A provisão restauradora de Deus

A fidelidade de Deus na redenção  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
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Transcript
Introdução
Transição
Nessa noite, tomando como base a última cena do livro de Rute, estudaremos o tema: A provisão restauradora de Deus. Minha intenção é desenvolver esse tema a partir de dois argumentos centrais que nos conduzirão a duas aplicações salutares, finalizando assim nossa breve jornada no livro de Rute.
1. Em sua provisão restauradora Deus estabelece um redentor disposto a servir
No final do capítulo anterior, a expectativa pela restauração de Rute e Noemi chegou ao ápice. Após os acontecimentos na eira, Noemi estava certa de que Boaz logo tomaria uma atitude — e, de fato, tudo se desenrolou rapidamente. Assim que Rute voltou para casa, Boaz dirigiu-se à porta da cidade de Belém, local onde os assuntos legais eram tratados, para resolver a questão com o parente mais próximo, aquele que tinha prioridade no resgate da família.
O texto indica que Noemi e Rute estavam na posse de um campo que pertencera a Elimeleque, provavelmente parte de um grande campo comunitário dividido em setores, fora da cidade de Belém. Inicialmente, o resgatador anônimo demonstrou interesse em assumir o papel de goel, mas recuou ao saber que isso implicaria casar-se com Rute — algo que, ao que tudo indica, excedia suas condições financeiras e responsabilidades. Assim, o caminho ficou livre para que Boaz cumprisse a promessa feita na noite anterior.
Ao longo de nossas reflexões, percebemos que a mão bondosa do Senhor conduz toda essa história. Em Seu desígnio soberano, Deus guiou cada detalhe da vida de Noemi, Rute e Boaz para cumprir Seu propósito: restaurar uma família da aliança e apontar profeticamente para a redenção em Cristo. Agora, no clímax do livro, Deus concede a Rute e Noemi uma bênção restauradora por meio de um redentor disposto a servir. Ao assumir o papel de goel, Boaz demonstraria essa disposição de pelo menos três maneiras.
Boaz serviria adquirindo a terra: uma das responsabilidades do goel era o resgate das propriedades de um parente em dificuldade financeira para que ela não fosse parar nas mãos de um estrangeiro. Boaz não apenas possuiria a terra, ele teria a responsabilidade de mantê-la e cultivá-la com seus próprios recursos;
Boa serviria se casando com Rute: Boaz deixou claro que Rute tinha algo a ver com respeito ao campo que precisava ser resgatado. Como o direito de resgatar o campo estava associado ao casamento com a moabita é uma questão de difícil compreensão, contudo, o processo legal só podia ser concluído com as duas cláusulas atendidas. Diante da desistência do primeiro parente, Boaz, se casaria com Rute, assumindo assim todas as responsabilidades sociais, materiais, financeiras e emocionais com Rute, que são obrigatórias em um casamento;
Boaz suscitaria uma descendência a Malom: Somente no v.10 é que tomamos conhecimento de que Rute fora esposa de Malom. Nesse ponto a disposição servil de Boaz e sua fidelidade à Lei de Deus, se mostram de maneira particularmente bela. Em seu argumento, frente ao primeiro resgatador e aos anciãos, ele justifica seu casamento com Rute, primeiro de uma perspectiva positiva, apontando o fato de que por meio desse casamento ele daria uma descendência a Malom, ou seja, geraria um filho que levaria seu nome; e também de uma perspectiva negativa, mostrando que por meio do filho gerado com Rute, o nome de Malom não seria exterminado.
Deixando de lado, nessa ocasião, as questões legais e culturais que permeiam a narrativa, o saldo que temos até o momento, desvenda a forma pela qual Deus está no controle dessa história, demonstrando sua fidelidade e operando a sua graciosa provisão para a redenção de Noemi e Rute.
