O Verbo que é Eterno

Encarnação do Verbo  •  Sermon  •  Submitted   •  Presented
0 ratings
· 4 views
Notes
Transcript

SERMÃO 1 – “O VERBO ETERNO QUE SE HUMILHOU”

João 1:1–3
John 1:1–3 ARA
1 No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. 2 Ele estava no princípio com Deus. 3 Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez.

SUMÁRIO DO SERMÃO:

1- INTRODUÇÃO

2. EXEGESE VERSO A VERSO

3. APLICAÇÕES PASTORAIS

1. INTRODUÇÃO: O NATAL COMEÇA NA ETERNIDADE

O prólogo de João é o ápice cristológico do Novo Testamento. Antes de Belém, antes da manjedoura, antes dos anjos, há eternidade. O Natal não é a história do nascimento de um menino extraordinário, mas da vinda do Filho eterno que se humilha voluntariamente, entrando na história para salvar pecadores.
É aqui que a Teologia Reformada tem algo precioso a oferecer: o Natal não é apenas ternura; é teologia da humilhação do Verbo.
Portanto, ao olharmos João 1:1–3, estamos observando o Verbo eterno antes de entrar no estado de humilhação. Observamos Sua glória infinita – para então perceber a profundidade da condescendência de Sua encarnação.

CONTEXTOS

📘 1. CONTEXTO GERAL DO LIVRO (MACRO-ANÁLISE DO EVANGELHO DE JOÃO)

1.1. Autor

A tradição cristã unânime (Pais da Igreja: Irineu, Clemente, Orígenes, Tertuliano, Eusébio) atribui o Evangelho a João, o apóstolo, filho de Zebedeu.
O próprio texto sugere um autor judeu, com profundo conhecimento:
do templo
da geografia da Palestina
da teologia judaica
do funcionamento das festas judaicas
O autor se identifica como “o discípulo a quem Jesus amava” (Jo 21:20–24).
A autoria joanina explica o alto nível teológico, a profundidade espiritual e a precisão de detalhes testemunhais.

1.2. Data

Provavelmente entre 85–95 d.C., já ao final da vida de João, em Éfeso.
O evangelho reflete uma igreja madura, enfrentando:
falsos mestres pré-gnósticos
judaísmo hostil e reorganizado após 70 d.C.
crescimento gentílico

1.3. Objetivo Teológico

O próprio evangelho declara seu propósito:
“Para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome.” (Jo 20:31)
Três grandes eixos estruturam o livro:
Cristologia elevada — Jesus é o Verbo eterno que se fez carne.
Sinais — milagres como testemunhos teológicos da divindade de Cristo.
Vida eterna — a vida de Deus dada pela fé.
Ele não escreve apenas história, mas teologia em forma narrativa.

1.4. Diferenças entre João e os Sinóticos

João escreve com uma estratégia própria:
Não contém parábolas; contém discursos longos.
Não contém exorcismos; apresenta conflitos teológicos profundos.
Organiza o ministério de Jesus em Jerusalém mais que na Galileia.
Estrutura-se em sinais, discursos e revelações.
Enquanto os Sinóticos são histórico-disciplinares, João é teológico-revelacional.

📗 2. CONTEXTO IMEDIATO (JOÃO 1:1–18)

O prólogo funciona como:
Resumo teológico do evangelho inteiro
Introdução à cristologia joanina
Antecipação dos temas centrais

Os grandes blocos do prólogo:

João 1:1–5 — O Verbo eterno, criador e luz – pré-existência – divindade – mediação da criação – luz que confronta as trevas
João 1:6–8 — Ministério de João Batista – contraste entre testemunha e Luz – a luz necessita ser anunciada
João 1:9–13 — A rejeição e a recepção do Verbo – depravação humana – adoção divina – regeneração monergística
João 1:14–18 — O clímax: a Encarnação – o Tabernáculo de Deus entre os homens – glória visível – graça e verdade – revelação final do Pai
O prólogo é intencionalmente construído como um Gênesis da nova criação, onde o Verbo gera uma humanidade regenerada.

📜 3. CONTEXTO HISTÓRICO-CULTURAL DO TEXTO

Para entender João 1, precisamos olhar o mundo judaico do Primeiro Século, o mundo greco-romano, e o ambiente teológico onde João escreve.

3.1. Judaísmo do Segundo Templo

João escreve num contexto em que o judaísmo:
valorizava profundamente o monoteísmo
criara uma teologia sofisticada da Palavra de Deus
esperava o Messias libertador
tinha se reorganizado após a destruição do Templo (70 d.C.)

