em favor do homem.
Transição
Nessa noite, a partir do texto lido, trabalheremos o tema que dá nome à essa série de exposições em Rute: A fidelidade de Deus na redenção. Veremos mais uma vez como o Senhor se mantém fiel à sua palavra e age para prover a restauração de Rute e Noemi, na esfera particular e familiar, e como essa história estabelce um belo paralelos sobre a fidelidade desse mesmo Deus na redenção de todos os seus eleitos, em Cristo Jesus.
1. Em sua fidelidade Deus promove a redenção garantindo descanso e proteção - v. 1-5
Já vimos anteriormente que um conceito importante aqui no livro de Rute é o conceito de hesed, ou amor pactual. No pacto, Yahweh se compromissou a ser o Deus de seu povo. Esse compromisso compreende, entre outras coisas, o cuidado, a proteção e a redenção, que são por Ele operadas, não por mérito do povo, mas exclusivamente em fidelidade à sua própria natureza, que é verdadeira e graciosa. E assim como ocorreu no capítulo 2, a fidelidade de Deus está em ação também no capítulo 3, quando a expectativa pela restauração de Rute e Noemi atinge um ponto muito alto.
Deus é aquele promove a redenção e a restauração do seu povo. E nesse ato, Ele mesmo, de maneira benevolente manifesta seu hesed, suprindo o homem daquelas que são suas necessidades prioritárias. Nas últimas semanas vimos como Deus utiliza ações humanas para operar na história e conduzí-la de acordo com seu propósito. Para promover a redenção, aqui no cap. 3, Ele usa o plano de Noemi, a disposição de Rute, e a benevolência de Boaz.
Pense por um instante nas coisas que você julga necessárias. Agora pense em quais delas causam em você algum tipo de ansiedade ou um desejo mais exasperado. É muito provável que alguns de vocês tenham colocado entre as necessidades básicas da vida a segurança e a proteção. E ao olhar para o texto, vemos que essas necessidades são compartilhadas por Noemi e Rute.
Olhe para as palavras de Noemi no v. 1. Se lembre que estamos lidando com uma história que ocorreu em um contexto muito diferente do nosso. Qual era a necessidade mais urgente de Rute nesse momento? Ela precisava de um lar, de refúgio, de um abrigo onde seja acolhida. E onde ela poderia encontrar isso? Em um novo casamento, com um bom homem. A palavra traduzida como lar, tem o sentido prioritário de descanso. E de fato um bom casamento daria a Rute o suprimento de suas necessidades mais elementares. Ela descansaria após as grandes tragédias enfrentadas e encontraria um lugar de refúgio e proteção, pois, essas necessidades seriam providas no casamento. Logicamente, pela fidelidade de Rute à sua sogra, Noemi também seria abençoada e desfrutaria dos frutos dessa redenção.
Você se lembra de como Deus usa instrumentos humanos para operar sua soberania, provisão e fidelidade? Aqui entre os v. 4-5, vemos isso no plano de Noemi. Há algumas questões culturais que não serão tratadas hoje. Em suma o que temos é: A sega chegara ao fim. Como os campos ficavam fora da cidade, era esperado que Boaz, por motivos de segurança , permanecesse na eira, um local plano, perto de onde se fazia a colheita e onde os grãos eram tratados, para evitar que fossem roubados ou danificados. Noemi instruiu Rute para que se dirigisse até a eira e observasse o lugar onde Boaz se deitaria, para posteriormente se colocar aos seus pés, para que quando Boaz acordasse e visse Rute, ele mesmo a direcionasse quanto ao que fazer. As instruções de Noemi abrem espaço para muitas ambiguidades. Estaria ela agindo de maneira sorrateira e forçando algo entre Boaz e Rute? Estaria ela esperando que Rute seduzisse Boaz, que conforme veremos mais a frente no texto, estava com o “coração um tanto alegre”, provavelmente pelo vinho? Não há como dizer nem que sim, nem que não. O que sabemos é que uma vez instruída por Noemi, Rute foi até a eira, e embora não tenha agido exatamente como sua sogra dissera, no fim das contas o plano deu certo. No caso, não apenas o plano de Noemi, mas o plano do próprio Deus. E aqui, usando o plano de uma viúva idosa, e a obediência de uma nora estrangeira, Deus está pavimentando o caminho para demonstrar mais uma vez a sua fidelidade, pois, desse encontro na eira virá o casamento que promoverá a restauração de Rute e Noemi, bem como a provisão de suas necessidades mais básicas.
