A Verdadeira Vitória no Deserto

O Evangelho do Rei  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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Texto base:
Matthew 4:1–11 NVI
Então Jesus foi levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo Diabo. Depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome. O tentador aproximou-se dele e disse: “Se és o Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães”. Jesus respondeu: “Está escrito: ‘Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus’”. Então o Diabo o levou à cidade santa, colocou-o na parte mais alta do templo e lhe disse: “Se és o Filho de Deus, joga-te daqui para baixo. Pois está escrito: “ ‘Ele dará ordens a seus anjos a seu respeito, e com as mãos eles o segurarão, para que você não tropece em alguma pedra’”. Jesus lhe respondeu: “Também está escrito: ‘Não ponha à prova o Senhor, o seu Deus’”. Depois, o Diabo o levou a um monte muito alto e mostrou-lhe todos os reinos do mundo e o seu esplendor. E lhe disse: “Tudo isto te darei, se te prostrares e me adorares”. Jesus lhe disse: “Retire-se, Satanás! Pois está escrito: ‘Adore o Senhor, o seu Deus, e só a ele preste culto’”. Então o Diabo o deixou, e anjos vieram e o serviram.

O Rei e seu povo

“Dê poder a uma pessoa e descubra quem ela realmente é.”
Essa é uma das frases que, por ser tão marcante, algumas pessoas pensam que podem encontrá-la na Bíblia. Afinal, todos já passamos por algum tipo de experiência que demonstra que isso é verdade, seja na escola, no trabalho ou na família. No entanto, um dos lugares em que mais consigo enxergar isso de maneira muito explícita é olhando para a política do nosso país.
Embora esse seja um tema complicado e polêmico para alguns, acredito que todos já percebemos que, no período eleitoral, quando somos bombardeados por diversas campanhas de diversos candidatos, sempre existem aqueles que se dizem simples, que se dizem do povo, pessoas que saíram do anonimato por algum motivo, que fizeram o bem. No entanto, quando são eleitas, depois de pouco tempo descobrimos algum escândalo ou coisa assim.
Se a frase com que iniciei este sermão traduz uma verdade, existe outra frase de que não me recordo o autor, mas que, ao falar desse assunto de política, também nos chama para uma realidade que desejamos esquecer. A frase diz o seguinte:
“Os políticos que criticamos em Brasília não são tão diferentes de nós; eles apenas têm mais poder e oportunidades para revelar, em larga escala, aquilo que muitas vezes também carregamos no coração.”
Por certo, isso não é uma defesa aos políticos, mas é uma realidade que demonstra que todos nós somos farinha do mesmo saco. E, por incrível que pareça, essa frase também está de acordo com um conceito que encontramos na Palavra de Deus.
Quando olhamos para a monarquia no Antigo Testamento, isso sempre ficou muito claro. O rei sempre foi reflexo do seu povo. Quando um rei era fiel, o povo tendia a ser fiel a Deus. Quando um rei era idólatra, o povo seguia na mesma direção.
Sob Davi, Israel floresce. Sob Jeroboão, o povo inteiro se desvia. Sob Ezequias ou Josias, há renovação espiritual. Sob Acabe, a idolatria toma conta da terra. Ou seja, o rei, no Antigo Testamento, servia como uma espécie de espelho do povo, e o povo acabava refletindo o seu rei.
Eu confesso que, quando comecei a meditar nesse texto durante a semana, tive praticamente a certeza de que Mateus estava reconstruindo os primeiros capítulos de Gênesis ao narrar esses eventos da vida de Jesus. Os paralelos chamam nossa atenção. Em Gênesis, o Espírito está sobre as águas. No batismo de Jesus, o Espírito repousa sobre Ele nas águas do Jordão. Adão é colocado em um jardim e ali é tentado. Jesus é levado ao deserto e também é tentado.
Só que, olhando com mais cuidado para o propósito que Mateus tem ao escrever esse Evangelho, isso muda um pouco. Lucas trabalha melhor essa ideia de Jesus como um novo Adão. Mateus está fazendo outra coisa. Ele está apresentando Jesus como o novo Israel.

