O Primeiro Anúncio
Eduardo Albano
Advento 2025 • Sermon • Submitted • Presented
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Texto Gn 3.14-19
Texto Gn 3.14-19
14 - Então o SENHOR Deus disse à serpente: Por causa do que você fez, você é maldita entre todos os animais domésticos e entre todos os animais selvagens. Você rastejará sobre o seu ventre e comerá pó todos os dias da sua vida.
15 - Porei inimizade entre você e a mulher, entre a sua descendência e o descendente dela. Este lhe ferirá a cabeça, e você lhe ferirá o calcanhar.
16 - E à mulher ele disse: — Aumentarei em muito os seus sofrimentos na gravidez; com dor você dará à luz filhos. O seu desejo será para o seu marido, e ele a governará.
17 E a Adão disse: — Por ter dado ouvidos à voz de sua mulher e comido da árvore que eu havia ordenado que não comesse, maldita é a terra por sua causa; em fadigas você obterá dela o sustento durante os dias de sua vida.
18 Ela produzirá também espinhos e ervas daninhas, e você comerá a erva do campo.
19 No suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra, pois dela você foi formado; porque você é pó, e ao pó voltará.
Introdução – O Pacto da Redenção irrompe no meio do juízo
Introdução – O Pacto da Redenção irrompe no meio do juízo
Gênesis 3.14–19 não é apenas um registro das consequências da queda; é o lugar onde Deus começa a revelar o caminho pelo qual Ele restaurará todas as coisas.
A tradição cristã chamou essa porção de protoevangelho, porque aqui aparece pela primeira vez a promessa da redenção, o esboço da cruz e o anúncio do Cristo vitorioso.
A partir da queda, Deus inicia o que teologia chama de Pacto da Redenção ou Pacto da Graça, em contraste com o Pacto da Criação, quebrado pela desobediência.
Antes da queda havia ordem, comunhão, missão e harmonia. Depois da queda, encontramos vergonha, medo, ruptura e morte.
Mas Deus não se retira da história.
Ele não abandona sua criação.
Seu Reino não é cancelado.
Pelo contrário: Ele atravessa o caos e Se compromete com a restauração.
O protoevangelho anuncia um Deus que não apenas julga, Ele redime, confronta o mal, limita o poder das trevas e aponta para o Cristo que virá.
Assim caminhamos para dois grandes movimentos:
1. O Juízo – Como as coisas passaram a ser
1. O Juízo – Como as coisas passaram a ser
O pecado altera o funcionamento do mundo, distorce o que Deus fez bom, compromete relações, trabalho, maternidade, matrimônio e a própria experiência da vida.
Mas o juízo de Deus nunca é arbitrário. Ele é proporcional, pedagógico, justo e, ao mesmo tempo, cheio de misericórdia.
A chave para entender esta seção está no termo hebraico ’ārar (ארר) — “amaldiçoar”, que significa reter, restringir, afastar uma realidade da sua condição ideal e favorecer consequências de ruptura.
A queda não anulou a criação, mas a colocou sob limites, resistência, dor e tensão.
Perceba:
A serpente é amaldiçoada por Deus.
O solo é amaldiçoado pela ação de Adão.
Satanás é condenado definitivamente por Deus.
Mas com o homem e a mulher Deus não usa a palavra amaldiçoados, mas os coloca debaixo de um estado de condenação. Não recebem juízos absolutos, mas juízos mitigados, porque dentro deles já pulsa a promessa da vida.
A seguir aprofundamos cada juízo:
1.1. A maldição sobre a serpente – Humilhação como testemunho visível do mal derrotado
1.1. A maldição sobre a serpente – Humilhação como testemunho visível do mal derrotado
Então o SENHOR Deus disse à serpente: Por causa do que você fez, você é maldita entre todos os animais domésticos e entre todos os animais selvagens. Você rastejará sobre o seu ventre e comerá pó todos os dias da sua vida. - Gn 3.14
A serpente criada para glorificar a Deus, se tornou instrumento da rebelião. Deus a sentencia a rastejar e comer pó, símbolos de humilhação contínua (cf. Is 65.25; Sl 72.9).
Seu movimento, sua postura, sua forma de existir se tornam lembranças visíveis de sua queda.
Mas note a profundidade:
Deus não destrói a serpente.
Ele a mantém viva como sinal pedagógico.
Ela continua parte da criação, mas agora como testemunho do mal.
A serpente será para sempre o ícone do engano e sinal da degradação do Éden.
A criação boa agora carrega cicatrizes — cicatrizes que apontam para a necessidade de redenção.
A serpente não participa da redenção, mas revela a gravidade do pecado.
1.2. A maldição sobre Satanás – O juízo absoluto que inaugura a esperança da redenção absoluta
1.2. A maldição sobre Satanás – O juízo absoluto que inaugura a esperança da redenção absoluta
Porei inimizade entre você e a mulher, entre a sua descendência e o descendente dela. Este lhe ferirá a cabeça, e você lhe ferirá o calcanhar. Gn 3.15
No verso 15 o foco deixa de ser o animal e passa a ser o agente espiritual do mal.