O conceito judaico de “Palavra” (MEMRA / DABAR):

A “Palavra” de Deus era vista como:
agente da criação (Sl 33:6)
poder ativo de Deus (Is 55:11)
revelação divina (Êx 19–20)
manifestação da sabedoria (Pv 8)
A tradição aramaica dos Targuns usava “MEMRA” (a Palavra) como o modo de Deus agir no mundo.
Isso prepara o terreno para João dizer: O Verbo não é força; é Pessoa.

3.2. Mundo Grego / Helenista

O termo Logos era carregado de significado:
Para Heráclito: princípio racional que ordena o cosmos.
Para os estóicos: alma racional do universo.
Para Fílon: intermediário metafísico entre o Deus transcendente e o mundo.
João, porém, apresenta uma correção radical: O Logos é Deus, não uma força. O Logos se faz carne, não mito.

3.3. Ambiente teológico do final do século I

João responde à ameaça precoce do proto-gnosticismo, que dizia:
a carne é má
o mundo é mau
Deus não pode se tornar homem
Daí João escrever: “O Verbo se fez carne.”
É um golpe direto contra o gnosticismo nascente e contra visões docetistas.

📙 4. CONTEXTO LITERÁRIO-GRAMATICAL DO TEXTO

4.1. Gênero Literário

O Evangelho de João é:
narrativa teológica
cristologia elevada
apologética contra heresias
convite à fé
testemunho ocular
Diferente dos sinóticos, João não visa cronologia, mas revelação progressiva.

2. EXEGESE DE JOÃO 1:1–3

Sobre o Verbo

Quando João começa seu evangelho dizendo “No princípio era o Logos”, ele não está filosofando: ele está revelando.

🔵 1. Logos no mundo grego

Para os gregos, lógos significava:
razão, estrutura e ordem do universo;
o princípio racional que explica todas as coisas;
um conceito impessoal, nunca uma pessoa.
Ou seja, um princípio, não um Salvador.

🔵 2. Logos no Antigo Testamento

No AT, a Palavra de Deus (dābār) não é ideia: é ação.
Deus cria pela Palavra (Gn 1; Sl 33.6).
Deus envia a Palavra e ela cura (Sl 107.20).
A Palavra cumpre aquilo para que foi enviada (Is 55.11).
A Palavra é Deus agindo na história.

🔵 3. A revelação cristã: o Logos é o Filho eterno

Os Pais da Igreja compreenderam que:
A Palavra ativa do AT é a Segunda Pessoa da Trindade, o Filho eterno, que fala, cria e guia.
Por isso João declara:
O Logos estava com Deus
O Logos era Deus
O Logos criou todas as coisas
E finalmente: o Logos se fez carne (Jo 1.14)
O princípio racional dos gregos não pode salvar. A Palavra criadora de Gênesis entra na história, assume carne, assume cruz e assume nosso pecado.

🔵 4. O choque de João com o pensamento antigo

Nada na filosofia grega imaginaria:
um Logos pessoal,
um Logos encarnado,
um Logos crucificado,
um Logos que habita entre nós.
João pega uma palavra conhecida e enche de um significado totalmente novo: O Logos não é um conceito — é Cristo vivo.

🔵 5. O que isso significa para nós hoje?

A Palavra de Deus que criou o mundo é a mesma que habita em nós.
A Palavra que sustentou os profetas é a mesma que nos chama à vida.
A Palavra que se fez carne continua transformando realidades.
O cristianismo não começa com uma filosofia, mas com uma Pessoa: A Palavra eterna que veio ao nosso encontro.

🔵 RESUMO EM UMA FRASE PARA O SERMÃO

No Antigo Testamento, a Palavra é Deus agindo; no Novo Testamento, a Palavra é Deus encarnado. Seu nome é Jesus.
No Antigo Testamento, a Palavra de Deus é o Filho eterno em ação, pela qual o Pai cria, revela, julga e redime, e que no Novo Testamento se faz carne na pessoa de Jesus Cristo.

**PONTO 1 — João 1.1a

“No princípio já existia o Verbo.”**

1. Eternidade absoluta — indica existência contínua

João escolhe deliberadamente o imperfeito ἦν (“era”), não “foi criado”, nem “começou a existir”. É existência contínua antes, durante e fora do tempo.
Johannes Brenz afirma:
Nunca houve um momento em que o Verbo não fosse. Ele existia no ‘princípio sem princípio’ (archronos), infinito e inefável.
Ou seja:
O Verbo não aparece no início da criação — Ele já era.
Ele é “a sabedoria eterna” de Provérbios 8.
Ele possuía glória junto ao Pai antes que o mundo existisse (Jo 17.5).

