O Verbo rejeitado e recebido
Encarnação do Verbo • Sermon • Submitted • Presented
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🕊 SERMÃO 3 – “O VERBO REJEITADO E O VERBO RECEBIDO”
🕊 SERMÃO 3 – “O VERBO REJEITADO E O VERBO RECEBIDO”
João 1:10–13
Terceiro Domingo da Série O Verbo Se Fez Carne
SUMÁRIO DO SERMÃO:
SUMÁRIO DO SERMÃO:
1- INTRODUÇÃO
1- INTRODUÇÃO
2. EXEGESE VERSO A VERSO
2. EXEGESE VERSO A VERSO
3. APLICAÇÕES PASTORAIS
3. APLICAÇÕES PASTORAIS
1. INTRODUÇÃO — O NATAL QUE DIVIDE A HUMANIDADE
1. INTRODUÇÃO — O NATAL QUE DIVIDE A HUMANIDADE
João 1:1–9 mostrou o Verbo eterno, a vida e a luz.
Agora, João revela o drama do Natal: o Verbo entra no mundo que Ele mesmo criou, e o mundo O rejeita.
A teologia reformada é categórica: a rejeição não revela falha em Cristo, mas cegueira humana, hostilidade espiritual e depravação total.
E aqui entra a doutrina preciosa de Berkhof sobre a humilhação:
O Verbo eterno não apenas assume carne — Ele assume rejeição, hostilidade, descrença e desonra.
João 1:10–13 é o coração do drama da encarnação:
Rejeição universal
Recebimento particular
Regeneração divina
Adoção sobrenatural
E estas verdades são diamantes reformados.
CONTEXTOS
CONTEXTOS
📘 1. CONTEXTO GERAL DO LIVRO (MACRO-ANÁLISE DO EVANGELHO DE JOÃO)
📘 1. CONTEXTO GERAL DO LIVRO (MACRO-ANÁLISE DO EVANGELHO DE JOÃO)
1.1. Autor
1.1. Autor
A tradição cristã unânime (Pais da Igreja: Irineu, Clemente, Orígenes, Tertuliano, Eusébio) atribui o Evangelho a João, o apóstolo, filho de Zebedeu.
O próprio texto sugere um autor judeu, com profundo conhecimento:
do templo
da geografia da Palestina
da teologia judaica
do funcionamento das festas judaicas
O autor se identifica como “o discípulo a quem Jesus amava” (Jo 21:20–24).
A autoria joanina explica o alto nível teológico, a profundidade espiritual e a precisão de detalhes testemunhais.
1.2. Data
1.2. Data
Provavelmente entre 85–95 d.C., já ao final da vida de João, em Éfeso.
O evangelho reflete uma igreja madura, enfrentando:
falsos mestres pré-gnósticos
judaísmo hostil e reorganizado após 70 d.C.
crescimento gentílico
1.3. Objetivo Teológico
1.3. Objetivo Teológico
O próprio evangelho declara seu propósito:
“Para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus,
e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.”
(Jo 20:31)
Três grandes eixos estruturam o livro:
Cristologia elevada — Jesus é o Verbo eterno que se fez carne.
Sinais — milagres como testemunhos teológicos da divindade de Cristo.
Vida eterna — a vida de Deus dada pela fé.
Ele não escreve apenas história, mas teologia em forma narrativa.
1.4. Diferenças entre João e os Sinóticos
1.4. Diferenças entre João e os Sinóticos
João escreve com uma estratégia própria:
Não contém parábolas; contém discursos longos.
Não contém exorcismos; apresenta conflitos teológicos profundos.
Organiza o ministério de Jesus em Jerusalém mais que na Galileia.
Estrutura-se em sinais, discursos e revelações.
Enquanto os Sinóticos são histórico-disciplinares, João é teológico-revelacional.
