A alegria inabalável
Os atributos de Deus nos Salmos • Sermon • Submitted • Presented
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Introdução
Introdução
Nós, homens modernos, nos tornamos especialistas em segurança. Colocamos nosso dinheiro em bancos criptografados; temos alarmes em nossos carros; trancamos as nossas portas com boas fechaduras. Contratamos seguro de vida, de saúde, de patrimônio. Aprendemos a gastar bastante energia para proteger o que é valioso para nós. Curiosamente, na onda crescente da segurança de tudo o que temos a nossa volta, vemos, paralelamente, um declínio daquilo que justamente estávamos buscando com toda essa segurança — a alegria. A ironia da vida é que enquanto nada rouba nossas coisas, quase tudo é capaz de roubar nossa felicidade. A sua alegria é segura?
Abra sua Bíblia comigo no Salmos 126.
Desenvolvimento
Desenvolvimento
Temos feito, nas últimas semanas, uma série de mensagens analisando os atributos de Deus nos Salmos. Já vimos e aprendemos coisas preciosas sobre o caráter de Deus em muitos salmos e temos sido grandemente edificados. Hoje, diante do Salmo 126, veremos como o caráter redentor de Deus assegura a alegria do seu povo — e isso em dois pontos. Em primeiro lugar, dos versos um a três, observaremos que essa alegria é assegurada por meio da recordação dos atos de Deus no passado; no segundo ponto, que essa alegria é assegurada pela esperança dos atos de Deus no futuro [...].
— Pontos iniciais
— Pontos iniciais
1. A alegria assegurada na recordação (v1-3)
1. A alegria assegurada na recordação (v1-3)
F.R. | O caráter redentor de Deus assegura a alegria de seu povo.
Você já recebeu aquela notícia “boa demais para ser verdade”? Bem, nós experimentamos alegrias na vida. Talvez aquele e-mail de admissão naquela faculdade/emprego que você tanto queria entrar; quem sabe o sentimento gostoso de descobrir que é recíproco o amor que você sente por aquela pessoa; o alívio em descobrir que um ente querido foi curado; a alegria de saber que décimo terceiro caiu na conta; a confirmação de que o Flamengo foi campeão da Libertadores pela quarta vez.… Pois é.. Alegrias da vida, não é mesmo?
Mas irmãos, muitas dessas alegrias, em determinados contextos, ganham contornos dramáticos. A ideia de ser “bom demais pra ser verdade” não caminha com aquelas alegrias corriqueiras, quando o cenário de sua vida está estável e tudo parece andar bem; o “bom de mais pra ser verdade” é qualquer notícia boa quando o caos já está instaurado. Então, essas alegrias que falamos há pouco podem ser notícias corriqueiras ou, em alguns contextos, “boas demais para serem verdadeiras”; porque não há nenhum outro lugar onde a boa notícia é tão boa quanto em um lugar onde há más notícias. A boa notícia só é boa em sua plenitude quando resolve algum caos que estamos vivendo.
O Salmo 126 celebra o caos resolvido, comemora com júbilo a reversão das más notícias em boas notícias como quem diz extasiado: “por favor, alguém me belisca para ver se eu estou sonhando”. No entanto, basta uma olhada rápida para o texto que perceberemos que o autor do Salmo festeja em forma de recordação, ainda que, possivelmente, de uma recordação recente do salmista. O texto começa dizendo — “quando o Senhor restaurou a sorte de Sião, ficamos como quem sonha”; perceba que o texto situa a fala como uma lembrança, como algo feito no passado. Mas aqui é importante perguntarmos: o que o SENHOR havia feito?
O verbo restaurar, utilizado pelo salmista, é um tanto interessante. Trata-se, na verdade, de um idiomatismo hebraico. Calma, não é nenhum bicho de sete cabeças. Sabe quando você, como um bom goiano, diz assim: “Ô fulano, pega aquele trem pra mim” ou, como já ouvi algumas vezes por aqui “Num ‘dô’ conta” ? Bom, ninguém aqui vai pensar que você de fato está dizendo que tudo é um trem ou que você está falando do pagamento ou contagem de algo em contextos aleatórios. Essas palavras ganharam, na cultura linguística brasileira, outros sentidos — e isto que é um idiomatismo.
No caso do texto que estamos pensando aqui, a palavra utilizada pelo salmista significa, literalmente, “retornar”. No entanto, como um idiomatismo hebraico, tinha profundo significado teológico. A palavra se referia uma reversão drástica de uma situação caótica, muitas vezes associada aos atos salvadores de Deus na história em tirar o povo de uma situação de exílio e escravidão. E é por isso que a NVI vai traduzir o texto, assim: Salmos 126
Quando o Senhor trouxe os cativos
de volta a Sião [...]