2. João ecoa Gênesis 1:1

Cruciger mostra que João se apoia intencionalmente em Gênesis:
“No princípio, criou Deus…”
“E disse Deus…”
Dessa estrutura, surge o nome “Verbo” aplicado ao Filho:
O Verbo é Deus falando, Deus agindo, Deus revelando.
Logo, o Logos joanino não tem raízes na filosofia grega, mas no AT, onde a Palavra é poder criador, auto-revelação, presença ativa de Deus.

3. Refutação do arianismo

O texto derruba:
Ário (século IV): Cristo como primeira criatura;
Testemunhas de Jeová: Cristo como “um deus”.
João afirma que quando tudo começou, Cristo já existia. Ele não entra no tempo pela criação: Ele traz o tempo à existência.
Resumo para o sermão:
“Quando o princípio começou, Cristo já estava lá. Ele não entrou na história pela criação; a criação entrou na existência por Ele.”

**PONTO 2 — João 1.1b

“E o Verbo estava com Deus.” (πρὸς τὸν θεόν)**

1. Relação pessoal, face a face, eterna

A preposição pros não significa mera proximidade, mas orientação pessoal:
O Filho voltado para o Pai, o olhar da glória contemplando a glória.
Segundo Hünnius:
O Verbo está com o Pai, não num local físico, mas num modo de presença que indica unidade de essência.
A expressão “apud Deum” significa a comunhão mais íntima possível.

2. Coeternidade e inseparabilidade

Brenz explica:
O Pai nunca existiu sem sua Sabedoria,
nem sem seu Esplendor,
nem sem sua Palavra.
Assim:
“Como a luz nunca esteve separada do sol, assim o Filho nunca esteve separado do Pai.”

3. A humanidade do Filho emerge da glória trinitária

A encarnação é descida:
do seio do Pai,
da comunhão eterna,
da felicidade infinita.
Não é apenas Deus vindo ao mundo; é o Filho deixando o seio da Trindade para penetrar na miséria humana.
Resumo para o sermão:
“Antes de vir ao mundo, o Filho vivia no paraíso da comunhão trinitária. A cruz só é tão profunda porque a glória de onde Ele veio era infinita.”

**PONTO 3 — João 1.1c

“E o Verbo era Deus.”**

1. θεὸς anartro: natureza, essência, não indefinição

João usa “θεὸς” sem artigo para evitar confusão de pessoas:
Se dissesse ho theos, pareceria que o Verbo = o Pai;
Se dissesse “um deus”, faria do Filho uma criatura.
Erasmo explica que a estrutura grega permite apenas um sentido:
O Verbo possui a MESMA essência divina do Pai (homoousios tō Patri).

2. Conclusão lógica das duas afirmações anteriores

Musculus argumenta:
Aquele que já existia antes do tempo,
que estava na eterna comunhão com Deus,
que é Sabedoria, Poder e Imagem eterna…
só pode ser Deus.
O Verbo não é:
um intermediário,
um semi-deus,
nem uma criatura exaltada.

3. A encarnação não diminui a divindade

Berkhof: O “esvaziamento” não é perda de divindade; é assunção de humanidade.
A natureza divina do Verbo continua:
íntegra,
indivisível,
infinita.
Resumo para o sermão:
“João não apenas diz que o Verbo estava com Deus; ele diz que o Verbo era Deus — para nunca permitir que pensemos que Jesus é menos que o Eterno.”

**PONTO 4 — João 1.3

“Todas as coisas foram feitas por meio dele.”**

1. O Verbo é o agente ativo da Criação

Di’ autou (por meio dele) não é instrumentalidade servil. Musculus insiste:
Deus não criou ‘por meio’ do Filho como um rei usa servos; Ele criou por meio da Sua própria Sabedoria eterna.

2. Pai e Filho agem inseparavelmente

Bucer:
O Verbo é o resplendor do Pai;
Por Ele foram criadas “todas as coisas… nos céus e na terra”.
Assim:
O Pai cria,
o Filho cria,
e ambos criam pela mesma energia divina.

3. A criação é contínua — Deus preserva tudo pelo Verbo

Lutero faz uma observação homilética poderosa:
O carpinteiro termina a casa e vai embora. Deus cria o mundo e permanece dentro dele, sustentando tudo pelo Verbo.
O governo providencial é obra conjunta:
Pai e Filho agem,
continuamente,
desde o “Haja luz” até hoje.

4. O Verbo não é autor do pecado

Hunnius enfatiza a precisão de João:
“Todas as coisas que foram feitas”
O pecado não foi feito;
Ele é corrupção introduzida, não criação positiva de Deus.