O novo Israel

Aqui vemos a história se repetir. Mateus recorre ao que encontramos pelo Antigo Testamento. O rei representa o seu povo e se identifica com ele a ponto de ser um espelho para os seus súditos, para que assim o seu povo possa refletir o seu rei. No entanto, estamos falando de um novo Rei e, consequentemente, de um novo povo.
Mesmo antes do capítulo 4, Mateus demonstra esses paralelos. Jesus é obrigado a fugir para o Egito. Israel por causa da fome, também se refugia no Egito. Depois de um tempo, ambos são chamados e retornam para sua terra.
Antes da grande peregrinação no deserto, Israel passa pelas águas do Mar Vermelho. Jesus passa pelas águas do Jordão. Israel é chamado de Meu Filho em Êxodo. Jesus é chamado de Meu Filho Amado em seu batismo. Israel é guiado por uma coluna de nuvem e de fogo. Jesus é conduzido pelo Espírito ao deserto.
As três tentações que Jesus recebe são respondidas com três textos retirados diretamente de Deuteronômio, um período em que o povo estava sob a direção de Moisés em meio ao deserto (rumo à terra prometida).
Israel falhou no deserto, mas o nosso Rei não. E é justamente nesse contraste que Mateus quer que coloquemos os nossos olhos. É sobre essa diferença que precisamos prestar atenção. Porque nas três tentações, Jesus não apenas resiste ao diabo. Ele revela quem Ele é, revela o tipo de Rei que temos e o tipo de povo que Ele está formando.

O Deserto como agenda de Deus

Tendo em mente esse quadro que Mateus nos apresenta, de Jesus como o novo Israel, voltemos para o nosso texto.
Em primeiro lugar, antes de qualquer coisa acontecer, somos informados de que Jesus é levado, pelo mesmo Espírito que desce sobre Ele em seu batismo, para o deserto. O propósito desse movimento do Espírito é certeiro. O texto deixa claro que Jesus é levado para o deserto para ser tentado pelo diabo.
O que devemos aprender logo nesse primeiro versículo é que, depois de uma grande revelação e antes de uma grande obra, o que podemos esperar é exatamente o esforço do nosso inimigo para nos fazer parar de qualquer jeito, e a sua arma principal é a tentação.
Outra coisa que aprendemos ainda nesse primeiro versículo é que o deserto não é um acidente, mas parte da agenda divina. Todos aqueles que desejam fazer parte daquilo que Deus está fazendo no mundo devem ter a certeza de que vão enfrentar desertos em sua vida. Afinal, o deserto não é o lugar para onde Deus nos leva para nos destruir, mas sim o lugar que Ele nos coloca para revelar a nossa fidelidade a Ele.

1ª Tentação: Identidade e Dependência

Então chegamos à primeira tentação. Logo após jejuar quarenta dias e quarenta noites, Jesus teve fome. E, nesse momento de fragilidade, o diabo se aproxima de Jesus e lhe diz:
Matthew 4:3 NVI
“Se és o Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães”.
Satanás toca no ponto mais sensível daquele momento: a fome, a fraqueza do corpo, a privação do instante. O diabo, como sempre, é sagaz. Aquilo que ele apresenta não parece ser tão maligno. Talvez, aos olhos de algumas pessoas, dependendo de quem ouvíssemos isso, poderia soar até como uma certa preocupação. No entanto, essa primeira tentação não é sobre pão, mas sobre dois pilares que sustentam todos os filhos de Deus: identidade e dependência.
Lembre-se de que, logo após Jesus ter sido batizado nas águas do Jordão, o céu se abre e se ouve a voz do Pai dizendo:
Matthew 3:17 NVI
“Este é o meu Filho amado...”
O relato após o batismo é o deserto, e na primeira tentação o diabo, de maneira sutil, tenta levantar uma dúvida a respeito da filiação de Cristo Jesus com o Pai: “Se és Filho de Deus…” — v.03.
Nisso vemos que o diabo segue um certo padrão quando nos tenta. Uma de suas estratégias mais usadas por ele, é colocar em dúvida aquilo que Deus diz.
No entanto, a primeira tentação não nos fala apenas sobre a identidade de Jesus, mas também sobre onde estava a sua confiança. Ao sugerir transformar pedras em pães, o que Satanás propõe a Jesus é que Ele cuide de si mesmo sem esperar pelo Pai. Essa tentação nos apresenta uma aparente solução que sempre nos dirá: “Resolva você mesmo!”; “Não precisa confiar em outro, confie em você!”; “Você pode fazer sozinho, não precisa de ninguém!”
O diabo não está preocupado em tentar Jesus para que Ele prove que é poderoso, mas para que Ele prove que é impaciente. O que devemos aprender é que nem toda necessidade urgente é justificativa para a desobediência. O diabo nem sempre nos tenta com coisas más, mas com soluções rápidas.
É então que diante da proposta do inimigo, a resposta de Jesus não é uma nova revelação. Mas sim um lembrete daquilo que já está escrito:
Matthew 4:4 NVI
“Está escrito: ‘Nem só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus’”.
Jesus se submete ao tempo do Pai. Ele poderia fazer pão. Ele tinha poder. Ele tinha fome. Mas não tinha permissão.
Infelizmente irmãos, diferente do que aconteceu com Jesus, ainda hoje, por causa da necessidade e da nossa pressa, o diabo tem conseguido vencer muitos que se esqueceram da sua identidade, que já não ouvem mais a Palavra de Deus e que acreditam que podem resolver tudo sozinhos.