Conexão com Cristo
Ao assumir o papel de goel, Boaz se apresenta como um resgatador disposto a servir. Ao cuidar de interesses que, a priori, não são seus, os seus próprios atos apontam profeticamente para a obra redentora de Cristo. Enquanto Boaz, serviria a Noemi e Rute adquirindo a terra de Elimeleque, impedindo que a herança da família fosse perdida, comprometendo seus próprios recursos para preservar os direitos das duas viúvas, ele se tornava um reflexo de Cristo, que resgataria Seu povo não com bens terrenos, mas com Seu sangue, garantindo uma herança eterna. Boaz demonstraria sua disposição servil se casando com Rute, pois o resgate só estaria completo se ele assumisse todas as responsabilidades do matrimônio: proteção, sustento, compromisso público e cuidado diário. Nesse ato ele também é um reflexo de Cristo que se une ao Seu povo numa aliança de amor, tornando-Se o Esposo que acolhe, sustenta e restaura Sua Igreja. Por fim Boaz serviria suscitando descendência a Malom, abrindo mão do direito de perpetuar seu próprio nome por meio de seu primeiro filho, para preservar o nome de outro, gesto que revela humildade e fidelidade à Lei. Aqui também temos um reflexo de Cristo, que renunciou a glória que Lhe era devida e assumiu a forma de servo para dar vida aos que estavam destinados à perdição e ao esquecimento. Assim, cada ação de Boaz — resgatar a herança, assumir o casamento e garantir descendência — revela, de forma antecipada, a grande obra do Redentor perfeito, que restaura Seu povo, preserva seu nome e conduz Sua família à plena redenção.
2. Em sua provisão restauradora Deus transforma a sorte dos que o buscam
O livro de Rute é um grande drama em quatro cenas que se desenvolvem em contextos que vão da riqueza à pobreza, da plenitude à escassez, da felicidade de uma família numerosa à tristeza provocada por uma sucessão de mortes que não são se quer explicadas. As nuances de todos os eventos narrados até aqui são diversas e em certa medida, a compreensão do quadro geral, ainda que não justifique, torna pelo menos compreensível o desânimo e a amargura que tomam conta do coração de Noemi, no capítulo 1, quando ao retornar para Belém, ela insiste para que as mulheres da cidade não a chamem de Noemi, que quer dizer “agradável”, mas a reconheçam e a tratem por Mara, cujo significado é amarga.
Quando pensamos na palavra sorte, geralmente a associamos ao acaso, àqueles eventos que consideramos aleatórios e que ocorrem à revelia de qualquer controle. No entanto, não é esse o sentido que vislumbramos quando olhamos para o texto no qual estamos refletindo e consideramos que Deus transformou a sorte de Rute e Noemi. Nesse sentido o que temos é que Deus reverteu a profunda situação de crise em que ambas estavam, promovendo um novo começo, uma nova vida, na qual a alegria e a dignidade foram restituídas.
A benção restauradora do Senhor, por meio das ações de Boaz como goel deixam isso evidente em algumas perspectivas:
O casamento com Boaz marca o início de uma nova vida para Rute: No v. 13 o texto nos informa que Rute e Boaz se casam. Deus, por meio do goel, reverte completamente a realidade amarga e a vulnerabilidade que marcara a vida de Rute nos últimos tempo. Tudo o que foi construído ao longo dos capítulos anteriores — a chegada à terra em meio à fome, o luto que marcou sua vidas, o desamparo e sua incômoda condição de estrangeira — agora encontra sua resolução na plena manifestação da fidelidade de Deus que levantou Boaz como instrumento de redenção. O casamento entre Boaz e Rute não é apenas o desfecho de um romance piedoso, mas a manifestação concreta da intervenção graciosa do Senhor, que provê para a viúva estrangeira uma nova vida. Essa nova vida, restaurada, não é fruto do triunfo da astúcia humana, nem ainda uma feliz coincidência. Tudo o que sucede a Rute é resultado da operação soberana de Deus na história guiando cada passo, abrindo portas e alinhando circunstâncias para cumprir Seus propósitos de amor e restauração. Rute, por meio da bênção restauradora do casamento com Boaz, experimenta uma nova vida de dignidade, segurança e pertencimento. Mais do que uma mudança social, essa vida é nova, também da perspectiva teológica. Rute abandonara seus antigos deuses, e com fé se submeteu ao Deus de Israel, que agora, de maneira ímpar demonstra Sua graça que acolhe, cura e reconstrói, conduzindo a mulher moabita a um futuro antes inimaginável, integrando-a à linhagem messiânica. O casamento, portanto, torna-se o sinal de que o Deus da aliança continua renovando a vida daqueles que se refugiam sob Suas asas.