Perceba então, irmãos, que o próprio texto nos diz o que Deus fez: Ele havia libertado o seu povo.
Estamos falando aqui de um contexto de 70 anos de exílio, resultado da infidelidade e desobediência do próprio povo. Israel estava longe de sua terra, do seu templo e de suas festas — o que significava estar longe de sua própria identidade como povo de Deus. No entanto, Deus interveio. E como disse certa vez Charles Spurgeon, o “quando” de Deus é o nosso “então”; “quando o Senhor restaurou a sorte de Sião [...] então, a nossa boca se encheu de riso, e a nossa língua de júbilo; então entre as nações se diziam: ‘Grandes coisas o Senhor tem feito por eles’. Com efeito, grandes coisas fez o Senhor por nós, por isso, estamos alegres.”
Quando Deus interveio em favor em favor de seu povo, então veio a alegria. Não aquele tipo de alegria corriqueira, quando tudo já está indo bem; nem mesmo a alegria como nós, modernos, a entendemos — um sentimentozinho gostoso no interior. Foi, eu diria, uma alegria explosiva, típica da cultura hebraica, assegurada pelo Deus cujo caráter é redentor. A boca se encheu de riso e a língua de júbilo, algo externalizado de tal maneira que as nações poderiam ver a expressão de alegria no rosto do povo de Deus voltando para sua terra; algo externalizado de tal maneira que colocou na boca de gente incrédula: o Deus deles fez coisas grandiosas! E o salmista, ao olhar pra trás, lembrando de tudo isso, vai confirmar, dizendo: “De fato, grandes coisas fez o Senhor por nós e, por isso, estamos alegres.
Meus irmãos, o caráter redentor de Deus assegura a alegria de seu povo. Os atos de Deus na história estão lá para serem lembrados e, assim, despertarem a alegria do povo de Deus. O Salmo 126, portanto, fornece o tipo de alegria segura que tanto ansiamos — algo que não depende da situação presente, mas que flui do caráter imutável de nosso Deus. O fato de Deus ter agido em nosso favor serve como base atemporal e segura para a redefinição da sua identidade e da sua felicidade como indivíduo. O caráter redentor de Deus assegura a sua alegria, e podemos sempre abraçar essa alegria pela recordação. Esse é o primeiro ponto.
2. A alegria assegurada na esperança (v4-6)
2. A alegria assegurada na esperança (v4-6)
F.R. | O caráter redentor de Deus nos assegura a alegria.
Um dos mais icônicos personagens que existem na história é o Superman. Talvez sua criação, representação e aclamação por parte dos fans seja um dos maiores indícios do grande anseio que a humanidade tem por alguém que, diante do perigo iminente, surja para nos salvar. Ora, a nossa vida é um constante caos em potencial; na verdade, para algumas pessoas e contextos, um caos constante experimentado há anos. Um homem de roupa azul com um capa vermelha, super-poderoso, disposto a nos salvar dos perigos iminentes cairia como uma luva. Essa narrativa representada de forma quase que padronizada nos filmes de heróis denuncia o clamor da alma humana por esperança, que aliás, é o significado criptoniano do grande “S” estampado no peito do superman. Buscamos esperança. Mas onde encontrá-la?
Como temos entendido diante desse salmo, o caráter redentor de Deus assegura a alegria de seu povo, e no primeiro ponto, vimos que essa alegria é experimentada pela lembrança dos atos de Deus no passado. Mas o evangelho, irmãos, não apenas fundamenta nossa gratidão pelo passado — ele também é a base de nossa esperança para o futuro. É o que veremos agora no segundo ponto.
O salmo, a partir do versículo quatro, começa a causar algumas dúvidas. Veja comigo Salmos 126.4
Restaura, Senhor, a nossa sorte [...]
Ué, mas pera lá! A primeira parte do salmo não mostrou que Deus já restaurou a sorte de Sião? Pois é! Essa é a realidade nua e crua, irmãos. Deus intervém no tempo e no espaço, ele realiza coisas grandes e maravilhosas pelo seu povo — ele enviou, como nós desfrutamos hoje, o seu próprio filho para morrer por nós e conseguir nossa redenção. Porém, ainda existe problemas em nossas vidas — certo? Eu não sei vocês, mas eu tenho problemas em minha vida. Continuamos tendo que lidar com a existência do pecado dentro de nós, com o câncer, injustiças políticas, caos social, polarização, perseguição, depressão, ansiedade e tantas outras coisas. Independentemente de quantas alegrias “boas demais para serem verdade” você receba em sua vida, não importa quantas vezes o Flamengo seja campeão da libertadores ou quantos décimos terceiros caiam em nossa conta — ainda sofremos.