📗 2. CONTEXTO IMEDIATO (JOÃO 1:1–18)
📗 2. CONTEXTO IMEDIATO (JOÃO 1:1–18)
O prólogo funciona como:
Resumo teológico do evangelho inteiro
Introdução à cristologia joanina
Antecipação dos temas centrais
Os grandes blocos do prólogo:
Os grandes blocos do prólogo:
João 1:1–5 — O Verbo eterno, criador e luz
– pré-existência
– divindade
– mediação da criação
– luz que confronta as trevas
João 1:6–8 — Ministério de João Batista
– contraste entre testemunha e Luz
– a luz necessita ser anunciada
João 1:9–13 — A rejeição e a recepção do Verbo
– depravação humana
– adoção divina
– regeneração monergística
João 1:14–18 — O clímax: a Encarnação
– o Tabernáculo de Deus entre os homens
– glória visível
– graça e verdade
– revelação final do Pai
O prólogo é intencionalmente construído como um Gênesis da nova criação, onde o Verbo gera uma humanidade regenerada.
📜 3. CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL DO TEXTO
📜 3. CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL DO TEXTO
Para entender João 1, precisamos olhar o mundo judaico do Primeiro Século, o mundo greco-romano, e o ambiente teológico onde João escreve.
3.1. Judaísmo do Segundo Templo
3.1. Judaísmo do Segundo Templo
João escreve num contexto em que o judaísmo:
valorizava profundamente o monoteísmo
criara uma teologia sofisticada da Palavra de Deus
esperava o Messias libertador
tinha se reorganizado após a destruição do Templo (70 d.C.)
O conceito judaico de “Palavra” (MEMRA / DABAR):
O conceito judaico de “Palavra” (MEMRA / DABAR):
A “Palavra” de Deus era vista como:
agente da criação (Sl 33:6)
poder ativo de Deus (Is 55:11)
revelação divina (Êx 19–20)
manifestação da sabedoria (Pv 8)
A tradição aramaica dos Targuns usava “MEMRA” (a Palavra) como o modo de Deus agir no mundo.
Isso prepara o terreno para João dizer:
O Verbo não é força; é Pessoa.
3.2. Mundo Grego / Helenista
3.2. Mundo Grego / Helenista
O termo Logos era carregado de significado:
Para Heráclito: princípio racional que ordena o cosmos.
Para os estóicos: alma racional do universo.
Para Fílon: intermediário metafísico entre o Deus transcendente e o mundo.
João, porém, apresenta uma correção radical:
O Logos é Deus, não uma força.
O Logos se faz carne, não mito.
3.3. Ambiente teológico do final do século I
3.3. Ambiente teológico do final do século I
João responde à ameaça precoce do proto-gnosticismo, que dizia:
a carne é má
o mundo é mau
Deus não pode se tornar homem
Daí João escrever:
“O Verbo se fez carne.”
É um golpe direto contra o gnosticismo nascente e contra visões docetistas.
📙 4. CONTEXTO LITERÁRIO-GRAMATICAL DO TEXTO
📙 4. CONTEXTO LITERÁRIO-GRAMATICAL DO TEXTO
4.1. Gênero Literário
4.1. Gênero Literário
O Evangelho de João é:
narrativa teológica
cristologia elevada
apologética contra heresias
convite à fé
testemunho ocular
Diferente dos sinóticos, João não visa cronologia, mas revelação progressiva.
4.2. Estrutura gramatical do prólogo
4.2. Estrutura gramatical do prólogo
O prólogo é altamente poético, em forma de hino:
paralelismos
repetições
contrastes (luz/trevas, vida/morte, receber/rejeitar)
ritmo quase litúrgico
4.3. Notas gramaticais cruciais
4.3. Notas gramaticais cruciais
Aqui estão os pilares textuais da teologia joanina:
● Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος
● Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος
Imperfeito de “ser”: existência contínua, eterna.
● πρὸς τὸν θεόν
● πρὸς τὸν θεόν
Relação face-a-face, comunhão íntima.
Não é “junto a Deus”, mas voltado para Deus.
● θεὸς ἦν ὁ λόγος
● θεὸς ἦν ὁ λόγος
O Logos é da mesma natureza de Deus.