O nascimento de Obede marca a restauração da esperança e da alegria de Noemi: Quando chegamos ao v.13, percebemos que assim como acontece com Rute, Noemi também teve sua sorte trasformada. Os desdobramentos do casamento de Boaz e Rute, redundam em uma nova vida também para Noemi. Obede, a criança gerada da união entre Boaz e Rute, é fruto da fidelidade de Deus, pois, como afirmara Boaz, essa criança suscitava uma posteridade à Malom, para que o seu próprio nome, e em decorrência disso, o nome e a linhagem de seu pai Elimeleque, não fossem extintos. Noemi tinha agora em seus braços um neto. Observe que versículos 13 a 17 revelam de forma vívida a transformação da sorte de Noemi: a mulher que no capítulo 1 declarava estar “vazia” e acreditava que “a mão do Senhor se havia levantado contra ela” (1.21) agora segura em seus braços um menino que a comunidade reconhece como dádiva direta de Deus. A narrativa faz questão de mostrar que o filho que nasce é fruto da ação graciosa do Senhor: “o Senhor concedeu que Rute concebesse (4.13) e deu a Noemi um restaurador e um consolador 4. 14). As mulheres de Belém desempenham papel central ao interpretar o significado teológico desse nascimento. Elas declaram que Obede será para Noemi “restaurador da vida e sustentador na velhice” (4.15), indicando que aquela criança representa não apenas uma alegria emocional, mas a segurança, o cuidado e continuidade familiar — elementos profundamente ligados ao conceito de redenção no Antigo Testamento. Noemi, que experimentara luto, pobreza e isolamento, agora é reintegrada à comunidade como alguém cujo futuro foi refeito pelo próprio Deus. Em uma cena carregada de ternura, o texto afirma que Noemi “tomou o menino, o pôs no colo e passou a cuidar dele” (4.16), uma imagem que ilustra muito bem a transformação da sorte dessa mulher, que agora começa a experiemntar a cura das suas feridas, mediante a renovação completa da sua esperança.
Conexão com Cristo
Ao assumir o papel de goel, Boaz não apenas resgatou a propriedade de Noemi, mas se casou com Rute. Os frutos desse casamento promoveram não apenas uma nova vida para as duas mulheres, mas a restauração da esperança e da alegria. E também nessa perspectiva Boaz aponta profeticamente para Cristo.
Cristo é o Goel por excelência que realiza em nós, de forma plena, aquilo que Boaz realizou de maneira limitada por Rute e Noemi (Ef. 1.7). Assim como o casamento com Boaz inaugurou para Rute uma nova vida — marcada por dignidade, segurança, identidade e pertencimento — Cristo nos concede vida nova ao nos acolher quando ainda estávamos longe, sem esperança e sem aliança (Ef. 2.12–13; Cl. 1.13–14). Ele nos redime do pecado (Mc. 10.45; Tt. 2.14), nos liberta da velha vida (Rm. 6.4–6; Gl. 5.1) e nos insere na família de Deus, garantindo-nos verdadeira identidade e pertencimento duradouro (Jo. 1.12–13; Ef. 2.19).
Do mesmo modo, Cristo também restaura nossa alegria, assim como o nascimento de Obede transformou a amargura de Noemi em consolo e júbilo. A alegria cristã não brota das circunstâncias, mas da ação graciosa daquele que cura feridas (Lc. 4.18; Mt. 11.28–30), devolve sentido ao coração cansado (1Pe. 1.8; Jo. 15.11) e concede a alegria que ninguém pode tirar (Jo. 16.22).
E, assim como Obede se tornou o sinal concreto de que Deus reescrevera o futuro de Noemi, Cristo renova nossa esperança de modo definitivo: Ele é o Filho prometido, o herdeiro davídico que inaugura um futuro impossível de ser destruído pela morte ou pela dor (Lc. 1.32–33; Ap. 21.4–5; 1Pe. 1.3–5). O que Deus fez por Rute e Noemi num pequeno cenário em Belém, Cristo realiza por nós em alcance eterno: Ele nos dá nova vida (2Co. 5.17), restaura nossa alegria (Rm. 15.13) e firma nossa esperança em uma redenção que jamais pode ser anulada (Hb. 9.12; Rm. 8.38–39).