Talvez ao me ouvir você esteja se perguntando o que tudo isso tem a ver com sua vida. Se lembre que a redenção de Noemi e Rute é um retrato da nossa própria redenção. A igreja é retratada nas Escrituras como alguém que necessita de descanso e proteção. Tanto Israel no Antigo Testamento, quanto a Igreja no presente, compartilham a mesma condição de peregrinos, estrangeiros que precisam desesperadamente de acolhimento e de um descanso pleno para a alma. Todos nós em certa medida, somos ou fomos iguais a Rute. Agora veja que inegavelmente, todo homem, ainda que não saiba possui uma necessidade ainda mais urgente que a de proteção e descanso, que no caso de Rute e Noemi, poderiam ser providas mediante um casaemtno. Todo homem precisa ser protegido não apenas das crises e vicissitudes da vida ordinária, mas, sobretudo, todo homem precisa ser protegido da justa ira de Deus contra o pecado. No tempo em que Rute vivia, mulheres encontravam muitas dificuldades para suprir suas necessidades financeiras por conta própria, mas mesmo com todas as dificuldades inerentes ao contexto cultural, ela poderia trabalhar, como fez no cap. 2, e conseguir seu próprio sustento. Não era o ideal, mas era possível. Nós por outro lado, somos incapazes de produzir qualquer coisa que nos proteja da ira de Deus e nos conceda descanso para a alma. A condição natural de todo homem é de incapacidade espiritual, pois, nenhum de nós deseja ou busca a Deus de per si em decorrência da morte espiritual causada pelo pecado. Dessa forma o homem só encontrará descanso e proteção, se Deus o resgatar e der a ele um novo coração. E ele o faz por meio de alguém que é adequado para suprir as necessidades que temos, Jesus. Então, a bem da verdade, embora possamos parecer, humanamente, em situação confortável, a sem Cristo, nossa condição é infinitamente mais desesperadora do que a de Rute. Sem Ele, o nosso resgatador, estamos na mesma condição da Igreja de Laodicéia: infelizes, miseráveis, probres, cegos e nus. Carentes do descanso e da proteção que só Cristo pode nos dar.
2. Em sua fidelidade Deus estabelece um redentor adequado - v. 6-18
A partir do v.6 vemos o desenrolar do plano de Noemi. O texto afirma que Rute foi para eira e fez conforme sua sogra havia ordenado. Os v.7-8 servem como uma explicação pormenorizada dos eventos pensados por Noemi, então não nos deteremos neles. No v. 9 vemos o primeiro contato de Boaz com Rute no capítulo. Ao acordar no meio da noite ele se depara com Rute, sem saber ainda quem ela é.
Como já vimos anteriormente, e não custa repetir, Deus guia e administra a história empregando muitos meios, inclusive, as escolhas de agentes livres, como Noemi, Rute e Boaz. Rute seguiu as instruções de sua sogra, mas nesse momento no v.9 ela foi mais direta e mais proativa, do que Noemi havia sugerido. Ao se apresentar a Boaz, ela não esperou que ele direcione a situação, pelo contrário ela tomou a iniciativa, deixando claro aquilo que esperava ao pedir para que ele estendesse sua capa sobre ela. Aqui temos uma questão cultural que para nós não faz sentido à primeira vista. Para começar a elucidar a questão quero convidar você para olhar um outro texto. Em Ezequiel (Ez. 16.8) esse mesmo tipo de linguagem foi utilizado, em referência à ação de Deus para com Israel, quando por meio do profeta o Senhor afirmou que viu Israel e sobre ela estendeu sua capa, escondendo sua nudez e entrando em aliança e juramento com ela, que passou a ser a sua nação. A relação de Deus com o povo, de Cristo com a igreja, é explicada na alegoria do casamento. Uma aliança de juramento e fidelidade.