5. Aplicação cristológica

O Criador do mundo:
entra no mundo,
assume carne,
torna-se servo,
e nasce sob a lei (Gl 4.4).
Resumo para o sermão: “Aquele que criou tudo, entrou no que Ele mesmo criou. O Infinito se tornou finito. O Legislador nasceu sob a Lei. O Criador entrou na criação para salvar a criação.”
Proverbs 8:27–30 NVI
27 Quando ele estabeleceu os céus, lá estava eu; quando traçou o horizonte sobre a superfície do abismo, 28 quando colocou as nuvens em cima e estabeleceu as fontes do abismo, 29 quando determinou as fronteiras do mar para que as águas não violassem a sua ordem, quando marcou os limites dos alicerces da terra, 30 eu estava ao seu lado, e era o seu arquiteto; dia a dia eu era o seu prazer e me alegrava continuamente com a sua presença.

APLICAÇÕES PASTORAIS FINAIS (Apenas João 1:1–3)

1. Se o Verbo é eterno, meu passado não define meu futuro.

“No princípio era o Verbo” significa: Ele existia antes de tudo, inclusive antes dos dilemas que me acompanham.
Aplicação:
Não importa quão bagunçada seja a história de alguém — Cristo a antecede.
Ele não é surpreendido por nenhuma crise, trauma ou pecado.
Nenhuma dor é “antiga demais” para o Deus que existia antes de todas as eras.
Para a igreja: “A eternidade do Verbo é o antídoto para o desespero no tempo.”

2. Se o Verbo estava com Deus, vivo em relação — não em isolamento.

“πρὸς τὸν θεόν” revela uma eternidade de comunhão perfeita entre Pai e Filho.
Aplicação:
O cristão não foi criado para viver sozinho.
Se o próprio Deus vive em comunhão, a igreja não pode viver em individualismo.
Relações quebradas precisam ser tratadas à luz da comunhão eterna da Trindade.
Para a igreja: “Quem foi salvo pelo Deus da comunhão não vive em isolamento.”

3. Se o Verbo é Deus, então Ele não é apenas útil — Ele é digno de adoração.

“E o Verbo era Deus” não é doutrina fria: é combustível de adoração.
Aplicação:
Ele não é um mestre sábio — é Deus.
Não é um mentor espiritual — é Deus.
Não é um profeta iluminado — é Deus.
Portanto:
Oramos com confiança.
Obedecemos com reverência.
Adoramos com temor santo.
Para a igreja: “Não seguimos um guia; adoramos o Deus eterno que Se revelou em Cristo.”

4. Se todas as coisas foram feitas por Ele, então minha vida tem propósito — não acaso.

“Todas as coisas foram feitas por meio dele” destrói o senso de inutilidade.
Aplicação:
Minha existência não é acidente biológico, é intenção divina.
Cristo é Autor da criação e, portanto, Autor da minha história.
Ele não apenas fez o universo: sustenta-o; logo, sustenta minha vida.
Para a igreja: “O Cristo que criou o mundo não perde o controle da sua história.”

5. Se nada foi feito sem Ele, então nada pode sobreviver sem Ele.

“Sem Ele nada do que foi feito se fez.”
Aplicação:
Toda independência espiritual é ilusória.
Vida cristã sem Cristo é impossível.
Ministérios, casamentos, decisões, vocações… precisam d’Ele.
Para a igreja:“Se tudo dependeu Dele para existir, tudo depende Dele para permanecer.”

6. Se o Verbo é o Criador, então Ele é o único capaz de recriar o pecador.

O mesmo Cristo que fez o cosmos é quem faz nova criação no coração humano.
Aplicação:
Não há vida tão destruída que Ele não possa reconstruir.
Ele cria luz no caos (Gn 1; 2Co 4:6).
A criação visível é prova da regeneração invisível.
Para a igreja: “O Cristo que disse ‘Haja luz’ é o mesmo que diz ‘Haja vida’ sobre o pecador.”

7. Se o Verbo é eterno, relacional, divino e criador, então Ele é suficiente.

João 1:1–3 é a teologia da suficiência de Cristo:
Ele é:
eterno → acima do tempo
com o Pai → no centro da comunhão
Deus → na plenitude da divindade
Criador → fonte de toda existência
Aplicação final:
Nada mais precisa ser adicionado.
Nenhum substituto pode ser aceito.
Nenhuma promessa rival pode competir.
Para a igreja: “Cristo não é a parte principal da fé cristã. Cristo é toda a fé cristã.”

🎯 CONCLUSÃO PASTORAL FINAL (curta e poderosa)

A eternidade do Verbo acalma nosso passado. A comunhão do Verbo restaura nossos relacionamentos. A divindade do Verbo desperta nossa adoração. A criação pelo Verbo fundamenta nossa confiança. O Verbo é suficiente — ontem, hoje e eternamente.”
Related Media
See more
Related Sermons
See more
Earn an accredited degree from Redemption Seminary with Logos.