2ª Tentação: Tornar Deus um servo

É então que chegamos à segunda tentação. Satanás leva Jesus ao pináculo do templo, ao lugar mais alto e visível de Jerusalém. Novamente, ele coloca em dúvida a filiação de Cristo Jesus. No entanto, dessa vez o diabo usa um texto bíblico quando diz para que Jesus se jogue daquele lugar alto abaixo (v.05-06) — nesses dois pequenos versículos, vemos aqui nas palavras do diabo que é possível usar a Bíblia sem obedecer ao Deus da Bíblia.
A tentação proposta por Satanás aqui é transformar Deus em um servo e Jesus em uma estrela. Afinal, no lugar mais agitado de toda a cidade, onde certamente todos os olhos poderiam ver o grande espetáculo de um homem se lançar e os anjos o segurarem antes de tocar o chão, isso alavancaria a fama de Jesus por toda Jerusalém e traria a aprovação imediata do povo.
É então que Jesus responde ao inimigo de nossa alma. Enquanto o diabo cita um versículo, Jesus cita o Deus do versículo. Jesus diz:
Matthew 4:7 NVI
...“Também está escrito: ‘Não ponha à prova o Senhor, o seu Deus’”.
Jesus rejeita o caminho do espetáculo. Ele vai na contramão daquilo que muitos hoje buscam em uma igreja.
Em nossos dias, muita gente, para continuar crendo em Deus, espera e deseja demonstrações extraordinárias, sinais grandiosos, manifestações sobrenaturais e visíveis do divino. O problema é que não ouvimos apenas da boca de Satanás esse tipo de manipulação das Escrituras, mas também da boca de muitos pastores, quando distorcem promessas bíblicas para coisas que Deus não prometeu e, no fim das contas, ensinam um povo inteiro a tentar manipular Deus e a transformá-lo em um servo.
O que Jesus nos ensina em sua resposta é que quem precisa provar Deus já esqueceu quem Ele é. A pessoa que se coloca em um lugar alto e se lança, confiando em uma distorção daquilo que Deus disse, é alguém que não entende o que é fé e não sabe quem Deus é.