A segunda parte do salmo contempla essa realidade à luz da restauração que Deus já realizou e chama seus leitores a reconhecê-la com esperança; ele os chama a fugirem do cinismo e reconhecerem essa realidade. Isso significava algo bem específico para os Israelitas em sua época. Ainda que a maioria deles estivessem voltando para sua terra e assim, desfrutando dessa libertação divina, ainda tinham muitos dilemas com os quais precisariam lidar. Mesmo após o retorno o povo de Deus ainda teria que reconstruir suas cidades devastadas pela guerra, lidar com possíveis conflitos sociais entre os remanescentes que permaneceram na terra e os que voltaram do exílio, tensões econômicas e frustrações messiânicas não realizadas. Stuart vai dizer que: “o retorno do exílio não eliminou imediatamente as dificuldades materiais ou sociais do povo”. Isso justifica a necessidade de um clamor por nova restauração, e o autor vai utilizar duas figuras para ilustrar essa esperança alegre que o povo de Deus deve ter.
A primeira figura é geográfica. O salmista pede ao Senhor que os restaure “como as torrentes do Neguebe”. O que seria isso? Bem, o Neguebe era uma região seca que ficava localizada no sul de Judá, característica por seus vários leitos secos que permaneciam secos por vários meses. Porém, de repente, as “torrentes do Neguebe” apareciam; trata-se de um fenômeno comum, mas não pouco maravilhoso, dessa região. Quando as chuvas viam de repente, enchentes avassaladores tomavam conta do lugar. Em um momento você olhava e estava tudo seco — no outro, tudo estava inundado. O povo, com base no caráter redentor de Deus, podia clamar por sua ação repentina e cabal, ação de um Deus que pode transformar leitos secos em canais inundados de água.
A segunda figura, no entanto, ilumina a certeza da primeira. Trata-se de uma metáfora agrícola. O texto diz Salmos 126.5-6
Os que com lágrimas semeiam
com júbilo ceifarão.
Quem sai andando e chorando,
enquanto semeia,
voltará com júbilo,
trazendo os seus feixes.
Talvez nós, quase a três milênios de distância deste salmo, e por nem todos sermos acostumados com o contexto agrícola, não conseguimos entender muito bem a analogia do salmista aqui. No entanto, semear no Antigo Oriente Próximo, região em que o povo de Deus habitava, era um ato de risco; ou, podemos dizer, de esperança. O semeador muitas vezes semeava seus preciosos grãos em lágrimas, com ansiedade e incerteza, sem saber, diante da seca e das condições em que se encontrava, se teria o que comer e como sustentar sua própria família. Essas lágrimas, irmãos, que caiam juntas com a semente, representam a própria finitude do semeador — ele não controla o tempo; ele não controla o clima; tudo o que ele pode fazer é esperar.
No entanto, o salmo, em sua beleza, ao contemplar a ordem natural das coisas, vê a primavera chegando. A semente que, antes, era derramada com lágrimas, é agora colhida, cheia de frutos, com alegria. Assim como após um longo período de seca e de incerteza o semeador chorava e abraçava a sua dor com esperança, assim ele, ao raiar das chuvas, celebra com alegria transbordante a colheita dos frutos. Irmãos, existe uma única verdade sendo comunicada por esses dois versículos na metáfora agrícula. Essa única verdade foi lindamente ilustrada pela voz de Marcos Almeida, cantor que gosto muito, que em uma das suas músicas disse: “Toda dor é por enquanto; a tua alegria, para sempre”. Os Israelitas, abraçando seus sofrimentos com esperança naquele tempo, tinham uma esperança alegre, uma esperança alegre que era certa, garantida pelo caráter de Deus, de que a alegria viria. [...]
O caráter de Deus assegura a alegria do seu povo. Sim, por meio dos seus atos na história. Por meio da lembrança. Contudo, também pela esperança. O Salmo 126 está nos chamando a andar sob a certeza de que cada dor que enfrentamos neste mundo caído, se enfrentada sob a fé nesse próprio Deus, será revertida em alegria. Em outras palavras, o Salmo nos diz que a alegria que tanto ansiamos também se encontra no sofrimento — não num ato masoquista, como quem sente prazer na dor, mas no sofrer com esperança em um Deus cujo caráter é de redentor. Esse salmo, no final das contas, nos mostra um Deus que nos garante a alegria presente por meio dos atos do passado e por meio dos atos do futuro. O Deus que ama redimir garante uma alegria ao seu povo que simplesmente não pode ser perdida.
[...] Para isso, porém, precisamos abraçá-la, e aí que está o problema.