A última cena se encerra de maneira muito emotiva. Rute se casou e experiementa agora uma nova vida. Noemi tem em seus braços a garantia da descendência de seu filho e a esperança de um futuro ditoso. Após essa cena, entre os v. 18-22, vemos uma pequena genealogia, que se inicia com Perez e é finalizada em Davi. Temos aqui um recorte da linhagem da tribo de Judá. Deus havia, anteriormente prometido a Abrãao que sua descendência seria numerosa e que em sua descendência seriam abençoadas todas as famílias da terra. Tempos depois, na bênção de Jacó, sobre seus filhos, Judá recebe a promessa de que sua linhagem...E agora essa mesma linhagem, Judá, está em destaque, no recorte temporal que é finalizado em Davi, o mesmo Davi que é citado em conjunto com o Messias, quando a Escritura se refere a Ele, o Deus filho como a Raiz de Davi. O autor não nos explica porque termina o livro com uma genealogia, mas a respeito disso podemos dizer que, a genealogia ainda que breve reflete a soberania de Deus na condução da história geral e de histórias particulares, como as de Boaz, Noemi e Rute. Quando olhamos para o NT, em Mateus 1, encontramos essa genealogia em um contexto mais amplo, sendo finalizada não em Davi, mas em Jesus, nos mostrando que Deus cobre a história toda. Ele executa Seu propósito redentor, geração após geração. Como somos limitados a uma única vida, cada um de nós vê apenas um pouquinho daquilo que acontece. A genealogia, nesse caso, é uma maneira extraordinária pela qual Deus trás diante de nossos olhos a continuidade de seu propósito no decorrer da história, apontando, sobretudo para a fidelidade divina na redenção.
Aplicação
A cena final do livro de Rute, nos convida a olhar para nossa própria história à luz da provisão restauradora de Deus. Assim como Noemi e Rute eram incapazes de reescrever sua própria história, mas foram alcançadas por um resgatador disposto a servir e por um Deus que transforma a sorte dos que O buscam, nós também somos chamados a admitir que a restauração verdadeira não nasce das engenhosidades humanas, nem da força de vontade, mas da intervenção soberana do Redentor perfeito. Cristo assumiu voluntariamente um compromisso sacrificial, uniu-Se a um povo que não merecia Seu cuidado e restaurou aqueles que estavam marcados pela amargura, pela perda, pela culpa e pela sensação de vazio. A pergunta que o texto coloca diante de nós, então, é inevitavelmente desafiadora: buscamos lidar com as questões da vida com as nossas próprias forças e pelos nossos próprios meios, ou nos submtemos à providência restauradora de Deus?
A história de Rute nos chama a abandonar qualquer ilusão de autossuficiência. A restauração que Deus promoveu em Belém começou quando duas mulheres cansadas decidiram se refugiar sob Suas asas — e tudo mudou quando um redentor se dispôs a intervir. De modo semelhante, Cristo já se dispôs a intervir em nosso favor; Ele já abriu o caminho para nova vida, nova alegria e nova esperança. Mas resta a nós os passos humildes e sinceros da confiança, da entrega, da obediência e do descanso. Se continuarmos tentando preservar nossa herança com nossas próprias mãos, perderemos tudo; mas se confiarmos no Redentor estabelecido por Deus, toda a nossa história — presente, feridas, culpas e futuro — será reescrita pela graça que restaura.
Que neste texto encontremos não apenas consolo, mas um chamado a uma decisão espiritual concreta: a submissão à Cristo, o nosso Goel em todas as áreas da vida — no casamento, nas dores não resolvidas, na luta contra o pecado, na ansiedade pelo futuro e na reconstrução de tudo o que parece perdido. Porque o Deus que restaurou Noemi e Rute é o mesmo que continua, hoje, restaurando completamente todos os que se colocam sob Sua fiel e graciosa provisão.
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