Aqui Deus estabelece a linha que dividirá a história: a antítese entre duas sementes.
“Ele te ferirá a cabeça” – vitória definitiva.
“Tu lhe ferirás o calcanhar” – sofrimento real, mas não final.
Antítese é uma palavra que significa oposição, contraste ou duas realidades que caminham em sentidos contrários.
Na linguagem comum, antítese é quando duas ideias, forças ou posições se contrapõem.
Exemplo simples: luz x trevas, vida x morte, verdade x mentira.
Ela descreve a oposição irreconciliável entre o Reino de Deus e o reino das trevas.
No contexto de Gênesis 3.15, Deus estabelece uma antítese permanente entre:
a semente da mulher (Cristo e os que pertencem a Ele)
a semente da serpente (Satanás e os que permanecem em rebelião)
A estrutura da frase indica duas realidades diferentes em contraste:
“a sua descendência” → refere-se à descendência da serpente.
No hebraico: zar‘ak (tua semente).
Forma plural ou coletiva: muitos indivíduos, uma coletividade.
“o descendente dela” → refere-se especificamente à mulher.
No hebraico: zar‘ah (sua semente), mas aqui com forma que pode funcionar como singular específico.
É um único descendente, destacado pela construção do texto.
Gramaticalmente, portanto, a frase quer dizer:
“Haverá hostilidade contínua entre a linhagem da serpente (coletiva) e um descendente específico da mulher (singular).”
Essa antítese:
estrutura toda a história bíblica,
explica os conflitos espirituais,
mostra a impossibilidade de neutralidade,
aponta para o final da história, quando Cristo destruirá completamente o mal.
Essa frase é o evangelho embrionário:
Cristo é a semente da mulher, não obra de homem algum.
No calvário, Ele é ferido — não por acidente, mas por obediência.
Ao ressuscitar, Ele esmaga a cabeça da serpente e inaugura um novo mundo (Hb 2.14; Cl 2.15; Rm 16.20).
Aqui Deus decreta que Satanás será:
limitado,
vencido,
exposto,
e destruído no final da história.
Essa é a graça que nasce do juízo: a promessa de Cristo.
1.3. O juízo sobre a mulher – Dor no privilégio e tensão na missão relacional
1.3. O juízo sobre a mulher – Dor no privilégio e tensão na missão relacional
E à mulher ele disse: — Aumentarei em muito os seus sofrimentos na gravidez; com dor você dará à luz filhos. O seu desejo será para o seu marido, e ele a governará. - Gn 3.16
A mulher não é amaldiçoada, mas experimenta dor no lugar onde haveria plenitude:
a) Dor na maternidade
a) Dor na maternidade
Gerar a vida era sua participação mais profunda na missão divina. Agora, a vida floresce, mas com dor, risco, lágrimas.
A maternidade se torna símbolo tanto da bênção quanto da fragilidade humana (1Tm 2.15; Jo 16.21).
b) Tensão no matrimônio
b) Tensão no matrimônio
A vida relacional é afetada:
“o seu desejo será para o seu marido”: não é desejo romântico, mas desejo de controle (Gn 4.7 usa o mesmo termo para descrever o pecado tentando dominar Caim).
“ele a governará”: antes liderança era cuidado terno e sacrifício; agora, por causa do pecado, torna-se espaço de tensão, desigualdade e lutas. Seu marido que antes prefigurava Cristo e sua justiça, por causa de sua natureza caida, se tornou um servo do pecado e um líder injusto.
O lar projeto de harmonia, se torna palco de disputas interiores. Mas é também no lar que Deus começará Sua obra de redenção.
1.4. O juízo sobre o Descendente da mulher – Cristo ferido pela ira de Deus
1.4. O juízo sobre o Descendente da mulher – Cristo ferido pela ira de Deus
Quando Deus diz que o descendente terá o calcanhar ferido, está anunciando o sofrimento do Messias. Esta ferida aponta para:
rejeição,
cruz,
morte vicária,
expiação substitutiva,
sepultamento,
e entrega da alma ao Pai.
É significativo que a semente prometida será ferida, mas não derrotada. Ela absorverá a maldição, mas não sucumbirá a ela.
Cristo será esmagado, mas não destruído. Essa é a profundidade da cruz.
Ele sofre uma separação real, mas não eterna. O desamparo é real, mas não absoluto.
Na cruz Ele carrega a sentença de Gênesis 3, mas inaugura a promessa de Apocalipse 21.
1.5. O juízo sobre o homem – Trabalho com frustração, terra com resistência e vida com limite
1.5. O juízo sobre o homem – Trabalho com frustração, terra com resistência e vida com limite
17 E a Adão disse: — Por ter dado ouvidos à voz de sua mulher e comido da árvore que eu havia ordenado que não comesse, maldita é a terra por sua causa; em fadigas você obterá dela o sustento durante os dias de sua vida.