3ª Tentação: Um reino sem Cruz

E, enfim, chegamos à terceira e última tentação. O v. 08diz que o diabo levou Jesus a um monte muito alto, mostrou todos os reinos do mundo e o seu esplendor e ofereceu tudo isso em troca de adoração. Nesse instante, mesmo não sendo a última vez, essa foi mais uma tentativa de Satanás de desviar Jesus da sua missão.
Essa tentação é um meio de Jesus receber, de forma distorcida, aquilo que Ele conquistaria depois de cumprir plenamente a sua obra. Em outras palavras, o que o diabo está oferecendo para Jesus é a glória sem a cruz, o poder sem o sacrifício, a influência sem a obediência. Novamente, o diabo está oferecendo atalhos.
E diante da oferta de Satanás, Jesus responde outra vez com aquilo que está escrito na Palavra de Deus:
Matthew 4:10 NVI
“...‘Adore o Senhor, o seu Deus, e só a ele preste culto’”.
Jesus rejeita qualquer atalho para o poder. O caminho do Reino sempre foi e sempre será a cruz, e não há negociação com relação a isso.
Para os filhos de Deus, é preciso ter em mente que não existem glórias fáceis, que todo reino sem a cruz é um reino de mentira, que todo poder ou fama que recebemos e que nos tira da vontade de Deus não é poder, não é fama, é prisão. O que Jesus nos ensina é que a maior tentação, às vezes, não é cair, mas se ajoelhar na direção errada.
Os piores ataques espirituais vêm na forma de atalhos sedutores. Não é um tipo de pecado feio, mas é um caminho mais fácil. Precisamos ter em mente que o inimigo sempre oferecerá versões mais rápidas daquilo que Deus prometeu e que nos entregará no tempo certo.
O inimigo sempre oferecerá meios que aparentemente são menos custosos e muito mais atrativos para nos entregar aquilo que Deus promete depois de uma longa jornada. No entanto, nem todo ganho é de Deus. Nem toda porta que pensamos que se abre, se abre para o caminho de Deus. Existem vitórias que só chegam depois que rejeitamos oportunidades que brilham mais do que a vontade de Deus para nossas vidas.

Não pela nossa força

Logo após, o diabo percebe que poderia passar uma eternidade tentando fazer com que Jesus abandonasse a missão de Deus e, mesmo assim, não conseguiria êxito. Quando falamos de tentações, falamos de algo que é muito próprio da natureza humana. Na bíblia aprendemos que somos tentados de acordo com aquilo que os nossos olhos almejam, de acordo com as nossas necessidades e com aquilo que acreditamos que precisamos (Tg 01.14-15).
Porém quando tratamos sobre tentação, corremos um sério risco de parecer apenas moralistas. Corremos o risco de simplesmente despejar diversas regras sobre o que devemos ou não fazer. No entanto, o que Mateus descreve aqui — e deseja nos ensinar — não é um simples “faça como Jesus fez”.
Vasculhe todo o texto novamente, e você não encontrará nenhuma ordem, nenhuma regra, como se o autor bíblico, ao narrar essa história fascinante de Jesus, desejasse que eu e você fôssemos apenas cumpridores de algum mandamento escrito nesse relato. Existe um grande problema em sermos meros moralistas, pessoas que apenas apontam a direção e dizem o que pode ou não pode. O problema é acreditarmos que o poder de resistir às tentações, ou seja, o meio para resistirmos àquilo que o diabo nos oferece — e que, dentro do nosso coração, nós desejamos — está dentro de nós mesmos. É pensar que, pelas nossas próprias forças e capacidades, conseguiremos fazer algo que está além de nós.
A humanidade se rebela contra Deus e cai em um jardim cheio de fartura. Israel murmura e cai em um deserto cheio de milagres e provisão divina. Mas o único que pode — e o único que conseguiu vencer — seja num deserto ou até mesmo num jardim como o Getsêmani, foi Jesus.
Nós não precisamos de Cristo somente porque Ele foi tentado como nós somos. Não é apenas uma questão de Ele ser o Deus conosco, o Emanuel. Nós precisamos de Cristo porque, diferente de nós, Ele venceu onde nós caímos. Ele permaneceu firme onde nós vacilamos os nossos pés. Jesus é aquele que é capaz de dizer “não” quando tantas vezes dizemos “sim”.
A Bíblia nunca nos ensina que o caminho para vencer as tentações depende da nossa força de vontade. Mesmo que o nosso esforço faça parte, mesmo que tenhamos responsabilidade diante de Deus, não é apenas uma questão de disciplina. Não é apenas uma questão de dizer “vou tentar de novo”. O caminho sempre foi — e sempre será — correr para Jesus quando a tentação vem até nós.
Que Deus nos ajude e tenha misericórdia de nós. Amém!
Sermão exposto no dia: 16 de novembro de 2025
Local: Igreja Vivendo em Amor (Mandaqui-Noite)
Por Alex Carvalho
Soli Deo Gloria
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