A ausência do artigo enfatiza “qualidade”, não “indefinição”.
● ἐγένετο (fez-se / tornou-se)
● ἐγένετο (fez-se / tornou-se)
Usado para a criação e para a encarnação.
Deus entra na história por “tornar-se” carne.
● ἐσκήνωσεν (tabernaculou)
● ἐσκήνωσεν (tabernaculou)
Evoca a glória de Deus no deserto.
Cristo é o novo santuário.
● μονογενής (único do gênero)
● μονογενής (único do gênero)
Filho único por natureza, não por criação.
● χάριτος καὶ ἀληθείας
● χάριτος καὶ ἀληθείας
Graça e verdade = fórmula hebraica para caráter divino.
2. EXEGESE DE JOÃO 1:10–13
2. EXEGESE DE JOÃO 1:10–13
✦ V.10 — “No mundo estava… e o mundo não o conheceu”
✦ V.10 — “No mundo estava… e o mundo não o conheceu”
O verbo ἦν (imperfeito) mostra presença contínua: Ele sempre esteve ativo no mundo (Cl 1:17; Hb 1:3).
Mas o mundo não O reconheceu (οὐκ ἔγνω — não percebeu, não reconheceu, não discerniu).
Trevas espirituais ≠ ignorância intelectual
Trevas espirituais = alienação moral e volitiva
✦ V.11 — “Veio para o que era seu (τὰ ἴδια)… e os seus (οἱ ἴδιοι) não o receberam”
✦ V.11 — “Veio para o que era seu (τὰ ἴδια)… e os seus (οἱ ἴδιοι) não o receberam”
τὰ ἴδια: Suas propriedades, Sua criação, Seu povo, Sua terra.
οἱ ἴδιοι: Os judeus — aqueles que tinham Escrituras, promessas e culto.
Verbo forte: παρέλαβον — “não o acolheram”, “não o abraçaram”, “não o receberam”.
Aqui vemos a tapeinosis da humilhação: o Legislador é rejeitado pelos que recebem Sua lei.
Berkhof afirmou:
Cristo, como parte de Sua humilhação, se colocou sob a maldição e exigências da lei.
Aqui está o fruto dessa submissão: total rejeição humana.
✦ V.12 — “Mas a todos quantos o receberam… deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus”
✦ V.12 — “Mas a todos quantos o receberam… deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus”
“Receber” (λαμβάνω) não significa mero assentimento intelectual: é entregar-se, acolher Cristo, aderir a Ele pela fé.
Mas o foco não está na ação humana:
O verbo central é “deu-lhes autoridade” (ἐξουσίαν).
A filiação é um dom, não um direito natural.
✦ V.13 — “Os quais nasceram…”
✦ V.13 — “Os quais nasceram…”
Este verso é a base da doutrina reformada da regeneração:
“Os quais não nasceram:
• de sangue (origem natural)
• nem da vontade da carne (esforço humano)
• nem da vontade do homem (decisão humana)
mas de Deus”
Aqui está a monergia reformada em sua forma mais pura.
Não do livre-arbítrio
Não do esforço moral
Não da tradição familiar
Não da decisão humana isolada
A regeneração é obra de Deus somente (ἐκ θεοῦ ἐγεννήθησαν).
Isso ecoa Berkhof:
A encarnação e a redenção exigem que Cristo “assuma obrigações e penalidades por Seu povo”, e que Ele mesmo “efetue o novo nascimento” naqueles que o Pai Lhe deu.
3. O TEMA DA REJEIÇÃO E DA ELEIÇÃO (TEOLOGIA REFORMADA)
3. O TEMA DA REJEIÇÃO E DA ELEIÇÃO (TEOLOGIA REFORMADA)
✦ 1. REJEIÇÃO UNIVERSAL — depravação total
✦ 1. REJEIÇÃO UNIVERSAL — depravação total
O mundo inteiro rejeita Cristo.
A rejeição é universal; a fé é um milagre.