No contexto do Israel Antigo, o ato de um homem estender sua capa sobre uma mulher era entendido como um pedido delicado de casamento. Ao pedir isso, Rute deixa clara a sua intenção, considerando o fato de que Boaz é o resgatador. Compreendesse plenamente ou não o fato de que Deus utiliza homens como instrumentos no exercício da provisão, a declaração de Rute deixa evidente que ela de alguma forma entendeu que ele, Boaz, era o homem adequado para o resgate do qual ela e sua sogra necessitam. E aqui preciso tecer alguns comentários sobre o resgatador.
A palavra hebraica utilizada é Go’el. Essa é uma figura jurídica e familiar muito importante na tradição hebraica, com múltiplas responsabilidades de proteção e resgate. Tratava-se do parente mais próximo de alguém, que possuia obrigações indeclináveis de proteger um familiar em desgraça, o que incluía resgatar da escravidão causada por dívidas, restituir propriedades familiares perdidas, conceder descendência a um parente morto ou vingar uma morte injusta. O go’el, dessa maneira, era um dos instrumentos usados por Deus para promover a redenção e a restauração dos israelitas. Uma vez que entendemos o fato de que Deus está utilizando a história de Rute para apresentar, em certa medida, o drama da redenção, é importante entender que o Go’el é considerado um tipo de Cristo como Redentor, na perspectiva de que Jesus é visto como o Irmão mais velho, o parente mais próximo que resgata toda a família de Deus.
Em sua fidelidade à aliança, Deus está por meio de Boaz, provisionando a redenção das duas viúvas que se encontram em uma situação calamitosa. Tanto o texto do cap.3, quanto os demais capítulos do livro, apresentam algumas questões interessantes que nos permitem identificar Boaz como o resgatador adequado.
Boaz é o resgatador adequado, pois, é fiel a Deus. Desde o capítulo 2 esse homem que a princípio não conhecia Rute e que não tinha nenhuma obrigação imediata para com ela se mostra obediente à lei do Senhor. Ele permitiu que ela rebuscasse espigas em seu campo, a tratou com dignidade, demonstrou amor, assim como a lei de Deus exige. Aqui no capitulo 3, o mesmo cuidado e amor é visto no tratamento que novamente é dispensado à Rute (v. 14). Boaz foi cordial e respeitoso, não buscando ocasião para se aproveitar de Rute, tomando o cuidado inclusive para que sua presença não fosse notada, evitando assim qualquer comentário difamatório contra ela. Todas essas ações figuram como a expressão de um coração que é, acima de tudo, leal ao Senhor.
Boaz é um resgatador adequado porque Ele possui os requisitos para desempenhar a função. Veja, nem todos os homens eram aptos para desempenhar o papel de resgatador. O Go’el deveria ser alguém relacionado familiarmente aos resgatados e Boaz é apresentado como um dos parentes (v.2). O Go’el deveria possuir as condições financeiras para tal, no cap.2 ele foi apresentado como senhor de muitos bens, logo ele possui condição a condição financeira necessária. Dessa forma, fica claro que Boaz atende plenamente esses requisitos. Além disso, acabamos de ver que ele é um homem temente ao Senhor. A junção desses fatores deixa inegável o fato de que ele é o instrumento adequado, suscitado por Deus, para demonstrar a sua fidelidade na restauração de uma família da aliança, e para servir como um tipo de Cristo que de maneira muito parecida opera o resgate dos eleitos de Deus da miséria ocasionada pelo pecado.
Boaz é o resgatador adequado, pois, além de possuir os requisitos, ele está disposto a fazer o que precisa ser feito. No v.11, Boaz reconheceu que o testemunho público atestava a virtude de Rute. Embora hovesse passado pouco tempo desde a chegada da moabita à Belém, o testemunho de sua fidelidade à Noemi, e o seu trabalho em favor dela, se tornaram conhecidos na cidade. O reconhecimento de Boaz, acerca da virtude de Rute, veio acompanhado da disposição de na prática se tornar o seu resgatador, pelo casamento. Ele estava faria o que deveria ser feito. O contexto geral de suas falas nos permite concluir que ele não agia por mera obrigação, pelo contrário, estava disposto a ser o resgatador de Rute, e por consequência de Noemi, de bom grado, com o coração alegre. Nos v.12-13 Boaz afirma não ser o parente mais próximo, no entanto, ele deixa mais uma vez evidente que em não havendo o interesse desse outro parente em realizar o resgate, ele o faria. Sua disposição em fazer o que precisava ser feito era tamanha que Ele recorre ao próprio Deus como testemunha do desejo de seu coração.