— Pontos médios
— Pontos médios
Somos ingratos ao convite que nos é feito. Gosto da citação de C.S. Lewis, quando diz em Mere christianity que — “Somos criaturas divididas, correndo atrás de álcool, sexo e ambições; desprezando a alegria infinita que se nos oferece, como uma criança ignorante que prefere continuar fazendo seus bolinhos de areia numa favela, porque não consegue imaginar o que significa um convite para passar as férias na praia”. A verdade, irmãos, é que negligenciamos, constantemente em nossas vidas, os meios que a graça de Deus nos concede para experimentarmos dessa alegria bendita que temos no evangelho. Esse lapso de memória nos torna, como a cultura em nossa volta, fissurados em dopamina barata, o que nos distancia da felicidade verdadeira. Somos consumistas — muitas vezes gastamos dinheiro com coisas que não precisamos; somos inseguros — nos comparamos constantemente com os outros e nos entristecemos por não termos chegado “lá” ainda; somos distraídos — estamos sempre preocupados com as coisas que estão fora do nosso controle e não conseguimos aproveitar as bençãos da vida a nossa volta. Tudo isso, irmãos, por muitas vezes acreditarmos que nossa felicidade é algo ainda a ser alcançado e não algo a ser desfrutado; por acharmos que ainda precisamos “ganhar a vida”, enquanto Deus já tem nos concedido ela. Diante disso, irmãos, precisamos reconhecer nossa incapacidade e carência de um salvador — e nós sabemos quem é Ele.
Em Hb 12.2 lemos:
[…] Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus.
Jesus, irmãos, foi aquele que verdadeiramente semeou com lágrimas e colheu com júbilo. Suas lágrimas, enquanto semeava, distinguiam-se e muito no sofrimento daquelas que nós aqui derramamos — ele estava tomando sobre si toda a ira de Deus. Contudo, o nosso salvador não fez caso da vergonha. O texto diz que Jesus se apegou a alegria. Como nosso representante, irmãos, o nosso redentor fez aquilo que nós, em nossa incapacidade, não poderíamos fazer: ele se alegrou em meio ao caos, fez do Senhor a sua alegria, apoiado unicamente no caráter redentor de Deus. Enquanto nós, homens, muitas vezes limitamos nossa alegria a abundância, nosso salvador a extendia ao contexto de maior escassez; enquanto nós nos distraíamos facilmente de seu rosto com nossos afazeres, Jesus focou até o final em sua missão sacrificial; enquanto nós trocávamos o prazer da presença do criador pelas promessas baratas do pecado, Ele abraçou a alegria que Deus lhe havia prometido.
No final das contas, era dessa obra final que o Salmos 126 carecia. O clamor do versículo 4 por nova restauração é, na verdade, cumprida em Cristo. Se os Israelitas olhavam para o passado recente neste salmo, gratos pela libertação do exílio, hoje nós olhamos para o ápice da obra de Deus — a cruz. Essa cruz se tornou para nós, irmãos, tanto a razão para nossa alegria como o poder para alcançarmos a ela. É com base na cruz desse Cristo, meus amigos, na graça desse Cristo, que podemos imitá-lo — pois o caráter redentor de Deus nos assegura a alegria.
Conclusão
Conclusão
A sua alegria está segura? Talvez hoje alguns de nós aqui esteja vendo mais motivos para chorar do que para sorrir, e, por isso, não vê muito sentido na alegria. Quem sabe, para alguns, tudo vem dando certo e você tem se alegrado por isso. Ambos os cenários demonstram a fragilidade que nosso bem-estar pode se encontrar. O evangelho, porém, fornece para nós uma alegria segura — uma alegria que não pode ser perdida. Se aproprie da alegria olhando para o que Jesus fez e o que ele ainda fará. Esse é o chamado do Salmo 126 à luz de Cristo para nós hoje. Mas, como podemos fazer isso? Gostaria de finalizar com algumas sugestões práticas.
Torne a alegria expressiva
cântico/dança/sorriso (17 de Janeiro)
(sorriso) Por causa de Cristo, nada (menstruação, mal-humor pós sono, dia mal no trabalho) justifica uma cara emburrada constante.
momento de gratidão (o salmo é comunitário)
evangelização (citar Phil Ryken)
Alegre-se enquanto lamenta (alegre-se na esperança - Rm 12.12; Lc 6.21; 2CO 4.17
confissão e oração (1. só para quem sai andando e chorando há alegria esperando; 2. Na confissão e na oração somos como o semeador dependente) . (“As lágrimas do evangelho não estão perdidas, são sementes de consolo. Enquanto o penitente derrama lágrimas, Deus derrama alegria. Se você deseja alegrar-se, disse Crisóstomo, entristeça-se.” - Watson)
adolescentes: traumas e dúvidas sobre Deus que estão ocultadas.
sofrimentos diversos: seja sincero diante de Deus em relação as dores que está passando.