✦ 2. RECEBIMENTO PARTICULAR — eleição incondicional
✦ 2. RECEBIMENTO PARTICULAR — eleição incondicional
“Todos quantos O receberam” — mas quem são?
Os nascidos de Deus, não da carne.
Receber é o efeito;
Regenerar é a causa.
A ordem teológica é clara:
Regeneração → Fé → Justificação → Adoção
Essa é a estrutura reformada.
✦ 3. FILIAÇÃO COMO ATO DIVINO — adoção
✦ 3. FILIAÇÃO COMO ATO DIVINO — adoção
O homem não se faz filho;
Ele é constituído filho por Deus (ἐξουσίαν).
Adoção é um ato jurídico divino, em que o pecador é declarado membro da família de Deus.
Isso é possível somente porque o Filho eterno assumiu carne e obediência — humilhação segundo Berkhof — para nos trazer à família de Deus.
4. A ENCANAÇÃO E A ADOÇÃO (CONEXÃO PROFUNDA REFORMADA)
4. A ENCANAÇÃO E A ADOÇÃO (CONEXÃO PROFUNDA REFORMADA)
A Teologia Reformada vê João 1:12–13 como inseparável da humilhação do Verbo:
• O Filho eterno torna-se Filho encarnado
• O Filho eterno torna-se Filho encarnado
Para que os filhos da ira se tornem filhos de Deus.
• O Filho perfeito se sujeita à lei
• O Filho perfeito se sujeita à lei
Para libertar aqueles que estavam sob a lei (Gl 4:4–5).
• Cristo é rejeitado
• Cristo é rejeitado
Para que nós sejamos recebidos.
• Cristo nasce de mulher
• Cristo nasce de mulher
Para que nasçamos de Deus.
Isso é teologia da troca:
Ele assume nossa condição para nos dar Sua posição.
Essa é a humilhação redentora de Cristo.
5. A TESE CENTRAL DO SERMÃO
5. A TESE CENTRAL DO SERMÃO
O Natal revela que a humanidade rejeita o Verbo, mas Deus concede fé aos Seus eleitos, fazendo-os nascer de novo e tornando-os Seus filhos.
Assim, a rejeição humana não frustra o plano de Deus; apenas destaca a soberania da graça.
6. APLICAÇÕES PASTORAIS
6. APLICAÇÕES PASTORAIS
1. A rejeição do Verbo é a realidade do coração natural.
1. A rejeição do Verbo é a realidade do coração natural.
Ninguém nasce neutro.
Ninguém nasce buscando a Deus.
Ninguém nasce crente.
2. Fé é milagre, não mérito.
2. Fé é milagre, não mérito.
Se você crê, você crê porque Deus o regenerou.
Nossa salvação é sobrenatural, não psicológica.
3. Adoção não é resultado da moralidade, mas da graça soberana.
3. Adoção não é resultado da moralidade, mas da graça soberana.
Você não é filho de Deus por ser bom, mas porque Deus é gracioso.
4. Cristo sabe o que é ser rejeitado — Ele te entende.
4. Cristo sabe o que é ser rejeitado — Ele te entende.
Em sua humilhação, Ele sofreu rejeição dos Seus.
Ele conhece a dor da exclusão, do desprezo, do abandono.
5. O Natal é a porta da adoção divina.
5. O Natal é a porta da adoção divina.
O Verbo entrou no mundo para que você entrasse na família de Deus.
7. CONCLUSÃO — A TROCA SUBLIME
7. CONCLUSÃO — A TROCA SUBLIME
Em João 1:10–13, vemos o grande paradoxo:
O Criador rejeitado pela criatura
O Verdadeiro desconhecido pelos Seus
O Filho eterno oferecendo filiação aos que O recebem
O Verbo humilhado elevando pecadores à dignidade de filhos
E isso é possível porque o Verbo entrou no mundo para ser humilhado (Berkhof), rejeitado e finalmente crucificado.
O Natal é o início da nossa adoção.
O Filho se fez servo para que servos fossem feitos filhos.
A luz brilhou, as trevas resistiram, mas a luz triunfou.