A partir do v.15 o desfecho do plano de Noemi é apresentado. Ao romper da manhã Rute retorna à sua sogra. A benevolência do resgatador Boaz foi demonstrada mais uma vez, ao prover as mulheres de comida, dando a Rute seis medidas de cevada. Ao fim do capítulo, no v.18, encontramos o gancho para a cena final. A expectativa pela redenção executada está em seu ponto mais alto. No retorno de Rute com as boas notícias, Noemi tem a certeza de que Boaz não tardaria em agir.
E mais uma vez você pode se perguntar o que isso tem a ver com sua vida. E é exatamente para essa conexão que eu gostaria de despertar sua atenção agora. Torno a afirmar que em Rute temos uma belíssima pintura do drama da redenção. Todos nós somos Rute e carecemos de um go’el, parecido com Boaz. Jesus, aquele que é perfeito Deus e perfeito homem, é o nosso resgatador adequado. Ele se manteve sempre fiel a Deus, atendendo e cumprindo exatamente aquilo que o Pai lhe propusera desde a eternidade no tocante ao nosso resgate, à nossa redenção. Jesus é, também, o único que atende todos os requisitos necessários para ser o resgatador. Para cumprir a função necessária, o resgatador precisava ser alguém da mesma família, um parente próximo do resgatado; por isso, o Filho de Deus se fez homem, a fim de representar-nos e pagar a nossa dívida. Para cumprir a função necessária, o resgatador precisava das condições para tal; Jesus por seu turno, foi o único com a condição de viver em perfeita obediência e morrer de maneira vicária, levando sobre si nossos pecados, nos concedendo sua justiça, e a graciosa redenção. Além de capaz, Cristo também é plenamente disposto: desde a eternidade, no pacto da redenção, Ele assumiu voluntariamente a missão de salvar Seu povo. Na história familiar de Rute, havia um outro go’el, na história da redenção não há outro resgatador possível além de Cristo. Boaz, como go’el apontava profeticamente para Cristo — Aquele que cura, acolhe, inclui e entrega Sua própria vida, para o nosso resgate.
Conclusão
Quando olhamos para essa terceira cena do livro de Rute, percebemos que por trás das ações de Noemi, da obediência de Rute, da integridade de Boaz, há um fio seguro que sustenta toda a história: a fidelidade do Senhor. Ele é quem guia cada passo, quem orienta cada decisão e quem levanta e utiliza de maneira eficaz os instrumentos adequados para atender aqueles que necessitam de socorro.
Essa mesma fidelidade foi revelada a nós, de maneira perfeita, na obra redentora de Cristo. Assim como Boaz era o go’el apropriado para Rute, Jesus é o único resgatador capaz e disposto a redimir aqueles que se entregam a Ele pela fé, da grande calamidade em que se encontram por causa do pecado e da ameaça da ira divina. Nele, todo o que crê, encontra o descanso, a proteção e a esperança que os esforços humanosjamais poderiam produzir.
Estejamos, portanto, cônscios e encontremos descanso no fato de que, o Deus que operou fielmente sua provisão e sua redenção na vida de Noemi e Rute é o mesmo Deus que permanece fiel hoje. Ele não abandona Sua aliança, não falha em Seus propósitos e ainda hoje resgata, sutenta e protege aqueles que são seus.
Aplicação
Assim como Rute buscava descanso e proteção, talvez até hoje você também esteja. Rute encontraria a satisfação de suas necessidades no casamento com Boaz. Você que necessita de descanso e proteção encontrará ambos em Jesus, que lhe garante a proteção eterna da ira divina, o auxílio constante contra mundo, a carne e diabo, e o alívio verdadeiro prometido. É necessário apenas que você se achegue a Ele pela fé, para que como Rute, você seja aceito como parte de seu povo.
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