18 Ela produzirá também espinhos e ervas daninhas, e você comerá a erva do campo.
19 No suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra, pois dela você foi formado; porque você é pó, e ao pó voltará.
Adão escuta outra voz. A missão se inverte. A liderança se perde. A obediência se desfaz. Agora o solo — antes parceiro — se torna adversário:
a terra resiste ao homem,
surgem espinhos,
há suor e lutas,
há fadiga e inquietude,
há resultados menores que os esforços.
O trabalho não é a maldição — a frustração do trabalho é.
O mundo criado para ser jardim se torna campo árido. A vocação continua, mas sob um campo de luta.
Finalmente, Deus fala da morte: “ao pó tornarás”.
O homem se afasta da Fonte da vida. A morte é a marcha inevitável da queda. Mas até a morte se tornará, em Cristo, o último inimigo a ser destruído.
2. A Graça como o meio de intervenção divina na condição caída
2. A Graça como o meio de intervenção divina na condição caída
Mesmo em meio ao juízo, a graça se revela como a luz que atravessa o caos.
Ela não surge como improviso, mas como desdobramento do decreto eterno de Deus.
Portanto, aproximemo-nos do trono da graça com confiança, a fim de recebermos misericórdia e encontrarmos graça para ajuda em momento oportuno. - Hb 4.1
A graça aparece onde ninguém esperava — no meio da sentença.
A graça é “o favor eterno e totalmente gratuito de Deus, manifestado na concessão de bênçãos espirituais e eternas a criaturas culpadas e totalmente indignas.”
Graça e mérito se excluem, porque a graça é a concessão de favores a quem não tem mérito próprio, pois está em condenação, e pelos quais não exige compensação alguma.
Apesar de ser eterna, ela é temporal. é eterna no sentido de Deus tomou providencias antes que os problemas existissem, antes mesmo da criação do mundo.
Mas é temporal porque ela é manifestada na história dos homens a partir da queda.
2.1. A maldição sobre Satanás como esperança para o homem
2.1. A maldição sobre Satanás como esperança para o homem
A primeira palavra de esperança não é dirigida ao homem, mas nasce da boa notícia da sentença dirigida ao diabo.
A derrota do inimigo é a segurança da humanidade.
O poder do mal é limitado; sua atuação é circunscrita; seu império é temporário.
No Éden Deus declara: “Você será derrotado.”
Na cruz Jesus declara: “Está consumado.”
Na ressurreição Ele declara: “A morte não tem a última palavra.”
2.2. A misericórdia pactual de um Deus que não desiste
2.2. A misericórdia pactual de um Deus que não desiste
O “chesed” de Deus — Sua misericórdia fiel — se manifesta:
Ele procura o homem escondido (3.9).
Ele cobre a nudez (3.21).
Ele preserva a vida.
Ele mantém a criação existindo.
Ele abre a história para a redenção.
A justiça pune; a misericórdia aproxima. E em Cristo, justiça e misericórdia se encontram (Sl 85.10).
2.3. O cosmos continua existindo, pois a maldição não é destruição definitiva, pois não foi Deus que amaldiçou a terra, mas foi o homem que a amaldiçou com seu pecado.
2.3. O cosmos continua existindo, pois a maldição não é destruição definitiva, pois não foi Deus que amaldiçou a terra, mas foi o homem que a amaldiçou com seu pecado.
A criação geme, mas continua servindo à glória de Deus (Rm 8.20–22).
O Éden é perdido, mas o culto continua.
A terra se torna difícil, mas não se torna inútil.
O homem trabalha cansado, mas trabalha.
A existência da criação é prova da graça.
2.4. A inimizade entre as sementes como linha da história redentiva
2.4. A inimizade entre as sementes como linha da história redentiva
Essa inimizade explica:
a luta espiritual,
os conflitos do coração,
a perseguição à igreja,
a queda das culturas,
os tensionamentos do mundo.
Toda a Bíblia é a luta entre sementes:
Caim e Abel,
Ismael e Isaque,
Esaú e Jacó,
Egito e Israel,
Faraó e Moisés,
Saul e Davi,
Herodes e Jesus,
mundo e igreja,
carne e Espírito.
Essa inimizade termina quando Cristo destrói definitivamente a serpente (Ap 20.10).
Conclusão – Deus toma a iniciativa da restauração
Conclusão – Deus toma a iniciativa da restauração
O capítulo 3 de Gênesis termina com juízo, dor e expulsão — mas também termina com esperança, promessa e movimento de Deus em direção ao homem.
O juízo revela a verdade do pecado.
A graça revela a verdade do coração de Deus.
Deus declara que:
Ele permanecerá como Senhor da história,
Adão e Eva seguem sob Sua autoridade,
a vida continua,
a redenção foi anunciada,
a obra do Messias já estava decretada.
O Éden é fechado, mas a porta da redenção é aberta.
O juízo prepara o caminho para a cruz.
A cruz prepara o caminho para a nova criação.
E Cristo — o Descendente prometido é a ponte entre o pó da queda e a glória da consumação.
